04/03/2007

Maria Cristina

Um doce de menina, é o que é Maria Cristina. Pisciana legítima, de fé inquebrantável e moral sólida, não aceita um "Não" como resposta.
Ah, Maria Cristina! Menina linda, de pele alva e serelepes olhos negros. Seus cabelos são negros, o estilo fica ao seu bel-prazer, ou ao seu humor. Da última vez que a vi estava com uma escova esvoaçante, mas já usou um chanel não muito curto, noutra vez um longo totalmente liso que escorregava pelos ombros.
Incrível notar que um corpo tão frágil e delicado como o seu, até vulnerável às enfermidades, abriga um espírito de ferro, uma vontade indemovível e uma obstinação de fazer inveja aos ninjas.
Nem tudo são flores na vida desse anjo. Na verdade ela não sabe o que significa a palavra "facilidade". Como anjo, desde a mais tenra idade se dispôs a ajudar quem precisasse de seu auxílio. Ainda era uma menina quase adolescente, quando crianças de uma creche a chamavam de "Tia Cristina". Freqüente era chegar um pai, a vê-la brincar com os petizes e perguntar quem era a responsável pela creche, no que aquela menininha magrela respondia "Sou eu", causando espanto. Ela sabe ser brava, muito brava, mas é bravura de amor e candura, de quem teme que os seus tutelados se percam no caminho da vida.
Me pergunto como um coração do tamanho de um Fusca cabe em um corpinho diáfano e delicado como aquele. Porque a obstinação que a maioria usa para fins egoístas, sejam quais forem, ela emprega na assistência aos que a cercam. Poderia estar rica, freqüentando colunas sociais e jantares amenos, onde os esnobes comem raspas de ouro por pura ostentação. Mas sua fé é legítima, a premissa de amar ao próximo é seguida à risca. Por tudo isso é triste ver lágrimas escorrendo em seu rosto meigo. Ainda que lhe faltem com o respeito, ela não falta com a caridade; ainda que lhe faltem com a caridade, ela não falta com a palavra; ainda que lhe faltem com a palavra, ela não falta consigo mesma e trabalha no que se propõe. "Ama ao próximo com a ti mesmo"? Pois ela ama mais.
Mesmo de luto, ela trabalha. Ainda que precise segurar o choro, ela trabalha. Ainda que esteja com a saúde (ainda mais) frágil, ela trabalha. Não ganha absolutamente nada em termos financeiros para se dedicar tanto. Mas gosta de servir de exemplo, pois de lição a maioria já se faz valer.
Ah, Maria Cristina! Em uma época em que muita gente tem medo de parecer politicamente incorrecto, é paradoxal ser irmão postiço dessa moça. É muito branca, elegante, culta, educada, linda de cair de costas, se recusa a ser grosseirona só para conseguir popularidade. Por vezes me pergunto se não serei acusado de racismo por abraçar e paparicar Maria Cristina às claras. Ela paga caro por ser assim, pois sofre muitas vezes sem ter um amigo por perto a acolhê-la. Eu também sofro por não estar próximo e ajudá-la. Ao contrário da regra, ela ama e se entrega ao que faz. A vida pessoal fica para quando a missão estiver cumprida, seus prazeres ficam para quando a dor do assistido estiver devidamente atenuada, seu descanso fica para quando o trabalho estiver pronto, ou o corpo não conseguir mais se manter de pé.
Ela tem o gênio forte, terrível mesmo. Quando encasqueta, não há quem segure. Talvez também por isso me identifique tanto com ela, sou no mínimo tão genioso quanto, senão pior. Já tivemos discussões homéricas, após as quais olhamos ao redor e nos perguntamos aonde teriam ido todos. Ah, a irmã que QUEM É me permitiu escolher só não é mais parecida comigo por falta de laços genéticos. Não sei se ela deveria se orgulhar de ter defeitos em comum comigo, mas...
Ah, Maria Cristina! Nenê. Armada com sua pose de fidalga e olhos entreabertos, pensa que engana alguém. Aquela "brabeza" toda não resiste a um choro, uma dor, uma tristeza sincera. ela se desmancha e logo se envolve, como o anjo de candura que é. Eu descobri há uma década quem é na verdade essa moça. É uma fiél emissária de Maria de Nazaré, uma criatura tão nobre e evoluída que a imensa beleza que vemos é a pontinha do iceberg, sua glória completa abrasaria a Terra se fosse exposta. Porque uma católica praticante não abriria mão do conforto e conveniência de uma família, com marido e filhos, que sempre são uma desculpa para não esticar o trabalho; Porque um filho é a desculpa perfeita para não cuidar igualmente dos filhos dos outros. Para ela não existe isso, todos são seus filhos até que alguém os assuma como se deve. Para ela a dor do outro não é uma informação a ser considerada, mas sua própria dor. Ela finge que não sabe, é amada por um sem-número de pessoas que tiveram suas vidas completamente modificadas por ela. Lembro que, quando nos conhecemos, eu estava me preparando (já quase pronto) para virar eremita. Cheguei a me perguntar quem aquela magricela pensava ser para me puxar pelo braço e me repreender. Fisicamente sou o oposto dela, sou robusto e poderia tê-la arrastado pelo corredor da escola facilmente. Mas aquela moça franzina conseguiu me segurar.
Ultimamente aquele corpinho frágil não tem resistido o suficiente à imensa força daquele espírito puro. Por isso sempre tenho uma vaguinha para ela em minha preces diárias. Ainda que não precisasse, ela merece. O mundo inferior em que vivemos precisa de gente como ela.
Não há palavras suficientes para descrevê-la. Só posso dizer que amo essa moça, a ponto de ter nascido muito antes e sido mãe dela, se me fosse dada a escolha.
Pompom com protex, protege a Nenê.

17/02/2007

Vovó

Vovó estava tão linda! Aquela expressão tão serena e delicada que só ela para ter mesmo. Lembro que ela me ensinou a fazer bonecas de pano, quando eu ainda tinha meus cinco ou seis anos. Foi bom ter aprendido isso tão cedo, não fui seduzida pelo apelo das bonecas de plástico.
Quando completei dez anos ela, que já tinha me ensinado a remendar minha própria roupa, me deu a máquina de costura à qual trabalhou na juventude. Alguns acidentes, algumas coisas inindentificáveis e aprendi a usar aquele aparelho. Foi bom ter aprendido isso tão cedo, fiz eu mesma as roupas que queria, pela décima parte do que minhas amigas gastavam com as suas.
Quando debutei... Meu Deus, aquela mulher não era mais louca por falta de uma irmã gêmea. O Fusquinha 1960 com forração vermelha, tirado novo pelo meu avô. Ela me entregou as chaves e disse "Vai treinando, quando tirar a carta, já vai ter o seu carro". Claro que as garotas zombaram, dizendo "Ou é carro ou é Fusca", mas eu tinha meu Fusca, elas nem isso. E tenho até hoje. Foi bom ter acontecido tão cedo, aprendi a valorizar as coisas mais simples e não ser fisgada pelo luxo.
Quando fiz dezoito tirei a carta... e apresentei o homem que se tornou meu marido. Imaginem a reação quando cheguei em casa com um negro, sendo eu a oitava geração de uma família ítalo-germânica. Não fosse a vovó, teriam escorraçado ele de lá, e o rabugento do meu pai teria perdido seu parceiro de filatelia.
Mas há uma coisa que Graça Patrícia Bayern me ensinou e que valeu por tudo o que sou hoje: Desapego. Não pensem que todos aqueles presentes vieram de graça, fiz por merecer cada um. Neta de berlinenses, teve uma educação austera e disciplinadora que não conseguiu passar para os filhos, mas me ensinou na íntegra. Aprendi desde cedo a dar valor a cada pequena coisa, cada momento, cada palavra. Mas também que nada disso me pertencia de verdade, como quando meu avô morreu e ela disse "Viu? Se fosse realmente meu, não teria ido embora" com aquele sotaque que não sei como conservava em tanto tempo de Brasil. Não diluiu meu luto, mas encurtou muito. Quando todo mundo ainda chorava abraçado no meu Fusquinha, eu já tocava a vida. Pois se parasse para lamuriar pelo que foi, perderia o que estava sendo e ficaria ainda pior.
Contam que quando ela estava em uma praça, levando meu pai para tomar ar fresco, soltaram o boato: "A princesa Grace de Mônaco está no Brasil!". Dizem que a verdadeira achou graça dos jornalistas, só o meu avô que perdeu as estribeiras. As photographias não deixam dúvida quanto às semelhanças, linda de morrer. Mas assim como o marido não pertence à esposa, a avó não pertence aos netos. Foi bom ter aprendido isso tão cedo, mais do que qualquer outra coisa que ela me ensinou até ontem.

FELI$ NATAL

Feli$ Natal.
Heim? Já passou? Não, não passou, ainda está por vir.
Não, não é uma daquelas philosophias complicadas que dão sono até na guarda do palácio. Enquanto vocês estão contando os tostões para gastar em ovos de chocolate, a indústria e o comércio já estão de olho na próximas datas comercialmente apelativas. Neste exacto momento há um batalhão de marqueteiros planejando a campanha para o Dia da$ Mãe$, quando este estiver se aproximando o dos namorado$ começa a ser planejado e assim por diante. Ou seja, daí para o natal é um pulo, ou uma verba publicitária. Só me adiantei um pouco às agências de propaganda.
O povo reclama muito desse aspecto tão materialista que imprimem nessas datas, que em tese deveriam ser sagradas. Concordo plenamente. Entretando devo fazer as vezes de advogado do diabo. Por mais triste que o excesso seja, o trabalho em si é bom. Não vou discorrer sobre a exploração da mão-de-obra e a mercantilização (esta citarei mais adiante) dos sentimentos envolvidos. Vou falar das pessoas que, muitas vezes, não têm conseguido sobreviver sem essas datas. Emprego está difícil até na Alemanha, imaginem aqui, onde o governo já comemorou quedas insignificantes do desemprego. Não são só pais de família, como também idosos e adolescentes.
Os primeiros geralmente têm urgência em encher a despensa, depois de enviar currículos até para sósia do Bin Laden, porque a barriguinha do bebê não conhece indicativos econômicos, ela reclama com ou sem emprego.
Os segundos eu retificaria, qualquer pessoa acima de quarenta anos é preterida pelos empregadores, apesar da experiência que trazem e da capacidade de motivar a equipe que só a idade lega. Mas na hora de comprar, aha, até Matusalém serve.
Os últimos são alvos da falta de experiência. Fazem um estardalhaço para promover productos de mau gosto e aspecto chamativo, atraindo a atenção e a mesada, mas na hora de pagar salários, querem que nasça pronto.
Essa gente só tem essas datas para garantir uma situação menos sofrida. Se de uma hora para a outra as pessoas decidissem não gastar mais um centavo sequer em comemorações, o tecido social não se rasgaria, seria feito em trapos imediatamente. É aqui que começo a falar da mercantilização dessas datas. Há responsáveis que ganham com isso, que ganham muito com isso. Por conta desses responsáveis, a indústria deixou de investir em mão-de-obra talentosa para investir em mão-de-obra especializada; se sair um milímetro do que aprendeu na faculdade, trava. Hoje esses artesãos são escassos, por isso mesmo ficaram caros e agora os meios de produção em massa estão com imensas dificuldades em reaver seus préstimos, e sendo poucos a formação de novos artesãos também é dificultada. Mas não é só, esses responsáveis agora estão correndo atrás do prejuízo que causaram em nome da eficiência e da lucratividade, o ar que respiram e a água que bebem estão comprometidos. Estão investindo pesado agora em algo que deveria estar pronto há décadas. Esses responsáveis, caríssimos, estão em escritórios refrigerados, em chalés aquecidos, em campos de futebol, em botecos, furando o sinal vermelho, cozinhando o jantar, pedindo uma pizza, et cétera.
Não reclamemos. Nós todos somos responsáveis pela mercantilização do sagrado. Ainda que só há pouco tempo estejamos começando a nos dar conta disso. Não existe "O" mercado; NÓS somos o mercado. Se as pessoas supracitadas estão nessa situação ruim, é porque NÓS permitimos que nos manipulassem. Ao contrário do que os inescrupulosos pregam, NÓS-MERCADO temos coração sim, só não temos juízo, se nós quisermos que os especuladores que ganham com o sofrimento alheio saiam do páreo, eles saem. Mas para isso precisamos sair da letargia em que nos encontramos e começar a pensar com nossas próprias cabeças, prestando atenção naquilo que compramos, de quem compramos e porque compramos. Há países que usam mão-de-obra escrava, sob os mais diversos eufemismos, por isso vendem bugigangas a preço de banana. Há países onde a manifestação popular é crime, por isso os especuladores pagam o que querem e os empregados ainda se dão por satisfeitos, de onde também se conseguem preços muito baixos.
Na próxima vez que quiser protestar contra uma data comercial, proteste sabendo o que vai comprar. Escolha de quem vai comprar, não se deixe levar pela pechincha. Agindo assim, quem sabe, possamos tornar os comerciais apenas um detalhe das datas comemorativas, e dizer ao fim de dezembro FELIZ NATAL. Mas isso não se dará tirando o meio de vida de gente em dificuldades. Antes de falarmos em salvação da alma, teremos que matar a fome do indigente.

03/02/2007

Talvez

Talvez não seja exactamente aquilo que gostaria de ser, mas quem é? Oxalá fosse um oitavo do que poderia ser.
Talvez não deja exactamente aquilo que os outros gostariam que eu fosse, mas quem é? Oxalá tivessem uma razão razoável para exigirem isso de mim, ou de qualquer outro. Exijam de si mesmos.
Talvez não goste da vida que levo. Por mais resilente que seja, sempre há um desconforto agudo que não consigo solucionar. Mas por que me culpar? Ainda se a culpa resolvesse algum problema.
Talvez não devesse menosprezar o mundo. Mas não gosto dele, o que hei de fazer? Acho-o grosseiro demais, feio e desnecessariamente agressivo. Tolero.
Talvez devesse me esforçar mais para saber o que as pessoas esperam de mim, isso melhoraria minha sociabilidade. Mas não consigo saber nem o que eu espero de mim! E não devo coisa alguma à sociedade.
Talvez eu esteja envelhecendo mais depressa do que seria desejável. Ou será que tenho razão? Deus queira que não, detesto ter razão. Quando acerto é porque se trata de alguma tragédia ou um prejuízo, então fico o dia todo a ouvir aquela ladainha: "Você tinha razão", como se isso ainda adiantasse de alguma coisa. Não quero ter razão, quero resolver o problema!
Talvez não tenha sabido perdoar as pessoas a contento, ainda que elas me infrinjam uma ferida sem nem dar tempo de a outra cicatrizar, para depois virem me pedir ajuda na primeira crise. Afinal, se pedem ajuda é porque precisam, ainda que suas consciências digam que não merecem.
Talvez não tenha sabido me perdoar. Meu caminho parece ser muito íngreme e inóspito para a maioria. Essas duas qualidades não admitem muita margem para erros, mas eu erro, ou não estaria aqui. Aliás, estou aqui a contragosto, reencarnei com solenes protestos.
Talvez nem goste de mim. Pode ser isso. Olho no espelho e raramente não me entristeço com o que vejo, minhas photographias sempre me deixam mais estúpido do que realmente sou, com cara de vítima.
Mas não tenho certeza nenhuma.

29/01/2007

Ave Bertha


O céu ainda estava escuro. Ela acordou os filhos, mandou que fizessem silêncio e levou-os ao carro. Empurraram-no por um bom caminho, a fim de não acordarem Karl, mesmo sob protestos dos petizes. Quando estavam a uma distância suficientemente grande para não acordá-lo, então sim começou a aventura...

-- Eugen, dê a partida e suba rápido.

Lá foi o adolescente (se bem que o termo não se usava na época) girar a imensa manivela, sorte que o motor era pequeno e leve, como o carro. O motor pegou e ele subiu ao banco com a mãe e o irmão.

Em momento algum foi uma viagem tranqüila e agradável, pelo contrário. Andando a quatorze quilômetros por hora (quando embalava) muito antes de inventarem a surdina e com aquele cheiro de fumaça mal queimada a entupir o nariz, só uma coisa motivava Bertha Benz: salvar o sonho do marido e ir à desforra. Lembrava-se bem do comentário de um jornal fancês: "Ridículas as invenções dos senhores Daimler e Benz (...) estão fadadas ao rápido esquecimento".

A primeira rampa provou que 3/4 de cavalo não empurrariam trezentos quilos mais passageiros morro acima, não sem uma caixa de câmbio que ainda não existia. Foram Bertha e Eugen empurrar, enquanto Richard acelerava tudo. No alto do morro os dois, cobertos de fuligem, embarcavam e conheciam outro drama: os freios eram tão potentes quanto o motor...

-- Rezem, meninos, rezem!

As rezas deram resultado e a viagem seguiu na mesma dificuldade. Os problemas variavam entre ter que comprar limpador facial (benzina), já que não havia postos de gasolina, nem gasolina havia, encontrar água para pôr no motor, já que era refrigerado por evaporação da mesma, consertar a correia de tração e repetir para si mesma "Eu amo aquele homem, eu amo aquele homem, eu amo aquele homem...". Usar o alfinete de cabelo para desentupir o duto de alimentação, que futuramente originaria o carburador, nem foi tão dramático...

-- Vocês dois, olhem para lá.

E lá se foi um elástico da cinta-liga, provavelmente para substituir uma mola perdida ou quebrada.

Chegou e foi escoltada pela polícia, que via naquela engenhoca maluca um evento sobrenatural, até a casa da mãe...

-- Bertha!!! Meu Deus!!! O que aconteceu com vocês?!!

-- Depois conto, mamãe. Posso tomar um banho?

-- Entrem... Que diabos é aquilo? É coisa do seu marido não é? O que o estafermo inventou desta vez?

-- Uma carruagem auto-móvel. Eugen, Richard, assim que mamãe sair do banho, vocês entram.

Em poucas horas Karl Benz descobriu o que acontecera com a esposa, os filhos e sua invenção tão difamada. Recebeu uma carta de Bertha, pedindo peças de reposição e avisando do sucesso da primeira viagem de carro da história. Claro que ela e a história só revelaram o teor bom da carta, o que ele deve ter ouvido ficou entre os dois.

Os diálogos são uma licença satiropoética, mas refletem o que aconteceu de verdade com aquela que se tornou a primeira motorista e mecânica para valer da história, a mulher sem a qual nossas lindas furrecas não existiriam ou, se existissem, seriam mimos de milionários ainda hoje. Um século e duas décadas depois, façamos um brinde com álcool e biodiesel àquela que deu um tebefe nas fuças dos conservadores com luva de pelica: Bertha Benz. Agora uma vaia aos "maxõis" que geram quase todos os acidentes e culpam as mulheres. Sem elas, nem eles, nem nós, nem ninguém poderia dizer "vou logo ali, a 200km e volto logo". Sem Berta, incontáveis vidas seriam perdidas pela ineficiência das carroças-ambulâncias, das carroças de bombeiros, et cétera. Ave Bertha.

14/01/2007

AEROMÓVEL


Li a respeito, pela primeira vez, em 1983, na revista Quatro Rodas. Mais de vinte e um anos se passaram até ler novamente sobre ele, na revista Eco Spy. Desde então, não tenho mais notícias.
O princípio é simples: Uma estrutura leve, dotada de rodas e uma vela, esta dentro de um túnel pelo qual corre o ar comprimido ou vácuo gerado por ventiladores eléctricos. Teóricamente pode passar de duzentos quilômetros por hora, mas o bom senso aconselha ir mais devagar, afinal é para transporte urbano. Existe uma linha em Porto Alegre e outra em Esteio (RS), que eu saiba as únicas no país.
Seria mais um sonho mirabolante para resolver o problema de transporte urbano, não fossem os detalhes:
  1. Foi idealizado e concebido por Oscar Coester, brasileiro que está resistindo às tentações de vender a patente para grupos alemães, ianques e japoneses, ele quer que a tecnologia fique aqui;
  2. É muito mais barato do que o metrô, não só para construir como para manter;
  3. A pista fica a cinco metros e meio de altura, facilmente acessível aos grupos de resgate, que não precisariam tomar qualquer precaução especial em caso de pane ou acidente;
  4. A construção é baseada em peças pré-moldadas, que são rápidas para montar e facilmente adaptáveis às condições do percurso.
A ausência de ruídos e trepidações torna a viagem confortável, particularmente preciosa para quem teve um dia de trabalho estressante. Nem me fale nos motores diesel dos ônibus, que por serem dianteiros, em sua maioria, estressam ainda mais os passageiros e, o que é pior, o motorista.
Por ter custos tão baixos, a passagem do aeromóvel também seria bem em conta. Para grandes empresas seria uma boa idéia usar o invento para a circulação de funcionários, correspondência e pequenas cargas dentro da propriedade, o mesmo se dizendo para o transporte de lavradores da cidade para a lavoura.
O senhor Coester se mostrou optimista na reportagem à Eco Spy, confesso que bem mais do que eu, pois nunca mais ouvi falar dele. Olha que já vai quase um quarto de século desde que tive a primeira notícia do aeromóvel, que teve seu primeiro protótipo bem sucedido feito em 1980 e foi concebido em 1959 (!) por esse verdadeiro herói da tecnologia nacional.
A idéia deste texto me veio antes de ontem, quando do incidente do metrô em São Paulo. Os custos elevados da empreitada não garantiram sequer segurança para os operários. Nas linhas do aeromóvel, bastaria verificar a resistência do solo nos locais onde as vigas (que só tomam meio metro de largura) seriam instaladas, a conclusão de toda a obra seria feita em poucos meses, talvez até os trechos já concluídos pudessem ser usados enquanto o trajeto todo não fosse inalgurado. Mas como eu disse em um dos primeiros textos desta página, o carro do presidente é importado, a despeito de haver gente e empresas brasileiras competentes para fornecer um veículo à altura do cargo, mantendo aqui as divisas e os empregos.
Grande parte da responsabilidade, porém, é nossa. A maioria de nós ainda acredita que o Estado teme um apresentador grosseiro e/ou alienado que solta palavrões e entrevista artistas que nada entendem do assunto, enquanto os programas televisivos que realmente fazem a diferença ficam jogados às traças; Só para citar um exemplo. Não adianta apelar às "autoridades", que estas estão muito ocupadas em ajeitar suas condecorações e ver no espelho se ficaram bem. Não tenho qualquer esperança nessa parcela mais medíocre do funcionalismo público. Ao contrário do inventor, minha única esperança é que nós tomemos a iniciativa de cutucar as devidas pessoas, fazendo-as sentir medo de contrair câncer de bolso ou de urna. Depois de anos tentando fazê-lo sozinho, espero que os caros leitores me ajudem nessa missão (ainda) ingrata.

06/01/2007

Maçã Feinha

Hoje busquei uma camisa nova. Encomendei ao Zé, meu alfaiate, em Dezembro, mas pelo sufoco só ficou pronta agora. O bom de uma roupa sob medida é que lhe serve como se tivesse nascido no teu corpo, não falta nem sobra. R$ 45,00 por uma peça tão bem feita até que não é caro, convenhamos.
Depois fui ao supermercado, onde aproveitei para comprar maçãs. Interessante que não eram maçãs vistosas, brilhantes e uniformes, tampouco eram grandalhonas ou dignas de um comercial. Eram maçãs pequenas, discretas, com coloração e formato mais irregulares, algumas até feinhas. Mas não me importa. São suculentas e as como diariamente. O que me chamou a atenção porém, é que havia um inseto passeando sobre uma delas. Um inseto ordinário, desses que esmagamos todos os dias sem querer, confundindo com a sujeira do chão. Não era uma barata, ou eu teria chamado a Vigilância Sanitária. Era um insetinho apenas, sensível às mudanças climáticas e aos agentes químicos. Aí é que está a boa notícia: O uso de agrotóxicos foi bem mais moderado, ou aquela criaturinha minúscula não estaria lá, as maçãs teriam crescido mais e mais belas, a productividade teria sido muito maior e o preço no caixa seria menor. O que acabou conservando aquelas maçãs foi o resfriamento, a mão de obra deve ter sido ágil, ágil a ponto de não escolher muito as estéticas. Mas fico feliz assim mesmo. Comprei pouco mais de um quilograma e meio, que agora sei que não vai me custar mais do que paguei no caixa.
Como um mão-de... Digo, como um rapaz econômico que se preze, eu não rejeito uma boa promoção, se estiver precisando do artigo, se não estiver, troco a economia de 75% na boca do caixa pela de 100% por nem entrar na loja. Mas há "ecanomias" que não valem a pena. É como a China, que está fomentando a degradação humana e ambiental apenas para suprir suas necessidades imediatas, como um adolescente irresponsável que logo ficará sem nada, mas não sem antes causar estragos também para os outros. Preferível gastar alguns reais a mais, algumas horas a mais, do que conseguir uma dívida que não se pode pagar, como um câncer de intestino ou uma alergia generalizada, que te impedirá de comer quase tudo e tomar quase todos os medicamentos que poderiam ajudar. Nesse caso não é gasto, é investimento que, ao contrário da especulação, tem retorno farto e cem por cento garantido.
Também por isso preferi mandar fazer a camisa, eu sei como ela é feita, pelo menos a parte de corte e costura eu tenho certeza de que não degrada nem explora, pois todos os alfaiates de lá ganham o justo pelo seu trabalho, e no fim do ano fizeram a festa. Tanto que já separei o tecido para as próximas calças, quando for encomendá-las será só cortar e costurar. É meu tecido, está guardado. Coisas que só um alfaiate faz por nós, impensável em uma confecção que subemprega migrantes e imigrantes e falsifica a marca.
Decerto que com isso eu fico fora da moda predominante, mas depois que nos acostumamos a ter o que realmente merecemos, não abrimos mão ainda que seja mais oneroso, percebemos que a economia que fazemos é muito maior. Ainda que eu pudesse pagar dez reais por uma camisa tamanho único ou R$ 0,99 por maçãs regadas com toxinas. Quando se conhece o céu, até a Suécia parece ser miserável.