05/11/2010

Salvem o Gustav Ritter

Centro Cultural Gustav Ritter
Fundado pelo imigrante alemão Henning Gustav Ritter, o Centro Cultural Gustav Ritter é um dos mais respeitados do Estado. Localizado em Goiânia, no setor Campinas, bem em frente à janela do meu quarto, é responsável pela formação sólida de músicos, dançarinos, actores e ainda prepara para o vestibular. (informações e photos aqui)
É um alívio ouvir passos de sapateado e dança flamenca, logo após um imbecil passar com o som do carro ligado no último volume, fazendo alarmes dispararem e cabeças doerem, inclusive a minha. Digo "som" porque "música" eles não ouvem. Vocês ouvem jazz sem precisar do phone de ouvido? Música clássica? Blues? Eu ouço não só isso, mas também músicas sazonais e comemorativas antes do resto da cidade.
Já acompanhei várias vezes a evolução de alunos que começaram com uma cacophonia controlada, e em poucos meses já tocavam com maestria, desde músicas militares até a marcha imperial de Darth Vader, como o apresentado no vídeo do link. Sim, fãs de Guerra nas Estrelas, eu tenho esse prazer e vocês não. O repertório é tão eclético quanto bem escolhido, vocês têm que vir para ver.
Também é um colírio ver as pequenas bailarinas, pouco mais que bonequinhas de corda, saindo serelepes com suas mães, aquelas já cansadas e suadas, mas sem dar o braço a torcer à fadiga. Saem felizes as pequenas pelo dia recheado, e as mães porque seus rebentos tiveram uma actividade sadia e que vai ampará-los por toda a vida. Claro, também há as moças, elegantes, altivas e com aquele ar de dignidade que em muitos lugares faz parte apenas do passado. É quase anacrônico, mesmo com as adversidades que enfrentam, a altivez faz parte da grade.
Hoje mesmo duas bandas marciais estiveram na praça da matriz, em frente à entrada, fazendo um ensaio para o dia da proclamação da república. Preciso dizer que foi um espectáculo? Que todo mundo parou para ouvir? Que é um dos poucos privilégios que Campinas ainda reserva aos campineiros? Vocês podem até imaginar, mas só presenciando para sentir a alma leve e revigorada pela boa música, pelas notas afinadas, pela progressiva e contínua melhoria dos alunos, por ter cultura perene à disposição quando o país se preocupa com o destino de um "reality show de horrores".
O mais impressionante do Centro Cultural Gustav Ritter, porém, é a resistência ao descaso. Cultura nunca foi prioridade no Brasil República para absolutamente nenhum presidente. Nem mesmo um blog no nome do centro cultural eu encontrei, por mais que procurasse. O que acontece aqui é um crime contra a formação sócio-cultural de uma juventude inteira, que carece até de leitura simples. Se aproveitando do desdém que o povo costuma ter com manifestações culturais que não estimulem a pubis, o governo virou as costas durante os meses que precederam o pleito eleitoral, muitas vezes nem segurança interna o centro cultural teve. Na verdade faz tempo que não sei de guarda noturno. Piora o facto de um ginásio semi-abandonado dividir a quadra com ele, é um ponto de venda e uso de drogas que o prefeito e o governador não se preocupam em utilizar, o que afastaria os meliantes. Não sei o que se passa em suas cabeças, decerto que não é o bom andamento da cultura. Nem a boa formação artística e social que essa garotada tem lá dentro, muito menos o amor com que os professores se dedicam à instituição.
Faz não muito tempo que vagabundos atearam fogo à massa vegetal, que restou da poda do bosque que há dentro da meia quadra que o Gustav Ritter ocupa. Essa massa de folhas e galhos ficou na calçada por dias, sem que a prefeitura se dignasse a recolher, o que é uma obrigação básica. Não se trata de uma instituição privada que pode tomar decisões de gastos sem dar satisfações, é um instituto público, que depende do governo para sua manutenção. Ainda hoje as marcas do vandalismo estão no muro chamuscado e descascado pelo fogo. Bombeiros? Estavam muito ocupados com as queimadas no cerrado, o contingente não dá conta do campo e da cidade ao mesmo tempo. Repito, a prefeitura negligenciou uma obrigação básica, não era nenhuma tarefa cara nem extraordinária, era só mandar um caminhão recolher o entulho e pronto.
O belo prédio já foi um convento, ainda hoje conta com uma capelinha em cuja frente há uma bela imagem em azulejos. Provavelmente pelo pouco uso, é a parte mais preservada. Enquanto o Estado se limitava a passar demãos de tinta em cima da pixação do muro, a estrutura sentia o peso dos anos e da negligência. Portas com lascas arrancadas são a regra lá dentro, fora o piso típico dos anos trinta e quarenta que há anos pede restauro, que sabemos que não virá se não se tornar um escândalo, mas deve ficar lindo nas condições originais. Nem falo da escadaria, vocês vão chorar.
Mas o que é um centro cultural de uma capital interiorana, quando o país está tão imerso em discussões estéreis entre os que odeiam e os que idolatram o presidente e sua equipe? Que vantagem há em preservar uma instituição que nunca foi adoptado por nenhum artista ou político de prestigio nacional?
O que se tira de bom do episódio lamentável é o amor que os professores demonstram. Já mandaram alunos para companhias do exterior, mesmo com a miséria que o Estado lhes paga, afinal balé é dança de fresco, de burguês, de veado, enfim, não dá voto. Mesmo assim eles conseguem burilar e lapidar os alunos com a paciência e a dedicação que verdadeiros mestres oferecem aos discípulos. Houve no meio do ano um protesto dos mestres por conta da situação precária do instituto, os pais tomaram a frente e me parece que um mínimo foi atendido. Mas foi só. Não fosse a polícia militar, os traficantes já teriam invadido e expulso todo mundo, porque rondar eles rondam todos os dias.
Eu sugeriria, se o próximo governador tiver um pingo de interesse pela cultura, uma reforma emergencial e completa, do piso ao telhado, para dar condições dignas de trabalho e aprendizado. Depois o aparelhamento e a contractação de gente, porque eles precisam, o efetivo é pequeno para a procura. Indo mais além, eu incorporaria o terreno do ginásio, que hoje é um mocó, ao do Gustav Ritter, porque o espaço também está se tornando insuficiente para a demanda. De quebra é um lugar a menos para a bandidagem agir. Não bastasse a tranqüilidade de um bairro menos violento, imaginemos em um esforço de optimismo o cenário: O dobro do espaço, instrumentos em perfeitas condições e acrescentados, material humano suficiente e talvez o triplo ou mais de jovens (dos oito aos oitenta anos) atendidos. Com o tempo se poderiam fundar uma sinfônica, uma filarmônica, uma orquestra que rivalizaria com qualquer outra no mundo. O corpo de dança fazendo mais apresentações, promovendo bailes temáticos, chamando de volta os moradores que foram embora do bairro. Campinas já foi um bairro residencial agradável de se viver, assim como o Gustav Ritter já foi muito melhor cuidado pelo poder público. Os professores, e muitos dos alunos, podem suprir facilmente as escolas públicas com aulas de suas competências, seria apenas uma questão de planejamento e vontade firme.

02/11/2010

Porque há o feminismo


A mulher bem resolvida por excelência
 Deixo claro de início que sou contra o aborto. Não estou fazendo apologia ao mesmo, não estou justificando o acto e tampouco tentando atenuar a gravidade do assunto.
Aos radicais eu afirmo que seus opostos me execram tanto quanto vocês. Uns me acusam de pelego, outros de subversivo; os primeiros pensam que o talebam é uma guerrilha de esquerda e os segundos ignoram a força da mulher em Israel. Isto dito, poupem seu tempo e vão procurar outra página para ler, que esta é dedicada aos que, como eu, cultivam a combinação de cabeça nas nuvens e pés firmes no chão.
Salvo para as detratoras do gênero feminino, abortar não é um parque de diversões para uma mulher. Uma mulher sã não toma esta decisão só para escolher o sexo ou para satisfazer um capricho pessoal. Trabalho com saúde pública há mais de oito anos e lido com gente (e seu lado mais negro) há mais de vinte. Essas mulheres não são monstras. O mesmo não posso dizer da maioria dos homens que tangem o assunto.
Não consta na constituição a figura do ex-filho, nem do ex-pai, mas o que muitos fazem após assinar o divórcio é esquecer que colocaram gente indefesa no mundo, dão de ombros para a família e retomam a vida de solteiro como se jamais tivessem visto aquelas crianças. Existe o judiciário, sim, mas ele é lento, ineficiente e só tem recursos prontos para construir prédios luxuosos, nem sempre para aparelhar a busca ao sujeito. Até que o sem vergonha seja encontrado, porque muita gente se dispõe a mantê-lo no caminho das trevas, a mãe fica responsável pela prole. E ai dela se as crianças forem encontradas fazendo baderna nas ruas, por que ela, coitada, é facilmente encontrada e punida pelo judiciário.
E olha que há dez anos era bem pior. Algum imbecil, um anticristo de paletó disse que "o homem em nada peca" e o retardado acreditou, decerto que por pura conveniência.
Pior acontece quando a mulher é solteira. Ainda hoje, com freqüência ainda maior do que há vinte anos, o cafajeste alega que ela dormiu com vários homens e só assume a paternidade com a comprovação genética. A lei não o obriga a se casar, nisto se acha no direito de ir embora e abandonar a todos quando bem entender.
Ponham-se no lugar de uma moça que fez a besteira de transar com um sujeito desses. Ambos são responsáveis, se um não quisesse o dois não brincariam. Ele se recusa a assumir, faz ameaças e desaparece. Quem fica do lado dela? O sujeito se dá ao trabalho de fazer a má fama dela antes de fugir para não assumir, o povo sempre preferiu acreditar no pior e não raro vira as costas para a moça. Não se iludam com o calendário, ainda hoje há famílias que expulsam a moça de casa, e não são tão poucas como pode parecer, só não são notícia.
Abandonada, com os machões do bairro (geralmente casados) assediando, com a miséria que se costuma pagar ao seu perfil e uma criança em gestação, o desespero é a porta mais próxima. Fica vulnerável às soluções "fáceis" e às idéias de jerico dos oportunistas. É facilmente convencida de que a criança é só um apêndice de seu corpo, que ninguém vai sentir as dores da gestação por ela, que ninguém vai ajudar a criar, que é melhor matar agora do que parir e fazer sofrer uma vida inteira.
A igreja? Ah, sim, claro... Acha mesmo que é tão fácil? As queixas contra a repressão prévia não são poucas. Ignorando o que o próprio Cristo aconselhou, apontam para o cisco no olho da moça e não percebem a trava de tronco inteiro que têm em seus próprios olhos. Há religiosos que acolhem sem fazer perguntas estúpidas ou reprimendas em tom de superioridade, decerto que sim, mas a misoginia ainda infecta o cristianismo. De regra, ela não consegue apoio, e no desespero aborta.
Onde está o pai? Onde? Fazendo mais do mesmo, sendo aclamado como macho alpha, e tendo a cabeça oca alisada pela sociedade, muitas vezes também pelo pai da moça.
As que conseguem resistir à tentação de interromper a gravidez não têm vida mole. Primeiro porque é socialmente aceitável pagar menos para a mulher, apesar de ela ser a maior consumidora de bens duráveis; segundo porque a pecha de mulher fácil a impele a abandonar o lugar onde viveu, e onde seria alvo de dedos e do olhar de superioridade do cretino; terceiro, mas não menos importante, por que ser mãe solteira ainda é ítem eliminatório para uma vaga de emprego, seja qual for. Ela tem que se virar. Sozinha.
Vocês talvez lembrem de um ditado infame, que os mais novos certamente desconhecem: Se a moça desanda foi culpa da mãe, se andou na linha foi pulso do pai. Esvaziem seus estômagos antes de pensarem a respeito, então analisem criteriosamente a sentença. Estômagos vazios? Então vejam a velha lenda de Adão e Eva, que já é distorcida, sendo completamente trucidada para justificar qualquer acto masculino, e condenar previamente a mulher. De cara, antes que a criança berre feito uma louca por sair da barriga, a mãe já é culpada.
Também há a tradição de desmerecer ou mesmo esquecer as heroínas. Quem se lembra de Maria Quitéira? Quem? Tomaram bomba em história ou só decoraram para passar? Corja de desmemoriados! Cliquem aqui e saibam. Mais sobre ela.  Mas de Tiradentes todo mundo lembra, né? Pelo menos os que estudaram direito, caspita! Seria muito pedir que se lembrassem de Sóror Joana Angélica, hoje Joanna de Ângelis, mentora de Divaldo Franco e, para quem quiser saber, o anjo responsável por todo o continente americano.
Elegemos uma mulher para presidente e tem muita gente reclamando. Não por questões políticas, mas por machismo. Em muitas igrejas ditas evangélicas, pastores alardeiam o absurdo que é uma mulher comandar um país. Quem é mesmo que está carregando a economia europeia nos ombros? Não ouvi. Ângela Dorothea Merkel, chanceler alemã e com quem a Dilma certamente tricotará muito... para o nosso bem, espero que sim.
Me valendo da experiência que tive quando era cético, não foi difícil concluir que o feminismo radical e misantropo que hoje se apresenta é conseqüência, não causa do machismo histórico. Basta estudar criticamente a história, usando de vários autores de várias vertentes e analisando a sociedade contemporânea.
Eu sou contra o aborto, completamente contra, a legislação brasileira já contempla todos os casos em que ele se torna realmente necessário. Mas quem sou eu para julgar quem se vê obrigada a fazer? Quem dá emprego a uma gestante? Afinal, alega-se que a gestação causa ônus à empresa, que são meses em, que a mulher "fica à toa" e recebendo, e outras abobrinhas de gente egoísta que não se dá ao trabalho de lembrar que vive em sociedade. Fora que muitas famílias levam as meninas à força para abortarem. Não são gente ignorante e sem recursos, são gente da auto proclamada alta sociedade, que prefere matar (já nascido ou não) a passar por um constrangimento. Ter uma filha que se dá à dignidade de ser mãe mesmo sem o apoio do outro, para eles, é uma vergonha imensa, simplesmente porque eles mesmos seriam os primeiros a apontar seus dedos sujos para a família que o permitisse. Novamente, a mulher é culpada para que o homem seja inocentado, não importa do quê. Afinal, o que é uma criança diante da moral e dos bons costumes da família cristã brasileira? Quando Jesus disse que um camelo passaria pelo buraco da agulha (uma falha de uma rocha que havia nos arredores de Jerusalém) antes de um rico ir para o céu, foi execrado pela sociedade. Mas me digam se ele não tinha razão? Infelizmente os ricos são grandes semeadores de machismo.
Ah, sim, também tem aquela conversa de que mulher que não dá bola é mal comida, é fria, é doente, é lésbica (mais machismo), é mulher da vida que só dá por dinheiro, enfim. Não adianta a moça tentar aparentar um puritanismo que não tem, nem tentar atenuar o que tem, será apontada e adjetivada do mesmo jeito, bastando não aceitar a cantada de um só do grupo, uma só vez.
Moças, só há um remédio, só mesmo um remédio que minha parca cultura me permite encontrar; ABSTINÊNCIA. Se neguem. Não dêem bola para ninguém. Se unam! E só se casem quando estiverem profissionalmente e academicamente estabelecidas. Sejam donas dos seus narizes antes que alguém tome posse. Primeiro amem a si mesmas, ou não vão conseguir amar a ninguém, nem filho, nem marido. Vocês não precisam disso, eles é que não podem ver uma rachadura na parede. Basta uma geração se negar até estar devidamente estabalecida, para que o machismo desmorone e não reste mais do que escombros para os misóginos se esconderem. Imagino que possa ser duro, afinal vocês são bombardeadas diáriamente para serem insaciáveis, revista atrás de revista, propaganda atrás de propaganda afirmando que sexo é como álbum de figurinhas, que é bom ter repetidas para poder trocar. Não é. Após a crise de abstinência, vocês verão que podem viver sem e usar isto como mecanismo de pressão. Afinal, é por honra à cabeça de baixo que o machismo existe. Inutilizem-na e tudo ficará mais fácil. Palavra de homem.

28/10/2010

O tio rude

Era um homem rude, de modos simples, péssimo gosto para roupas e sem jeito para meias-palavras. Ofendia sem querer, e quando queria ofender era como uma coral verdadeira.
Generoso como raros, entretanto, tinha dificuldades para discernir quem era amigo ou inimigo. Na dúvida, atacava. Geralmente se arrependia em pouco tempo, mas o remendo acabava se tornando pior do que o próprio estrago.

Tudo começou ainda na juventude, quando um bando de espanhóis atacou gente de sua família, que fazia serviços e testes na fazenda de um mexicano. O bando era temido e dava de ombros para qualquer que fosse a reação, queriam era dar uma lição da qual o mexicano jamais esqueceria, não importando a quem atingissem. E atingiram gente que nada tinha a ver com a história.

Se havia uma cousa que o homem rude não tolerava era ser agredido. Ele foi ter com a turba arrogante, depois mandou notícias do massacre, pois não restou um para contar vantagem à Espanha. O homem voltou de alma lavada, embora o luto e a tristeza pela perda estúpida tivesse deixado um trauma difícil de superar, ainda mais em uma época de recursos escassos e caros. O rosto alvo estava constantemente rosado pelas lágrimas que derramava quase todos os dias.

Na tentativa de defender os seus, acabou se tornando um vizinho incômodo, que vigiava todos ao redor e queria satisfações de qualquer actividade suspeita. Olhou demais para fora e não se deu conta que perigos maiores cresciam dentro de casa. Foi manipulado e acabou tendo seus princípios mais caros subvertidos pelos que defendia. Era gente mimada, que inventava qualquer frase de efeito ou rótulo sério para justificar seus fins, bem como seus meios, fossem quais fossem.

Com o tempo, a saúde daquele homem rude foi sendo corroída pelos remorsos e pelos lutos sucessivos, aos quais não sabia como colocar fim. Acreditava estar sendo bem assessorado pelos seus, mas quanto mais trabalhava, mais dificuldades amargava. Não entendia como as negociações que encomendava não surtiam efeito, o que sempre culminava em mais agressões, e ele se via obrigado a revidar.

Não percebia que em sua casa a cultura do trabalho árduo e honesto estava perdendo os encantos. Ser culto e útil estava perdendo espaço para a esperteza. Estavam deixando de trabalhar pelas necessidades para agir em prol de interesses. E o velho a trabalhar incessantemente, minando ainda mais a sua saúde.

Certa feita, uma sobrinha muito sábia lhe pediu para deixar de agredir os vizinhos, que assim talvez o vissem com melhores olhos e lhe poupassem a saúde. Inúmeras vezes ele já demonstrara ter bom coração, embora uma cabeça dura com miolo mole, ao acolher gente de fora como se fossem filhos. Mas a invigilância doméstica acabava gerando tensões, os que já estava lá se achavam mais iguais do os recém-chegados. A sobrinha sábia alegava com insistência metódica e diplomática, para que tentasse modificar seus actos. Ela não descansou, enquanto cuidava do tio, até convencê-lo a pelo menos tentar. Com o passar das décadas ele concordou, mas avisou que não toleraria interpretarem isto como sinal de fraqueza, ainda não confiava nas pessoas de fora. Uma contradição para quem se acostumou a acolher gente estranha para festas esquisitas. Mas ficou acertada a tentativa.

O porém é que ele já não sabia mais viver em paz, estava há tanto tempo tão tenso, que este passou a ser seu estado natural. Confiou aos seus mais velhos a condução desse plano. Justo eles, que eram mais neuróticos do que o velho e, se pudessem, mudariam a fazenda para outro planeta, desabitado, para não precisarem temer vizinho algum. Impuseram a paz na marra, com todas as contradições correlatas.

Os anos se passaram e o velho tio mantinha a promessa, mas estava doente e acamado, raramente saía, geralmente só em dias de festa, quando todos se arrumavam e se davam as mãos. Ele, com problemas de visão, não notara que sua família estava a cada dia mais desalinhada, obesa, com modos cada vez mais grosseiros e vocábulo cada vez mais limitado. Apenas confiava e voltava para sua cama, abatido e em prantos pelos lutos e remorsos que cresciam a cada dia.

Joanna voltou um dia desses. Não reconheceu nada, absolutamente nada. Os parentes, antes laboriosos e prestativos, estavam indolentes, gordos, obcecados pelos próprios prazeres e sem qualquer confiança no futuro. Ela adentrou na fazenda e foi ao celeiro. Vazio. Duas ou três sacas de grãos e um pouco de queijo, nada mais do que isso. As cercas estavam derrubadas, as plantações muito mal cuidadas, o moinho funcionando precariamente, os animais ao deus-dará, enfim, a Fazenda Liberdade estava o próprio retrato da decadência. Aquilo mais parecia um brejo do que uma fazenda, em nada lembrava a propriedade organizada e próspera de outrora.

Em um canto ela viu alguns primos rindo e contando algo. Eles a viram e tremeram, era uma das poucas pessoas contra a qual absolutamente nada poderiam fazer. Estavam especulando e contando os ganhos da especulação, tinham convencido seus irmãos de que trabalho honesto é para os trouxas, que gentileza é para maricas, que deveriam terceirizar tudo e pagar misérias para os outros trabalharem. Engoliram sêco ao verem seus olhos faiscando...

- Então vocês conseguiram. Paquidermes inúteis! Pústulas desvairados, vocês estão acabando com tudo!

Tentaram se explicar, mas a obesidade e o peso da especulação lhes tolhia argumentação e movimentos. Puxou a todos pelos colarinhos e mostrou as conseqüências de sua irresponsabilidade juvenil. Gente de fora, ressentida, depredava tudo enquanto eles ganhavam incitando os outros à agressão. Ninguém estava trabalhando como outrora, ninguém estava tentando ser gentil como aconselhara. A verdade logo emergiu e soube que haviam sabotado as tentativas, convenceram o tio de que ser pacífico era o mesmo que ser inactivo e deu no que deu. Ela correu desesperada à casa grande, subiu aos aposentos do tio e o viu combalido como nunca...

- Oh, tio! Eu pedi que não agredisse, não que não impusesse respeito!

- Eu não sei fazer isso, Joanna. Sou um velho burro e grosseiro. Agora já estou nas últimas e...

- Pára com isso! Vocês está doente, é só isso. Mas também, com esse ar saturado não tem como ficar são!

Abriu as janelas e as portas tolas do seu quarto, deixando sol e o mundo entrarem. Minutos bastaram para o velho conseguir respirar normalmente, sem corisa, sem embargos vocais. Conseguiu se levantar, mas quis voltar ao leito quando viu a paisagem desolada. A fazenda organizada e próspera tinha se transformado em um amontoado de bichos e plantas aleatoriamente distribuídos, de modo que fazia parecer que cada um tinha tomado para si parte do que deveria ser coletivo, aguçando os olhos percebera que realmente era isso mesmo. A gente bonita e elegante, que até em cadeira de rodas dava gosto de ser vista, então era uma piada de péssimo gosto daquilo que já fora. Viu ao longe pessoas estranhas invadindo e correndo de volta, assim que conseguia fazer algum estrago, sabiam que batendo de frente seriam dizimados sem esforço. Então alguém olhou para cima e balbuciou "T-t-t... Tio!!!!", e todos fizeram o mesmo. A vergonha e o medo diante do olhar severo de reprovação do velho Samaritano eram maiores do que podiam esconder. Ele os fitou por tão longos minutos, que alguns não percebiam a frouxidão de seus intestinos. O velho respirou fundo contando até dez e foi o mais educado que conseguia naquele contexto...
- TODOS DE VOLTA AO TRABALHO!!! AGORA!!!!!!!!!!!!!

Era uma lástima ver aquelas figuras disformes tentando tirar seus corpos acomodados da inércia. Uns fracos pela anorexia, outros tentando vencer as centenas de libras inúteis acumuladas na gordura, outros ainda as travas que a preguiça impusera. O velho estava decepcionado. Nunca esperou que fossem santos, mas tampouco que se atirassem no abismo do egoísmo com tamanha volúpia. Olhou para a sábia sobrinha, que então lhe dava carta branca, apenas aconselhando que cuidasse também de si. Ele concordou e perdia rugas a cada palavra decidida que proferia...

- Eles vão ver. Esta fazenda voltará a ser o que era e melhor! Se é de disciplina que precisam, eu tenho um trem inteiro para dar a cada um deles.

Os músculos se tonificavam a cada passo e Joanna se alegrava. Pôs os pés para fora pela primeira vez em quase um século, vendo todos tentando arrumar o estrago. Deu ordens expressas, avisou que deveriam deixar tudo como estava para só depois pensar em melhorias, e que passaria a vistoriar tudo pessoalmente. Nem que leve mais um século, porá tudo nos trilhos novamente.

Alguns chegaram a pensar que estivesse morto. Voltou para dentro, ajudar a sobrinha a arrumar a casa, ao som de uma vitrola que há muitas décadas não ouvia.

22/10/2010

Só aparências

Vamo comer uma pizza, meu.
Todos a viam desfilar com sacolas de marcas caras ao menos três vezes por semana.
Os grandes amigos de outrora não sabiam explicar como ela conseguia, esperavam vê-la aos pandarecos, deprimida e completamente humilhada. Mas não, ela fazia questão de desfilar naquele Mercedes-Benz conversível em baixa velocidade, esfregando nas suas caras a boa situação que exalava. Pelas regras da hipocrisia diária, eram obrigados a cumprimentá-la e desejar-lhe bom dia, embora a vontade fosse roubar seu carro e a atropelar com ele.
No shopping, era sempre vista pagando contas no caixa electrônico, para depois entrar nas lojas e lanchonetes. Os vendedores reconheciam a cliente exigente que era, quase nunca tinham o que ela procurava, mas viam sua persistência quando, no estacionamento, colocava as sacolas no porta-malas. Seletiva, já tinha banido algumas marcas de sua lista.
Não bastasse tudo isso, era vista dando um show de civilidade no trânsito, sempre respeitando a sinalização, dando a vez aos pedestres, nunca buzinando e se mantendo à direita. Se tivessem um pouco de vergonha, se envergonhariam. Mas só têm despeito, arrogância, egoísmo. Já mandaram toneladas de fofocas e calúnias para as colunas sociais e ela nem demonstra contrariedade. Se mostra altiva, superior, andando firme e a passos largos, estampando "PODEROSA" nas legendas e pensamentos alheios.
Quando a abordavam ela cumprimentava civilizadamente, mas mantendo a devida distância. Foram meses calando bocas e baixando cristas até que um dia sumiu. Mudou o e-mail e migrou o blog sem avisar a ninguém. O celular caríssimo, com a linha, foi dado de presente para uma empregada fiél, mas que não pôde acompanhá-la por causa da família.
Vendeu as empresas por bem mais do que pensavam que valessem. Queriam comprá-las a preço de banana e demorar a pagar por elas, talvez até enrolando para que nunca precisassem pagar. Em um meio onde todos se toleravam por conveniências, ela parecia ter se tornado desinteressante quando o marido morreu. A cena que os jornais mostraram era para fazê-la dar cabo de si; ele e dois garotos de programa nus, em um motel de quinta categoria, com sintomas de overdose, os três mortos. Nos primeiros dias ela até que sofreu um recolhimento forçado, mas depois emergiu diante de olhares incrédulos. Não conseguiram encontrar um só podre que justificasse sua boa fase, nem mesmo um amante socialmente inaceitável. Nada.
O que ninguém sabia porém, era que tudo não passava de aparências. No primeiro mês, para preservar a própria sanidade, colocava suas próprias roupas em sacolas de grifes caríssimas, preferencialmente daquelas que não perguntam e não dão informações sobre sua clientela, e saía pelos centros de consumo mais caros da cidade. Não sabia até quando o dinheiro que tinha duraria, então parou de gastar com supérfulos por puro instinto de sobrevivência, mas não poderia dar àqueles hipócritas o gosto de verem-na na sarjeta. Passou a andar bem devagar com o SL600 para poupar combustível e peças, mais que para respeitar o limite de velocidade. Redobrou os cuidados com a condução para evitar acidentes, bem como para não receber as multas que já não poderia pagar. Civilizou-se na marra.
Comprava pouco, mas não comprava peças baratas, comprava peças duráveis e do melhor acabamento, no fim das contas economizava. A alimentação ficou natural também na marra, fez a contas e descobriu que assim economizaria com cosméticos, pois para dar andamento aos seus planos não poderia descuidar da boa aparência. Dormir e acordar cedo fazia parte da nova rotina.
Tudo o que exibia não passava de aparências, tão somente aparências. Mas não foi isto que lhe ensinaram para fazer parte da "sociedade"? Pois aprendeu e se tornou melhor do que os mestres da hipocrisia. Ninguém podia imaginar que ela passava o dia fazendo contas, remanejando despesas e cortando supérfulos. Aprendeu a usar as revistas de sodoku para fingir que se divertia, quando estava era calculando o orçamento do mês. Estava vivendo muito modestamente, na verdade, mas dando a entender que nunca estivera em melhor situação financeira. Desfilar e sumir repentinamente lhe dava um ar principesco.
A bem da verdade, quase que deu cabo de si, realmente. Foi proibida pelo marido de trabalhar, teria que ser a "rainha do lar", e na sua concepção uma rainha era uma peça meramente decorativa. Sua inteligência era sumariamente ignorada, preferiam vê-la a ouvi-la. Todos a incentivavam ao casamento por interesse. O ex-namorado, hoje casado, vive bem, sem problemas e a esposa não passa pelos sufocos que foi obrigada a engolir calada. Ninguém aceitava ouvir que ela não era feliz, já que a parte material estava suprida e é só o que lhes interessava. Amor não valia nada, afinal não enche barriga. Só o que não levavam em conta, e viu de perto, era a infelicidade generalizada de pessoas que se vendiam umas às outras diariamente, para dar satisfações ao terrível "deus sociedade". Suicídios de "amigas" que foram abafados e registrados como taquicardias, derrames e outras doenças corriqueiras eram comuns, afinal tinham os donos de jornais nos bolsos e precisavam iludir a si mesmos para que não fizessem o mesmo. Precisavam e ainda precisam que o mundo acredite que suas vidas são felizes e perfeitas, para que possam ouvir isto de quem não conhece suas realidades e assim programar seus cérebros para acreditarem na mentira. E quer mentira maior do que o colunismo social pago?
Sim, ela soube de ricos felizes, mas eram poucos. Fizeram algo que eles jamais cogitariam, temendo o que os outros pudessem pensar: desceram do pedestal. Não admitiam não serem vistos como seres superiores.
As photographias de jornal, as matérias de televisão, tudo falso. Era constantemente ameaçada pelo marido para que não desse vexame, especialmente quando começou a desconfiar de seu gosto por rapazes. Ele não podia deixar a fama de machão cair por terra, era o seu status. Ser homophobico em nome da sua religião era o que mais lhe dava aceitação social em seu meio. Com esta aceitação conseguia obter negócios e negociatas mais vantajosos. Precisava ser cada vez mais agressivo diante da esposa para preservar seus porões. Não era à toa que raramente visitava a família, nunca sem ele por perto. Foi obrigada a abortar porque ele acreditava que a criança não seria um menino. Tudo acobertado. A fiscalização não aparecia, pois sempre havia um deputado para "defender a moral da família brasileira" e evitar um escândalo, não raro com capangas.
Sem filhos, apesar do sofrimento, tudo ficou mais fácil. Sem que os outros vissem, cuspiu no caixão e ficou lá até ter certeza de que estaria bem enterrado. Mandou colocar duas placas de cimento para que não houvesse a mínima chance de ele conseguir sair, se aquilo fosse apenas catalepsia. Foi para casa ver o que faria da vida. Ficou vários dias se informando, estudando e tomando ciência de tudo o que ele não lhe permitia saber. Conseguiu saber o suficiente do patrimônio para traçar sua estratégia. Por ironia, a tragédia seria sua tábua de salvação. Viu seu algoz ali, morto, frio. Viu o caixão ser fechado e não saiu de perto até ter certeza de que estivesse bem travado. Não deu no pé até ver as mudas de guiné serem plantadas no túmulo. Seu trauma estava morto e enterrado. Fora o que lhe ensinaram não fora? Estava agindo por interesse pessoal, e seu interesse era se livrar daquele mundo falso, daquela bolha de aparências que ajuda a manter o país no terceiro mundo. Desde a viuvez que suas imagens na mídia eram ignoradas, de "dama da sociedade" passara a ser apenas uma figurante sem importância. Admirou ainda mais os cães desde então.
Pediu segredo aos pais, contou tudo pelo que passara e o que pretendia. A família toda recomeçaria a vida em São Paulo, onde o anonimato do indivíduo garantiria sua retomada. Eles foram primeiro, para a casa de uma parente distante, até a mobília chegar ao apartamento comprado.
Parte de sua estratégia foi não mais publicar balanços das empresas, que iam mal, mas não como se pensava. Abriu perfis falsos em redes sociais para sondar possíveis compradores, em quem concentrou esforços e conseguiu os frutos devidos. Enquanto os chacais sociais idolatrados pelos jornais esperavam com as moedinhas em mãos, ela desmembrava e vendia cada empresa, tendo o cuidado para só oficializar tudo na última hora. Nem mesmo seus gerentes, tão más figuras quanto o falecido, souberam até ser tarde demais. Foi deles que partiu o alarme tardio que pegou a todos de surpresa.
E lá ia ela, exibindo uma prosperidade que não havia, uma civilidade forçada, uma vida ainda mais falsa do que a daquela gente. Tão falsa que parecia verdadeira. A única cousa verdadeira estava de mudança para São Paulo, próximo à subprefeitura de Pinheiros. Lá ninguém lhe conhecia, ninguém sabia de seu passado nem estava interessado em sua tragédia. Ninguém além da família. Tanto melhor, estava conseguindo superar tudo sozinha. Sempre esteve sozinha, não era a presença daquela bicha troglodita que coçava as partes a toda hora que revertia a solidão.
São Paulo gosta de quem trabalha. Ela estava entrando de sócia em uma pizzaria vinte e quatro horas, que só precisava desse investimento para deslanchar. E foi tão bem recebida nas vezes em que esteve lá, os nativos desmentiram na prática tudo o que se falava da cidade. E o que ela fazia naquele casamento de araque nada menos era que trabalho árduo, em regime de semi-escravidão.
Mas acabou! Deu tudo o que não vendeu de presente para as empregadas, inclusive as casinhas em que moram, viajou pra Brasília, lá vendeu o Mercedes e voou para São Paulo. Os pais a esperavam ansiosos em Guarulhos, onde o choro típico do nascimento delongou por quase uma hora. Vida nova.
Acabou! A vida de aparências acabou! Está livre! Nunca mais quer rever aqueles arremedos de pessoas. Nunca mais precisará dar beijinhos em açougueiras que posam de boas cristãs. Nunca mais terá que aparecer ao lado de políticos que acabaram que vender seus eleitores para quem pagou mais. Poderá tacar tomate podre neles sem medo. Plantará e cultivará amigos de verdade, companheiros para assegurar sua sanidade mental, fará o que aquela vida falsa não lhe permitia. A vida começa hoje, e o que é melhor, pizza grátis todos os dias.

17/10/2010

Mitos sobre o antigomobilista


Muitos. O velho hábito de as pessoas confiarem no que ouviram falar por aí, em vez de se darem ao trabalho de sair do sofá e investigar um pouco, faz os clubes de veículos antigos parecerem uma sociedade secreta, com acesso restrito e ritos sacros de iniciação. Não imaginam que pessoas comuns fazem e mantém esses clubes, para preservar a memória e fomentar eventos culturais que atraem a cada dia mais simpatizantes. provavelmente vocês conhecem um antigomobilista e não se dão conta. Eis os enganos mais freqüentes:
  • Todo antigomobilista é rico;
Bem, eu não sou, nem tenho ainda um carro de coleção, mas sou antigomobilista divulgador. As pessoas não acreditam quando digo que um Ford A 1929 pode ser comprado em boas condições por menos de sessenta mil reais, e que há quem fabrique peças para ele no país. Decerto que se o sujeito for escolher a nata, só os clássicos raros pelos quais os olhos da cara são uma bagatela, precisa ter bufunfa, infraestrutura, mão de obra qualificada à disposição e um espaço só para os carros. Mas via de regra, passou de trinta anos já é um colecionável, basta ter no mínimo 85% de originalidade e estar em condições de ser exposto. Quem é classe média, tem uma situação estável, mas não pode comprar um BMW na loja, pode se dar um Landau de presente. Ou uma Chevrolet Biscaine Wagon 1965, para passear com a família toda. Quem tem um Corcel I quatro portas em perfeitas condições, sabe o que tem e o quanto os amigos antigomobilistas apreciam suas linhas simples e fluídas.
  • Carro de coleção é tudo importado;
SP2, Itamaraty Executivo e o DKW Fissore são cobiçados lá fora, e têm origem totalmente nacional. O Brasil tem um leque de modelos que foram adaptados ou redesenhados para a realidade nacional, como a fase quadrada do Aero Willys e a Rural Willys com frente bicuda. Os Volkswagen feitos até 1976 eram todos redesenhados para o Brasil, sendo Brasília um modelo exclusivamente nosso, foi exportado e é bem cotado lá fora. Não precisa ter pertencido a Grace Kelly para ser colecionável, um automóvel antigo reflete a sociedade de uma época e é isto que o torna desejável. A sociedade brasileira é única. O Fiat Oggi é menosprezado pelos brasileiros leigos, mas é um desenho único feito a partir do Fiat 147. Lá fora, se sabem da pechincha que quem pode não está aproveitando, logo ficamos sem nenhum exemplar restaurável. E é um carro para uso cotidiano, econômico, espaçoso e com boa visibilidade.
  • Eles guardam seus carro a sete chaves;
Há os egoístas que querem tudo só para eles. Sempre há esses murrinhas que, logo após o último suspiro, têm sua coleção totalmente vendida pelos herdeiros, a preço de banana. Mas a maioria gosta que as pessoas usufruam de uma visão bonita e classuda, o que os carros antigos oferecem de melhor aos passantes. Antigomobilista de verdade usa sua coleção, a coloca a seu serviço e de sua família, pois é para isto que os carros existem. Conheço muitos colecionadores que têm muitas banheironas americanas, com bem mais de cinco metros, e as utilizam normalmente, sempre usando gasolina da melhor qualidade, mantendo a máquina sempre prefeitamente regulada, pneus bem calibrados e aproveitando para apreciar a paisagem, em vez de exibir cavalos-vapor a cada esquina. Passear em um Cutlass de capota baixa é uma experiência a que todos deveriam ter direito.
  • Não existe mulher no meio;
Engana-se quem pensa que antigomobilismo é o clube do Bolinha. Antigomobilista de verdade tem ciência de que os carros de época foram desenhados, em parte, pensando nas mulheres. Não faz sentido um hetero comprar um Cadillac Eldorado 1966 e dar carona para cinco machos; são seis lugares e um porta-malas igualmente espaçoso. Eis aqui o que digo, clique. São muitas mulheres no ramo, afinal antigomobilistas costumam viajar bastante e ninguém quer arriscar, pois um Jaguar XJ6 chama muita atenção por onde passa e as pistoleiras não dão folga. Também engana-se quem pensa que só senhoras, que se fantasiam de melindrosas, em festas à caráter integram o pelotão feminino, a juventude antigomobilista é discreta, mas é pujante Moças e moços que têm ciência de que o sangue é feito basicamente de ferrugem, a não ser que tu sejas um caranguejo-ferradura, o teu também é.
  • Não existem muitos eventos no Brasil;
Existem sim, muitos, todos os meses, praticamente todos os dias, só que a imensa maioria ainda é amadora e não tem muito espaço na mídia, mas é questão de tempo e perseverança. Calendários oficiais podem ser conferidos, nacionais e internacionais, aqui e aqui. Há na barra de links ao lado, um para o melhor blog de carros antigos que conheço, do amigo Nikollas, de Niterói, bem como um especilaizado em Fuscas e derivados, do amigo Guilhon; ele, aliás, é um franco divulgador e organizador de eventos de mão cheia. Há também um para o meu álbum no flickr, de acesso livre e reprodução para uso estritamente pessoal liberado. Águas de Lindóia é o topo dos eventos, ainda não tem rival à altura no Brasil. A cidade fomentou os encontros quando ainda eram vistos como lazer de rico que não tem onde enfiar o dinheiro, hoje Águas de Lindóia e Antigomobilismo brasileiro são sinônimos, veja aqui. Como lá fora (Peeble Beach, Autoclássica, et cétera) a economia nacional começa a sentir os efeitos fortificantes e aceleradores do antigomobilismo. Peeble Beach, aliás, é o ápce do antigomonilismo mundia. Veja aqui. A Autoclássica acontece na Argentina e é de deixar qualquer especialista de queixo caído, vale à pena ir lá, no ano que vem, porque o evento deste ano já acabou.


Mas não é só de quatro rodas que vive o antigomobilismo. Já começou, até mesmo em Goiânia, a aparecer gente que coleciona e restaura bicicletas antigas, Lambrettas, Vespas, Xispas. Também há os tratores, caminhões e ônibus, que retratam a parte mais dura da sociedade de sua época. E, dica, um Caminhão Chevrolet C60 em bom estado pode sair mais barato do que uma picape semi-nova.

Junto com os veículos, o interesse por objectos e roupas de ápoca, ou no estilo de época, também cresceu absurdamente. No exterior é comum haver feiras onde as pessoas se vestem como nos anos de 1920 até 1960 por uma semana ou mais, depende da disponibilidade de tempo e dinheiro. Por aqui os brechós estão fazendo a festa, pelo menos no eixo Rio-São Paulo. É a memorabilia, que já tem tamanha força, que estão voltando a fabricar os antigos discos de vinil. Vantagem? Se uma faixa arranhar, as outras funcionam, e não precisam de codificação de área para cada país, colocou na agulha, ele canta. Queens of Vintage é um site que trata exclusivamente sobre o assunto. Também My Vintage Vogue, que é referência quando o assunto é roupas de época.

Resumindo, qualquer um pode ser antigomobilista. Em nossos países vizinhos a auto e a memorablia são naturais, ninguém estranha quando alguém diz que ganha a vida comercializando móveis com estilo de época, ou fazendo roupas afins. E esta oportunidade de emprego honesto não tarda a fincar definitivamente raízes no Brasil também.
Agora que vocês já sabem, dêem uma olhadela nas bancas de revistas, terão uma grata surpresa.

Um adendo: Isto é cousa que poucos antigomobilistas brasileiros conhecem, um museu de microcarros, que foram febre na Europa pós guerra. Clique aqui.

15/10/2010

Sing for me, Karen


Mais um aniversário difícil de celebrar, Karen. Teu silêncio lugubre me gela o peito e a espinha. Você não me responde mais, nem com uma malcriação.
Faz tanto tempo que não ouço tua voz, que praticamente só me lembro dela. Ainda a tenho cristalina e sedosa como sempre fora, enternecedora de tal modo que só mesmo você poderia ter assim cantado. Me lembro melhor do que me cura que daquilo que me fere, foi assim que perdoei tudo quanto aprontou comigo e nossos pais, Karen. E sua voz não escondia o anjo detrás das malcriações. Quem te conhecia como nós te conhecíamos, sabia quem você realmente era.
Eu deveria ter ficado mais atento, ter cuidado de você como prometi para mamãe.
Está tudo gravado, mas não é você. Posso ouvir e re-ouvir tantas vezes quantas quiser, mas mesmo hoje nenhuma tecnologia de gravação faz juz à tua cantoria. Hoje é fácil ter vídeos a qualquer momento, mas eu não posso conversar com um vídeo. Com você eu ria, chorava, bradava ou ficava perplexo; nossos vídeos só me deixam triste. Deve ser uma doença, porque eu sempre quero ver de novo. Às vezes fecho e saio, mostrando que está tudo bem, mas a minha vontade é de entrar no vídeo e te abraçar de novo. Uma vez só.
É triste lembrar que hoje é meu aniversário, Karen. Estão todos à minha volta, querendo me ver sorrir, saber do carro que adquiri para minha coleção, da melodia que compus ou em que tenho trabalhado. Mas eu só quero chorar, Karen! Eu só quero chorar!! Mas tenho que manter a armadura para que os outros também não fiquem tristes.
Eu tinha que ter cuidado melhor de você, mas você não deixava! Orgulhosa, sempre disse para não nos metermos, que estava tudo sob controle, que sabia o que estava fazendo! Você demorou demais a perceber que precisava de ajuda, Karen!
Você não era só uma irmã para mim, era mais como minha filha! Eu tinha que ter cuidado de você!
Hoje estão todos à minha volta, me felicitando, me abraçando, querendo que eu cante o que cantávamos juntos! Não havia e-mail na nossa época, tem a ver com computadores e linhas telephônicas de alta velocidade. São milhões de fãs, Karen! Até hoje me mandam e-mails, cartas, presentes, dizem que nossas canções mudaram suas vidas. Até hoje muitos escrevem chorando e eu tenho que consolá-los, quando eu mesmo mal me agüento em pé, mal consigo digitar enquanto minhas lágrimas molham o teclado!
Já são quase trinta anos. É uma vida. Uma vida inteira sem você.
No meio de tanta gente esnobe, com pretensões de parecer intelectual, moderna, descolada, você era uma caipira convicta e assumida. Ser tão verdadeira não é bem visto por este mundo cretino, Karen. Com você as meias-palavras eram papel-higiênico, mandava passar naquele lugar e "ai" de quem achasse ruim. Eu ficava bravo, mas depois ria. Você falava o que ninguém tinha peito para tanto. Eu gostava de te ouvir.
Por que você fez isso comigo? Por que não aceitou ajuda quando oferecemos? Eu nem posso mais ficar puto com você, porque cada vez que começo a ficar, fico também com saudades e choro!
Você não era só sua, Karen. Você tinha um pedaço meu também, um pedaço grande do meu peito! Hoje eu falo e você não responde, nem com uma malcriação! Nem com a língua de fora! Nada!
Hoje é meu aniversário, Karen, e eu só queria te ouvir de novo. Hoje fiquei mais velho e você não ligou nem para zombar da minha careca crescente. Não disse que estou ficando gagá e esclerosado, que só posso comer papinha.
Quando quis, você sempre foi carinhosa, como com aquelas crianças no Japão, cantando em japonês... Quantos cantores americanos sabiam balbucear, quanto mais cantar em japonês? Só você mesma para se dar a tanto trabalho. Eu me lembro, mas perdi as contas, de quantas vezes foi comigo também. Eu compreendo, o mundo não era bom o bastante para você e hoje, acredite, consegue ser bem pior em muitos aspectos. Foi bom... Foi este o problema, ter sido bom.
Foi bom demais, Karen. Apesar de tudo. Tão bom que me viciei e sinto falta. Eu ando para frente, mas sempre olhando pelo retrovisor. Não é excesso de cautela, é para tentar te ver.
Você levou muito de muita gente consigo. Não deu para ser o mesmo depois que você foi embora, ninguém é o mesmo desde aquele dia. Há momentos em que eu penso que a dor vai me matar, talvez fosse melhor ter um câncer, que me daria a certeza de que tudo acabaria em breve.
Eu agüento, você sabe. Tenho responsabilidades e pessoas dependendo de mim, preciso agüentar firme até o fim. Mas você me conhece, sabe que não é tão fácil quanto faço parecer. Minha vontade era cair da cama e acordar, então te ligar e ouvir você me xingando por ter te acordado tão cedo por uma bobagem... Mas eu sei que estou acordado. Durmo todas as noites e acordo sem que algo tenha sido só um pesadelo.
Give-me a last wish, please... Sing for me, Karen!

13/10/2010

Deus çauvi a engenoransa

O sistema de transporte público de Goiânia não piorou, ele faliu. Mas não foi só o serviço em si, também a clientela parece ter regredido à idade média. Já acostumado ao comportamento barbaresco que o goianiense adoptou (não sei por que raios um povo outrora contido e aprazível o fez) o conteúdo dos diálogos me faz querer bater a cabeça na parede até desmaiar, para não ter que ouvir. Melhor ouvir um tuberculoso tossindo.

Voltando hoje do trabalho, eis que entra logo atrás de mim uma mocinha com um bebê nos braços, aquela que mais parecia o ursinho Puff com anorexia. E sentou-se logo atrás de mim. Fora o bafo de matar que soltava a cada palavra, não pensei que fosse me fazer mal maior. No ponto seguinte entra outra, que bem poderia ser photoshopada e ficar com a cara do Pateta da Disney, seria fácil.

Enquanto eu fazia cálculos mentais para a construção de uma perua, para quando tiver cacife, no mínimo setenta mil reais, ambas conversavam sem chamar a minha atenção até que uma, a com cara de Pateta, disse que o candidato ao governo do Estado Marconi Perillo, é maçom e que por isto teria pacto com o diabo. Disse que o flagrou em Porto Seguro entrando "num portãozão de ferro" de uma maçonaria, e que ele fechou o vidro do carro quando foi reconhecido. Primeiro, que quem conhece aquele homem sabe que ele não tem medo de ninguém; segundo, que se ele estivesse cometendo algo ilícito e fosse reconhecido, ela não estaria viva para contar. E elas falavam com a boca cheia "Pacto com o diabo", falavam com gosto tamanho que eu pensei que fossem ter orgasmos no ônibus. Vai gostar do cramunhão assim no inferno! Alguns dizem e asseguro que é verdade, muitas igrejas que se dizem cristãs são satanistas, pois vivem à sombra daquele imbecil que há milênios só dá desgosto. Quando descobrirem que ele não está mais na Terra, provavelmente se matam por falta de objectivos de vida.

E ainda afirmou que os maçons têm um segredo que não podem contar para  ninguém, nem para as esposas, de tão terrível que é. E que as viúvas ficam só com a casa e a pensão porque a maçonaria toma tudo de volta quando o membro morre. E que conheceu um coronel que morreu e deixou a viúva pobre, porque a maçonaria tomou tudo porque tinha pacto com o diabo. E que o Bush é maçon e foi ele quem atirou os aviões nas torres gêmeas. E também que o Obama é maçon e vai atrair mais desgraças para o mundo. E todas as desgraças que aconteceram nos últimos tempos o foram por influência da maçonaria. E que todo mundo que é educado, gentil, caridoso, atencioso e bem sucedido é maçom porque só o diabo consegue dar cousas boas. Salve-se quem puder, que o capeta é mais forte do que Deus!
De cara a anta disse que O Criador é grosso, egoísta, indiferente e miserável e só dá cousas ruins. Isto explica em parte a péssima impressão que aquela criatura me passou. Então vem um ateu com um por cento da minha parca cultura, despeja seu conteúdo científico e todo mundo lhe dá razão. Ele diz que Deus não pode ser homem, porque então percisaria ter nascido, então teria sido criado, então não seria o criador, mas criatura. Um raciocínio muito simples, mas que está muito além das possibilidades da Patetolina e da Puffolina, porque raciocinar implica em ter autocrítica. Elas não têm.

A certa altura, apareceu uma criatura que tentou esclarecer tudo, disse que é tudo conversa de pastores picaretas, que trabalhou por dez anos em casa de maçons, que era casca-grossa quando entrou e saiu (por que, burra?) socialmente aceitável, e que só saiu porque (burra! burra! burra!) tinha se cansado de trabalhar em um lugar só. Que seus patrões ainda hoje são finos, jamais discutiram por bobagem, nunca deram barraco (a burra ainda tem contacto e não volta para lá) e et cétera. A cara de Pateta, foi dar aquele risinho de escárnio que crentes chatos e arrogantes costumam dar a quem os contraria. Pasmem, ela riu igual ao Pateta. A Ursinha Puff com anorexia já tinha descido, pelo menos respirar direito eu já conseguia, mas meus neurônios estavam ameaçando fazer greve com aquele conteúdo teológico de jerico. Bem, a Mrs Pateta se ocupou tanto em falar do que não conhece e insistir que tinha a nota fiscal de compra da verdade, que perdeu o ponto em que deveria ter descido. Com alívio e a cabeça zunindo a vi descendo apressada. Mas daí um sujeito começou a falar com a (burra! burra! burra!) ex-empregada do maçom, reiterando que o diabo tem muita força e eu comecei a rezar. O ônibus já estava andando e não abriria a porta em movimento, e o trânsito o deixava lento, e a janela não tem abertura suficiente para eu passar. Socorro! Mas consegui descer antes de ter um AVC.

Algo que a monga deixou claro é que NUNCA CONHECEU UM MAÇOM, NUNCA ESTUDOU A MAÇONARIA, JAMAIS SEQUER LEU TEXTOS SÉRIOS A RESPEITO. Só sabia o que o pastor falou. Não, eu não sou maçom.

Eu sempre digo que o maior semeador de ateus é o cristão ignorante. Imagino a legião de céticos radicais que aquelas duas podem gerar. Se já não geraram em suas próprias casas.
Mais triste ainda é saber que das faculdades estão saindo "profiçionaus" com a mesmíssima mentalidade, só diferenciando pelo verniz da retórica ululante que aprendem. É uma época triste. Temos tudo na mão para evoluir como gente o que não evoluímos desde que a humanidade caiu na Terra. Para piorar, não precisamos procurar essa gente, ela nos encontra. Se eu disser "Abba Pater" em um suspiro, logo aparece uma turba querendo me exorcizar. Inclusive na internet, para a qual o brasileiro costuma ser uma praga virtual. Na verdade, se eu o disser perto de certos parentes, eles vão querer me exorcizar.

Antigamente eu reclamava que a maioria simplesmente memorizava a bíblia, alguns só o velho testamento, e depois se julgavam pós-doutorados em teologia cristianista. Era um horror ver gente semi-analphabeta interpretando tudo ao pé da letra e fazendo ameaças a quem não os acatasse. Hoje o horror se tornou o fim do mundo, porque nem ler as pessoas se dão mais ao trabalho. No máximo pegam uma resenha comentada pelo pastor Fulano, porque a bíblia é muito grande, muito difícil de ler, Tico e Teco estão com sono e não querem perder tempo raciocinando. Nisto pegam passagens absolutamente contextuais (como a proibição de consultar os espíritos) e aplicam a tudo, sempre ao pé da letra. Só falta devastarem de vez o cerrado para terem um deserto onde vagar por quarenta anos. Se quiserem fazemos uma vaquinha e pagamos a passagem, só de ida, para a África. Para quem não sabe, o nosso Velho Testamento foi todo tirado da Torat, o livro sacro dos judeus. Quem só segue o velho testamento está sendo judeu, não cristão. Pior, um judeu de meia-pataca porque não é o livro completo, e também porque a tradução para o português é extremamente porca, e porque mesmo com tanta facilidade não conseguem interpretar porcaria nenhuma. Pior, os judeus que conheço afirmam que é um livro de história, um noticiário com alguns romances e parábolas, que jamais deveria ser levado ao pé da letra. Letra tem chulé. É um livro de aprendizado, não necessáriamente uma constituição de regras rígidas de como se deve viver.

Falar do Concílio de Nicéia, então, nem pensar, neam.

Neste cenário é fácil vocês imaginarem porque tanto cristão-caiado tem tanta facilidade em pegar qualquer um, qualquer cousa, para ser o anti-cristo da vez. Se houver segredos então, melhor ainda, o que não souberem suas cabeças ocas inventam. O problema é que só se inventa o que falta. Eles mesmos percebem as imensas lacunas que há naquilo que dizem, então, por medo do inferno ou seja lá o que for, pegam qualquer arquivo na memória e emendam, fazendo um tapete de retalhos o qual se esforçam para proteger dos pés alheios. E os outros aceitam as emendas como verdades, e os outros divulgam as emendas como verdades, e os outros fazem ainda mais emendas e as tomam como verdades, e onde foi que amarrei meu burro?

Mas, sabem? Eu mereço ouvir isso. Mereço mesmo. A última leva de espíritos que voltou para o paraíso perdido partiu no Alto Egito e eu ainda chafurdava na lama de meus instintos baixos. Oh, Mestre, a culpa é só minha! Eu fui incompetente! Eu não me preparei e perdi a viagem de volta! Eu mereço! Deixei meu cérebro permanecer do tamanho de um amendoim, enquanto milhares de irmãos já philosophavam como ainda hoje não se consegue mais. Eu mereço! Mas me redimirei combatendo a ignorância. Se não pude voltar à Capela, ajudarei a construí-la na Terra, e em qualquer planeta em que me enfiarem.

Ah, só mais uma cousa: Burra! burra! burra!