11/02/2011

Sabotagens à democracia

É de menino que se torce o pepino
Tudo começa em casa. Tudo mesmo.
Como já falei recentemente dos excessos das  mães-tigre, e fui suficientemente incisivo, me aterei ao outro extremo, o da negligência.
Começa com os pais amparando a criança a todo instante. O petiz não pode cair sentado que lá vão eles, enchê-lo de dengos por horas e horas. A criança não tem experiência nem discernimento da vida, mas não é burra. Com o tempo aprende que fazendo birra ou chantagem, consegue o que deseja. Raramente o que realmente quer, mas sempre o que deseja. Não que se deva deixar a criança se ferir sem dar importância, mas as atenções não devem ir muito além de quando o choro cessa, pois vicia.
Forma-se uma personalidade tirana, que pode tomar três caminhos básicos; o do coitadinho, que se faz de vítima o tempo todo; o do fútil, que pensa que o mundo só existe para lhe dar prazer e até agride para obtê-lo; o do revoltado, que não quer se misturar com os dois e adopta discursos nos quais realmente não acredita, são só para ocupar seu tempo ocioso e experimentar mais os limites frouxos. Os três são basicamente o mesmo conteúdo em embalagens diferentes.

Os dois primeiros não dão a mínima para política. Política não é divertida, não assopra o dodói, te obriga a ter as atenções divididas com outros temas, o que para os três é inadmissível. O terceiro gosta de política justo porque não é divertida e não assopra o dodói, assim se sente acima dos dois alienados mimados, se envolve com ela até o pescoço e rola na sua lama. O problema é que sua militância tem a mesma maturidade que a daqueles, está voltada para sua própria satisfação.

O coitadinho e o fútil podem se tornar agressivos, quando suas vontades não são satisfeitas, geralmente se tornam. Para linhas gerais e evitar delongas, uno-os em um primeiro tipo só. Este tipo sai de casa assim que toma o café e vai "curtir a vida". Escola? Talvez. Há os que compreendem um pouco mais e vão à escola, conseguem um aproveitamento razoável e esperam recompensas generosas em troca. Uma boa parte, porém, vai em busca de grupos que satisfaçam seu ego inchado e super protegido. Encontram-nos em shoppings centers, bares, boates, lugares onde seus cartões de crédito possam comprar atenção e a ilusão de que são importantes para o mundo, quando na verdade só ocupam o espaço de quem quer fazer algo.
Contrariá-los é um risco à própria integridade física, como no episódio em que uma menina recusou uma cantada e foi agredida com uma cadeira, em uma boate. Ele não aceita ser contrariado, vale para os dois tipos. Quando chega em casa, quer tudo arrumado, mas não dá a mínima quando está, só olha o que não estiver no seu devido lugar. Quer comer o que estiver pensando em comer e ai dos pais se não houver ao menos uma porção do que quer na casa. Mas é freqüente mal tocar no prato, desperdiçando a maior parte da comida. Para quê se preocupar, se quando voltar estará tudo arrumado de novo? Sai à noite para procurar diversão, é tudo o que sabe fazer. Essa diversão pode ser qualquer cousa. Tendo acreditado que é melhor do que algum grupo, por ver a mãe ralhando com a empregada que não adoçou direito seu suquinho, não custa tempo algum para se alinhar a grupos extremistas, passando a sentir prazer em agredir, especialmente porque se acostumou a sair impune. Bulling é arroz-com-feijão. A humilhação do outro passa a trazer um prazer indescritível, se houver suicídio simplesmente procura por outra vítima.

Mas um dia é pego e esquenta o banco de uma delegacia, e chora, chora, chora... Não de remorsos, pois não tem arrependimento do que tiver feito, não importa o que tenha sido, chora porque alguém mais forte (no caso policiais bem treinados) interrompeu sua diversão e fez-lhe uma reprimenda. Que absurdo! Coitadinho do meu filhinho! Tão inocentinho! Só estava se divertindo e a bichona o ofendeu moralmente, saindo de casa em plena luz do dia, se defendeu tacando gasolina e ateando fogo. O que é que tem de mais?

Embora saiba idiomas, cite escritores famosos, tenha uma longa lista de viagens, et cétera, et cétera, este primeiro tipo unificado não sabe absolutamente nada da vida real. Ele pensa que a única realidade que importa é a do seu conforto. O mundo aqui fora só lhe fará falta se não puder mais sustentar sua vida artificial, mas o mundo gosta das pessoas ruins e acha que as boas podem se virar sozinhas. As ruins são mais atraentes, simpáticas, elas se esforçam realmente para parecerem muito mais do que são, é um investimento pelo qual exigirão retorno concreto.
Este, aliás, um talento muito desenvolvido pelo revoltado, o segundo tipo.
Visando vôos mais altos, este tipo seduz, às vezes literalmente, para obter seus intentos. Depois, se os seduzidos não lhe servirem mais, os descarta. Mas faz parecer que não, que só está ocupado, para poder se reaproveitar depois. É um político inato. Tudo o que ele quer é ser mimado, como faziam seus pais, só que agora com roupagem de adulto, de homem sério. Por sua natureza praticamente cristalizada, tem simpatias por ditaduras, sejam de esquerda ou direita, depende da orientação ideológica que escolheu, não importa, importa que a idéia de ser perpétuamente uma autoridade, praticamente com título nobiliarquico, faz seus olhos brilharem. Para tanto consegue se programar e acreditar naquilo que diz, obtendo assim discursos inflamados, coerentes e altamente carismáticos.
O cérebro, caros leitores, é altamente programável, até mesmo na sua morphologia interna. Ele muda de acordo com aquilo que realmente queremos. Se alguém realmente quer acreditar que Stálin era um guardião do povo, ou que os mentores do golpe de 64 realmente queriam preservar a democracia, assim o será. O cérebro buscará as sinapses necessárias à alimentação da mais ululante e encerada retórica para que o discurso seja convincente. O cérebro é burro, e burros arrastam toneladas, quando bem alimentados.
Ele conseguiu enganar os pais (e estes se deixaram enganar), ainda cheirando a cocô, por que não enganará uma população que raciocina com o ventre e não sabe de seus podres? Mesmo que soubesse, ele daria um jeito de distorcer a verdade e fazer parecer que é aceitável ser podre.
Este tipo geralmente consegue se eleger, no mínimo alçar cargos indicados por sua boa margem de votação. Seus métodos diferem dos do primeiro tipo pela extensão do estrago causado, tendo basicamente os mesmos princípios e objectivos: eliminar a qualquer custo o foco de descontentamento, mesmo que com métodos de máfia. Ele não aprendeu a reconhecer a dor do outro quando criança, por que se importaria agora? Ameaçar a família, especialmente as mulheres, do desafeto é o de menos. A turma é substituída por capangas que, assim sendo, não dão nota fiscal de seus serviços e deixam poucas pistas de sua passagem.

O padre Alcides disse uma vez e estava coberto de razão, não existe pecadinho ou pecadão, quem rouba uma figurinha, um dia mata para roubar teu cartão de crédito. Muda o tamanho do estrago material e psicológico, o estrago social e político é exactamente o mesmo. Assim como os dois tipos citados parecem ter periculosidades diferentes, mas não é verdade. Um ameaça pela quantidade, o outro pela intensidade de seus indivíduos. Ambos desabonam os ideais democráticos. Ambos querem um sistema que lhes perpetue a boa vida e privilégios. Esquerda ou direita, não importa, ou acham que não há privilegiados em países ditos de esquerda?

Para haver uma democracia plena, mas longe da perfeição que está além do alcance da humanidade, é necessário que o cidadão se sinta parte de uma nação. É necessário que ele esteja ciente de que o que acontecer à mesma, se refletirá cedo ou tarde na sua pele. Nos países desenvolvidos é assim. O japonês se sente parte do Japão, o alemão parte da Alemanha, o americano parte dos Estados Unidos da América, o norueguês parte da Noruega e assim por diante. Neles, discursos separatistas viram piada, no mínimo. Seus defensores são vistos como ridículos e qualquer atitude para seus intuitos é imediatamente reprimida, como na vez em que um grupo de idiotas tentou cobrar pedágio dos compatriotas que entrassem no Texas. Um deles foi eleito pelo grupo como presidente o Texas e realmente se sentia presidente de uma república. Tipo dois.

O que temos no Brasil? Um monte de partidos. Só isso. Cada um tentando lotear os cargos do governo, quem não consegue faz a política do "quanto pior melhor" e que se dane o país. Enquanto uns fazem invasões e actos de vandalismo, outros anestesiam a população para que o joguete fique só entre eles. Ambos distorcem a realidade, transformando causas em princípio nobres em pretexto para cometer excessos, desde o legalismo extremo até a pregação da anarquia à força. Um usa o outro como pretexto para instaurar um regime autoritário. Eles precisam um dos outro... Não, na verdade são só dois braços de um mesmo corpo.

O estatuto do menor, que foi eufemizado um monte de vezes até chegar ao (inútil) "Estatuto da Criança e do Adolescente", como se ambos não fossem menores, deveria ter sido uma ferramenta para coibir abusos. Na prática só os transferiu de mãos. Se antes abusava-se de adolescentes, por ser aceitável pagar-lhes menos, hoje não se pode ensinar uma profissão a uma garota de doze anos. Até uma empresa familiar pode ter problemas com o juizado se alguém ver uma criança ajudando a varrer o piso. Um professor que exija o estudo a um aluno pode ser processado por humilhação, ainda que ele tenha sido o inverso. Se antes as famílias relapsas tinham maiores chances de desenvolver tiranos em casa, hoje todas estão expostas ao risco. Quem abusa de adolescentes não deixará de fazê-lo por causa da lei, ele geralmente tem costas quentes para isso. Eles sabem que não, mas alimentam a histeria dos dois extremos, é o que os mantém no poder. Assim fomentam mais gerações de crianças mal acostumadas, podam a boa índole dos que gostam do trabalho e mantém a população presa a problemas que não fariam diferença se não fossem alimentados. Ai de quem pegar uma criança para criar, tem que deixar na rua, à espera do conselho tutelar.

Os dois tipos têm uma grande facilidade em disseminar suas mentalidades tortas, enchendo os noticiários de barbaridades terceiromundistas; como atrocidades de trânsito, depredações, pixações, "pequenas" corrupções, desacatos a funcionários públicos de baixo escalão, enfim, cousas que fazem parecer pequenas diante de tantos problemas que assolam o país. Fazem as pessoas acreditarem que estes "pequenos deslizes" nada têm a ver com as mazelas nacionais, encorajando sua repetição. Quem não tem tendências à barbárie não vai aderir, mas será assolado pelos que têm e passam a ver com normalidade virar sem dar seta, ultrapassar pela direita, parar em local proibido, ligar o som no último volume, furar o sinal com pedestres já atravessando e assim por diante. Afinal, o mundo está tão caótico, por que não vão consertá-lo em vez de encher o saco?

O caro leitor já deve ter se pego na situação de pensar que está no país errado. Deve ter pensado que está cercado e sem chances de escapar. Pois é assim mesmo que funciona. Os dois tipos mandam, agressivamente, prestar atenção um no que o outro está fazendo, como se o erro do outro fosse pior. Uma das estratégias é manter um escabro na surdina até ser útil, ou inevitável, como as tragédias anunciadas no Rio de Janeiro. Quer saber? Eles estão rindo. Distraíram nossas atenções para as vítimas, depois para a burocracia burra e inútil que está emperrando a entrega de doações, quando nos demos conta aprovaram vantagens para si mesmos em um processo vicioso de legislatura (sempre) em causa própria.
Então vem alguém dizer que na época da ditadura não era assim, como se na época a mídia pudesse noticiar o que quisesse. Mas fala de seu contexto pessoal, ou do que leu em algum jornal tendencioso, muitas vezes sem ter conhecido a época. Os meios de comunicação não ajudam, bastando ver o nível de imbecilidade dos programas, com especial caráter emburrecedor dos reality shows. Logo em seguida o telejornal apresenta um desfile de catástrofes, que te faz ter vontade de voltar para as amenidades e permissividades estúpidas daquele programa inútil.

Sim, caro leitor, teu raciocínio está correcto. Os dois tipos também têm influência na mídia, e muita. Tu, que se sentes parte do país e responsável por ele, és uma ameaça à boa vida dos mimados que estão no poder. Eles usam a democracia como simples instrumento para acalentar o sonho de instaurar uma ditadura. Para tanto precisam desmoralizar as instituições, como correios e polícia, para que o povo se convença de que não sabe e jamais saberá votar. Tua vontade de ver a cidade limpa e segura se choca com a vontade que eles têm de se divertirem sem medir conseqüências. Teu hábito de se abaixar para colocar um papel na lixeira é um ofensa aos que jogaram o papel na calçada. Teu sonho de ver este país no primeiro mundo te torna um inimigo potencial desta gente. Tua naturalidade em ajudar nas prendas domésticas insulta a mentalidade misógina dessa gente. Não ser igual a eles é ser seu oponente. Não, não estou exagerando nem um pouco, estou sim poupando-vos de detalhes sórdidos desnecessários.

Para terminar, tudo isto começou em casa, quando a criança ainda podia ser corrigida. Não que se possa transformar um sujeito turrão em um Chico Xavier da vida, mas pode-se ensiná-lo a controlar suas tendências. Recebendo limites em casa, ninguém vai testar os do mundo.
Criança que aprende desde cedo a trabalhar em casa, e eu ajudo desde os cinco anos, aprende também a se portar civilizadamente no mundo.

04/02/2011

Disciplina não é terror

Infância tem que ter cor, cheiro e sabor.
Há nos Estados Unidos um movimento chamado “Mães-tigre”, que em resumo tentam moldar os filhos na marra às suas expectativas. Proíbem que brinquem, que tenham amigos, que expressem suas preferências. Exigem que sejam sempre melhores que todos os outros em que circunstâncias forem, sob pena de punições severas. Devem tirar sempre dez, só entrar em uma brincadeira para vencer, só voltar para casa com medalhas de ouro.


Quem pensa que me conhece até acredita que eu aplaudo isto. Pois eu deploro.


Há uma diferença aparentemente tênue, mas muito sólida entre disciplina e neutralização da personalidade. Isto é o que estas mães chinesas estão fazendo. Elas querem que os filhos realizem os sonhos delas, que sejam o que elas querem que sejam, danem-se os petizes e seu sofrimento. Querem que sejam formados em Harvard e em primeiro lugar.


Direi o que essas mulheres estão fazendo, estão transformando crianças em monstros insensíveis ou em bonecos de marionete sem personalidade. Não dá para todos eles serem o número um, simplesmente porque só há um lugar. Estas crianças se acostumarão a ver qualquer pessoa como uma ameaça ou inimigo, que deve ser subjugado ou eliminado. Até Wallstreet está vendo com maus olhos o excesso de competição, que acaba arruinando as empresas por dentro, pela rivalidade que gera entre os funcionários. Competição é boa em certos lugares, certos horários e até certo ponto. Exigir que a pessoa seja melhor do que todos em tudo, desde a mais tenra idade, é patológico. Só para constar, mamar não é fraqueza da criança.


Para quem não sabe, nos países (como China, que certamente incentiva este disparate) autoritários, onde esta prática é tolerada pelo Estado, o índice de suicídio de crianças é imenso, e ninguém estranha. Brasileiros que viveram lá por algum tempo descrevem horrores medievais à psicologia das crianças. Formam soldadinhos prontos para fazerem o que seus comandantes ordenarem, sem contestações... Ditaduras fazem isto sem o mínimo de vergonha. Não quero iniciar uma teoria de conspiração, mas estas mães chinesas estão me parecendo muito bem orquestradas. Formar levas de pesquisadores em universidades realmente de ponta, como Harvard e Princeton, é o sonho de toda ditadura. O facto de as crianças rapidamente perderem totalmente a vontade de viver não importa a esta gente. Ditadura é sempre igual, de esquerda, direita, de cima ou de baixo, elas são todas iguais.


Vou falar de dois gênios da humanidade, sem os quais o mundo de hoje simplesmente não existiria. Einstein foi considerado um aluno medíocre e pouco inteligente. Gostava de divagar por horas e estava longe do que as tais mães-tigre querem que seus filhos sejam. Ele era considerado distraído e os professores não viam nele um futuro que valesse à pena. Pois o aluno medíocre e pouco inteligente calou as bocas dos céticos de sua época, provando que a matemática newtoniana não poderia ser aplicada além de certos limites. Graças à Deus as antas nazistas não deram crédito às pesquisas de um judeu desengonçado.


Edison se irritou profundamente com a rigidez (não confundir com rigor) com que os reverendos “ensinavam” às crianças, impondo tudo sem se importar com as diferenças de capacidade e modo de aprendizado de cada uma. Foi chamado de preguiçoso e o resto nós sabemos, passou a estudar em casa, sob a tutela da mãe. Embora exigisse resultados, ele nunca pressionou seus colaboradores como as mães-antas fazem com suas crias. Edison tem mais de mil patentes. Sua importância para o mundo foi tamanha, que sua morte, em 1931, fez os Estados Unidos apagarem suas lâmpadas por um minuto.


Todas as pessoas felizes e bem resolvidas que conheço, e de quem ouço falar com alguma profundidade, tiveram em suas infâncias o equilíbrio do rigor com o lazer. Elas tiveram lazeres, fizeram besteiras, aprenderam com seus erros e pagaram por eles na medida do razoável. Tornaram-se adultos felizes e úteis à comunidade. As mães-mongas se esquecem, talvez nem se importem, que é brincando à sua maneira que a criança aprende a ser adulta. A brincadeira é uma preparação para as obrigações da vida adulta. Aos que não sabem, digo que em colégios militares, à margem do que a disciplina rigorosa pode aparentar, os alunos brincam durante os recreios. Os soldados mesmo, nos quartéis, têm vários momentos de descanso e lazer. Por que? Porque um bom comandante sabe que o esgotamento físico é um inimigo traiçoeiro, que pega a tropa desprevenida ao menor descuido de seus oficiais. E mais, soldado feliz é soldado motivado, disposto a dar mais do que simplesmente sua obrigação pela pátria e pelo seu povo. Ok, podem tocar o hino da independência, fui fundo nisto. Mas é tudo verdade. Não, não sou militar.


O que me parece, é que essas parideiras querem ter alguém que lhes permita olhar os outros de cima, querem que os filhos sejam seus pedestais. Se importam somente consigo mesmas. Pela intimidade que adquiri com o tema “política”, acredito piamente no incentivo estatal natal a este comportamento.


Quando ouvi falar pela primeira vez a respeito dessas mulheres, acreditei que talvez fossem úteis à cultural negligência dos americanos na disciplina de seus filhos. Pois o que as imbecís estão fazendo é somente revoltar as mães e dando corda para as relapsas, que a esta altura do campeonato já vasculharam a internet e têm dados para sustentarem o modo solto com que criam seus filhos. Crianças precisam de limites, sim, mas também para suas obrigações. Elas devem aprender a escolher seus caminhos e arcar com eles, devem aprender a cair e se levantar, errar e corrigir seus erros, aprender com os erros para acertar, tudo isto antes dos dezesseis anos, porque depois não haverá mais margem para ensaios. Crianças que só aprendem a receber ordens são pratos cheios para corruptos e fanáticos, enxergam em sua competitividade desmedida qualquer um como obstáculo a ser superado. Em dado momento a mãe-mula também pode ser vista como obstáculo.


Lembrei de outro exemplo, Bill Gates. Para quem acha que liberdade de expressão e escolha fada a criança ao fracasso, nunca ouviu falar deste homem. Não imagina o ambiente de trabalho que há em suas empresas e o quanto ele se tornou útil à humanidade, financiando pesquisas de medicamentos e tratamentos para doenças, tudo a fundo perdido. Gates, em um discurso em 2007 deixou claro seu descontentamento para com a frouxidão da educação das crianças americanas, mas me consta que ele respeita as decisões e escolhas de seus filhos, e faz tudo o que pode para que eles aprendam enquanto podem os valores que quer passar, porque de sua fortuna eles verão no máximo dez por cento. Algum jornal anunciou maus-tratos ou privação de liberdade na família Gates? Eles estão sendo bem preparados, com a disciplina e o carinho de que precisam. Não um ou outro, mas ambos. Mas claro que isto não interessa às mães-de-rapina, elas querem que os filhos sejam úteis somente aos seus propósitos, e aos do partido. Ninguém me convence de que não há mão política nisto.


Rigor e respeito não são antônimos. Respeitem-se os limites de cada fase da vida, dêem a disciplina de que a criança precisa e até pede de modo subjetivo, sejamos pais e não simplesmente pagadores de mesadas ou torquemandas para nossos filhos. Método e organização são bons alicerces para educar uma criança, isto eu vi na prática, não em livros retóricos de gente que se tranca em laboratórios e tira conclusões alheias à vida que corre aqui fora. O estilo varia muito, pois pais e filhos são pessoas, portanto diferentes entre si e dos outros. Não se pode esperar que um Homer Simpson aja da mesma forma que Johathan Kent,  mas ambos podem ser bem sucedidos na criação de seus filhos. Certo, não dá para comparar Clark a Bart, mas dentro do que cada um pode ser útil, este também pode ser bem sucedido. Ele pode ser um diplomata, com toda a malandragem que lhe é particular, enrolaria todo mundo e não cairia nas armadilhas típicas do ramo.


Deixem as tigresas nas selvas. Na civilização as crianças precisam de mãe-gente.

27/01/2011

Apagam-se as luzes


Por pouco dinheiro, uma hora de felicidade.
Salas de cinema são entretenimentos baratos. Cada vez menos baratos no Brasil, reconheçamos, mas ainda são. É cada vez mais comum haver salas em shoppings e menos nas ruas. Os motivos vão desde o conforto e a conveniência, até a segurança, que em nosso país ainda é crítica, a ponto de conversíveis serem pouco vendidos por não poderem ser utilizados à noite sem sérios riscos aos ocupantes. E olha que há buggies abertos baratinhos por aí.


A vantagem das salas em shoppings acaba se tornando uma armadilha, não só pelo preço maior. Em ambiente fechado elas te privam da noção de tempo, podendo te fazer sair tarde demais, que em terras tupiniquins significa perigoso demais, gerando mais gastos com táxi. Entre um filme e outro, o risco de estourar o cartão de crédito é iminente. Ou vocês pensam que eles alugam espaços para cinemas por amor à arte?


As salas de rua são mais expostas aos meliantes e às intempéries. É fácil pensar que um elemento vai se espreitar na multidão para se aproveitar de vocês, porque se puder ele vai. As chuvas costumam prender à porta do cinema quem acaba de sair de uma sessão, pois ainda não temos o hábito de levar guarda-chuvas, e as chuvas tropicais sempre foram mais inclementes do que as do hemisphério norte. Com o esvaziamento dos últimos anos, a renovação de filmes fica mais difícil, já que as salas pagam pelas cópias. Não dá para piratear filmes de prata como se fazem com DVDs, sai muito mais caro e sem qualidade. E quem conhece sabe, a película ainda hoje tem uma qualidade que nenhum sistema digital conseguiu igualar. As imagens podem ser ampliadas numa proporção de fazer raiva aos fabricantes de processadores. Por isto é caro trazer um filme.


Mas as salas de rua também têm vantagens. Elas são abertas em lugares habitados, nos quais o cliente está a poucas quadras de distância, bastando assim uma pernada para se voltar para casa. Podem ser um ponto de encontro e um foco de coesão para a comunidade. Infelizmente a especulação imobiliária acabou por dificultar a modernização destas salas, já que qualquer pedacinho de terra custa os olhos da cara em lugares bem localizados, sendo mais lucrativo vender para empreiteiras construírem edifícios de condomínios. Elas tiveram mais três ameaças sérias de morte, ao longo do século passado:


• O advento da televisão. Acabou não colando. A qualidade da transmissão à época era péssima, valia mais como meio de comunicação em tempo real, e as salas passaram a utilizar as telas widescreen, em substituição às quadradas de até então;


• O advento do videocassete. Este foi uma ameaça mais consistente, mas nem todos os filmes estavam disponíveis em fita e a ida ao cinema sempre foi parte de um programa, assim como a ida a um restaurante;


• A queda brutal na qualidade, nos anos oitenta e noventa. Esta quase matou Hollywood.


A decadência de uma sala de cinema tem cinco fases: Demora na renovação do acervo, exibição só de filmes velhos, exibição só de filme pornô, exibição de filme pornô velho e finalmente virar igreja caça-níqueis. Há no centro, em uma parte residencial, o Cine Santa Maria, que só tem filmes pornôs... Goiânia já teve vários cinemas, ao menos uma sala em cada bairro, hoje há algumas no centro e a maioria é de empresas de fora, em shoppings.


Entre os que resistiram, há um em São Paulo que deveria ter sido tombado pelo Estado, não derrubado por sua incompetência e descaso para com a cultura: O Cine Belas Artes.


Fundado em 1943, como Cine Ritz, quando o mundo se precipitava na pior guerra de todos os tempos, o Cine Belas Artes tornou-se um foco de entretenimento para pessoas que viam seus pais, filhos e irmãos sendo mandados para a morte certa na Europa. Aqui um blog que tentou de tudo para preservar o cinema, uma galeria e notícias recentes.


Nas duas décadas seguintes conheceu sua fase áurea, com o cinema mundial, inclusive o nosso, produzindo artigos que valiam a prata em que eram impressos. Com o tempo tornou-se uma das poucas salas a exibir filmes clássicos sem que os estúdios lançassem edições remasterizadas. Filmes de alta qualidade para quem não nasceu a tempo de vê-los em seu lançamento.


Sua sede, na Rua da Consolação, próximo ao metrô Consolação, está ameaçada pela especulação imobiliária. Foi estipulado um aluguel altíssimo para o quê ele precisaria de patrocínio, que conseguiu a tempo, mas o contracto não foi renovado e o dono do prédio o quer. Sim, aos extremistas de direita irascíveis, o proprietário do prédio tem o direito constitucional de dispor do imóvel dentro dos limites da lei. Da mesma forma como a prefeitura tem o de tirar tua casa para abrir uma rua e demorar anos para começar a pagar menos do que ela vale. Essa mentalidade do cada um por si e todos contra todos já causou estragos demais. Nós vivemos em comunidades, não em cavernas isoladas.


O que os críticos não entendem, e não se esforçam para entender, é a importância cultural do Belas Artes. Ele faz parte da história recente de São Paulo, e se está “decadente”, como muitos alegam, o facto não afasta os freqüentadores fiéis. Se esquecem, desculpem o trocadilho, que a falta de memória é um dos entraves ao desenvolvimento do país, porque PIB para um bom padrão de vida nós temos. Ignoram solenemente que a valorização da cultura pelo Estado é um dos grandes muros que separam o Brasil dos países com boa qualidade de vida generalizada. Mas assim como os marxistas de boutique, os direitistas azedos querem que o mundo se molde às suas idéias tortas e viram as costas para o resto. Roma, Paris, Londres e aos poucos também Moscou, são exemplos de cidades que têm boas receitas naquilo que esses críticos desprezam, sua cultura e memória.


Ainda que tardiamente, por interesse (e pressão) público, o processo de tombamento já começou. Foi protocolado o pedido. Não é a falta de público, é o egoísmo de quem só enxerga seu próprio umbigo que está matando a cultura no país. Resta esperar que saia a tempo de evitar que uma igreja caça-níqueis acabe comprando o prédio, porque estas não desprezam só a cultura, desprezam absolutamente tudo o que não for de sua influência, inclusive mandados judiciais. Este, até que tudo se resolva, é o último mês de funcionamento do cinema, cujos funcionários já estão de aviso prévio.

22/01/2011

Sobre as regras de trânsito

 
Pode não parecer para muitos, mas o facto de tu se achares muito gostoso e melhor do que os outros não te imuniza às leis, muito menos às de trânsito. O pára-choque daquele caminhão não está nem aí para teus diplomas, teu cachorrão, tua pistola (ilegal) nem para o teu papai doutorzão. Por isso considero oportuno abordar o tema de forma directa.


Vaga exclusiva para deficientes físicos.

Pisca alerta não é indicativo de "parei aqui e tô nem aí". Sua função é alertar aos outros condutores de que o teu carro está com problema. Não te dá imunidade para parar em local proibido, fila dupla, em cima da calçada, nem mesmo para andar na contramão. Uma vez ligado o dispositivo, o veículo deve ser levado para um lugar (permitido) seguro e o triângulo de sinalização utilizado.

Não existe nenhuma regra que proíbe ligar som alto entre as 22h e as 06h.. É mito. A regra proíbe som alto em todo e qualquer horário e em qualquer logradouro público. Então para quê vai servir a meia tonelada de som na tua picape? Deverias ter consultado a legislação antes de alterar o veículo.

Ao contrário das pistas de corrida, em vias públicas o sinal amarelo não significa "acelere para não comer poeira", ele significa "reduza, vai ficar vermelho". E por que parar se teu machismo idiota exige que sejas o dominante da região? Porque outro idiota com um carro maior ainda pode ter a mesma idéia de si, e na colisão ele terá razão nos autos. O amarelo é uma transição, ele evita te pegar desprevenido e dá tempo para reduzir a velocidade.

Aquelas listras longitudinais pintadas em cada lado da esquina não são descanso para pneus. Talvez até pareçam, mas não são. São indicação de travessia para pedestres, que podem ter inclusive a tua mãezinha no meio, sem que tu vejas. Desta feita, é para parar antes delas, sempre antes, nunca em cima ou depois.

Esquinas, embora sejam práticas para tanto, não são lugares estratégicos para se sair para qualquer lado. São espaços que devem ter cinco metros de escape. Significa que deves manter cinco metros, no mínimo, da esquina ao estacionar. O motivo é evitar que idiotas coloquem seus carros na quina da calçada e obstruam a visão de quem vai converter.

Guias rebaixadas não são feitas para preservar a soleira das portas, são feitas para facilitar o acesso dos carros à garagem. Ou seja, guia rebaixada é indicativo de que aquele portão à frente guarda outro carro, que tem o direito de sair e entrar quando o dono quiser, para o quê a entrada deverá estar desobstruída. Já aquelas guias estreitas, são para cadeirantes. Embora fosse muito bem feito, eles não conseguem pular, andar sobre o capô do teu carro e retomar o caminho.

Aquela placa redonda, com um "E" preto marcado por um "X" vermelho não significa "Eu tô no carro e se precisar eu saio". Significa "PROIBIDO PARAR E ESTACIONAR, NÃO INTERESSA POR QUANTO TEMPO". Se um ônibus arrebentar a tua traseira nestas condições, ele estará certo. E sejamos francos, tu costumas caçar briga com quem reclama e usar o lugar como vaga particular.

Por falar nisso...

Aquela placa retangular azul, com uma representação em branco de um cadeirante, significa que a vaga é EXCLUSIVA para deficientes físicos, e as raias transversais ao lado são para dar o espaço de que os mesmos precisam para sair e entrar no veículo, elas não são espaço para outro carro ocupar e a vaga não inclui deficientes mentais, ou seja, tu estás errado. Cai fora.

Sinal verde significa "pode passar que é a tua vez", mas não te desobriga da sinalização em caso de conversão. Se vai virar, tem que dar o sinal, causar um acidente por converter sem sinalizar pode sair mais caro do que vale o carro. Já ligar o sinal não te permite virar, te obriga a virar, pois a função dele é avisar aos demais das tuas intenções, e os demais vão esperar que vires para então continuarem seus caminhos. Como saber se a seta foi ligada sem querer? Há uma luzinha no painel que mostra isto claramente.

Como diz o padre Alcides, não existe pecadinho e pecadão, quem rouba uma caneta tem a mesma índole de quem rouba um carro. Andar na contramão só por uns metros, para não ter que dar uma volta enorme, é tão perigoso quanto viajar de Goiânia à São Paulo na contramão, os riscos de se causar um acidente são os mesmos. Piora o facto de que na cidade as esquinas terem prédios que obstruem a tua visibilidade, o pedestre não vai esperar que um imbecil surja do nada de onde não deve surgir.

É mito que um Corolla tem mais direito no trânsito do que um Mille. Assim fosse, aquele Jaguar poderia te tirar da vaga quando quisesse, porque em um cabo de guerra ele te vence sem sequer usar torque máximo. Marcas, modelos e preços não entram na elaboração de uma lei de trânsito.

Ficar só com um pneu em cima da calçada é estar em cima da calçada, obstrui a passagem de pedestres e cadeirantes do mesmo jeito, está sujeito a multa e reboque do mesmo jeito, o cidadão pode quebrar a tua lanterna do mesmo jeito e alegar que não teve espaço para evitar o incidente.

Bicicletas não estão livres das leis de trânsito, só de IPVA e afins. Andar na contramão, em cima da calçada, obstruir o tráfego de pedestres e outros, te sujeitam à perda do veículo, que poderá ir a leilão se a guarda de trânsito te flagrar.

Um ônibus coletivo, embora rústico e muito desconfortável, (provavelmente) custa, pesa e pode muito mais do que o teu carro. Não subestime a lerdeza de suas reações, pois esta mesma lerdeza dificultará desviar do teu carro, se decidires cortá-lo no trânsito. É lento para acelerar, mas em velocidade a tua Dodge Ram se torna uma pulguinha diante dele.

Aliás, corredores exclusivos para ônibus são exactamente isto, exclusividade deles e de veículos de emergência, não são para idiotas fugirem do trânsito. O que quer que te aconteça se entrares nela, a culpa será tua, não importam a barbeiragem dos motoristas autorizados a trafegar nestas vias; tu JAMAIS deverias estar lá.

Os carros de emergência (polícia, bombeiros, ambulância) não estão brincando de apostar corrida, estão tentando evitar uma tragédia. Então não queiras brincar de piloto nestas horas. Se eles estiverem atrás, com a sirene ligada, então sim, neste caso, podes sair no sinal vermelho, poderás utilizar isto para se poupar de multa e pontuação. Veja bem, não é permitido sair da frente, é OBRIGATÓRIO sair da frente.

O som alto do teu carro não é desculpa, é agravante para um acidente. A lei preconiza a obrigatoriedade de o motorista ficar atento ao trânsito, não importa o que aconteça dentro do carro. Se o som te distrai, baixe o volume, ou isto será usado como risco assumido em caso de processo por lesão corporal ou homicídio.

Se não houver uma placa proibindo, podes até tentar fazer uma conversão à esquerda em via de mão dupla, mas estejas ciente de que a culpa sempre será tua aconteça o que acontecer, os carros que vierem logo atrás podem te fechar que estarão com a razão, porque para fazer a barbeiragem terás que ficar parado, esperando o trânsito da outra mão, obstruindo a em que estiveres.

Se tu filho de doze anos já dirige bem, ele está livre para pistas fechadas, vias internas de condomínios e manobras de estacionamento. Mas até completar dezoito anos e tirar a carteira, está expressamente proibido de sair à via pública ao volante. É lei, não interessa se concordas ou não. Ele sabe controlar o carro, mas é uma criança e não sabe se controlar. Se bater ou atropelar alguém, ele entra em desespero e agrava o acidente. Os outros não vão lhes avisar que sairão repentinamente, em alta velocidade e sem dar a seta. Não importa quanto domínio tenha do próprio carro, do carro alheio ele não tem nenhum. Nem ele, nem tu.

Os políticos a quem recorres para quebrar multas, são os mesmos que permitem ocupação ilegal de áreas perigosas, que retundam em catástrofes como as que nos castigaram neste início mórbido de ano. Se pedires um favor ao infeliz, ele vai te cobrar na hora de livrar a própria cara-de-pau. Ter o nome na lista de investigados da Polícia federal pode ser muito desagradável.

Dúvidas? Cliquem aqui.

15/01/2011

RIP Cultura

Quem conheceu a TV Cultura nos anos 1990 sabe da pérola que era. Infelizmente seu sinal só estacionou em Goiânia tardiamente, mas com muitas reprises do programa Rá-Tim-Bum e jóias dos anos 1980 ainda serviam bem e eram apresentadas.
A agilidade de uma grade que não subestimava a inteligência do telespectador com excesso de explicações, era uma das tônicas, ao contrário do que as redes privadas já faziam, deturpando a idéia original do politicamente correcto, tornando-o uma censura branca. Afinal, quem não sabe o mínimo não entenderá explicações do médio.
Foi uma época rica em bons documentários, apresentadores compromissados com o público da emissora e não com os níveis de audiência, programas estrangeiros que jamais passariam na Globo ou SBT.
Até mesmo o Repórter Eco, que trata de um tema quase sempre tocado com extremismo, dosava a linguagem e transbordava as informações relevantes, sem querer exterminar a espécie humana nem transformar os entrevistados em estrelas.
A Cultura era uma rede pública de rádio e televisão. Valia à pena relevar o sinal mais fraco e vulnerável para ter alguns instantes da sensação do que seria viver no primeiro mundo.
Embora fraca em recursos financeiros, era uma ilha de qualidade e respeito ao espectador. Há muitos vídeos daquela época (aqui) na rede. Falava-se a verdade, pois o patrocínio não tinha peso para calar o jornalista, muito menos a vaidade política. Como acabei de dizer, não tinha.
O primeiro escabro foi um famoso esquerdista assumir a presidência da Fundação Padre Anchieta, que mantém a TV Cultura. Esperava-se que alguém perseguido e censurado pela ditadura desse o bom exemplo. Não deu. Soninha Francine, apresentadora do programa RG (um episódio) foi demitida após dizer que já fumou maconha, em uma entrevista à Veja. Ela disse claramente que aquilo destrói a vida de uma pessoa. Não foi convidada a se explicar, se desculpar ou mesmo dizer em seu programa porque as drogas são tão perniciosas, o que teria sido uma grande contribuição ao público (majoritariamente jovem) do programa. Ela foi demitida. Sumariamente, sem direito a choro nem vela.
De então em diante a situação da emissora se deteriorou. Os dirigentes seguintes agravaram em vez de consertar as besteiras de seus antecessores, funcionários foram demitidos a pretexto de enxugar a empresa. A última pendenga tem como pivô um lavajado que há nas instalações da emissora, que serve aos funcionários. O presidente actual João Sayad alega que nem a Globo tem um lavajato dedicado... Imagino o impacto que dois peões têm nas contas de uma emissora, que por  menor que seja faz circular muito dinheiro. Não, não estou defendendo que todo mundo tenha lajavato e lanchonete grátis para seus funcionários, é apenas um exemplo da avareza que tomou conta de uma emissora que deixou de ser pública para ser estatal.
Uma das maiores perdas foi com a demissão da jornalista Salete Lemos, por ter escancarado a farra e os abusos dos bancos no Brasil, de forma que todo e qualquer espectador pudesse compreender, sem economês e sem verborragias supérfulas. O patrocínio passou a ter mais peso do que nas emissoras comerciais. Bem mais, porque para um patrocinador conseguir demitir um jornalista de renome e prestígio público, precisa este ter dito algo de muito grave, ofendido pessoalmente a empresa e não ter aceito réplica ou retratação.

O golpe de misericórdia virá agora, a emissora terceirizará (aqui) parte da programação. Por causa das dívidas trabalhistas (cerca de R$ 160.000.000,00) causadas pela má gestão dos antecessores, menos de um terço da programação deverá ficar à cargo da Cultura. Menos de um terço. Isto inclui o fim do contracto com TV Justilça e TV Assembléia, esta, para quem não sabe, permite ver direitinho o que os parlamentares estão fazendo, por mais que eles disfarcem. A outra é um verdadeiro mapa para quem precisa recorrer, ou quer evitar ter de recorrer, ao judiciário. São programas de grande utilidade para o público que a TV Cultura amealhou nestas quatro décadas. O presidente da entidade diz que é justo o contrário, para concentrar o "reduzido talento administrativo na telinha e no rádio". Reduzido por causa dos erros crassos e da intervenção política na emissora. É fácil prever que uma enxurrada de igrejas caça-níqueis fará a festa, além dos polyshops da vida.


É triste o terceiro artigo da nova fase do Talicoisa (aqui) dar uma notícia dessas, mas é nosso dever informar não só o caminho das flores, mas também alertar para os escorpiões que se escondem entre as floreiras. A emissora está na iminência de perder, em ações judiciais, quase o dobro dos R$ 84.000.000,00 que o Estado repassa como orçamento.
Se antes a despreocupação com índices de audiência garantia a adesão do público cativo, hoje o afastamente do mesmo é desculpa para passarem a usar a relação custoXaudiência como baliza. Decerto que a qualidade da audiência caiu, ou programas imbecilizantes chamados de shows de ralidade não teriam um terço do público que têm. As pessoas estão com preguiça de raciocinar sobre o que estão vendo. Por isto mesmo a boa e velha Cultura se faz ainda mais necessária. Depois da internet, o público percebeu que não precisa se prender às porcarias da televisão privada para ter entretenimento; depois dos desmandos ele percebeu que também não pode mais contar com a rede pública para isto. Eu mesmo não agüento ficar mais do que cinco minutos diante de uma televisão ligada. Via de regra, nem dois minutos. A vontade de ir ao banheiro e descarregar o barroso impera, ou mesmo a necessidade de respirar ar fresco e oxigenar minhas sinapses. Fiquei sem televisão, de novo. Doarei minha tevezinha P&B de cinco polegadas, ela durará algum tempo até os sinais analógicos serem extintos, mas para mim se tornou inútil.

Espero francamente que o elenco remanescente consiga, ao fim das ditaduras de esquerda e direita que enfrentou, retomar o caminho que garantia à emissora a pouca e fiél audiência que tinha, sem as imensas dívidas trabalhistas que a estupidez das administrações posteriores renderam. Porque seria triste, uma perda lamentável ver a TV Cultura ter o mesmo fim da Manchete (aqui e aqui).

Ainda bem que temos os Youtubes da vida, ou programas como Bambalalão e espaciais como os do Palavra cantada (como aqui) ficariam inacessíveis ao público infantil de hoje, que precisa do respeito que estes programas tiveram com nossas gerações.

08/01/2011

Coitadinhos!

Há pouco fiquei sabendo o que faz um deputado federal. Me deu um dó, um nó no peito e outro no bolso, que não sou trouxa.

Ser paraninfo de formandos deve ser muito extenuante! Imaginem, encomendar um terno completo só para isso! Terno é caro, vai o auxílio-paletó todo nesta brincadeira. E ainda ter que alugar o carro, arranjar o motorista, se hospedar, atender à militância local, enfim, é tremendamente cansativo.

E padrinho de casamento, então! Que absurdo ter que dar presentes a tanta gente, só para poder pedir votos depois! As verbas indenizatórias vão para o espaço num instante. Mandar fazer um fraque é caríssimo! E um doutor-deputado não pode usar o mesmo fraque duas vezes, seria ultrajante à sua excelência. Cada evento exige e ameaça de morte por um traje exclusivo, eles representam o povo!

Mas não é só o ilustríssimo que se apresenta ao evento em sua homenagem. Não, caros leitores, o coitadinho tem que levar, vestir e paramentar a esposa, quando não uma filha mais exigente. Sabemos como esses jovens de hoje se recusam a viver com o básico, no mínimo exigem que um secretário de gabinete vá assessorar. É muita despeza para onze mil reais. E se a festa for de um correligionário? Então o sofredor precisa pedir complementação indenizatória!

Gastos extras, então, nem me atrevo a imaginar o que sejam. Deve ser algo sofisticado demais para um homem vulgo do povo compreender.
O povo deve parar de aborrecer os anjinhos de terno que fazem coro em Brasília! Os santinhos são (mal) pagos para representar seus eleitores em festinhas particulares, eventos em homenagem própria, diplomacia extraodrinária em praias de países ricos e mais uma miríade de despesas que não entraram na conta.

Votar projectos, orçamentos, emendas, cobrar ação do executivo, fiscalizar obras públicas para que? O povo precisa vê-los agindo, e só se vê um autruista desta estirpe trabalhando em festas, em eventos, nos comitês de suas bases eleitorais, no superfaturamento de obras, em fraudes licitatórias, em desvios de recursos que deveriam ir para as escolas, cousas do tipo.
Aliás, vocês viram a propaganda na tevê? Que mentira absurda! Que irresponsabilidade em enganar o povo, fazendo todos acreditarem que um professor tem algo a ver com o desenvolvimento de um país! Vão à Suécia e vejam como eles tratam seus parlamentares. Lá, cada um tem seu próprio palácio, com sua própria frota representativa, um batalhão policial sob seu comando e tudo mais. Por isto os suecos vivem como vivem, podendo se preocupar com problemas de países pobres, porque seus parlamentares são tratados como reis. Eles nem precisam de salário, podem simplesmente entrar em uma loja e tomar posse do que for de seu agrado, mesmo que seja a vendedora, é assim que se manda um país para o primeiro mundo. Lá todo mundo foi passado de ano, sem precisar de professores, esta raça inútil.

Onze mil, minha gente, é pouco demais! Não dava para os gastos particulares que a constituição não prevê em parágrafo nenhum. Deveríamos é trabalhar ao menos uma hora a mais por dia, para dar um vencimento condizente a estes baluartes da democracia!
Aliás, o cargo deveria ser vitalício e hereditário! Assim os pobrezinhos não teriam que gastar com campanhas, nem se estressar com votações, ou temer que gente do povo possa subir e tomar seu título. Eleições desgastam muito! Consomem o dinheirinho mirrado de nossos deputadinhos federaizinhos.

Eleitorado malvado!

Eleitorado imbecil!

Estes pústulas dão combustível à insanidade autoritária e separatistas de grupecos de extrema demência, que há em várias partes do Brasil. Desabonam completamente a mais arraigada e basilar idéia de democracia, dando combustível para idiotas de extremo-qualquer-lado que querem fazer no Brasil o que fazem em países do velho mundo; causar mais baderna e conflitos do que nós já temos. Cretinos que vêem nos desmandos em causa própria, que é só  que os parlamentares fazem sem uma corda no pescoço,  um argumento incontestável para uma ditadura hereditária.

O congresso deveria ser todo acionado por funcionários públicos de carreira, já estabilizados. Parlamentares não deveriam sequer ter carro individual à disposição, não precisariam nem se decidissem trabalhar em causa pública. Para fazer o que não fazem, se podem utilizar vans e ônibus. Ninguém, nem mesmo promotores de eventos, é pago para receber homenagens ou apadrinhar noivos, isto é assunto particular. Nenhuma empresa paga a seus funcionários para serem paraninfos, nenhuma autarquia pública paga a seus funcionários pelo presente de casamento. É justo para assuntos pessoais que eu (tu, ele, nós, vós e eles) recebo meus vencimentos, que nem fazem cócegas nos onze mil reais que os pulhas rejeitaram. Ganhar para comparecer a festinhas é para artistas, que francamente caem muito no meu conceito com isto. É para quem vive da imagem e não tem responsabilidade nenhuma para com  uma comunidade, que dirá um país líder de continente.

Só o que me consola é a consciência limpa de ser pé frio em eleições.

A pedido da amiga e laitora New, o vídeo que inspirou o texto:

06/01/2011

Mini poesia para Minnie



Vida curta, talento longo.

Quantas vidas a cada nota, quantas notas ainda vivas. Ecoam no tempo da rede que então não havia, na saudade da qualidade de uma carreira morta.

Pelos melindres do mundo humano a justiça se fez para Minnie. Saiu do orbe denso e poluído aos braços do coro perene que hoje integra.

Para quem fica só resta o pesar de a música estar de desfacelando. Talento? Pouco público para muito trabalho, retorno lento.

Enquanto poucas se esforçam para manter o nível que ela seguia, a regra em maioria se acomoda no chão da apelação e da verborragia. E a música calada torna a tocar.

Justiça foi feita para ela, ela subiu, ela mereceu. Dormiu na penúria do mundo e acordou no coral dos serafins. Por aqui os dentes rangem e a phonographia edita.

O saudosismo, outrora doença ou capricho, se faz remédio para quem não se adapta à invasão massiva da cultura-lixo. Quero desinfectar meus ouvidos.

Outrora foi comum e não se dava tamanho valor, como não dá quem respira bem no nível do mar, mas caindo indefeso na água busca em desespero uma só lufada de ar.

Se parece velhice precoce ter saudades do que já não se tem, podem me chamar de velho, que é velhice sadia do bom senso.

Amém.