03/01/2009

Não sou ela, 1 de 3

Close na mãozinha do bebê. Cena em branco e preto. É batizada Audrey Aldrin Foster. Os pais saem felizes com a criança ao Chevrolet Caprice recém comprado. Em dois anos é tudo o que lhes resta. A empresa vai à falência por fraude e toda a directoria fica marcada, inclusive os membros inocentes. O pai de Audrey é interrogado e solto em seguida, passam a viver do salário de professora de Kate, ele vira dono de casa.

Cena colorida. Audrey completa dez anos, magra como só ela, é educada pela própria mãe da maneira mais austera possível. Dois desempregos em menos de um ano fizeram dos Aldrin Foster muquiranas incorrigíveis, mas a educação da filha de modo algum é negligenciada...

- Audrey, preste atenção! Deixe para sonhar depois, agora é hora de executar.

Balé, música, philosophia, prendas domésticas, do-it-your-self, tudo o que pode preparar a menina para a vida lhe é ensinado em regime de quase internato. Passam a levá-la para albergues onde actuam como voluntários, para ela aprender o valor do pouco que tem. Três brinquedos simples são o que ela tem, mas lhe é dito sempre que há os que brincam com caixas de sapatos, lembram que os siberianos vivem no gelo, onde não se brinca.

Audrey com doze anos. Falsa magra. A vida dura lhe deu pernas e glúteos desenvolvidos, contrastando com a cintura fina. Jeans e camiseta solta, para não chamar atenção, ainda assim sofre um incidente, um mendigo a ataca. Estava a menina contra o sol e a luz desnudou-lhe a silhueta, sai do episódio com seios à vista, logo socorrida pelos pais e um policial. Desta vez não é reprimida pela mãe, mas recebe uma advertência carinhosa...

- Minha filha, ser bonita é muito ruim num mundo materialista. E você é muito bonita. Tome cuidado, eles não perdoam as pessoas belas. Vão te invejar, tentar se aproveitar de você, e se você não quiser fazer esse jogo, vão te tratar como inimiga. Não são só os mendigos, é todo mundo, Audrey.

Mãe e filha se entreolham, câmera parada, foco de luz nas duas. Audrey começa a chorar e é acolhida. Mas mesmo assim vão ao albergue nesta noite, os mendigos de lá não são maníacos sexuais, estes não suportam ambientes respeitosos. A garota vai de vestido jeans longuete bastante folgado. Alguns voluntários começam a comentar como ela está se parecendo com a diva do cinema. Kate e Orson temem que a filha se envaideça, traçam planos mais austeros para sua educação, embora a vontade seja lhe encher de presentes. Mas têm visto o quanto isso tem estragado as crianças, que se tornam tiranas dentro de casa. Teatro, entretanto, lhes parece um bom entretenimento para ela.

Debute? Audrey não tem tempo para pensar nisto. Trabalha no estoque de uma loja de auto peças, embora mãe e pai estejam empregados há dois anos e meio. Mas o padrão de vida da família permanece o mesmo, assim como o Caprice 1980 seis cilindros. Mesmo assim tem festinha surpresa, quando chega em casa. Pais, parentes e colegas de trabalho não a esqueceram. Embora não saibam se estão exagerando nos rigores, mesmo achando que às vezes exageram, esses mesmos rigores docilizaram e prontificaram a índole da unigênita. Cabelinho curto, para não atrapalhar e economizar com os cuidados, ela se torna cada vez mais parecida com Hepburn. Todos notam e comentam, enquanto comem o bolo cor de rosa e tomam suco de maçã ou uva. Álcool em casa, só vinho, em pequenas porções e poucas ocasiões. De tanto serem tão rigorosos com Audrey, eles se tornaram também consigo mesmos.

Audrey, sempre ocupada, consegue tirar a habilitação. Desenvolveu uma disciplina marcial ao longo da pouca vida que teve até agora. Paralelamente, as semelhanças com Audrey Hepburn já são inegáveis. Volta para casa com os pais no banco de trás. Dia claro, poucas e tênues nuvens no céu, ela dirige devagar.

A sogra. Irvana chama filha e genro para uma conversa séria. Luz dura apenas na saleta onde estão as poltronas de vime. A sexagenária fala com gravidade...

- Eu estudei em colégio interno durante dez anos. Nós tínhamos vida social, apesar de as pessoas acreditarem que não. Gostei muito de ver vocês dois tirando Audrey das ruas, das más companhias, et cétera - pausa para pensar. Mas eu acho que vocês estão exagerando muito. Irmã Dayse ainda é viva, contei à ela sobre nossa garota e ela me perguntou o que Audrey fez de errado. Só trabalho e estudo, trabalho e estudo, trabalho e estudo. Kate, eu tive vida social, eu tive namoros, eu tive férias e tudo mais. Vocês estão preparando minha neta não para a vida, para para a parte dura da vida. A vida tem outras partes, se ela não souber lidar com elas, vai fracassar. Como esperam que saiba lidar com amigos se só os vê no ambiente de trabalho, onde não há chances de ela ser a garota que ainda é? Ela sabe lidar com os homens? Quando ela foi ao cinema, pela última vez?

- Well... She... Never.

Irvana faz uma expressão dura, a luz acentua as sombras e explicita seu aborrecimento. Neste momento Audrey chega do trabalho, exausta. A luz fica mais suave e ilumina todo o cômodo. A avó nota o modo como ela anda, altiva, delicada, como se deslizasse sobre o piso de tacos. O uniforme, camisa azul com crachá e calças pretas, não esconde o estágio avançado de sua formação física. Apesar de tudo, a moçoila é carinhosa e receptiva com a avó, como é com os pobres do albergue. Após o banho a integram à conversa, onde decidem que qualquer que seja o rigor, não poderá privá-la da vida social que ela nunca teve. Amanhã, domingo, após o meio turno de trabalho, a levarão ao cinema...

- Wow... Cinema? Puxa...

A cara de surpresa e perplexidade provam que ela não tem idéia do que fazer em uma sala de projecção. Na verdade, sequer tem uma roupa propriamente de passeio...

- Que tal aproveitarmos, nós quatro, para comprar roupas de moça para você?

- Mas eu tenho muitas roupas. São mais de dez peças.

No dia seguinte, após o almoço, vão os quatro ao shopping. Audrey sabe dirigir mais economicamente, então ela os leva. O deslumbramento comprova que ela é estreante na vida fora das obrigações.

Continua.

27/12/2008

Sim

Amassou a latinha de coca cola como pôde (força bruta não é o seu forte) e jogou na lixeira. Pensou bastante na sua situação, mas não encontrou saída. Que fazer? Cada um a quem contou a história fez festa, não poderia contar com ninguém.
Andou a esmo pelo Setor Aeroporto, sem definir um destino. O sol inclemente não assusta mais do que a visão que se descortina. Nem vê que quase vira recheio de pastel, sob as rodas de um Scânia cheio de carros novos. O xingamento do motorista, seguido de um gracejo grosseiro, nem lhe impressionou os tímpanos.

Tem muito medo. Sempre olhou com desdém para os eventos relacionados, mas agora é consigo e não vê luz no fim do túnel. E se ver, na certa é uma locomotiva na contramão.

No fundo sabe que não é tão terrível assim. Tem uma prima cuja vida foi completamente desgraçada por uma incursão mal sucedida, levou anos para recomeçar a viver, mesmo assim nunca mais foi a mesma. Ficou taciturna, recolhida e demasiadamente sensível. Entretanto, sabe que a maioria supera até razoávelmente bem.

Fácil seguir este raciocínio, quando não é consigo. Facílimo dizê-lo aos outros. Mas agora é consigo. Não percebe que atravessa a Anhangüera e entra no Setor Oeste. Não percebe nem mesmo que está suando mais que kanangô na sauna, pois não teve cabeça para tirar a jaqueta e calças de couro. Não que sua motocicleta seja um bólido, é uma CB 450, mas é uma mulher prevenida, sabe bem que andar de shortinho e regata numa motocicleta pode deixar marcas horríveis por todo o corpo, ao menor esbarrão de um carro, e já sofreu vários. Pois mesmo essa previdência toda não a poupou do drama que vive agora.

Os cabelos estão completamente ensopados de suor e ela nem percebe que entrou no Bosque dos Buritis. Uma larga nuvem piedosa retarda o seu cozimento, mas ela nem se dá conta. Porque agora é com ela. Tem que tomar a decisão hoje.

Mal o corpo esfria e a chuva cai. Para quem conhece Goiânia, é fácil saber que calor em tempo húmido é prenúncio de tempestade e rios instantâneos. O zíper nem está de todo fechado, então o suor dá lugar á água da chuva, ensopando-a ainda mais.

Por um instante chega a se alegrar, mas logo o medo volta e continua a caminhar. O que disser hoje, seja o que for, mudará completamente os rumos de sua vida. Por mais que digam o contrário, não terá a liberdade de agora. Se acostumou a pegar sua CB, sem avisar nem mesmo à sua mãe, e empreender viagens pelo país inteiro, tomar banho de rio pelo caminho, usufruir do seu trabalho, correr nua à noite quando ninguém vê.

As horas não a comovem e não percebe a longa caminhada que faz. Em meio à enxurrada, no que lhe vale o couro da roupa, que apaga a maioria dos carros, ela segue indiferente. Começa a chorar enquanto anda. Mas o que está lhe acontecendo? Do que tem medo? Tudo muda o tempo todo, só os mortos não mudam, por isto apodrecem. Quando chega a hora de mudar, que se mude.

Nunca foi Cinderela, teve sua primeira experiência sexual aos doze anos, com um colega de sala do qual se despediam, pois mudou para Los Ângeles no dia seguinte. A iniciação ficou em segredo até hoje, mesmo porque se vira com seu próprio dinheiro (como entregadora, em sua bicicleta) desde aquela época e acha que não deve satisfações a ninguém. Mas agora deverá.

Estia. Ela não percebe. O sol, bem mais ameno, surge e reinicia o ciclo para a próxima tempestade. Só agora, já no Jardim Goiás, começa a sentir o cansaço. Não foi uma epopéia retilínea, vagou pelos Setores Oeste, Sul, Bueno, Marista, chegou ao Pedro Ludovico e vários outros, em uma caminhada tortuosa e arriscada, por sua desatenção ao caminho.

Com a fadiga vêm as dores dos quase cem quilômetros em condições adversas que cobriu. Agora emerge a mulherzinha que mesmo o maior dos machões tem dentro de si, quanto mais uma moça de compleição delicada, apesar de sua valentia descomunal. Não consegue dar um passo mais, volta a chorar, quer colo. Logo o tem. Alguém a pega nos braços e a leva para dentro da loja, desviando de Mercedes-Benz e Chryslers. Lhe tira a roupa de couro e logo vê um hábito arraigado da mulher, que há mais de quinze anos costuma andar com uma camiseta e mais nada sob as vestes de motoqueira. Aquele corpo o excita muito, pois foi a primeira cousa que lhe chamou atenção há dez anos, quando a conheceu. Procede os primeiros socorros e aguarda que desperte. As colegas de trabalho a reconheceram na hora, da janela da copa, o avisaram e se morderam de inveja; seus namorados/namoridos/maridos nunca as carregaram nos braços, na frente de toda a cidade, fosse qual fosse a situação. Ela começa a acordar e o vê, no que também começa a chorar. Ele nunca a viu chorando, é uma surpresa à qual não sabe responder, senão acolher e esperar.

A concessionária inteira, apesar de deixá-los à sós, espera pelo desfecho do episódio. Deixaram o saco de pancadas, digo, o estagiário espiando por uma fresta que a persiana não cobriu. Quando ela se refaz, ele faz. Alega que o tempo pedido está acabando e pergunta mais uma vez àquela moça agora tão fragilizada "Quer se casar comigo?". Meu D'us! Era tudo quanto mais temia. Aquela pergunta a faz tremer nas bases, mas não consegue sequer raciocinar e deter o "Sim, quero". O estagiário se afasta a uma distância segura e solta o berro, funcionalismo e clientela fazem a festa.

Não doeu. Sinceramente não doeu nem um pouco. Perdeu um pouco da liberdade, mas como é feliz! Ah, como é feliz sendo mãe, esposa e motoqueira!

13/12/2008

Só o trabalho produz

Mais uma crise mundial.


Não pensem os mais jovens e desavisados que a de 1929 foi a única antecessora desta. Ao longo da história, o capitalismo teve várias outras, menos abrangentes e mais fáceis de levar com a barriga. Quem não se lembra da quebra da Nasdac? E da última crise imobiliária japonesa? Pois foi justo o ramo imobiliário, mais propenso à especulação, que disparou o cão desse revólver. Fora outras pequenas crises locais, como pequenos tremores que anunciam o terremoto.


O que todas elas têm em comum? A mentira. Não foram blefes, pois blefa quem tem cacife, foram mentiras tão grandes, que as pessoas estavam comprando uma garagenzinha de minibuggy pelo preço de um sobrado de seis aposentos. Claro que logo alguém se deu conta que a garagenzinha não valia o mesmo que o sobrado. Esse alguém decidiu tirar o dinheiro dali e aconselhou um amigo a fazer o mesmo. Normal, corriqueiro. Mas certas pessoas têm muitos amigos, que têm muitos amigos, que têm muitos parentes. Quando estas pessoas decidiram que não adianta esperar cinqüenta anos (estaria vivo até lá?) para trocar sua garagenzinha por um sobrado, até porque o sobrado estaria custando o que vale um palácio, decidiram tirar o dinheiro e aconselhar os outros a fazerem o mesmo. Resultado: Os bancos imobiliários ficaram sem dinheiro até para pagar os salários internos. Por que? Porque eles apostaram que no futuro (que não existe) haveria dinheiro para pagar todo mundo, sem se preocupar de onde esse dinheiro sairia, típico de capitalistas hedonistas.


Ninguém estava trabalhando para cobrir os valores inflacionados pela especulação, pois quem trabalha com gosto desconfia do dinheiro mágico que eles prometem. Bem, se ninguém estava sustentando de verdade tudo aquilo, como aquilo tomou dimensões tamanhas que gerou tanto estrago? Resposta: Mentiras.


Assim como um publicitário, um vendedor deve convencer seu cliente de que está investindo o resultado de seu trabalho em algo que vale à pena. Fácil quando se trata de uma casa onde a família vai morar com conforto e segurança, ou um carro que dará liberdade e novas possibilidades ao comprador. Mas um especulador não vende producto ou serviços, ele vende dinheiro. É uma loteria mal disfarçada, onde não se vê o producto, mesmo os advogados mais tarimbados têm dificuldades em perceber os defeitos do que é oferecido.


Dinheiro é um documento que atesta que seu portador mereceu poder adquirir o equivalente ao valor representado. Não é a nota ou a moeda em si, mas a contribuição para terceiros que o trabalhador deu, que é convertida em valores materialmente tangíveis. Se fossem tentar converter materialmente tudo o que representa um dia de trabalho honesto, não haveria dinheiro para pagar a uma diarista, então escolheram o que seria o mais próximo possível do justo.


Acontece que a especulação não trabalha para gerar dinheiro, ela simplesmente promete dinheiro em troca de dinheiro; ela promete um moto perpétuo. O sujeito compra uma avestruz, fica em casa coçando as partes baixas e vai todo mês pegar uma parcela, após algum tempo todo o dinheiro investido estaria coberto pelas parcelas recebidas e o que viesse seria lucro. Pelo menos a avestruz bota ovos, troca de penas, et cétera. A especulação financeira nem isso dá.


Lembram daquela famigerada pirâmide financeira, que causou alvoroço nos anos 1980 e 1990? É basicamente o mesmo princípio. O incauto é levado a pensar que sempre haverá mais gente para pagar seus dividendos, sem levar em conta que a população mundial é limitada, e que a população mundial capaz de colaborar é ainda mais limitada, e que a população mundial que cai nessa bobagem é muitíssimo mais limitada, graças à Deus. Mas o entusiasmo do aplicador lhe turva a razão, ele faz planos e mais planos, sem imaginar que se isso realmente funcionasse, não haveria mais ninguém trabalhando, portanto ninguém para lhe prestar serviços nem produzir bens que pudesse comprar. A pirâmide foi, e infelizmente ainda é, uma versão mais primitiva da especulação financeira. Só dá realmente certo com os idealizadores e os poucos que se adiantam, e sempre por pouco tempo.


O mundo acabou. Novembro matou toda a civilização que teve início na Revolução Industrial. O capitalismo, se quer subsistir, deve se basear no trabalho e não no valor corroível do dinheiro fácil. Os valores cobrados deverão ser baseados nos custos e não na paixão despertada, esta uma das estratégias mais usadas para atrair investidores. Mas cedo ou tarde as pessoas perceberiam que o que foi oferecido não valia realmente o que era cobrado, ou os descontos e as liquidações jamais existiriam. Tanto melhor que tenha vindo tão rápido, os danos são menores. Aliás, para quem não sabe, a Inflação é uma das filhas prediletas da especulação financeira, com sua irmã Recessão.


O mundo que temos desde este Dezembro, embora ainda tenha os adereços de outrora, não é o mesmo. É novinho em folha, mas está cercado pela sujeira que o mundo velho deixou. Levaremos décadas para limpar tudo, mas nada de jogar o lixo lá fora, agora sabemos que o "lá fora" de nossa casa é o "aqui dentro" de outras pessoas. "Lá fora" não existe.


Quer investir seu dinheirinho para garantir uma velhice segura? Sem problemas. Mas não invista em dinheiro, invista em resultados. Gráphicos e planilhas não são resultados, mesmo o teu estrato bancário pode não ser um resultado. Quem garante que o banco tem liquidez para te pagar o que demonstra? Quer investir onde? Coca Cola? Chevrolet? Agrale? Sony? a barraquinha de cachorro quente da Marlene? Tanto faz, desde que os resultados exigidos não se limitem ao volume de vendas ou ao faturamento, muito menos à bajulação da imprensa em páginas centrais de revistas e espaços de televisão. Tudo isso pode ser facilmente maquiado. Escolha um grupo ou mesmo uma marca só, e trabalhe por ela. Seja um vendedor de sua imagem, ouça as reclamações e sugestões do consumidor, informe-se e repasse a informação, contribua e exija resultados, vá às sedes administrativas e productivas, faça de teu investimento um compromisso e não uma muleta. Ei, a empresa agora é sua também. Trabalhe por ela.


Da mesma forma as firmas terão que mudar muito. Talvez a noção de concorrência que temos deva ser sepultada, pois a causa mortis já foi descoberta. Deixar a concorrência para o comércio, longe da criação e dos testes pode ser o mais racional. Hoje em dia é normal gastar setenta milhões de dólares para lançar um automóvel totalmente novo. Se o valor for parcialmente rateado por seis grande empresas, digamos, desenvolverem uma estrutura básica flexível o bastante para dar origem a vários modelos diferentes, cada uma investe quinze ou desesseis milhões e te oferece um carro bem melhor e mais barato. O resto, então sim, é com as concessionárias. Cada uma oferece o estilo e as configurações típicas da marca, o consumidor fica com a garantia de que terá peças importantes de reposição a preços mais baixos e muito mais fáceis de encontrar. Isto, em muito menor proporção, já é feito. Fiat e GM do Brasil usam o mesmo motor 1.8, que ficou famoso pelo baixo custo de manutenção, baixo a ponto de compensar o consumo. Por que não rodas, pneus, bancos, suspensão, retrovisores, limpadores, trancas?


Cobrar o justo enriquece, não rápido demais, mas enriquece. Enriquecer rápido demais é o que move os ladrões profissionais. Aliás, dinheiro sujo é facilmente lavado na especulação.


Não devemos confiar no mercado, o mercado não existe. O que existe é o grupo de consumidores, que entram e saem do bando a todo momento, e os bandos são irracionais, agem pelo simples instinto de auto preservação, que muitas vezes lhes precipita a morte. Por isso mesmo o "mercado" não é capaz de se auto regular, por isso mesmo vive pedindo ajuda dos Estados (ou seja, o povo, o que trabalha) para se livrar das enrascadas em que se meteu. Mercado auto regulador é um cavalo comandando o coche.


Deve haver alguém do outro lado do monitor, se perguntando porque eu ilustrei o texto com um Fusca. Eu gosto do Fusca, há uma penca de motivos dos quais cito dois: é um carro honesto e representa melhor do que um trator o trabalho. As propagandas dele jamais mostraram absolutamente nada além dele, e foram mais de vinte milhões de unidades sem nenhuma evolução significativa.

02/12/2008

Vaca digitando

Sou eu. Em termos de internet eu pasto e solto bolotas de esterco, sou uma negação.
Há um tempo a New me ofereceu um tal selo de qualidade, este ao lado. Só que este homo analogicus não sabia o que fazer com ele, não sabia nem publicar imagens no blog. Ainda hoje não entendi essa conversa de htlm, ou seria hmlt? Ah, não sei, só sei que não sei e continuarei a não saber, enquanto não tiver disponibilidade de tempo contínuo para isto.

Há bem menos tempo, a Luna também me ofereceu o tal selo de qualidade. Ainda estava concluindo a última parte do drama em três actos. Demorei para saber o que fazer com aquilo. Salvei no meu computador. Imaginem se tenho pressa de colocar vídeos e sons aqui... uhn!

Bicho, eu ainda não aprendi a colocar link! E vou demorar uma data ainda para tanto. Um bokomoko de estragar o coreto. Sei fazê-lo aqui, destro do texto, mas nas laterais do papel-de-parede ainda me soa misterioso.

Por isso mesmo, patota, peço compreensão. Meu primeiro contacto com computadores foi na época do 8008, quando ainda se usava Cobol purinho, e eu não fiz curso, que na época era caro pra chuchu. Depois fiquei uns anos sem ter acesso á máquina, aprendi já com o Windows 95 em um 486 DX. Depois foram mais uns anos sem acesso à máquina, quando a internet entrou sorrateira pela porta dos fundos. Quando me dei conta, já haviam o Google e o You Tube, os quais eu nem fazia idéia do que eram. O primeiro uso como página inicial, mas o segundo eu raramente acesso até hoje.

Eu ainda tenho minha Olivetti Studio 45 made in México, verde claro. Não conhece? , broto, cê parece que não sei! É uma máquina de escrever portátil, um baratinho que qualquer escritório tinha até meados dos anos 1980. É sumpimpa, só não acessa internet e não permite editar o texto escrito. Mas não dá pau e não tem vírus. Do balacobaco.

Bom, para não delongar e não entregar de graça a minha idade, homenageio a professora Fabiana, o miguxo Flávio e a Ana Chiclete. Só três, que eu peneirei muito. Alguns dos melhores já foram desactivados.

Agora chega. Vou pensar num texto que não seja sobre internet.

27/11/2008

Drama; 3 de 3

Todo fim de tarde, Esther vai à creche, ver no que pode ajudar. Sábado é a manhã inteira, com os filhos e o marido, queiram aqueles ou não. Laura não tem tamanha disponibilidade de tempo, mas sempre que pode está lá também, com Angus. O rapaz se sente meio responsável pelas crianças, embora o corpo esteja debilitado, a voz ainda vibra forte e alerta a qualquer risco. Virou "Tio Angus"...

- Tio? Eu?! Mas nem irmão eu tenho!

O bom humor está intacto. Laura já se reacostumou à sua boa aparência e o filho retribui. São cinco anos de sossego relativo, que Angus aproveitou para aprender hebraico com os novos amigos, o que não só preservou como aumentou sensivelmente sua lucidez.

A lua vai de balsâmica para nova nesta noite. De dentro da Caravan, mãe e filho vêem aquele Maverick fritando pneu assim que a luz verde acende. No som, toca "A Song For You". Rapidamente o bólido entra na Marginal Botafogo e some, D'us sabe a que velocidade.

Angus não acorda. Está quente, respirando, mas é uma respiração fraca. Leandro chega imediatamente, já com uma ambulância e o leva ao hospital. São horas de observação, com a pele empalidecendo e uma mãe se segurando para não desabar outra vez. Os dias correm serelepes e o quadro não melhora, mas Angus consegue acordar. Olhos fundos, voz fraca, mas mente lúcida e consciente do que se passa...

- Pelas barbas de Moisés! Não foi pra casa ainda?

Laura acorda de repente e cerca o filho. São quatro horas da manhã de sábado, na qual uma lua nova priva o mundo de sua luz. Leandro chega o quanto antes e ajuda a convencê-la a ir para casa e descansar...

- Alguma vez menti pra você? Então vai pra casa, toma... Toma um banho e descansa... Prometo que volto também, assim que puder.

Após muita insistência e diplomacia, ela vai, já tendo instruído todo o corpo de enfermagem dos cuidados a serem dispensados ao filho.

Dorme pesadamente. Sonha com uma menina dentro de uma grande caixa de bombons, debaixo da árvore de natal. O sono fez o efeito esperado e ela está nova em folha. Não tem outro pensamento que não o de ir ver Angus. Pelo caminho, vê aquele mesmo Maverick em uma loja de usados, à venda. Sabe o que dar de natal ao filho. Nisto se lembra se sua situação financeira razoavelmente confortável. Imagina o que as mães das crianças da creche passam, quando seus rebentos adoecem e precisam ser humilhadas em filas, guichês e corredores infindáveis de hospitais públicos.

Vê uma multidão no apartamento do filho, logo à frente vê Leandro desolado e se desespera. O pior aconteceu e ela não vê o tempo passar em seus prantos. Karen canta "Ave Maria".

Três anos e só as crianças da creche mantém a sanidade mental de Laura. Precisa delas muito mais que elas de si. Sua nova irmã se chama Esther, cuja fibra e experiência, a despeito da idade, amparam a órfã-de-filho em todos os momentos. É sua convidada constante para um chá, um jantar, às vezes um dia inteiro em uma casa íntegra. Mesmo cambaleando, Laura se mantém andando.

Certo dia, em vez da Caravan (que ficou na garagem desta vez) ela chega dirigindo aquele Maverick. Viu a lua crescente ainda bem cedo e se animou. Era de Maverick que Angus gostava? Então vai estudar tudo o que puder do carro, não pensou duas vezes antes de comprar aquele, cujo bom gosto da customização distanciou quem geralmente gosta de "tunning". A primeira cousa que aprendeu foi não subestimar um V8, principalmente com a preparação de seus 450cv já a 5000rpm. É carro manso, para as ruas, nem por isto menos perigoso em mãos leigas, como as dela. Os amigos gostam da novidade, sinal de que ela está superando.

Esther, uma cabalista que não se rendeu ao "show da cabala das estrelas de Hollywood", com seu modismo que mais detrata do que promove as tradições de seus ancestrais, chama Laura após as felicitações pelo carro novo...

- Ele te disse que voltaria? Você viu uma menina numa caixa de bombom? D'us é misericordioso ao infinito. Apareceu uma recém-nascida numa caixa em forma de coração, hoje cedo, à nossa porta.

Ela vai ver. Angus nunca mentiu, não foi desta vez que faltou com a palavra. A mesma garra que teve para cuidar de Angus, usa agora para adoptar Ceridween. Ela fez por merecer.

E a vida continua, sempre.

21/11/2008

Drama; 2 de 3


Angus espera a mãe na sala de espera. Até imagina o que ela tanto conversa com o médico, mas fica agoniado com o passar de quase uma hora. A bengala já é sua companheira de todas as horas. Não tem mais tremores, mas a coordenação motora tornou-se pífia. Consegue se alimentar, tomar banho, arrumar a própria cama, mas a caligraphia bonita e bem desenhada é saudade. Mal consegue escrever.

Laura sai do consultório com o semblante duro, pesado, chama o filho e diz para não fazer perguntas. Na verdade está segurando o choro. Deixa-o com a fisioterapeuta e vai ao pátio interno, desabafar. Uma vizinha com a qual pouco fala a reconhece. Nota claramente a dor no rosto da viúva, que aos poucos chora, passando de lágrimas furtivas ao choro mudo e desesperado. Esther sabe que Angus tem problemas de saúde, mas nunca teve grandes intimidades com aquela mulher em especial, só soube pela amiga em comum Mirtes. Deixa as crianças com as outras voluntárias e vai ter, seu coração de mãe judia tem certeza de que foi algo que o médico disse. Médicos deveriam ter bônus e ônus duplos, para o céu ou para o inferno, pensa. A fortaleza aparente de Laura desmorona rapidamente, ela nem percebe que está sendo amparada, só repetindo quase aphônicamente "vou perder meu filho". Esther também começa a chorar.

Passado o aguaceiro, Esther traz o médico pelo colarinho, literalmente. Deu um sopapo na secretária e em um segurança, mas é cousa à qual está acostumada a fazer pelos próprios filhos. O faz ver o que sua frieza "profissional" causou. "Lamento, mas é quase certo que ele vai morrer logo" é trocado por palavras mais amenas, ainda que na marra, enquanto Leandro é avisado do erro crasso do colega, e quase põe o hospital abaixo. Concorda com a judia que filho é assunto a ser tratado com luvas de pelica, principalmente em casos tão graves. A própria trata de preparar a outra mãe zelosa como acha que deve ser...

- Ouça, talvez o seu anjo tenha que voltar para o céu mais cedo. Aquele paspalho irresponsável não deixou claro que isto é uma possibilidade, não uma certeza. (suspiro) Cuide dele, que nosso bom D'us não pede mais do que isso, mas evite ficar triste e desarrumada. Ele vai ficar tão ou mais triste do que você, vai achar que está atrapalhando e que é o culpado pela sua tristeza. Tô vendo que você é mãe de verdade, que coloca o seu filho à frente de tudo, então faça mais isto por ele. Eu já te vi em épocas em que se arrumava, perdoe a indiscrição, volte a fazê-lo. Ele vai ficar feliz. Ele não merece isso?

Laura confirma com a cabeça. Mas por agora continua precisando do amparo, após o quê é auxiliada na melhoria da aparência. Já que está cor de rosa de tanto chorar e soluçar, lhe empresta uma fita branca para colocar na cabeça, prendendo só os cabelos rentes ao couro, dá um laço muito discreto, um baton cereja-claro e ajeita-lhe a camisa. Agradece e vai buscar Angus, que já é hora. Esther estava certa, os olhos do garoto brilham ao ver a mãe mais leve e bem arrumada.

A lua mingua para balsâmica, neste início de noite, mas desta vez a televisão foi desligada. Laura acompanha o filho àquele treco esquisito com o qual nunca teve intimidades, o computador, manipulando aquela cousa estrambólica com a qual nunca simpatizou, a internet. Só os usa (ou usava até agora) para assuntos sérios, estritamente profissionais ou casos de urgência. Ele lhe mostra seu espaço pessoal na rede, dedicado aos Carpenters. Nunca soube que ele tinha esse gosto para música, sempre esteve ocupada demais tentando dar-lhe um futuro melhor. Na rádio virtual que montou, toca "Crescent Noon". Vê também que ele tem muitos amigos virtuais com espaços isotemáticos. Confessa-lhe...

- Pois o seu pai, no nosso aniversário de namoro, me levou pra ver eles, quando estiveram no Brasil. Conheci os dois. Não sabia que ainda havia gente que gosta deles, faz tanto tempo!

Vai ao seu quarto, pega uma caixa sobre o maleiro e leva ao filho. Lhe dá de presente. Ele abre e o coração dispara, o que poderia ser perigoso se estivesse só. Laura Smaradigma, sua mãe, em várias photografias com seus ídolos. Sabe que é sua mãe, mas não reconhece aquela Laura risonha e marota que mostra língua ao namorado photógrapho, ao lado de Karen Anne, que também faz a careta. Os golpes da vida e a falha dos que deveriam ajudá-la, a encrudeceram pouco a pouco, quase sem perceber. Escaneia imediatamente, publica várias das muitas poses e dá à mãe a senha e os macetes da página. As imagens fazem sucesso rapidamente e ela fica famosa entre os fãs dos irmãos. Muito bonita é o adjetivo mais brando que Laura recebe dos internautas.

Com a aparência restaurada, os galanteadores de cinqüenta centavos logo começam a receber sopapos da mulher, que passa a ajudar Esther e seus filhos no voluntariado, na creche do hospital. Não só pela mudança de atitude, mas a lida com aqueles rebentos a rejuvenesce. Angus ajuda com sua serenidade, pois fisicamente já está incapacitado para tanto.

Continua...

13/11/2008

Drama; 1 de 3

Laura leva o filho para casa. O garoto se cansou muito, no meio do recreio já não agüentava dar um passo e os professores acharam por bem que não voltasse a pé. A lua cheia já começa a minguar em último quarto, neste fim de tarde, quando a boa Caravan entra na garagem. Para quê trocar de carro, se seu mecânico de confiança conseguiu enfiar uma injeção electrônica no GM151? Não vai gastar a poupança à toa.

Angus volta a se cansar, desta vez com mais intensidade, e desta vez desmaia. Acorda à noite, no hospital, com suspeitas de esclerose...

- Meu filho tem sete anos!

- É só uma especulação, mas o eletroencefalograma não deixa muita margem, e pegamos os sintomas em plena actividade.

O neurologista se esmera em explicar que não existe doença exclusivista, que ele mesmo já teve câncer de mama.

Uma semana depois, Angus tem um ataque, consegue gritar pela mãe, mas cai e se fere no meio-fio de granito. O diagnóstico é confirmado por dois outros médicos.

Laura é uma mulher forte, viu o pai ser levado, sem acusação formal, pela repressão e nunca mais o viu. Sustentou a mãe e a irmã caçula até se ver sozinha no mundo. Depois pela segunda vez, quando viu o marido esmagado entre um ônibus e um poste. O motorista fugiu e nunca foi encontrado. Suportou tudo para criar o filho, o fez aprender as lidas domésticas desde cedo, disciplina-o como acha que deve. Ela agüenta a notícia, explica ao menino da forma mais diplomática que pode e avisa que terá que estudar em casa, de agora em diante. Sorte? Não. Laura nunca lhe passou a mão na cabeça e se mostra uma professora rigorosa.

Vai um ano sem novos incidentes, com remédios relativamente caros. Angus monta um Maverick de papel, que pegou na internet. Modificou a pintura original para fazer um bólido. Diz que pegará uma carcaça no ferro-velho e montará um igual, quando crescer.

Angus acorda de um mês de coma. O dono da drogaria já está preso, por venda de medicamento falsificado, mas as seqüelas no sistema nervoso são irreversíveis. O garoto perdeu quase um terço da visão e aquele décimo oitavo Maverick foi o último que ele conseguiu montar sem ajuda. Precisará de uma bengala, de vez em quando. Laura se mostra firme. Impressiona a todos pela fortaleza e pela serenidade, mas por dentro se contorce de preocupação. Seu filho não terá uma adolescência normal. Receitam mais medicamentos. No caminho de volta, Angus vê um Maverick 302 exactamente igual ao último que fez. Chama a atenção da mãe para o que viu, consegue assim distraí-la de seu mundo denso. Ela sabe dispensar carinho, mas só o faz para quem julga que realmente precisa. Seu filho, no entanto, se comporta como um homem, ao menos aparentemente.

Segue mais um ano sem qualquer ocorrência. A única anomalia é Angus estar dois anos adiantado em relação à antiga turma, que se compadece...

- E a gente pensando que cê tava de boa, mano!

- "Boa" o cacete! Eu estudo o dia todo, faço exercícios o dia todo, levo bronca o dia todo. Fora que ela nunca mais me deixou comer bobagem.

Eles o confortam. Infância sem comer bobagem, para eles, não é infância. Findada a visita, Laura o põe para estudar tudo o que as horas de lazer inesperadas não permitiram. Quer mantê-lo o mais lúcido possível pelo maior tempo possível. Seu neurologista afirmou que todos os pacientes que lêem e estudam respondem melhor ao tratamento. No rádio toca "Era Bello Il Mio Ragazzo". Desliga-o na hora, já começava a marejar os olhos.

Aos poucos se torna comum ver o filho usando a bengala, aos poucos se torna comum ele não conseguir andar mais que devagar, logo o médico desconfia da gravidade dessa doença e pede exames novos, com tecnologias novas e se põe a estudar descobertas novas. Viu aquele menino nascer e a última cousa que quer é enterrá-lo. Laura aceita de bom grado a solidariedade dos próximos, mas rejeita até com rispidez as manifestações de piedade. O rádio de alguém, no Vaca Brava, toca "Lady Laura". Aperta mais a mão do filho, mas não muito, ele ficou sensível à dor.

A polícia interfere para que Laura não mate um dos médicos que deram o diagnóstico. Descobriram violações no tomógrapho que aumentam muito as chances de acusar doenças graves, estranharam ele ter trocado de carro tão depressa. Um fiscal da Vigilância Sanitária diz que é comum, como o caso, médicos receberem comissão pela receita de drogas controladas...

- Seu Sérgio, meu filho tomou medicamento para esclerose por dois anos! Será que tem jeito de reverter o quadro dele, se parar de tomar aquilo?

O pharmacêutico de formação pensa um pouco, lembra do trabalho de formatura e conclui, com o médico da família, que foi justo isto que degenerou a situação do rapazote e, lamentam, pode ser irreversível. Dias depois uma nova tomographia revela os danos graves. Mas ela não vai ficar parada, vendo a banda passar. Manda um e-mail para a irmã, hoje em Berlim, para que informe de qualquer novidade na área, e recebe uma reprimenda. A caçula a espinafra por ter escondido o caso, soube por jornais do escândalo do médico, mas nunca pensou que o sobrinho estivesse doente. Manda no dia seguinte artigos que são entregues ao único médico em quem Laura confia. A luta dá frutos e o quadro estabiliza.

Os estudos? Os amigos de Angus voltam a consolar o garoto...

- Putz quiparalho! Tua mãe é lôca, mano!

- Isso é coisa pra gente ver no vestiba!

Laura surge por trás, com o lanche e sugere que, em vez de resmungar, que aproveitem o adiantamento do amigo para se darem bem na escola. Eles acatam a idéia. Na manhã seguinte, Leandro dá uma notícia preocupante. Nem ele, nem nenhum dos colegas do mundo inteiro que consultou, sabe o que Angus tem. A medicação errada fez uma confusão de sintoma tão grande, que ninguém mais arrisca dizer que tratamento deve ser seguido. Além de áreas internas e importantes demais estarem envolvidas na lesão. Por enquanto, continuarão com a medicação e as actividades de praxe, mas alerta para que não subestime o menor sintoma, qualquer tremedeira, a mínima formigação, e mantenha Angus longe de lâminas e pontas.

Graças à mãe firme e disciplinadora, consegue chegar à puberdade sem maiores revezes, contando até com a presença da tia que nunca tinha visto na vida. A coleção de Mavericks de papel impressiona, não pela quantidade, mas pela personalização e pela qualidade da montagem, hoje com co-autoria da mãe. Aliás, se perguntam se um bom padrasto não seria de ajuda para ela cuidar do filho...

- Mas que idéia mais estapafúrdia!
- Por que? Se eu te levo comigo pra Alemanha, tu não fica solteira nem que queira! Já se olhou no espelho? Já viu o pitéu que tu és?
Não se acha. Nem se veste como uma mulher bonita, na verdade nem quer ser, quer manter os homens longe para se dedicar ao filho sem ser perturbada.
Continua...