26/09/2009

Nas próximas eleições

O eleitor terá na sua frente provas materiais contra seus candidatos. Serão filmes que as emissoras não terão apresentado, mas circulam na internet para quem quiser ver.
Serão documentos assinados pelos candidatos, com reconhecimento de firma, mas eles dirão que não foram os autores, que querem calar a voz do povo com calúnias, derramarão uma retórica vazia e cheia de erros de português, após o quê serão aclamados. Investigações mal-explicadamente arquivadas não serão lembradas, palavras que os próprios candidatos reiteraram várias vezes terão sido esquecidas em um passe de mágica, bastando eles aparecerem com suas famílias, então o "estupra, mas não mata" será página virada.
A extrema direita vai defender que o policial deve executar o suspeito em via pública, sem acusação formal, a extrema esquerda vai defender que o policial seja um mariquinha. Qualquer um que tenha um plano decente será rejeitado, pois não proporciona o espetáculo que o povo deseja.
Vão prometer que as escolas serão revitalizadas e que todos os alunos passarão de ano, mas ninguém vai garantir que eles aprenderão algo. Escolas em tempo integral são caras e não dão retorno em menos de dez anos. Bandas marciais são caras e não dão retorno antes das próximas eleições. Aulas de música e philosophia não são tão caras, mas dão resultados antes das próximas eleições que os candidatos tremem só de pensar.
Aparecerão palhaços apelando para o ridículo para conseguir votos, pseudocelebridades sem talento que tentarão garantir ao menos quatro anos de mamata, vítimas de crimes ou tragédias apelando para o bom coração do povo para ganhar votos. Os que realmente terão chances de ganhar apelarão para a barriga e para o instinto vingativo, mantendo o eleitor no estado medievalesco em que se encontra.
Os mesmos jornais que hoje denunciam o mau caratismo do congresso, abrirão suas páginas para qualquer um que pague pelo espaço, como se fosse um anúncio qualquer. O eleitor, privado da formação do senso crítico, não perceberá a manipulação nem sempre sutil das informações em prol desse ou daquele candidato. Não perceberá que um simples flagrante photográphico, que pode nada ter a ver com a realidade da figura, formará uma imagem distorcida em seu subconsciente, distorcida o bastante para fazê-lo titubear ao digitar os números na urna.
Todos farão parecer que está nos futuros eleitos a solução para as mazelas do país, e que o povo deve esperar sentado as ordens para agir como e quando for determinado. Assim que o dotô mandar, todo mundo vai ao mutirão que distrairá as atenções dos problemas que ele mesmo causou. Mas o povo gosta de circo, quando mais horrores, mais ele aplaude.
Ninguém notará que o Brasil é refém de três poderes que brigam entre si para ver quem pode (e ganha) mais, em vez de arcarem com os compromisso assumidos.
Ninguém notará que aquele machão que prega a pena de morte para qualquer crime de qualquer idade, é dono de empresas de segurança privada que faturam muito com a criminalidade. Colocar polícia e sociedade em conflito faz parte do jogo.
Ninguém notará que muitas idéias só não deram certo, porque nunca foram realmente postas em prática. Ninguém quer se inteirar de pormenores, até porque nem todos sabem o que significa "pormenores".
Poucos se importarão em saber quem terá financiado as campanhas, destes poucos, menos ainda se perguntarão o porquê de as terem financiado. O povo não tem discernimento para pensar de quem é o dinheiro que pagará a conta. É tudo do governo, assim como os sinais de trânsito e as repartições públicas, que podem ser depredados pois o povo nada tem a ver com eles. Ninguém pegou uma nota do bolso e entregou para a construção do posto de saúde, então o dinheiro usado foi do governo, não do povo.
Passagens das vidas pessoais dos candidatos com chances de vitória serão usados contra eles, ainda que não tenham peso algum na competência, ou que sejam cousas já enterradas. Mas é espetáculo, eles sabem que um circo de aberrações pode influenciar os resultados das urnas.
Por fim, o povo sairá do pleito exactamente o mesmo. E eu com a convicção cada vez maior do que é opinião: Opinião é a distorção da percepção da realidade subjugada pela conveniência.

19/09/2009

Aos marxistas de boutique

Eu sou a favor de uma reforma agrária, mas sob hipótese alguma compactuo com a desordem e com a venda de terras compradas com o dinheiro que eu entreguei, sob a forma de impostos onerosos.
Eu sou contrário ao hedonismo capitalista, mas qualquer inteligência mediana que se ponha a pensar perceberá que quebrando a empresa, os funcionários ficam desempregados; vide a Gurgel.
Eu sou a favor de um sistema público de assistência, educação e saúde. Mas sob hipótese alguma aceito que pessoas fisicamente hígias ganhem tudo de mãos beijadas, sem dar uma hora diária que seja em favor da coletividade; como acontece muito em Goiás, onde beneficiários fogem da qualificação profissional para não perderem a mamata.
Vocês pensam que em países comunistas é assim? Acham mesmo que lá se pode fazer baderna quando uma decisão do governo não agrada? Quem lhes disse que o cerceamento da iniciativa e da opinião levou prosperidade a alguma civilização?
A grande maioria de vocês ainda esperava na fila para reencarnar, e os que já estavam aqui ainda cheiravam a cocô e urina, por isso mesmo nunca viram reportagens e depoimentos de fugitivos de países comunistas. Se ditadura fosse algo bom, ninguém fugiria de uma. Eu que conheci os anos de chumbo posso dizer a vocês, que não abrem mão de suas mesadas e de seus MP4: Cresçam. Em vez de lerem só o que os partidários escreveram sobre Guevara, leiam também o que os opositores falaram dele. Busquem nos sites as matérias e os textos de época sobre os países da Cortina de Ferro.
O que estão fazendo com vocês, que aceitam placidamente essa lobotomia virtual, é doutrinação. Exactamente o mesmo que o Partido Nacional Socialista fazia na Alemanha entorpecida.
Eu sou socialista, mas não sou um idiota que cospe no prato em que come e anos mais tarde se corrompe, fazendo tudo o que condenada e dizendo "Esqueçam tudo o que eu escrevi". Tenho os pés no chão.
Querem mudar o mundo? De verdade? Muito bem, vamos lá...

  1. Antes de arrumar a sociedade, aprendam a arrumar seus próprios quartos. Suas mães não são suas empregadas;
  2. Antes de participarem de passeatas, que muitas vezes terminam em baderna, vejam o histórico dos participantes. Vocês podem estar exaltando e seguindo criminosos;
  3. Estão com pena dos pobres? Sair quebrando tudo nunca resolveu o problema da pobreza. Junte seu bando de amiguinhos, fiquem alguns dias sem comer porcarias plastificadas de lanchonetes multinacionais e dêem de comer aos famintos. Como eu faço, como qualquer um com os pés no chão faz. Quem tem fome precisa de comida e trabalho, não de discursos retóricos ululantes;
  4. Por falar em multinacionais, qual a marca de seus celulares? E de seus tênis? Camisetas? Vocês podem muito bem viver sem tudo isso;
  5. Se querem uma sociedade justa, sejam justos primeiro com suas famílias. Salvo raras exceções, a casa com computador e todo conforto de que vocês desfrutam hoje, foi conseguida com trabalho honesto. Seus pais não são bandidos, respeitem-nos;
  6. Se conseguem ver com tanta facilidade as mazelas de um lado, vejam também as do outro. Falar mal de Guantánamo e fechar os olhos para os fuzilamentos de inimigos de um partido único, é mais que hipocrisia, é falta de vergonha na cara;
  7. Não tentem impor sua ideologia, da mesma forma como vocês não gostam que imponham outras a vocês. Vocês não sabem nem o que é melhor para si mesmos, quanto mais para os outros. Vocês sequer conhecem os outros;
  8. Seus heróis são ou foram homens, não deuses, portanto podem sim ter falhado e com certeza falharam, como qualquer humano. Então baixem suas cristas que qualquer um com mais de quarenta anos conhece esse calcanhar de Aquiles;
  9. Ditaduras não respeitam o meio ambiente. Se vocês forem à China e esboçarem um protesto não autorizado contra a gigantesca usina hidreléctrica que estão construindo no Rio Amarelo, correm o risco de nunca mais voltarem;
  10. Gostam de protestar contra o governo democrático em que nasceram? Podem continuar protestando. Graças à luta e ao trabalho da minha geração, a sua pode se dar esse direito. Mas, por favor, depois de se divertirem nas ruas, vão estudar para aprender e não só para passar. Porque foi assim que transformamos o pouco que conseguimos transformar;
  11. Aliás, as pessoas contras as quais hoje vocês protestam fizeram exactamente o mesmo que vocês fazem hoje, a diferença é que na época havia uma ditadura. Pois é, todos os envolvidos em escândalos na última década eram exactamente iguais a vocês, sem tirar nem pôr. Como eles, vocês também podem ser corrompidos, então tenham humildade;
  12. Por falar nisso, já que leram Guevara e Marx, leiam também e com a mesma voracidade, a vida de Henry Ford. Vão perceber que ele era muito mais libertário e socialmente avançado que qualquer um deles. Ele empregava negros e mulheres em uma época em que isto era perigoso para a imagem de uma empresa;
  13. Recapitulando: Mudem a si mesmos, seus maus hábitos e a indolência crônica e aguda que tomou conta de sua geração. Depois poderemos falar de mudar o mundo, o que não se dará pixando, depredando e cabulando aulas.
De seu amigo Nanael Soubaim.

12/09/2009

Prefiro o alfaiate

 
  Eu iria tratar de um tema denso, penoso e periclitante, mas estou com uma ligeira depressão, muito cansado e a cabeça em frangalhos, então falarei de algo mais ameno até me recompor.

  Há um ou dois meses doei minhas camisas pólo. As últimas pret-a-porter que eu tinha. Mais precisamente, há anos que não compro roupa pronta, faz quase uma década que não visto jeans. Só uso roupas feitas (ou ajustadas) pelo meu alfaiate. Não custa mais que uma roupa de loja de boa qualidade, só não tem o apelo do status que uma etiqueta badalada oferece, mas isto é algo que não me interessa.

  Quando há algum problema de costura, vou falar directo com o dono da confecção, no caso, da alfaiataria. Quando alguém vê algum problema em uma roupa pronta, fatalmente terá que ouvir "Bem-vindo ao Serviço de Atendimento ao Consumidor, sua ligação é muito importante para nós, aguarde uns instantes enquanto te enfiamos nossa propaganda com uma musiquinha horrorosa, que em seguida alguém da empresa terceirizada vai atendê-lo". Lá vai a conta telephônica para a estratosphera até alguém te atender "Senhor, nós estaremos estando te passando um número de telephone, para que o senhor esteja estando ligando para o departamento de produção". Com o alfaiate eu resolvo o problema sem burocracia.

  Ganhei em maio uma camisa, que de cara ficou grande. Tenho ombros largos, mas sou baixo, acreditei que bastaria cortar os muitos centímetros excedentes. Pois quando ele cortou para um funcionário ajustar, me mostrou o quanto um lado era maior do que o outro. Fico espantado em saber que as pessoas se vestem muito mal, mesmo escolhendo um modelo correctamente. No manequim fica um luxo, quando sai á rua é um luto. As mais bem cortadas até que não são ruins no primeiro uso, mas assim que vai lavar, as pendengas aparecem. A maioria das confecções não molha o tecido, mas muitos tecidos encolhem após a primeira lavada, especialmente os com algodão. Não bastasse isto, a linha da costura geralmente é sintética. O tecido encolhe, a costura nem tanto, e a roupa que parecia ser de bom gosto se torna uma fantasia de circo; juntas enrugando, costura desfiando, botões entortando, tinta se soltando, o tecido ficando áspero, et cétera. Só então a pessoa lê a etiqueta e descobre que o que foi barato de comprar é caro de manter, pois exige condições específicas e difíceis de se obter para lavar. Pret-a-porter que valha a compra é cara, muito cara. Algumas são caras e não valem a linha de costura, mas roupa pronta boa raramente não é muito cara.

  Já viram lojas oferecendo ternos a preço de blusão vagabundo? Vou lhes contar o truque; eles são cortados às dezenas de uma só vez, com um só molde e costurados em velocidade super sônica. Já estou vendo o dia em que vão passar cola industrial em vez de linha, para acelerar a produção. Os problemas desses ternos: a parte inferior de trás é sempre fechada, não tem a fenda que te permite se sentar, se movimentar e subir uma escada sem ficar parecido com o Robocop; O forro, quando o tem, mais parece retalho de pano-de-prato, alguns usam descaradamente o não-tecido, que gela no inverno e assa no verão; Por ser molde único para milhares de peças, ele não vai te servir, se ficar bom no ombro vai parecer um vestido, se ficar bem no comprimento não vai entrar sem rasgar; Em poucos dias de uso os problemas vão aparecer, como botões caindo, costura se desfazendo, bolinhas se proliferando e o tecido ficando lustroso como se tivesse sido encerado e polido, entre outros. Fora a assimetria que a maioria apresenta, um horror. Sai mais barato fazer um traje de gala do que mandar consertar, é sério.

  Ternos e afins são tão complicados, que quem os faz é chamado de "oficial", quase sempre alguém de idade madura e com muita experiência. Com seiscentos reais se faz um terno para receber a rainha da Inglaterra; com mil reais para consertar, o terno de R$199,99 não fica tão bom. É um baratinho que sai custando os olhos da cara, pois precisa ser substituído com grande freqüência.

  O Zé, assim que separa um tecido com fibras naturais para cortar, leva para casa e deixa de molho, para encolher antes de começar o trabalho. Só que isto leva algum tempo, artigo muito caro para as indústrias. Mas para ele é só um cuidado, principalmente para clientes como eu. Sou assimétrico, meu lado direito é mais musculoso de nascença, sou largo e baixo. As medidas vendidas em lojas nem de longe servem em mim. Sempre fica a impressão de que o defunto era maior.

  Não me lembro mais como é vestir um jeans, mas lembro do tecido batendo nos calcanhares a cada passo que eu dava. A modelagem mais justa das roupas femininas atenua muito esse incômodo, mas não sou mulher e não tenho saudades daquela peça armada feito um sino de algodão, badalando enquanto eu andava. Quando passei a usar somente calças sociais, senti a diferença dramática. Elas não batem no corpo, tremulam. Posso usar o corte confortável que me agrada sem medo de aparentar flacidez. Quando passei a usar somente calças feitas sob medida, não quis mais voltar. Mesmo as mais simples são peças que posso usar em qualquer ocasião, pois foram feitas para mim, para minhas formas completamente fora de molde.
Minhas roupas têm tecido suficiente para o caso de eu engordar, embora nunca tenha precisado desse artifício. Roupas prontas, para aproveitar ao máximo a matéria-prima, são moldadas por computador, ocupando cada centímetro da fazenda e barateando os custos, mas também eliminando a possibilidade de uma gestante continuar usando suas roupas por algum tempo, assim que a barriga despontar será um novo guarda-roupas. Cresceu? Engordou? Engravidou? Sem chances, é roupa nova.

  No caso das crianças, a roupa pode ter sobre tecido bastante para permitir ajustes por uns bons anos, um alívio no orçamento da família. Além de atenuar os efeitos da cultura do descartável, tão nefasta para o ambiente e para a mente da criança.

  O acto de ir encomendar uma camisa tem mais benefícios do que o econômico. Vendo de onde, como, quando e por quanto vai sair a roupa, cria-se um vínculo e se dá mais valor ao bem adiquirido. Não é como uma camiseta que um cara que nunca vi colocou no cabide da loja, sem que eu tenha visto. Eu fui à alfaiataria, conversei com o alfaiate, escolhi o tecido, defini o que gostaria ou não, tirei as medidas e combinei o preço. Quando pronta a camisa, lá voltei, experimentei, vi se não precisava de algum retoque e, aprovada, paguei e levei comigo.
Parece trabalhoso, talvez seja um pouco trabalhoso, mas é um trabalho que compensa. Vale à pena ter um vínculo por algo mais do que "é legal" ou "tá na moda".

  Algumas das minhas peças têm muitos anos de uso diário, pesado. Estão inteiras. algumas com sinais do tempo e das circunstâncias, mas em perfeitas condições de uso. Não tenho roupas de festa, tudo o que compro é para a labuta árdua de um trabalhador honesto, que acima de tudo é honesto consigo mesmo.

03/09/2009

Estive em São Paulo

Foi o primeiro vôo com circunflexo desta vida. Por conta da conexão em Brasília, na volta, foram três decolagens e aterrissagens. Também foi a primeira vez que esta criatura, até então encarcerada, deixou as fronteiras de Goiás.
De cara digo que São Paulo não me assustou. Primeiro porque os noticiários já o tinham feito, dando a impressão de que eu iria entrar em um mundo de biorrobôs. Segundo porque eu respeitei a cidade, não demonstrei medo e não cheguei me achando o maioral, simplesmente demonstrei respeito. Me dirigi aos cidadãos de modo cortês e recebi cortesias de volta. Foram solícitos em meu amparo, precisos nas instruções e compreensivos com minha crueza.

Trata-se de uma senhora com quase meio milênio de vida, já bem resolvida e ciente de seus direitos e deveres. Ela sabe que o país inteiro paga caro se cometer um erro. Já não se encanta com aventureiros, com cantadas de cinqüenta centavos, promessas já não acendem seus olhos e não se impressiona com demonstrações de qualquer tipo, a não ser as de respeito.

Pagando cinco centavos a mais para rodar distâncias maiores, com pontos de parada mais próximos, em ônibus melhores e sobre um asfalto mais bem conservado, fui ao metrô. Após problemas com a telephonia móvel, uma nativa em sua doçura e meiguice me orientou para novos procedimentos.

Este senhora bela e opulenta me ofereceu a mão carinhosa a guiar meus passos tímidos em caminho seguro. Não tenho o que reclamar dela, nem de seus filhos naturais ou adoptivos. À parte os problemas que a mídia escancara, como se só eles existissem, presenciei cousas que em Goiânia nem penso em ver. Mesmo os locais mais movimentados estavam satisfatoriamente limpos, as filas para o ônibus não eram burladas mesmo com passantes as atravessando de vez em quando, os ônibus ainda têm cobradores para auxiliar os passageiros, como este estreante na paulisséia.

Não me foi possível vê-la em todo o seu esplendor, com todo o encanto de mulher madura e ocupada em manter seus dependentes. Não se enganem, ela é sóbria, discreta e compenetrada. O escândalo que salta aos olhos se deve ao facto de ser extremamente bela e encantadora, qualidades ampliadas por sua estatura muito avantajada. É bem verdade que ela pode ferir, com um movimento súbito, mas para isto serve o respeito que lhe dispensei, mantendo a devida distância até que ela me chamasse para a curta conversa que tivemos.

Que mulher mais fascinante! Difícil compreender as atitudes de filhos ingratos que a maltratam, e de outros que a difamam para o mundo inteiro. Aquele repórter do New York Times, se tivesse ido para São Paulo em vez do Rio de Janeiro, com certeza teria tido uma posição bem mais respeitosa para conosco. Pois apesar de ágil e apressada, é serena e comedida, estuda bem quem se lhe apresenta e sabe impor suas regras.

Um conselho que dou para quem quer conhecer esta dama, é ter amizade com seus filhos. É pelo rebento que se conquista a mãe. Há anos trato alguns deles com o máximo de polidez e amizade que posso dedicar, pois fui recebido por abraços calorosos, inclusive por uma filha que só veio passar uma temporada e voltar para Rochester, Estado de Nova Iorque, mas foi dela que recebi um abraço que estava tão carregado de amor como poucas vezes experimentei, nunca de alguém que ainda não tinha colocado os olhos na minha cara de bolacha. Como a senhora que me aceitou carinhosamente, ela também é mãe e sabe receber. Sabe fazer um caipira tímido e recém-saído de uma vida de ostracismos se sentir vivo sem precisar dizer uma só palavra, como toda Audrey que preze o próprio nome.

Esta visita marcou uma guinada e activou genes que estavam adormecidos, alguns até atrofiados, como o da liberdade. Precisarei de muitos exercícios para que estejam prontos ao exercício pleno de suas funções, mas a dama secular em seu beijo rápido e maternal já fez sua parte.

Quando eu ainda não sei, mas voltarei a visitar a matriarca do país. Já sinto saudades de seus abraços, de sua beleza refinada, de seus filhos e de tudo o que ela oferece a quem se apresenta com intenções honestas. Da próxima vez irei com tempo, com recursos e certamente acompanhado. Não sou egoísta de usufruir sozinho do carinho e dos conselhos de quem me protegeu das sombras que ainda pairam na gigalopole.

Goiânia é uma criança que deveria se espelhar nas virtudes de quem é capaz de sustentar, sozinha, cultura e contracultura próprias. O que a torna uma cidade-estado

Posso dizer com toda a convicção do mundo, que a visita à Senhora São Paulo marcou minha morte, para permitir o meu renascimento. I love you, Sampa.

22/08/2009

Como pode ser tão ruim?

A propaganda oficial brasileira é um dos maiores ralos do erário público. A linguagem é quase sempre vaga, parece que os publicitários em questão têm medo de passar a mensagem que precisam passar. Se bem que na política o medo de expor a opinião tem o amparo da realidade.
Certa tarde (inteira) em uma fila do hospital Juarez Barbosa, me deparo com um cartaz (pretensamente) de esclarecimento a respeito da Hepatite B. Como não tenho a imagem no momento descreverei; Um cartaz horizontal com seis elementos principais, da esquerda para a direita: um rapaz negro dançando break no chão, uma garota cadeirande com uma bola de basquete na mão, outra garota fazendo pose de "gatinha", um enorme sinal de proibido pintado no muro já pixado, um surfista fazendo pose e sinal com a mão como se estivesse na praia, uma skatista fazendo pose com o veículo aos pés. Esclarecimentos a respeito da doença? Não. Instruções claras sobre como evitar a doença? Não. Um texto, ainda que rápido, mostrando as diferenças entre as hepatites? Não. Uma legenda dizendo o que aquela garotada fazendo poses estereotipadas têm a ver, directamente, com a prevenção? Não.

No decorrer das várias horas em que esperei para ser atendido, me perguntei o que era aquilo. A única conclusão a que cheguei, e que descartava o uso indevido e descarado dos impostos que eu pago, é que se tratava de um preenchimento de cotas. Porque a maior preocupação na formulação de uma propaganda oficial, já ficou claro, é ser politicamente correcto, ainda que o resultado final mate a mensagem a ser passada. Informar corretamente, de modo directo e claro a população é muito arriscado. Se o povo começa a pensar, logo começa a questionar, então políticos e programas de televisão perdem seus públicos.

Um exemplo recente de propaganda televisionada, é a que alerta para o excesso de elocidade nas estradas. Estereotiparam o motorista de tal modo, que em vez de engraçado ou carismático ficou canastrão. Ter graça ou carisma ajuda a fixar a mensagem na coletividade, ser canastrão, bem, quem entrou em uma sala de cinema e se esqueceu do filme meia hora depois do fim, sabe do que estou falando. A mensagem final foi "Foi a última vez que ele ouviu sua música preferida", a música era um rock pesado... Eu gosto de rock e não dirijo daquele jeito. Nada foi mostrado de modo claro, apenas sugerido, e muito mal sugerido. Não que eu queira ver aquele erro crasso do Detran, mostrando gente completamente desfigurada na televisão, sem maiores explicações. Só quero profissionais competentes trabalhando livres da censura política e partidarista politicamente patética. Mostrar o carro sendo abalroado de frente por um caminhão, por ter feito uma ultrapassagem perigosa, teria custado pouco e passado a mensagem.

As campanhas sobre medicamentos, então, me ofendem com tamanha incompetência. Digo "incompetência" porque não sou leviano de pensar primeiro na única outra hipótese, a da corrupção. Dão a entender que os laboratórios as encomendaram. Photographei algumas na Vigilância Sanitária Municipal de Goiânia, e minha chefe concordou comigo. São desenhos muito mal feitos, infantilescos, parecem ter sido coloridos com giz-de-cera vencidos. A intenção de quem idealiza as campanhas, quase sempre médicos, é das melhores, mas infelizmente na esphera pública uma idéia precisa passar por muitos filtros e muitas pessoas, muitas delas ocupando cargos de confiança sem ter conhecimento de causa para tanto. É aqui que dana tudo, que conceitos pessoais de certo e errado interferem directamente no trabalho. Notem que em momento algum eu me referi a interesses torpes, estou deixando tudo no ameno orbe da incompetência, que não é crime... Pena.

Cito duas propagandas oficiais que foram directo ao ponto e deram seu recado. Uma de Moçambique mostrando um caminhoneiro descendo do caminhão, já em casa, sendo acolhido pela família. É uma campanha contra a aids, que incentiva o caminhoneiro a pensar na própria família. Outra é nacional, uma pérola. Mostra um senhor já maduro na sala de cinema, com os traços endurecidos pela vida, começando a lacrimejar de emoção pelo filme. Se não me engano era uma campanha pela saúde do coração e a frase no fim era "Chore se for homem". Acreditem, esta propaganda tão liberal e avançada até para os dias de hoje, se deu durante o governo do Presidente Figueiredo. Oh, ja, mein herr. Uma propaganda da ditadura combatendo o machismo, algo que a nossa democracia bêbada nunca fez de verdade. Que ironia. Certo que o Figueiredo, em matéria de ser democrático, dava de dez na maioria dos caciques políticos hoje em liberdade, mas já faz um quarto de século que ele colocou um fim no regime, e as propagandas oficiais só pioraram com o tempo. Há uma diferença entre colocar em discussão e simplesmente discutir.

O que sugiro? Dusas cousas: Deixar publicitários tratarem de publicidade, existe já uma entidade própria para a regulação da propaganda, não precisamos de um doutor bacharéu com cargo de confiança dando pitacos; Olhar par trás, para ver o que e porque deu certo, e o que e porque não deu certo. Se o Estado se empenhasse no esclarecimento da população como se empenham seus dirigentes em suas campanhas eleitorais... Deixa, é utopia. Apenas dê uma olhada na ilustração e veja o quanto eles se encheram de dedos e medos de ofender, na hora de elabora-lo. Para quem não tem muito discernimento (o grosso da população) dá a entender que se medicar é legal.

15/08/2009

Vários pesos, várias medidas

Tenho uma colega que puxa o filho para trás, enquanto o pai puxa para frente com o pronto apoio da família.
O moleque mal sabe diferenciar protocolo de preto-no-colo. Pois certa feita, em uma feira agropecuária, ela o flagrou aos beijos com uma menina. Não beijinhos, mas daqueles que a molecada vê na televisão e vive querendo alguém para praticar. Nada de errado, se o malandrinho nada fizesse além de estudar e existir. Se algo acontecer, ele não tem como arcar com as conseqüências, nem no financeiro, nem no psicológico. Nem falarei em moral e espiritual porque é exigir demais.

Hoje há um pé de guerra na casa dessa colega, porque o pai quer espalhar pelos quatro ventos que o filho "é macho e sabe agarrar", enquanto ela quer dar-lhe a dose diária de safanões. Até a irmã dela apóia, deixa o filho livre e a filha presa. Homem pode, mulher não pode.

Vamos à contradição. Querem que o filho seja macho, mas querem que a filha seja pura, casta e virginal até o suspiro final, dando à luz por concepção do Espírito Santo.

Se eles podem, mas elas não, eles vão poder com quem? Não vai dar para ser macho, porque só vai restar homens nas ruas (que visão mais horrorosa, heim!) e terão que se virar entre si. Ou seja, por esta análise, essa mentalidade é um estímulo ao homossexualismo, embora este seja rechaçado com violência por muitas famílias. Rechaça, mas planta e cultiva com esmero.

Noutra análise, há a mulher para casar e a para transar. Então vem outra mazela, pois para manter essa mentalidade é necessário e vital que alguém expulse a filha de casa. Ou seja, a felicidade do homem é necessariamente a infelicidade de uma família inteira. Não há meio termo, se é preciso haver mulheres que jamais poderão se casar, porque em uma sociedade assim elas jamais se casariam, elas têm que sair de algum lugar, de mulheres que deram à luz. Ou estas mulheres seriam filhas de prostitutas, perpetuando um mundo de miséria e frustração, ou seriam filhas expulsas de casa, tendo causado uma dor que raramente um homem é capaz de conceber.

Não há meio termo aqui. Notem que em ambas as possibilidades, é preciso desgraçar a vida de alguém para manter os prazeres masculinos.

Agora vamos para as rodinhas de discussões mais reincidentes. Elas discutem política. Mais do que isso, falam mal de políticos. Com que moral? Alguém que incentiva o filho a abusar de outra pessoa mas não admite sob hipótese alguma que aconteça consigo, é em quê diferente dos políticos mal falados? Em nada.

Ambos só se importam com seus prazeres, não lhes interessa se a outra parte se sente bem; ambos não dão a mínima para quem venham prejudicar por seus interesses, pois se acham no direito de usar a outra pessoa para alcançar seu objectivo; ambos são capazes de matar uma pessoa para tirar satisfações de seu prestígio ferido, pois exibir e aprimorar a fama conquistada lhes é mais caro do que todo o resto.

Sim, há a questão cultural, que é difícil remover. Muito difícil. Dificílimo, aliás. Mas não é impossível. Ninguém adere a uma idéia, por mais pressão que sofra, se não lhe for simpática.

É muito cômodo poder esvair suas más tendências em alguém e ainda obter aprovação do grupo, pois a fama de bom pai de família e cidadão honrado fica preservada, apesar de falsa.

É muito cômodo poder fazer algo que incomoda, mas ter a certeza de que o mesmo não poderá ser feito impunemente consigo, fica preservada da máscara de cidadão calmo, equilibrado e civilizado.

No primeiro caso acima será preciso inventar uma mentira mais a cada dia, pois sempre haverá uma geração que quer saber os motivos disto e daquilo, e as explicações dadas a uma não servirão para a outra. Mas nós sabemos o quanto isso sai caro, estamos pagando o preço há alguns anos, mis precisamente desde Setembro de 2001.

No segundo caso acima, ficam confinados a agressividade e o rancor. Ambos crescendo com o tempo e um dia investindo contra as portas, até que estas sejam postas abaixo e eles se enfrentam. É o que está acontecendo hoje. Ser cortês e educado se tornou símbolo de hipocrisia, ser honesto é se arriscar a perder o respeito do grupo, não querer ter tudo aqui e agora é se arriscar a te virarem as costas.

Hoje em dia os filhos não respeitam os pais. Certo, meia verdade. Afinal, foram os pais que ensinaram seus rebentos a se colocarem acima do outro. Se o garoto transa é garanhão, se a garota transa é piranha? Então ele vai concluir que é melhor do que ela, que tem mais direitos, que é privilegiado. Um dia isto se vira contra quem não pode mais se defender, como um pai idoso. Não adianta reclamar, ele se acha superior a quem não pode se defender, lhe foi ensinado isto desde a mais tenra idade.

Depois de falar mal dos políticos e defender a pena de morte até para quem rouba para comer, ele vai entrar em seu carro, dar ré sem ver o trânsito, disparar, furar sinal, entrar na contramão, estacionar em cima da calçada e agredir quem achar ruim. Reconhecem a cena? Pois é, não saiu do nada, pois o nada não existe. O vácuo não existe. Se falta algo, outro algo toma seu lugar, e nem sempre esse outro algo presta. Começou quando colocaram o menino em posição de superioridade a alguém, seja uma menina, seja um empregado, seja um animal de estimação, seja quem for. Ele foi recompensado por agir como se fosse superior, quando adulto já não tolera mais não ser recompensado por isto. Ser punido, então, é jurar alguém de morte.

Nem todos chegam a tal extremo, mas todos o que compactuam com essa mentalidade corroboram para que tal extremo seja alcançado. Vão deter o extremista com que argumento? Toda agressividade que usarem para tanto, será vista como permissão para agredir em nome do que se acreditar, pelos mais jovens.

Gritar "Fora Sarney" e cochichar "Coma todas elas" é usar vários pesos e medidas, ensinando à criança que sua conveniência é mais importante do que a necessidade comum. Pois o pai já idoso e ranzinza pode ser muito inconveniente.

Para a colega de quem falei, aconselhei plantar uma marmeleira, que dá varas finas, fortes e flexíveis. Uma medida extrema para uma situação extrema. Infelizmente ela mora em apartamento, mas já cogita a idéia de pisar no chão e não pagar condomínio. Ela já percebeu que não está sozinha e que, na falta do amparo familiar, terá o dos amigos. Porque de pouco adianta incentivar e virar as costas, isto é hipocrisia. Ela sabe que se tentarem estragar o menino, terá a quem pedir ajuda para que volte a prestar. Isto é usar um peso e uma medida, não gerar contradições e cortar um mal pela raiz.

07/08/2009

Grisalhos

Entra naquele salão, como tem feito nos últimos vinte anos, todos os sábados. Mas hoje tem uma novidade, não consegue mais disfarçar os cabelos brancos.
Todas as amigas, e até alguns maridos, lascaram tinta antes que o primeiro fio ficasse totalmente albino. Pensou seriamente no assunto, o cabeleireiro há anos a incentiva, mas o que parece ser uma decisão banal e óbvia lhe soa estranha.

As mesmas caras de sempre estão lá, mas as cabeças, quanta diferença! Louras-mel da semana passada estão ruivas, ou castanho-dourado, todas eram morenas há não mais que sete anos. Há cinco a melamina avisa que vai se aposentar.

Lhe soa simpático encurtar os cabelos, deixando algum volume para manter a feminilidade. Não um chanel, mas um curto volumoso e vivo, mas nada de luzes, nada de tinta, nada de química de espécie alguma. Sempre foi uma mulher moderna, activa, atenta ao mundo mutante à sua volta. Sempre foi independente financeiramente e ainda guarda traços nítidos de sua juventude. Mas não vê nisto, motivos para querer enganar o espelho. Pode tratar de manter a cintura, o tônus muscular e redobrar os cuidados com a voz, mas a pele e os cabelos só podem ser disfarçados. Tem horror a artificialidades, suas amigas não são as mesmas desde que começaram a lutar contra a ampulheta. Parecem estar sempre querendo mostrar que não são velhas, uma delas se divorciou porque o companheiro de trinta anos de matrimônio não quis sequer pintar os cabelos, hoje sumiu de sua convivência, dorme durante o dia e badala à noite, geralmente com garotões. As outras não seguiram esse extremo, mas quase todas passaram a ter phobia do tempo. Foi verem as "melhorias" no espelho e ter medo de perdê-las, passando a gastar somas maiores no salão. A única exceção é uma amiga de infância, que ficou ruiva, mas se limitou a isto. Devaneia e medita enquanto folheia, sem ver do que trata a revista, esta dando destaque para uma actriz que se vende e é vendida como "gatona" que namora um rapaz diferente a cada semana. Melhor para ela não ver mesmo. Chamam-na, é sua vez...

- Lave, hidrate e Corte três dedos abaixo da nuca.

Ele festeja e estende a comemoração às outras dependências do salão, mas não ouviu as palavras mágicas...

- Blonde Marylin Monroe ou Grace Kelly?

Se lembra de ambas. Era criança quando Marylin faleceu, mas o velório da princesa ainda é nítido em sua memória. Foi sua época de juventude, quando ainda namorava despreocupada com o futuro...

- Deixe como está. Só lave, hidrate e corte.

- Com esse rosto de artista...

- Não quer fazer o serviço?

Ele obedece, mas não perde as esperanças de ela sair à rua com a cabeça dourada, quem sabe um louro bronze bem sóbrio. Começam lavando. Já passou por apertos financeiros sérios, foram épocas em que precisou usar curto para não gastar com a manutenção. O falecido não fazia objeções, mas a festividade da esposa não o enganava, sempre foi uma mulher austera, embora ousada. Naquela época não havia muito mais a fazer do que pintar o cabelo e caprichar na maquiagem. Às vezes até lhe vem à mente recuperar o tempo perdido, fazer o que não pôde, reaver as chances de que abriu mão pela família. Mas já lhe disseram desde menina que o tempo é como catraca de bicicleta, só gira para frente.

Não voltará a ter vinte e seis anos, os amigos mortos não vão levantar dos túmulos (graças à Deus) onde jazem, sua viuvez não pode ser revertida, os filhos não voltarão a ser crianças e não poderá mais ser jogadora de vôlei. Nem seus pais, nem seu marido, nem o esporte, nem cousa alguma que tenha perdido ou deixado de fazer voltará.

Não tinha muitos brinquedos em meados dos anos 1960, mas nem precisava. Conseguia se divertir com praticamente tudo, ainda que ficasse só olhando e adimirando. Se lembra de cada surra que levou e os motivos da maioria delas, algumas ela não mereceu e renderam inversões de papéis, com seus pais cabisbaixos e chorando de vergonha pela injustiça...

- Pronto, agora vamos hidratar.

- Mas já?

- Menina, onde você está com a cabeça? O tempo já passou, queria.

Passou. Se dá conta de que passou até muito depressa. Era uma menina decidida no que queria ser, uma médica advogada formada em administração e enfermagem, com uma carreira vitoriosa no vôlei. Às vezes queria ser a quarta Pantera do seriado, mas já quis ser freira por um curto período. Mas seguiu seu desabrochar entre minissaias e bocas-de-sino. Foi nesta época que conheceu sua amiga mais arraigada, praticamente a única que restou de então. Namoro era aquela cousa de garotos que tremem para um simples beijo...

- Acorda, Bela Adormecida. Vamos fazer uma massagem.

- Posso acompanhar?

Sua velha amiga. Poucas pessoas a conhecem como ela. Uma já cuidou dos filhos da outra em diversas ocasiões, têm certeza de que já foram mãe e filha noutra encarnação...

- Tô divagando, sonhando aqui.

- Parece que está é hipinotizada. Que foi?

- Lembrando... Lembra quando anunciaram que o Fusca ia sair de linha?

- Mesmo dia em que sua avó caiu doente. Quem diria que os dois iam sair de cena?

- Mesmo com toda aquela idade... Ela ainda tinha força pra me dar bronca, porque eu tava chorando junto dela.

- Não é só isso.

Não, não é. Ninguém imaginava que a avó dela fosse morrer algum dia, pensavam que a morte já a tinha esquecido. Mas ela veio e a levou. No ano seguinte se casava, depois começou a vir a ninhada, três rebentos que hoje vivem suas vidas e fazem festas temáticas "Anos 80" uma vez por ano. Pelo menos esta vitória arrasadora pode contabilizar, criou a todos com um sucesso raro, manteve todos na linha até que pudessem voar com suas próprias asas. E voaram longe...

- Mas, apesar de tudo, a senhora ainda queria ter feito todas aquelas coisas que a gente não conseguiu...

- Culpa minha. Mas não me arrependo, faria tudo de novo. Eu fiz minha escolha, ninguém me forçou a nada.

- Então por que essa cara, mulher?

- Entre não me arrepender e não sentir falta tem uma distância grande.

Viagens adiadas por causa do trabalho, dos cursos e dos estudos dos filhos. Amigos de cujos óbitos só souberam semanas mais tarde, alguns íntimos, mas de quem a correria acabou afastando. Foram quase vinte anos em um ritimo frenético, sem tempo para entretenimentos, que acabaram em um infarto fulminante. Só a viuvez conseguiu lhe mostrar o estrago que estava se causando, mas ainda foram alguns anos para conseguir parar...

- Vamos cortar?

- Vamos.

- Amiga, o tempo é uma catraca de bicicleta, só gira pra frente, ela não dá ré. Vem com a gente fazer aquela viagem, nós três.

- Eu vou aceitar. Desta vez eu vou aceitar. Só deixa eu organizar a minha agenda, em um mês eu tô livre.

- Aêêêêêêêêêê! Gostei de ouvir. Ainda tá uma mulher bonita, gostosa, cheia de vida pela frente...

O século não começou bem para ela. Custou a conseguir equilibrar as finanças e os súbitos aumentos de taxas da prefeitura levaram suas economias. Fora que a filha e seu marido ficaram quase um ano desempregados, precisou amparar os três por quase um ano. Se pergunta se meio século de vida lhe dá perspectivas. Sempre chamou de "novas" as pessoas com cinqüenta anos, mas agora é ela quem tem cinqüenta. Olha para trás e vê uma estrada longa, talvez mais do que o que tem pela frente. Aposentar está fora de seus planos, foi no trabalho que encontrou amparo para as mazelas que sofreu. Sinceramente, só queria ter uma chance de recomeçar a vida, ou o que acha que resta de vida, porque juventude...

- Juventude é cabeça, criatura! Você mesma vive falando isso pra todo mundo. Olha essa molecada careta, preconceituosa e reacionária que tá lá fora. Eles têm medo da própria sombra e se escondem entre ruínas do mundo já demolido. Minha mãe é mais jovem do que eles, você é uma menina perto deles.

- É, você tem razão. Marca a viagem, vou comprar um maiô.

- Cara, o Julierme ia adorar ouvir isso!

- E quem garante que não tá ouvindo?

- Você jura que não vai pintar? Não quer aproveitar esse rejuvenescimento de dentro pra fora e mostrar pro mundo? Mulheres bem mais maduras, de família, já fazem muito mais que isso.

- Respeita meus cabelos grisalhos. Eu não quero mostrar que tô bem, só quero estar bem.

- Deixa ela. Eu só queria tirar ela desse casulo e já consegui.

- Deixa eu envelhecer com dignidade.

Saem. Os cabelos brancos que só se vêem de perto continuarão brancos, os outros ainda serão. Volta a fazer planos; conhecer Santa Catarina, fazer um doutorado, deixar as marcas do tempo só no corpo, quer a mente lúcida até o último segundo, como sua avó era.