04/03/2007

Maria Cristina

Um doce de menina, é o que é Maria Cristina. Pisciana legítima, de fé inquebrantável e moral sólida, não aceita um "Não" como resposta.
Ah, Maria Cristina! Menina linda, de pele alva e serelepes olhos negros. Seus cabelos são negros, o estilo fica ao seu bel-prazer, ou ao seu humor. Da última vez que a vi estava com uma escova esvoaçante, mas já usou um chanel não muito curto, noutra vez um longo totalmente liso que escorregava pelos ombros.
Incrível notar que um corpo tão frágil e delicado como o seu, até vulnerável às enfermidades, abriga um espírito de ferro, uma vontade indemovível e uma obstinação de fazer inveja aos ninjas.
Nem tudo são flores na vida desse anjo. Na verdade ela não sabe o que significa a palavra "facilidade". Como anjo, desde a mais tenra idade se dispôs a ajudar quem precisasse de seu auxílio. Ainda era uma menina quase adolescente, quando crianças de uma creche a chamavam de "Tia Cristina". Freqüente era chegar um pai, a vê-la brincar com os petizes e perguntar quem era a responsável pela creche, no que aquela menininha magrela respondia "Sou eu", causando espanto. Ela sabe ser brava, muito brava, mas é bravura de amor e candura, de quem teme que os seus tutelados se percam no caminho da vida.
Me pergunto como um coração do tamanho de um Fusca cabe em um corpinho diáfano e delicado como aquele. Porque a obstinação que a maioria usa para fins egoístas, sejam quais forem, ela emprega na assistência aos que a cercam. Poderia estar rica, freqüentando colunas sociais e jantares amenos, onde os esnobes comem raspas de ouro por pura ostentação. Mas sua fé é legítima, a premissa de amar ao próximo é seguida à risca. Por tudo isso é triste ver lágrimas escorrendo em seu rosto meigo. Ainda que lhe faltem com o respeito, ela não falta com a caridade; ainda que lhe faltem com a caridade, ela não falta com a palavra; ainda que lhe faltem com a palavra, ela não falta consigo mesma e trabalha no que se propõe. "Ama ao próximo com a ti mesmo"? Pois ela ama mais.
Mesmo de luto, ela trabalha. Ainda que precise segurar o choro, ela trabalha. Ainda que esteja com a saúde (ainda mais) frágil, ela trabalha. Não ganha absolutamente nada em termos financeiros para se dedicar tanto. Mas gosta de servir de exemplo, pois de lição a maioria já se faz valer.
Ah, Maria Cristina! Em uma época em que muita gente tem medo de parecer politicamente incorrecto, é paradoxal ser irmão postiço dessa moça. É muito branca, elegante, culta, educada, linda de cair de costas, se recusa a ser grosseirona só para conseguir popularidade. Por vezes me pergunto se não serei acusado de racismo por abraçar e paparicar Maria Cristina às claras. Ela paga caro por ser assim, pois sofre muitas vezes sem ter um amigo por perto a acolhê-la. Eu também sofro por não estar próximo e ajudá-la. Ao contrário da regra, ela ama e se entrega ao que faz. A vida pessoal fica para quando a missão estiver cumprida, seus prazeres ficam para quando a dor do assistido estiver devidamente atenuada, seu descanso fica para quando o trabalho estiver pronto, ou o corpo não conseguir mais se manter de pé.
Ela tem o gênio forte, terrível mesmo. Quando encasqueta, não há quem segure. Talvez também por isso me identifique tanto com ela, sou no mínimo tão genioso quanto, senão pior. Já tivemos discussões homéricas, após as quais olhamos ao redor e nos perguntamos aonde teriam ido todos. Ah, a irmã que QUEM É me permitiu escolher só não é mais parecida comigo por falta de laços genéticos. Não sei se ela deveria se orgulhar de ter defeitos em comum comigo, mas...
Ah, Maria Cristina! Nenê. Armada com sua pose de fidalga e olhos entreabertos, pensa que engana alguém. Aquela "brabeza" toda não resiste a um choro, uma dor, uma tristeza sincera. ela se desmancha e logo se envolve, como o anjo de candura que é. Eu descobri há uma década quem é na verdade essa moça. É uma fiél emissária de Maria de Nazaré, uma criatura tão nobre e evoluída que a imensa beleza que vemos é a pontinha do iceberg, sua glória completa abrasaria a Terra se fosse exposta. Porque uma católica praticante não abriria mão do conforto e conveniência de uma família, com marido e filhos, que sempre são uma desculpa para não esticar o trabalho; Porque um filho é a desculpa perfeita para não cuidar igualmente dos filhos dos outros. Para ela não existe isso, todos são seus filhos até que alguém os assuma como se deve. Para ela a dor do outro não é uma informação a ser considerada, mas sua própria dor. Ela finge que não sabe, é amada por um sem-número de pessoas que tiveram suas vidas completamente modificadas por ela. Lembro que, quando nos conhecemos, eu estava me preparando (já quase pronto) para virar eremita. Cheguei a me perguntar quem aquela magricela pensava ser para me puxar pelo braço e me repreender. Fisicamente sou o oposto dela, sou robusto e poderia tê-la arrastado pelo corredor da escola facilmente. Mas aquela moça franzina conseguiu me segurar.
Ultimamente aquele corpinho frágil não tem resistido o suficiente à imensa força daquele espírito puro. Por isso sempre tenho uma vaguinha para ela em minha preces diárias. Ainda que não precisasse, ela merece. O mundo inferior em que vivemos precisa de gente como ela.
Não há palavras suficientes para descrevê-la. Só posso dizer que amo essa moça, a ponto de ter nascido muito antes e sido mãe dela, se me fosse dada a escolha.
Pompom com protex, protege a Nenê.

3 comentários:

Lídia disse...

Lindo texto Nanael.
Maria Cristina é sua irmã de criação, não é.
Parece ser uma pessoa maravilhosa! Que bom saber um pouco sobre ela.
bjus

Nanael Soubaim disse...

Conheci a Nenê em 1990, na então Escola Técnica Federal de Goiás, onde é assistente social. Mas quem nos vê pensa mesmo que somos irmãos, quem dera fossemos. E tudo o que eu disse ainda não faz juz ao que ela é.

Leandrö disse...

Opaa!
abandonei um pouco meu blog.
eu sou meio "de fase" pra ler...ultimamente não to na fase boa...hehehe
logo eu volto e leio seus belos textos...e se tiver texto do Fuscão melhor!
abs...