23/01/2010

Ah, a marmeleira!

Só se olha com saudades para o passado quando o presente não dá conta do recado, e o futuro anuncia que pode ser ainda pior.
Há lugares aonde só vou arrastado, pelo mínimo possível de tempo, o shopping center é um tipo desses. Pior ainda quando cheio de adolescentes ou crianças mal criadas.

Certa feita, entro em uma fila para pegar meu pacote, havia uma festinha infantil para dali a uma ou duas horas. À minha frente havia uma mulher que demonstrava claramente seu despreparo para a função de mãe, o fedelho mexia teimosamente em um boneco horroroso e todo empelotado, que mais parecia uma biba de cademia do que o Wolverine...

- Carlinho, pára de mexer! Pára, Carlinho. Carlinho, não mexe. Eu não vou levar a sua picapinha! Carlinho, não mexe que o homem tá olhando!...

No decorrer da ladainha, o moleque não dava a mínima para o que ela dizia. Não sei qual dos dois merecia mais um correctivo, talvez uma vara de marmelo nos glúteos. Sei que tirei o brinquedo horroroso do lugar assim que ele virou as costas e saiu, embora a mãe ainda estivesse na fila. Brinquedos horrorosos, aliás, estão tendo safras recordes há anos.

Já fora da loja e longe do ar condicionado inexplicavelmente no máximo, vejo mais exemplos de uma geração que dará continuidade às gangues, no que depender de seus pais. Molecotes onde a espiral genética precisa ficar dobrada, por falta de espaço, dominando os marmanjos com "Eu quero é agora!" ou chutes impunes no tornozelo. Depois de "Ai, machucou o papai" fiquei em dúvidas sobre quem deveria jogar pelo vão, dois andares abaixo, mas logo descobri que me tornaria um serial killer. A doença se alastrou.

Nas praças de alimentação o festival de desperdícios ratificava minha posição. Pratos e copos deixados pela metade davam uma idéia clara do que acontece no ambiente doméstico. Fora aqueles pezões enormes a obstruírem a circulação entre as mesas, que já são muito próximas para o meu gosto. Para alguns deve parecer humilhante não deixar ao menos uma colher sobrando no prato, ou não pedir um king full size quando um sanduíche médio já satisfaria.

"Com licença", "me desculpe", "por favor" e "obrigado" parecem ter se tornado atestados de inferioridade social, tanto mais quando mais jovem o indivíduo. Verdadeiros reizinhos.

Eu não sou a favor de maus tratos, sei muito bem a discrepância de forças que há entre um adulto e uma criança. Muitos canalhas se valem do argumento de "educar os filhos" para descarregarem neles tudo que não podem descarregar do mundo, ou naquele policial enorme que mandou tirar o carro da vaga para deficientes. Um dia os filhos ficam grandes e eles ficam velhos.

Fora isso, uma orelha puxada no acto da birra produz efeitos miraculosos, dá direitinho o recado e a noção de causa e conseqüência. Porque se a família não der a educação necessária, o mundo lá fora vai fazê-lo da pior forma, agrava muito se o adulto de então não souber lidar com frustrações.

O chefe (ou o cliente) não vai admitir ser maltratado, será demissão no primeiro chilique, para que o mau comportamento não se dissemine na empresa. Entre perder um cliente e perder um empregado encrenqueiro, ele não terá dúvidas.

Vi naquela fatídica tarde uma geração inteira totalmente despreparada para o que a vida mais oferece, lições que são tão duras quanto maior for a incapacidade de aceitá-las. Mesmo para quem nasceu e cresceu na adversidade essas lições podem ser traumáticas, mas este consegue digerir, quem foi mimado não consegue nem mesmo acreditar nela.

Ser agressivo, bruto e tirano com os pais não é "normal" nem "cousa do mundo moderno", é animalismo. As pessoas estão achando normal ter um bicho que morde, se suas vontades não forem feitas na hora, como se a única utilidade da família fosse lhe dar prazer; mais ou menos como achar normal o cão segurar o dono pela coleira.

Também ajuda a estragar quando os pais acham que ter recursos, é ter obrigação de dar tudo o que puder para quem não precisa e não merece. Saber quanto custa ganhar algo não é chantagem, não sei de onde os pais tiraram que uma criança não deve nem saber que existe dinheiro, quanto mais o trabalho que dá para ganhá-lo.

Para quem acha que uma palmada dói, advirto que a polícia bate muito mais forte e com muito mais vontade.

16/01/2010

Casar é moderno

Pode parecer que bebi, ainda mais com tanta gente dizendo o contrário, mas casamento é muito moderno, um tremendo avanço.

Antigamentíssimo, o sujeito só tinha compromisso com suas próprias necessidades mais básicas. Comia, dormia, transava e dava os ombros para o resto. O homem era supostamente livre, sem regras, sem compromissos, sem aborrecimentos. Uma vida que muita gente hoje inveja, por ser aparentemente mais feliz.

Mas veio a civilização malvada e pôs tudo a perder. Será?

Na bucha, a vida descompromissada e sem regras era exceção, na verdade era uma vida de egoístas, que não queriam dar ao grupo sua parcela de sacrifício. Um desses sacrifícios teria sido a defesa da prole ou da comunidade.

É perfeitamente aceitável, hoje, que se queira a presença de amigos, mas não a de seus filhos, não só pelo trabalho que dão, mas também porque os interesses das crianças não divertem quem não gosta de crianças. Na verdade, gente que age assim não costuma tolerar quem não as diverte ou não compartilha dos mesmos interesses, é gente que quer evitar problemas a todo e qualquer custo, mesmo aqueles decorrentes de seus actos. O sujeito simplesmente lava as mãos e de exime de suas responsabilidades, como os do parágrafo acima.

Quem vê um pai de família voltando cansado do trabalho, quase dormindo no banco do ônibus, usa-o como argumento para ser contra o matrimônio. Conviver com gente em um botequim é muito diferente de conviver diáriamente com alguém. No cotidiano o verniz da pessoa afável e benfazeja se dilui no solvente de seus defeitos, é preciso tato para conviver com isso. No botequim se paga para tudo, não se vê o serviço sendo feito e todos estão lá para fins recreativos. Parece o mundo perfeito, talvez até fosse, mas é falso.

A vida de entretenimentos é sustentada pelo labor de quem tem compromisso, pessoas que ajudam a sustentar uma família ou sustenta a própria. Sem um grupo compromissado, a diversão de alguém não acontece. Quem diz que não conhece um casamento feliz, não procurou, se ateve aos exemplos que quis ver. Nós temos uma inata tendência a não enxergar o que está à nossa frente, se soubermos que aquilo não nos é conveniente. É uma imaturidade difícil e penosa de extirpar, mas se até eu consegui, então qualquer um que quiser e se dispuser ao esforço consegue.

Eu passo as histórias de casamentos onde a moça foi completamente anulada e o cafajeste tentava viver como se ainda fosse solteiro, sei que acontecem, como sei que não são a regra do caso, ou aquelas piadinhas onde a mulher espera o marido com o rolo de macarrão não existiriam. Homens como o supracitado têm fins cruéis, eles têm a certeza de que todos irão ao enterro para terem certeza de que morreu mesmo. Quem nunca pára para pensar, não sabe o sofrimento que isto causa.

A civilização, tão execrada por revoltados de todas as épocas, garantiu a sobrevivência da humanidade. Como animais, nós somos a espécie mais despreparada de todo o planeta; Nossa pele é muito fina, o maior casca-grossa se fere com facilidade e demora a cicatrizar; Nossa musculatura é débil, o sujeito tem que ser muito musculoso e com músculos muito bem consolidados, para brigar com um chimpanzé mediano; Nossa infância é uma prisão, ainda estamos tentando controlar as mãos, quando outros mamíferos correm e fazem predadores de bobos. Não fôssemos gregários, teríamos sido extintos em poucos milênios, talvez em poucos séculos. Graças a Deus não encontramos os dinossauros.

Fica fácil perceber que ser uma espécie gregária nos livrou do pior. À parte o mau uso que tantos fizeram disso, assegura que a criança doente possa se tornar um adulto forte e saudável. Sob os cuidados dos pais, que podem acompanhar o desenvolvimento do rebento por muito mais tempo do que a falsa liberdade permitiria, o indivíduo consegue desenvolver suas aptidões e produzir avanços, como a roda, o domínio do fogo, a conservação dos alimentos, o chocolate, entre outros.

Um solteiro está sempre sob o risco de morrer cedo por falta de socorro, caso não viva com uma família. É difícil chamar socorro pelo celular, quando o braço esquerdo está como se o estivessem descarnando com um alicate, e o peito como se fosse rasgado. O corpo é burro, não sabe que apertando botõezinhos a ajuda chega rápido, em situações de emergência ele nem sempre deixa a mente agir.

Vivendo em uma república ou em uma família constituída, por mais rusgas que haja, as chances de um amparo rápido são muito grandes, durante e depois de um ataque cardíaco, quando é aconselhável o repouso com refeições leves em horas certas. A turma divertida do botequim não vai te ver em casa, não vai te ajudar a andar até a sala, não vai te dar comida na hora certa, não vai ligar para o médico a qualquer anomalia.

O homem sábio, que sempre tem a última palavra "Sim Querida", mesmo sem perceber assegura uma velhice mais tranqüila. Porque o maior medo da maioria dos solteiros é a incapacidade de se virar sozinho, algo que será inevitável, mas muitos preferem não cogitar e não cercar das devidas previdências. O homem sábio se compromete com o casamento e com os que dele fazem parte, é um motivo perene para se aprimorar sempre.

Um matrimônio bem contraído civiliza. O maior fanfarrão sabe que seus antigos excessos vão afetar mais pessoas, o problema de cair bêbado já não é só seu, o de dirigir bêbado nunca foi. Sabe que haverá uma criaturinha que tentará imitar tudo o que fizer, e não adianta usar o bordão "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço", ele não funciona, só retarda e agrava a imitação.

O maior sabotador de um casamento é aquele que tenta anexar-lhe todos os hábitos de solteiro. Lamento, mas não dá. Onde dois vivem há um mínimo de regras a serem seguidas, como avisar que vai demorar, avisar (com antecedência) que vai levar alguém para o jantar, jogar a roupa suja no lugar certo, ajudar na conservação da casa; cousas que outrora uma pizza ou se mudar de endereço resolvia, deixando o prejuízo para quem ficasse.

O que ouço de casais longevos e felizes é praticamente isto: "Case-se com quem gostas de conversar". Casar porque gostou de transar com o sujeito é reservar dinheiro para as despesas do divórcio, é casar por impulso, por instintos, instintos são regidos por hormônios e estes têm ação de curta duração, não se pode confiar neles para uma vida. Com esses casais aprendi que o amor nasce, se deixarmos. Aquela moça que se esmera em te fazer ver o que precisas ver, que consegue manter a tua amizade mesmo te jogando na fronte o que nem sempre te agrada, cuja companhia (muitas vezes) pobre em emoções te faz esquecer um pouco das agruras que te acometem, dê uma boa olhada nela e depois me conte. Olhou? Ela tem seus encantos. Enquanto as aventureiras se esmeram em te seduzir, para te arrancar os recursos, ela só o fará se houver um compromisso teu de que haverá continuidade, e para somar seus recursos com os teus.

Não é (muito) da minha conta, enquanto não for na minha família, mas esta onda de "ficar" é de uma estupidez imensa, é um comportamento muito próximo ao dos animais em estágio mais primitivo de evolução. Ninguém se envolve e ninguém assume sua parcela do que aconteceu com o outro, mas no dia seguinte desce a lenha no governo por causa das notícias nos jornais.

Com a idade é natural que o interesse por sensações decaia, em quem decidir ter uma maturidade digna, em vez de tentar perpetuar a adolescência. O que vai manter alguém do teu lado é o compromisso. Se a outra pessoa se interessa pela tua saúde, em lhe abrandar a passagem do tempo, então haverá algo para tomar o lugar da virilidade e amparar as novas necessidades. Um destino muito diferente do que esperava os velhos (e os doentes) de antes da civilização, quando ser devorado por uma fera enquanto os outros corriam era normal.

A humanidade só conseguiu avançar quando decidiu constituir família, e suprir suas necessidades. Obrigar homens rebeldes a assumirem um papel relevante em prol de um grupo, não só de si mesmos, foi um remédio amargo que funcionou. E enquanto eles continuarem a olhar somente para o próprio umbigo, imaginando que agora poderiam estar pegando doenças venéreas, sendo processados para assumir paternidades tortas, tendo seus cobres indo pelo ralo da promiscuidade, não vão compreender o quanto se doar para um pequeno grupo pode fazer bem. Deixar de agir como um reles animal para agir como homem pode causar desconforto, mas os que conseguiram me asseveram que não trocariam um dia da vida que têm por um ano da que deixaram. O casamento os fez ver além do próprio corpo, do próprio egoísmo, dos próprios delírios de que seriam jovens pela eternidade.

Para aqueles que querem contribuir com o bem comum, fazer a humanidade avançar de verdade, em vez de apenas se iludir com distrações virtuais, o matrimônio constitui uma pedra angular, pois dá um motivo urgente e real para fazer as cousas andarem a contento. Em família os problemas acontecem em tempo real, muito antes de as estatísticas dubias chegarem à mesa do ministro, obrigando à mobilização imediata.

Nem todos têm o preparo ou a vocação para o matrimônio, mas isto é muito diferente de ser contra, colocar nele a culpa pelo mau uso do patriarcado. Não houvesse casamento, teria sido pior, não haveria o que impedisse a gana de poder e prazeres que teria levado muitas comunidades ao colapso. O casamento, por mal aplicado que tenha sido, freou quase todos os impulsos destrutivos do homem, que ainda hoje os tem.

Em todas as vias de todas estas décadas neste orbe, meus caros, tenho da vida a lição de que o casamento desanimaliza, transforma o macaco pelado em homem, ainda que o péssimo hábito de beber água no gargalo persista.

Promiscuidade é cousa de trogloditas, que pegam, usam e saem sem olhar para trás. O moderno, o avançado de verdade é o casamento.

09/01/2010

Heróis nas sombras

O dia em que soube que um sujeito outrora flagrado em uma boca de fumo, chamou de "meus heróis" um bando de desocupados, cuja única função era dar maus exemplos pela televisão, eu desabei. Li a notícia várias vezes para ter certeza de não ter me enganado.
Tenho noção do que é ser um herói, do quando custa ao sujeito ser um herói, principalmente porque quem é não pretendeu ser um herói, nem se considera um herói.

À parte os super poderes que a fantasia imprime, necessários à conquista de leitores, os quadrinhos clássicos mostram o que realmente é um herói. Tomarei o exemplo de Batman, cuja verdadeira identidade é... Batman. Bruce Wayne é seu alter ego. Batman presenciou o assassinato dos pais ainda em tenra idade, sendo então criado pelo mordomo Alfred. Se para uma criança é duro perder toda a sua família (não me consta que tenha primos, tios e afins), imaginem presenciar seu assassinado. Claro que um evento como este destrói completamente a infância, e me atrevo a dizer que o pequeno Bruce morreu com seus pais. Naquela noite, tomou o seu lugar uma criança perturbada e anônima, a quem todos insistiam em chamar pelo antigo nome, mas de modo algum era Bruce. Ele poderia ter se revoltado, se refugiado na vida fútil, na auto destruição, na corrupção e na vingança. Mas um herói, se bem que pode se construir, também pode nascer com a tendência heróica. Batman se refugiou no trabalho árduo, nos estudos, na vida útil e productiva, não se deixando dominar pela dor e pela perturbação mental que se instalara. Ou seja, ele fez todo o contrário do que se esperava de uma pessoa em sua situação. Quando se sentiu pronto, pôs seus recursos e sua vida à disposição de uma causa, quando então Bruce Wayne passou a ter utilidade, como alter ego, dando suporte e financiando a sina de Batman.

Não são os apetrechos caríssimos e onerosos (imaginem o quanto o batmóvel bebe) que o tornam um herói, é a renúncia. Batman dedica sua vida à comunidade em que vive, usando a máscara de homem de negócios apenas para investigar quem as autoridades consideram acima de qualquer suspeita. Ele não participa de programas fúteis, não dá entrevistas torpes, não fornece audiência para apresentadores de quinta categoria. Ele não busca holofotes, trabalha nos bastidores, pois é lá que surgem os problemas que serão tão menos danosos quanto mais cedo forem corrigidos. Ele não age em seu benefício, não busca recompensas, apenas faz o que é preciso fazer e depois se recolhe até a próxima urgência.

Alguém aí achou a última sentença parecida com o trabalho de policiais, enfermeiros, médicos, bombeiros, assistentes sociais e afins? Se sim, começou a entender o que quero dizer.

O problema é ter havido uma completa deturpação do que é um herói. Antes reservado a quem realizasse feitos de extrema coragem e relevância, hoje o termo é dedicado a qualquer idiota que dê lucros de seis dígitos pela audiência. Com isto não é de se espantar que a juventude passe a idolatrar bandidos, comprar revistas em que vilões altamente perversos (e que se existissem dariam cabo sem dó de quem os idolatra) são as estrelas.

Não conheço um fã-clube da Irmã Dulce, mas ela abriu mão de tudo o que poderia ter vivido para assistir à gente necessitada, fazendo de graça o que a prefeitura era paga para fazer, mas não fazia. Hoje podemos contar nos dedos os jovens que sabem quem ela foi. A seu exemplo, temos muitas missionárias em países miseráveis, que erguem hospitais do nada e fazem as vezes de Estado onde ele inexiste.

Temos soldados no Haiti. A onu (minúscula mesmo, não merece melhor) virou as costas para nossas tropas, sabotou tudo o que podia e mesmo assim estão conseguindo fazer seu trabalho, sem holofotes. Quando um grupo deles volta eu não fico sabendo, não é notícia. Eles estão lá, entregues à própria sorte em um país que faz o Brasil parecer o primeiro mundo.

Eu não sou afeito à idolatria, mas conhecendo a tendência humana em se apegar a ídolos, gostaria muito que voltassem a idolatrar quem merece, não pessoas que foram colocadas em pedestais por seu potencial carismático.

Quando um completo idiota é alçado à fama, já há todo um aparato preparado para vender futilidades com seu nome, sua esfinge ou relacionados á sua imagem. Quando a vida lança um homem comum à fama, não demora para alguém começar a futricar sua vida, até transformar faltas corriqueiras em crimes hediondos. O mundo tem demonstrado uma imensa aversão aos heróis de verdade, aqueles que fizeram por merecer o título, mas têm muito o que fazer para darem atenção ao que não merece.

Em breve teremos uma geração inteira de adultos perdidos, gente que não saberá o que está fazendo no mundo, de tanto insistirem, hoje, nos valores efêmeros dos fogos de artifício que lhes são vendidos. Gente que terá aprendido a trocar senhas de celulares, mas não terá nenhum preparo para lidar com decepções e mudanças bruscas de rotina, como a morte. Gente que terá todo o conhecimento necessário ao entretenimento, mas nenhum para a imprevisível vida real, que tira freqüentemente das mãos do indivíduo o leme de seu destino.

Não vejo problemas em se cometer um erro, o problema está em fomentar o erro e querer torná-lo um comportamento natural. Ser fútil é uma fraqueza comum, idolatrar a futilidade é patologia. Não demora muito para que os serviços essenciais sintam falta de gente competente, estarão repletos de diplomados e vazios de profissionais. A negligência que hoje se faz aos valores do heroísmo já resulta em uma sociedade que quer o gozo imediato sem o mérito. Não precisa de um oráculo para saber que essa maioria será quase inútil em um futuro breve, precisando a todo momento receber ordens para saber o que fazer, quando não estiver se divertindo. Por agora, frustração é tabu.

Como acontece com o herói, uma dose de dificuldade útil seria o medicamento certo para o quadro, para as pessoas reaprenderem a merecer o que desejam, e que nem tudo o que se deseja é lícito. A lição do herói é a própria superação, trabalhar seus problemas em vez de apelar para uma pistola porque o garoto da sala ao lado torce para outro time. Superar problemas, superar frustrações, superar fraquezas, superar limitações, superar más tendências, superar a própria condição de animal. Dá muito trabalho, é muito demorado, não dá audiência.

Sob o pretexto de trazer o público à realidade, corromperam e deturparam a imagem dos heróis, mesmo os de ficção. Precisa dizer que não ajudou em absolutamente nada ter destruído algo bonito? Só alimentaram o vício inato que a maioria tem de zombar de bons exemplos.

Enquanto isso, por uma imensa teimosia e identidade com a causa, existe gente trabalhando nas sombras, resolvendo os problemas que precisam resolver à margem de toda a publicidade que hoje se reserva para o que não presta. Eles não querem aparecer, talvez até fossem atrapalhados pelo assédio da imprensa fútil, mas deveria haver divulgação de glamurização de seus bons exemplos, sem deixar de lado as dificuldades que enfrentam.

02/01/2010

Minha vida na igreja


Antes de mais nada, advirto que fui batizado ainda sem saber o que acontecia, ou porque tinha que inchar e encolher o tempo todo para não passar mal.

Venho de uma família mal resolvida em termos religiosos. A parte materna é híbrida, católica-espírita, com tradição em magia popular, benzedeiros, umbandistas e afins. A parte paterna cola adesivos como "Deus que me deu" ou "Se houver arrebatamento, este carro ficará desgovernado" e se acha no direito de infringir todas as leis fiscais e de trânsito, não importa quem se fira no desenlaçar.

Por quase quarenta anos enfrentei pressões de todos os lados, camufladas das piores maneiras possíveis. Na infância me forçavam a ir à presença do padre, louvar preconceitos e tabus dogmáticos para fazer tudo ao contrário quando saísse pela porta. Na adolescência a parte crente radical e intolerante da família dizia que lamentava por mim, pois eu era bom, mas não iria para o céu por não ser da congregação deles, mas os malandros da família iriam pois eram "cristãos". O fedor sulfúrico da hipocrisia me afastou de tal modo, que passei a ver com desprezo os cultos religiosos, especialmente porque continuavam me obrigando a auxiliá-los no caso. Cheguei a ter que desenhar o rosto de Jesus no asfalto, com giz, sob a repetição em tom de escárnio dos meus argumentos para não querer fazê-lo, para a procissão que se daria no dia seguinte.

A resultante desta equação não poderia ser outra, me tornei cético. Eu não tinha outra referência de religiosidade, mudava de endereço com tamanha freqüência que não tinha tempo de fazer amigos, absorver a contento outros pontos de vista, et cétera. Eu andava na linha porque queria, já não temia castigos nem esperava por recompensas.

Com a maturidade e a busca por conta própria de respostas, pisando em ovos, o panorama à minha frente mudou. A tempestade de emoções e traumas no decorrer dos anos lavou um pouco a minha visão embaçada e deturpada.

A proliferação de igrejas caça-níqueis, muitas das quais usuárias de (eu conheço, elas não me enganam) magia negra, me fez ver o catolicismo como um dos males menores. Em Goiânia há bem poucas luteranas e todas são muito discretas, até demais para o meu gosto, e para quem tem o dever de divulgar uma mensagem, ainda mais com o conhecimento bíblico tão apurado e fundamentado que eles têm.

Eu já sabia que a Nenê era católica, só não sabia que ela freqüentava a Matriz de Campinas, quase na esquina com meu actual endereço, Deus sabe até quando. Certa feita, em minhas caminhadas dominicais, vejo seu carro e ela saindo da missa. Por minha imensa afinidade com esta moça, passei a ver aquele lugar com mais simpatia. Com o tempo a via voltando para casa, de carro, com a família à bordo.

Cauteloso, passei a ouvir os sermões de fora. Sinceramente não me pareciam mais tão enfadonhos e ruins, na verdade alguns pontos me agravaram deveras.

Um dia entrei. Apesar de há muito tempo não a ver nesta missa, continuo freqüentando, firmei o compromisso de iniciar uma tradição onde falharam comigo. Já estou ouvindo um certo Filho de Oxóssi fazendo insinuações do tipo "Ahm, então foi por causa dela, safadión", mas ele vê sexo até em uma lâmina de vidro, então relevarei.

Muitos podem se perguntar se eu, tão desacostumado às cerimônias católicas, não sinto um desconforto com a duração das missas. Minhas preces diárias duram mais ou menos o mesmo que uma missa, estou acostumado a rigores disciplinares bem maiores durante as mesmas. A diferença é que eu rezava por conta própria, agora há um compromisso formal de minha parte com a minha consciência.

A Matriz tem assistência do Alto, não tivesse não teria suportado a primeira missa. Com o passar das semanas, fui tomando ciência das nuances e energias que circulam lá dentro. A Nenê mesma não concorda com tudo o que o alto clero diz e faz, mas ela sabe separar o joio do trigo e em que acreditar. Conhece a história tão bem quanto eu, mas ao contrário de mim ela teve suporte para viver infância e juventude naquela comunidade, sabe o que deve ou não considerar. Se mesmo os apóstolos discutiam entre si e Jesus jamais pensou em deixá-los, não será uma fé com inteligência que vai nos condenar. Não deixarei de acreditar naquilo que sei porque acredito e não abrirei mão das missas de domingo.

A parte ruim disto tudo é que eu poderia ter tido uma tradição, uma âncora para me estabilizar nos anos mais difíceis, em que quase me tornei ateu. Tradição, meus amigos, não é cousa de velhos nem um freio para o progresso. Isto é conversa de radicais revanchistas. A tradição bem cultivada auxilia na formação do caráter, equilibra os pensamentos e potencializa os talentos do indivíduo, quem é ou conhece judeus sabe do que estou falando. Infelizmente tudo isto me faltou e só relativamente tarde consegui iniciar alguma cousa, sozinho, por conta própria.

Não são as missas que são chatas, não são os jantares em família que são chatos, não são os passeios à casa dos avós que são chatos. Somos nós, adultos, que tornamos o mundo cinza e insípido para os jovens, transformando em mera obrigação o que deveria continuar sendo um canal de agregação familiar e social.
Minha mente, que já era aberta, ficou um pouco mais livre desde que iniciei esta tradição, contrariando o que alguns catedráticos de extremo rancor universitário apregoam e tentam nos enfiar orelha adentro. Amanhã, Domingo, estarei às sete horas em ponto, com celular desligado, na missa. Ouvindo, refletindo, filtrando e orando ao meu modo, íntimo, silente, sem medo de ser interrompido desnecessariamente.

27/12/2009

Rosinha não, mamãe!!!


É consenso que o rosa já teve seu apogeu, e que durou bastante. Mas hoje a cor vive um paradoxo, é oferecida aos borbotões para o público feminino, vendendo a contento, mas grande parcela deste mesmo público o rejeita com ódio hepático. Tem gente que compra a bola da Barbie só para poder chutá-la todos os dias sem arcar com a compra diária de uma boneca nova, não somente pela onda anti-americana que ainda tem eco, mas porque poucas cousas são mais cor-de-rosa do que o mundo desse brinquedo... Talvez a Penélope Charmosa, mas só agora ela está sendo revigorada.

Algumas empresas exageram, oferecendo artigos nas cores rosa e roxo exclusivamente para as mulheres. Neste ponto, estou de acordo com as mais exaltadas, pois além de discriminar os meninos, que não têm artigos que possam chamar de específicos, fica a impressão de que o mundo de uma mulher é e deve continuar a ser rosa. De facto deprimente. É querer ver um cantor cantando vinte e quatro horas por dia, ad infinitum.

Mas a concordância acaba aqui, porque rosa e azul são sim as cores da mulher, simplesmente porque as mulheres são de sua própria concepção, superiores aos homens. Confusos? Explicarei os motivos, mas não asseguro que ateus e crentes radicais vão gostar, provavelmente não, pois tratarei de espíritos superiores e afins.

Rosa não simboliza o amor puro, é a cor que emanam os que já compreendem e detém o amor puro, que é algo muitíssimo acima da condição humana. Azul claro é a aura de criaturas absolutamente serenas e equilibradas, o que também está além de nossas parcas capacidades. Por isto os espíritas mais eruditos e humildes (raríssimos) aconselham as mulheres a usarem combinação de branco com azul ou rosa na indumentaria. Uma mulher precisa do homem apenas para se reproduzir e tem certeza de sua maternidade; o homem depende da mulher para se reproduzir, sobreviver ao primeiro ano de vida, garantir a segurança dos filhos e, principalmente, só com o advento da genética pôde ter certeza da paternidade... Se o médico não for muito amigo dela, claro.

A tal “revolução sexual” marcou o declínio da ligação entre o feminino e a cor rosa. Por uma imbecilidade extraordinária que só nós homens somos capazes de executar a contento, o azul (filtro e protetor espiritual, entre outras propriedades) foi tomado das mulheres, que ficaram só com rosa e branco. Essa mesma estupidez nos fez colocar o sistema nervoso periphérico acima do central, fazendo com que a brutalidade tomasse o trono do intelecto... Só assim para membros flácidos do nosso gênero se sentirem superiores às suas esposas. Com isto, a mulher e tudo o que lhe diz respeito passou a ter papel secundário nas sociedades pós-atlânticas. Com o rosa não foi diferente, passou a simbolizar (mentirosamente) fraqueza e submissão, o que o mulherio ávido por liberdade e dignidade não poderia nem deveria tolerar.

O problema é que muito dos conhecimentos que incomodavam a sociedade mais machista da nova história, a romana, foi extirpado de textos sacros e proibido, incluindo a ciência das luzes e suas cores. As mulheres da sociedade cética da América do Século XX não tinham, então, noção de alguns erros que cometiam. Elas queriam se igualar aos homens, sem saber que isto as rebaixava, embora o materialismo reinante faça parecer o contrário. Uma mulher que saiba conduzir deu lar como as ancestrais faziam, não usando o amor pelos filhos para privar-lhes das conseqüências de seus actos, sabe conduzir uma empresa muito melhor do que um homem. A última crise é só uma amostra do estrago que a competitividade infantil e irresponsável, inerente à fraqueza masculina, é capaz de fazer ao mundo. Para eles tudo se resume ao desafio e ao gozo de humilhar alguém, se fosse só dinheiro o comportamento seria mais comedido. É falsa a premissa de que o mais forte sobrevive, as ossadas dos tiranossauros e a proliferação dos mamíferos são provas.

Alguns me perguntarão, então, por que Jesus veio como homem? Simplesmente porque Ele não é idiota, sabia que ninguém daria ouvidos a uma mulher. Ele fez o que era possível, não o que queria fazer. Mas fez tudo o que a masculinidade da época condenava, certamente muitos devem tê-lo achado afeminado por não ter se casado nem empunhado armas nem mesmo para defender sua carne e, principalmente, amou como poucas mulheres (e quase nenhum homem) são capazes.

Por tudo o que disse, afirmo que uma mulher que exagera no feminismo, se torna tão machista quanto os homens que diz combater, pois quer privar as outras de sua feminilidade. Não foi à toa que Mário Covas, no auge da ditadura, convocou as moças a boicotarem os militares nos bailes, ele sabia o que estava dizendo e da tragédia interna que isto causaria nas forças armadas. Ele e todo aquele com um átomo de sabedoria sabe, é o comportamento feminino que impulsiona e sustenta o mundo, que dá as ordens aos músculos dos homens, que é a mulher feminina (não confundir com afetada) com seu comportamento cor-de-rosa, a única força capaz de fazer um guerreiro chorar feito criança. Uma mulher que luta por poder corre atrás do que já tem.

O ceticismo criado pelo fanatismo misógino nos custou caro, mas tenho esperanças e apelo às moças que não se neguem para si mesmas. Nem tudo o que é do tempo da bisavó é ruim. É a capacidade de adaptação que elas tentaram transmitir às descendentes, não a força bruta, que garante a sobrevivência da espécie. Assim como os maus proliferam na omissão dos bons, é por querer trocar o rosa pelas conquistas que a selvageria do capitalismo fugiu às rédeas. Promiscuidade, queridas, não é conquista, é uma fraqueza masculina, que vive a repetir que a carne é fraca e mesmo assim faz suas vontades. Não se troca uma virtude por um mérito, este é conseqüência dela. Ser delicada e fazer uma tropa de marmanjos tremer nas bases é o que uma mulher faz de melhor, caso se permita.

Usar rosa não faz nada cair, não causa problemas de saúde e não abrevia a vida. Se alguém se afastar de ti por causa de uma peça rosa, então não merece a tua amizade. Não se limite a uma cor, mas também não se prive dela. Não foi o homem que inventou as cores e suas propriedades, estas já existiam antes da humanidade e continuarão existindo quando outra espécie nos suceder. Não será um vestido cor-de-rosa que vai te fazer de capacho para alguém, isto é trabalho para a auto-estima. Nem mesmo uma farda ajuda quando não se tem amor próprio, culpar e politizar uma cor é no mínimo infantilidade.

Para finalizar, algo que os especialistas já perceberam: Não é Barack Obama que manda nos Estados Unidos, é Michelle Obama. Por isto está dando certo. Ela não precisa do título, ela tem o poder.

19/12/2009

Música Francesa - A Nova Geração


Finalmente, já em cores, a nova geração de cantores desde (mais ou menos) os anos 1980.
Muita cousa mudou, o mundo ficou mais frio, materialista de um lado e fanático do outro, mas quase todos querendo viver (em ambos os casos) mais sensações do que o corpo humano pode suportar. Mesmo assim a música francesa manteve as nuances celebráveis de sua estirpe. Sítios como Quebec Pop e
Audiogram são redutos destes novos e de velhos talentos que o Brasil não conheceu.

Desilereless. O hit "
Voyage Voyage" estourou e durou até início nos anos 1990. O grande mérito foi agregar ritimo a uma letra mais lenta, sem perder a qualidade musical. A figura androgina ajuda a vender e se tornou um dos símbolos da tolerância social.

Marc Lavoine. Oitentista por excelência, "
Même si" e "Chère Ami" são carregadas da melancolia contraditória de uma época que misturava o optimismo de que já estávamos no fundo do poço, e que portanto não havia como piorar (como estávamos enganados!) e o pessimismo da paranóia da guerra fria, que ameaçava dizimar a vida na Terra a qualquer momento. São ambas músicas muito bem acabadas, com toques de new age, que merecem ser ouvidas à noite, com amigos ou uma pessoa especial.




Isabelle Boulay. Pois é, vêm de Quebec as grandes contribuições modernas à música de língua francesa. Esta belíssima ruiva brejeira de voz madura e levemente adocicada começou a cantar no restaurante da família, para logo ganhar sua independência e brindar o mundo com suas canções e versões, inclusive cantou "Tico-tico No Fubá" em francês, com arranjos próprios que fizeram desta canção uma ode ao chorinho. A conheci por "Jamais assez loin" e "Où est ma vie", a primeira uma declaração de amor digna da velha guarda, a segunda uma música leve que convida a pensar na vida e vivê-la sem neuras. A nova canção "
Chanson pour les mois d'hiver" faz juz ao gigantismo de seu talento. Sua pista entregou muitas outras pérolas, das quais destaco as seguintes:

Carla Bruni. Pois é, para quem não sabe, além de modelo, actriz, socialite e primeira-dama da França, ela é cantora. Excelente cantora, diga-se de passagem. "Ma Jeunesse" é uma canção baseada no piano, com toques de infância prestes a maturar, uma execução que adoça as saudades mais doídas. Se alguém tinha vontade de vê-la tropeçando e não sabia de seu tino musical, agora vai querer que tropece em uma recepção ao papa e caia de cara no seu colo, com câmeras ao vivo, porque esta recebeu doses generosas de muitos talentos, a música é um deles.


Amylie. Mesmo quem torce o nariz para o estilo indie, tem grandes chances de gostar desta moça, simplesmente porque ela não exagera. "Espace" é uma demonstração de música para se ouvir durante uma viagem, despretensiosa e com variação harmoniosa de andamentos. Como a capa de seu último álbum, sua regra parece ser não complicar o que não precisa, o que se reflete nas músicas.


Sylvie Paquette. Tem ligações fortes com a velha e a jovem guarda. "Doucement" é uma música sutil, delicada, que parece ser cantada em corda bamba, com seu ritimo lento e a predominância do violão e do sintetizador ao fundo, acompanhado por coral em dado momento, dando uma atmosphera onírica e sensibilizante. Sua voz é sedosa e morna, chegando a ser sensual sem fazer qualquer esforço. Não ouçam "Soleil d'Espagne" se não tiverem condições de visitar terras espanholas, porque esta canção vai lhes despertar o desejo de conhecê-las.


Océane. Seu nome é Maryse Lebeau, conhecida por Océane. Faz um trabalho similar ao do nosso Palavra Cantada, mas em tom mais materno, suas músicas são quase sempre curtas, próprias para o seu público. "Ma mamie à Moi" é uma canção que pode ser usada com sucesso para ninar, de execução simples e sem qualquer sofisticação tecnológica. "La Garderie" é mais animadinha e claramente dirigida para os pequeninos. É uma mulher bonita que, porém, usa sua beleza para encantar as crianças, não para seduzir seus pais com roupas de matadoras.


Magnolia. É uma flor de cantora, sem trocadilhos. Uma de suas obras que mais me agradaram é "Mexico City", cantada com arranjos de (principalmente) guitarra e rabeca acompanhadas de uma batida forte e melódica de bateria bem executada. É daquelas músicas que parecem ter sido gravadas há décadas, pois evoca saudades e lembranças ripongas. Sua voz não é extraordinária, mas é trabalhada com esmero e varia de tom com maestria.


Laurence Jaubert. Estilo meio caipira, na melhor acepção da palavra, canta com o coração mais do que com as pregas vocais. Estas, aliás, muito bem dotadas. É, portanto, outra adepta das cordas, como em "Je Pars a L'Autre Bout Du Monde", que canta como es estivesse na varanda da fazenda, lembrando dos parentes que se aventuraram à cidade. "Anne et Arthur" é cantada devagar, com um vigor moderado e melódico. Longe de fugir à essência da música francesa, lhe acrescenta o brilho rural que só quem é do interior conhece. Eu conheço e recomendo.


Chango Family. Quem gostava de Os Mutantes em sua melhor forma, vai gostar deles. Cantam como quem não recebeu sua injeção diária de gardenal, mas com muito charme e irreverência como em "Paramatman", que tem um toque hispânico moderado, dentro dos limites do bom gosto. Como os egos dos componentes ainda não são maiores do que os mesmos, presumo que ainda terão bastante tempo cantando juntos nos mesmos palcos, nos mesmos shows, sem que um tente enforcar o outro com a fiação do equipamento.


Lara. Uma
cantora surpreendente, para dizer o mínimo. Consegue misturar charleston, jazz, tango, blues e ritimos modernos (entre outros) com um talento que pensei ter morrido com os Beatles. "Mon Petit Coeur Assassin" é um exemplo desta habilidade musical. Suas execuções são de um cinismo adorável, "Café Saravejo" é um exemplo magistral, que me faz duvidar da sanidade do público de hoje, que bebe urina de bestas cheios de rótulos e chiliques pseudointelectuais, e não enche de dinheiro as burras de artistas como ela. É mesmo uma época triste, Aznavour foi profético. Não se assustem, ao ver o novo álbum, com a carinha de psicopata, na vida real ela sabe sorrir com sinceridade, sem ver a cabeça de alguém rolando.

Gaële. Se a trupe da Chango Family não recebeu, nesta
moça os psicotrópicos já não fazem mais efeito. Muito bonita, com um jeitinho de Audrey Hepburn rebelde, ela está mais para Rita Pavone do que para Gigliola Cinqueti. "Cockpit" dá impressão te total desconexão, mas depois da metade da música se percebe tudo foi muito bem trabalhado e colocado, é para se dançar aleatoriamente e exorcisar seus males. O controle vocal para tanta maluquice dá prova de seu talento. "L'ideal Tango" parece um deboche, mas não é, precisa de alguma abertura mental para aceitar bem seu estilo, feito isto, a audição é só alegria. Se não entender, não leve à sério, só isso.

Decerto que há muito mais gente talentosa, e também há homens talentosos. Mas faço desta trilogia (principalmente esta parte) uma homenagem às mulheres, que souberam manter o romantismo apesar de tudo o que tem acontecido, com isto alimentado a demanda por músicas de alta estirpe, apesar de tudo o que tem acontecido. Em especial à amiga Meg, que estuda francês e saberá, muito melhor do que eu, apreciar as obras aqui expostas.
Redez-vous à la musique.

13/12/2009

Música Francesa - Jovem Guarda

Não existe uma linha limítrofe clara entre as gerações, são necesários cerca de cinco anos para que as diferenças se evidenciem. Com a música não é diferente.
A nova geração da música francesa mostrou as garrinhas, os dentes e preservou o charme de seus professores, especialmente porque a maioria ainda trabalhava e podia puxar-lhes as orelhas.

Gilles Dreu. É um dos fronteiriços, com suas canções vigorosas e plenas de coração, como "Alouette", que foi interpretada em tom dramático com coral e um belo cravo substituindo o piano. Está praticamente esquecido no Brasil, poucas rádios se dignam a executar suas performances.

Sylvie Vartan. Cantora de beleza plástica e vocal, apresentou ao mundo seu timbre maduro e possante. De suas interpretações, a minha preferida é "La Maritza", com leves nuances ciganas e espanholas, principalmente ao fim, quando a ladainha dá impresão de uma dança em giro cada vez mais rápido, para disfarçar o choro de resignação.

Michel Sardou. Era um garoto talentoso, com jeito despretensioso e uma cabeleira alá Roberto Carlos. A idade veio, a cabeleira encolheu, mas o talento não perdeu o brilho. Seu mérito maior (além do musical) foi envelhecer com a dignidade que as celebridades de hoje desconhecem, sendo hoje um senhor de respeito que se respeita e ainda encanta, com pérolas como "En Enfant" e "La Maladie D'Amour". Seu público é basicamente o mesmo que no Brasil compra Roberto Carlos.

Françoise Hardy. A ternurinha deles. "Comment Te Dire Adieu" é um de seus hits. De apelo mais jovem, ditou moda e teve o cuidado de não contrariar demais os pais de seus fãs, como resultado sua fama é duradoura. Cantou o amor não patológico e a alegria de se viver a vida. Procurando em discotecas decentes, se encontram seus álbuns sem muita dificuldade.

Salvatore Adamo. Pelo nome se tem alguma estranheza, até porque ele é italiano, mas canta em um francês perfeito. E foi em francês que estourou em todas as paradas de sucesso nos anos 1960/70. "C'est Ma Vie" conta uma história de amor e ensina que a maioria delas acaba. Fez recentemente, com esta canção, dueto com Isabelle Boulay, uma das estrelas do próximo texto. "Inch'Allah"* é uma canção menos conhecida, mas que recomendo formalmente. Também soube cultivar a maturidade, não se rendendo às facilidades cosméticas tão em voga e desnecessárias, ao menos para quem tem conteúdo. Ainda arrasta sua legião de fãs e esgota rapidamente os ingressos onde quer que marque uma apresentação.

Catherine Ferry. A aparência singela desta moça marcou também seu trabalho. Não tenho muito o que dizer, praticamente não se encontra material a seu respeito (nem meus compromissos, infelizmente, me permitem grandes buscas). "1, 2, 3" é um exemplo de música leve e analgésica para um dia de folga, com um ritmo rápido e gostoso que atenua rapidamente o estresse da "vida moderna".

Joe Dassin. "Et si tu n'existais pas" é uma das maiores declarações de amor que já ouvi em minha vida piegas. Sua voz grave, bem empostada e disciplinada aveluda a audição. Um cantor que dispensa artifícios, podendo facilmente contar com um banquinho e um violão no palco vazio, nada mais. A platéia de alto nível que conquistou até gosta, mas prescinde de pirotecnia. "Ça Va Pas Changer Le Monde" é uma de suas obras-primas, e das que mais fazem lembrar da época que tinha tudo para colocar o mundo nos trilhos. Seu repertório é vasto e seria inútil tentar falar de todas as canções, é uma obra para se ouvir por dias seguidos, mas sob o risco de passar a esnobar quase tudo o que se canta hoje em dia... como eu.

Nicoletta. Lembra muito minha amiga Mymi. É outra moça de voz potente que sumiu dos catálogos tupiniquins. Não me parece ter sido o tipo que se levava à sério, mas levava à sério o seu trabalho. A entonação tinha influência bastante clássica, combinando ainda assim com os arranjos modernos de então. "Il est Mort Le Soleil" e "La Musique" são as contribuilções à música pelas quais mais me lembro dela, sendo a primeira de um tom melancólico que instiga a dizer "Eu te amo, caramba, vamos antes que a vida passe!".

Michel Polnareff. Visual agressivo e debochado, até onde sei ainda na activa, brindou o mundo com a balada romântica "Love-me, Please, Love-me". Apesar do que os mais jovens podem pensar, é cantada em francês, sendo o título apenas o refrão. Um dos roqueiros que conseguiram sobreviver à idade e às modas, mas como rock em francês soa muito estranho, não emplacou muito mais sucessos no Brasil.

Dalida. Muitos pensam que é uma personagem de filme, mas asseguro, bons amigos, ela existe. é hoje uma das grandes damas da música francesa, sendo mais conhecida pela canção "Paroles, Paroles", em dupla com Allain Delon. Entretanto, fez homenagens à Tunísia (e ao povo árabe) cantando "Salma ya salama" e "Helwa ya baladi", esta no idioma tunísio. Sua voz sexy e vibrante já foi motivo para discórdias e reconciliações entre casais, mas ficar indiferente à Dalida é prerrogativa dos surdos... se também forem cegos.

Julien Clerc. A carinha de bom moço foi o cartão de visitas por muito tempo, hoje é a de bom homem. "Une Vie de rien" lhe deu direito a cantar na sala de star de qualquer família, por mostrar o quanto pode ser bom a vida agitada e moderna, mas também o quanto o porto seguro de uma vida pacata e bem embasada faz bem. Não há muito o que dizer dele, a não ser que, se encontrarem seus discos, comprem. Ele honra a genética musical dos franceses.

Francis Cabrel. Um da turma dos intimistas. Mesmo quando eleva o tom, o faz de modo breve, sóbrio e bem controlado, como se estivesse falando à amada, não ao público. Nisto muitas fãs se creditam o destino de canções como "Je L'aime a Mourir". Não vamos encontrar suas aparições nos "bbb's" da vida, ainda assim é possível saber mais a seu respeito com alguma pesquisa, desde que se tenha paciência de montar quebra-cabeças e filtrar o que a wikpédia diz.

Il Eté Une Fois. Temos um sexteto para os mais jovens, com roupas coloridas e músicas açucaradas, mas é da época em que computadores não corrigiam falta de talento, vale à pena ouvir "J,ai Encore Rêvé D'élle", para aliviar as tensões sem intoxicar os ouvidos.

Daniel Gérard. "Butterfly" é praticamente tudo pelo que se lembra dele. Depois dela, ficou praticamente restrito à França e a mídia mundial o esqueceu. A fama é ingrata, porque ele teve ao menos mais uma música digna deste texto, embora totalmente diferente do maior sucesso: "Petit Gonzalès", que é um rock bem humorado e dançante dos anos 1960.

Jean-François Michael. Para finalizar, ou este catatau não terá fim, este é um exemplar de voz meio rouca, grave e refinada, com algumas propriedades terapêuticas para o sistema nervoso. "Adieu Jolie Candy" é a sugestão para quem não conhece o intérprete.

Por hoje é só. Mas para quem quer matar saudades, ou mesmo conhecer a jovem guarda da música francesa, este índice poderá levar a muito mais pérolas neste oceano de talentos.

No próximo texto, selecionarei alguns da nova geração. Até lá.
Errata: "Inch'Allah" é de outro monstro sagrado da música mundial: Christophe, intérprete da eterna "Aline".