30/07/2010

Crueldade

Quem se importa? Afinal era só um escravo que já não servia seu amo. Foi deixado à própria sorte em qualquer lugar de onde não pudesse voltar. De lá os dominantes foram ao mercado comprar um ou dois escravos novos e mais robustos.
Nunca se importou em comer os restos da casa, comia com satisfação. Se seus amos se alimentavam daquilo é porque era bom. Prato? Não, naquela casa um escravo jamais teve desses luxos.
Cuidados médicos sempre faltaram, exceto quando já se tornava escandaloso demais para a sociedade admitir, então o levavam a qualquer açougueiro, que receitava qualquer porcaria de baixo preço e boa comissão. Mesmo doente trabalhava. Tinha que trabalhar, era uma propriedade. Mas não reclamava.
De serviço vinte e quatro horas por dia, todos os dias do ano durante todos os anos de serviço que prestou àquela casa.
Não sendo ingrato, recebia uns afagos de vez em quando, das crianças, mas só delas. E só enquanto eram crianças. Quando lhes servia de palhaço para brincar e entreter.
O corpo está todo marcado por mordidas de cães ferozes, dos quais defendeu com a vida a família e até seus parentes mais distantes. Uma marca de tiro ainda é evidente no peito, quase empacotava daquela vez. Quase fica paraplégico quando o dono da casa passou com o carro sobre sua perna, então tiveram que levá-lo a um especialista decente, o que lhe custou castigos e reprimendas.
As rondas noturnas eram sua especialidade, seus olhos eram muito mais aguçados do que a média e nenhum intruso lhe passava desapercebido. Calor ou frio, chuva ou sol, não importava sob que condições, o trabalho extenuante jamais cessava. Escravos são para isso mesmo.
Hoje, já velho demais para o gosto daquela gente, com a visão desgastada, musculatura fraca e olhar vago, é levado ao destino de todo escravo que sai sem permissão, ainda que tenha saído na marra por obra de seus amos e senhores, os civilizados.
O cheiro de morte enche o ambiente e ele começa a ficar estressado, mas está faminto, fraco demais para reagir. Grita pelo amo que não pode mais ouví-lo e, ainda que ouvisse, mandaria que calasse para não incomodá-lo.
Tanto trabalho, tanta dedicação, tamanha entrega de vida para quê? Por simplesmente não servir mais aos civilizados foi condenado à morte, sumariamente, sem julgamento, sem defesa, sem sequer um registro de suas culpas. Não se lembra de ter feito absolutamente nada de errado.
Vê alguns corpos sendo retirados de um cômodo e jogados como lixo em uma vala cheia de carvão. Nada de muito diferente do que os nazistas fizeram e chocou até os soldados mais experientes e embrutecidos.
Começa a ter espasmos de desespero, gritar com o que lhe resta de forças, chorar, mas tudo em vão. É jogado como um saco de lixo e trancado com outros. Alguns foram parar lá porque mataram a mando de seus amos, estes impunes e gabando-se de seus novos escravos, outros porque não eram aquilo que pensavam que pudessem ser. Revender? E quem iria querer um escravo que outros não quiseram? Melhor comprar um novo com garantia de procedência e boa saúde.
Ele ouve um motor de Fusca. Tem um lampejo de esperança, um amigo da família tem um Fusca, mas logo percebe o que realmente está acontecendo. O carro que os aliados seqüestraram e usaram contra os nazistas, tornando-se um símbolo da vitória aliada, agora tem um componente usado para um fim pragmaticamente hitleriano. O ambiente começa a se encher de fumaça, todos gritam e choram, chamando por seus donos, pedindo piedade pelo erro que possam ter cometido, mas não cometeram nenhum. O motor acelera e eles se desesperam, minando mais rapidamente as forças e aspirando mais rapidamente os gases tóxicos do petróleo.
Ele cai. Alguns ainda resistem e tentam se manter de pé, em vão, mas ele já está velho e sem forças. Apenas chora. Se lembra das crianças, do trabalho, da família que amava e à qual não sabe o que fez de errado. É só um cão. Cães só fazem o que seus donos mandam, mesmo quando estes não percebem terem dado a ordem.
Uma dor de cabeça infernal o acomete, mas ele não tem forças para reclamar, só sofre até o cérebro apagar e vir a escuridão.
A vida lhe passa como um filme, desde o dia em que foi comprado na loja de animais, todo fofinho e lindinho, o crescimento, a progressiva perda de interesse dos donos até ser abandonado e levado ao centro de zoonozes. Reabilitação? Não, bichos não votam e por isto não estão na pauta dos demagogos.
O cérebro apaga de vez. Então vem uma luz, ela vem toda de um branco capaz de cegar de tão puro, o pega nos braços e o leva para longe daquela gente leviana, que se considera civilizada.
O acaricia com uma ternura que nenhum homem é capaz de dispensar à própria prole, quanto mais a seres pelos quais deveria se responsabilizar, como espécie dominante.

23/07/2010

Urgente! Vista-se!


Pois é, minha gente, o sol que aquecia nossos pais não é o mesmo. Não dá mais para sair incólume de um topless em plena luz do dia, como as rebeldes dos anos 1960 faziam. Alegria de uns, tristeza de outros.

Os meios de comunicação estão cheios de informações ás quais quase ninguém dá o devido valor, câncer de pele e outras bodeguitas dermatológicas se incluem. Aqui um site interessante a respeito. É muito desconfortável admitir que nosso estilo de vida pode ser perigoso, mas se convencer de que não existe não imuniza ninguém. É como dizer que dst só pega em homossexual. Os cromossomos são os mesmos, as doenças que afetam um grupo rondam os outros sem pedir licença. Não é por atacar primeiro a superfície que o câncer de pele seria inofensivo, é câncer como qualquer outro e com esse negócio não se brinca.

Hoje se toma banho de sol até as 10h e após as 16h sem grandes preocupações, aproveitem que depois pode piorar. Não adianta ir à praia e só ficar debaixo do guarda-sol, os raios ultravioletas são refletidos pela areia e vão te assar de baixo para cima. Onde não há praia os vidros dos carros e das lojas fazem o serviço. Não pensem que o ventinho refrescante resolve o problema, ele o mascara, tu se queima sem perceber. Os bandidos não são mais o maior perigo de se andar displicente pelas ruas. A polícia pode correr atrás de um meliante, mas o sol está fora da jurisdição.

Não são só as pessoas, as coisas também sofrem, especialmente as de madeira e plástico. São materiais orgânicos, como nossos corpos, com a desvantagem de não se regenerarem. Por isto é melhor pagar um pouco por uma garagem coberta do que ter que morrer na grana de uma raspagem com repintura do carro. Isto sem falar no painel, que por motivos de custos e segurança é de plástico. Infelizmente a maioria é de plástico bem ordinário. Também as lanternas, que se fossem de vidro tornariam qualquer esbarrão potencialmente letal, os pneus que contém muito látex, pára-choques, enfim. Nem adianta raspar a lataria, que vira pó de ferrugem em três tempos, a radiação ultravioleta aquece e acelera as reações químicas, principalmente de oxidação.

Mas nem tudo está perdido, ainda. Aquelas películas escurecidas que chegaram a ser perseguidas pelas autoridades, além de aumentarem a segurança do vidro também filtram boa parte da radiação. Dependendo da qualidade, dá para tomar banho de sol dentro do carro sem medo. São quase todas feitas de pvc, que é composto 57% de cloro, o que o torna um plástico semi-orgânico. Muito resistente à radiação, mas não imune, então não abusemos.

Também existem tintas bem resistentes, um tanto mais caras, mas também mais duráveis, demoram mais a descascar ou perder a tonalidade. Já é bem mais comum do que há trinta anos ver casas e carros com um lado mais vivo do que o outro. Vernizes com filtros solares já são populares, vale à pena não precisar refazer o revestimento.

Pois o que o ultravioleta faz com a tinta, faz também com a nossa pele, só que em nós dói. Para os que já torraram uma baba comprando tevê digital, para depois descobrir que precisa da antena digital e gastar mais dinheiro com esta, devem ter percebido que muitos artistas são uma tragédia sem a maquiagem. Lembremos que a maioria dos mais famosos mora no litoral ou proximidades. Gente que ganha a vida vendendo sua imagem se parecendo com uma toalha de mesa onde respingaram óleo quente, enquanto aquela moça do balcão, com bem pouco tempo para sair durante o dia, tem uma pele de pêssego, sem gastar os tubos com tratamentos. Esses artistas abusaram do sol. Não adianta tomar banho de protetor solar fator 150 e acreditar que o perigo não existe, é como vestir um colete à prova de balas e se considerar imortal.

Não que se deva abrir mão da praia ou piscina, para os que gostam, mas os dermatologistas já estão carecas de avisar que há horários mais próprios, que sol demais não causa só câncer de pele, também estraga e envelhece mais cedo; rugas, manchas, erupções, espinhas, cravos e outras cousas de nomes complicados que só médico para falar a respeito. Já estão tão cansados de falar, que em breve apelarão para a claque, olhando o paciente com a cara mais blazé do mundo enquanto a gravação roda. Tomar sol na medida certa só faz bem, inclusive para a aparência, mas a medida certa varia muito entre pessoas e cor natural de pele. Não precisa dizer que aquela amiga branquela pode tirar o cavalinho da chuva. Aqui um boletim diário dos índices de radiação ultravioleta na sua região, caso more no Brasil, se não, sorry, consulte o serviço meteorológico do teu país.

A pigmentação não é um recurso estético, é uma resposta da pele à agressão solar. Ficar bronzeado em pouco tempo, portanto, não é prova de saúde, pode ser doença séria. Ganhar cor em uma temporada em uma região ensolarada é muito diferente de se tostar ao sol para entrar na moda. Parecer um tijolo, desculpem, nunca foi bonito. Ficar acanelado pode ser bonito.

Ficar com a cor da canela não é para qualquer um nem combina com qualquer rosto. Primeiro porque é preciso ter uma predisposição genética à boa produção de melamina, ela precisa aparecer rapidamente antes que a pele queime e pareça velha; Segundo porque não é uma cor duradoura em quem não nasceu com ela, um dia de volta à rotina e a tonalidade vai esmaecendo; Terceiro porque é uma cor visualmente agressiva e pesada, é preciso um rosto de traços joviais e suaves para não ficar esteticamente ruim. Um rosto tipicamente europeu com esta cor é geralmente um desastre.

Ao contrário do que muitos pensam, negros não são imunes. Dão um baile de liberdade ao sol, mas também estão sujeitos ao câncer de pele e ao envelhecimento precoce. A sorte deles é terem peles espessas, bem estruturadas, que resistem muito mais antes de perderem o viço. Mas um dia perdem. Então, patota, bloqueador solar para vocês também. Entendeu, Vincié?

O maior equívoco, especialmente no alto verão, é botar as pernas de fora e o busto ao sol em plena luz vespertina. Fiotes, roupa curta refresca à sombra ou se o sol for suave. No caldeirão tropical em que vivemos é quase um suicídio. A evaporação facilitada dá a falsa sensação de frescor, que na verdade é desidratação acelerada. Não só o calor, mas mais uma vez a radiação ultravioleta resseca o corpo, começando pela pele, a tendência é te transformar em um croquete. Não ria, não estou brincando. É muito sério. Na Europa existem relatos de óbitos por causa de desidratação, não pensem que aqui seria diferente, aqui é daí para pior.

Roupa curta tem os mesmos horários que o banho de sol, entre as dez e as dezesseis se usa roupa longa e confortável, preferencialmente de cor clara, tecido macio e de mangas. Se tiver manga longa, melhor. O ideal seria voltar à moda dos anos 1940, mas se eu for propor isto, enfiam a mão pelo monitor e me estrangulam, feito desenho animado. Mesmo com roupagem adequada, não se pode dispensar o uso de um bom bloqueador solar. Embora bem menos, a ultravioleta é muito potente e atravessa a maioria dos tecidos, fora que os reflexos de uma cidade a mandam directo para o teu rosto, cabelos, orelhas, enfim, te assam apenas com menos intensidade. A roupa confortável, clara e longa reduz a temperatura, reduzindo os riscos de ressecamento e da antecipação das rugas.

Olhando por este ângulo, a burca até que teria razão de ser, não fossem questões culturais tão explosivamente misturadas às religiosas, ainda mais em alphabetos desprovidos de vogais. Mas aquelas roupas tachadas de caretas, antiquadas, pratrazax, são as melhores para enfrentar o sol, quando de cores claras e fios naturais na composição do tecido. Se for tudo sintético e escuro o tiro sai pela culatra, vai te cozinhar no vapor.

Ah, vamos lá, levantem essas cabeças. Não é o fim do mundo, ainda. Enfrentar a vida nestes tempos bicudos não é impossível. Vamos lá...

  • Principalmente no verão, esqueça os fios totalmente sintéticos, a não ser que queira gastar uma fortuna em tramas especiais aeroespaciais, mas sempre de tecidos bem fechados. Prefira sempre os tons claros, mais para pastél;
  • Com o sol a pino o chapéu deveria voltar à voga, de modo perene, porque os cabelos também são um tipo de plástico biológico, sofrem muito, especialmente os ruivos. Cubra a cabeça o quanto for possível, de quebra a testa também será preservada;
  • Filtro e bloqueador solares devem ser tão comuns e utilizados quanto as maquiagens, dê preferência às que já vêm com algum factor de proteção solar, te custam menos do que um tratamento dermatológico. Se tua pele é oleosa, como a minha, use os em forma de cremes, ou a acne fará a festa e vais se parecer com um ralador de queijo;
  • Não precisa abandonar as roupas curtas. A radiação ultravioleta não é instantânea. Sair ao sol por alguns segundos, apenas atravessar a rua ou descansar na varanda não transforma ninguém em um pimentão. Bom senso, sempre;
  • Vento refresca, mas não bloqueia a luz do sol. Não se iluda com o conforto de uma brisa em pleno verão, é como o morcego que abana enquanto suga;
  • Acordar cedo aumenta o aproveitamento do dia, prolongando o usufruto dos horários salutares. Nem todos podem, por trabalharem e estudarem até mais tarde, mas a maioria pode. Há quando tempo vocês não vêem o sol nascer?

Dá para se levar a vida até consertarmos o estrago que nós fizemos à atmosphera, o que não levará menos de cinqüenta anos se começarmos agora. Só devemos lembrar que os prazeres litorâneos que nossos pais e avós tiveram não se aplicam totalmente a nós, talvez aos nossos netos. Aos que se dispuserem a enfrentar o mundo debaixo de muito pano, eis aqui uma página que encontrei no decorrer deste texto, com modelos de várias décadas.

Não pensem que a natureza é uma inimiga, ela tem seu ciclo e nós, que dependemos e fazemos parte dela, devemos nos adaptar. Adapte-se aos novos tempos.

16/07/2010

Censura no blog alheio é refresco

Desde 1984, quando o presidente Figueiredo virou a página da ditadura no Brasil, que eu não esperava ver esse monstro novamente, a famigerada censura à comunicação pública. Ele até tentou acabar também com o excesso de burocracia, que até hoje só serve para gerar cabides de empregos, quase sempre para incompetentes, como gente que não sabe diferenciar um parafuso-prisioneiro de um pára-brisas e inventa regras estapafúrdias para o campo automotivo.
Pior, eu não esperava ver justo as presumíveis maiores vítimas da censura tentarem ressuscitá-la. E para quê? Conter uma tentativa de golpe? Punir uma incitação à leso-pátria? Não, nada disso. Só por não terem gostado do que leram.
Grupos radicais de esquerda e direita querem censurar os blogs simplesmente por "crime de opinião". Não gostar do que o presidente disser e demonstrar isto em público é se arriscar a ser alvo de ameaças, partidas de pessoas jovens e escoladas, que deveriam ser as primeiras a lembrar do que a história recente nos ensinou. Só o que parece que aprenderam foi usar de dois pesos e duas medidas; dão (quando dão) em milímetros e cobram em polegadas.
Os mesmos que reclamavam de quando seu tempo nos horários eleitorais ou partidários era escasso, hoje usa dos mesmos subterfúgios dos caciques da época para burlar a legislação eleitoral. A diferença é que nos anos 1970/80 não havia uma legislação específica para regulamentar o uso eleitoral da mídia e punir abusos, hoje há e é desrespeitada solenemente, sem que os tais radicais sequer digam "Fazer o quê, é a chefia que está fazendo isso". Mas ai de outro que fizer o mesmo.
Não me surpreenderia se partisse somente dos grupos que enriqueceram às custas de inflação e recessão, estes nunca foram bons e nunca fizeram questão de parecer, apenas repetiam "roubamos, mas fazemos". São simplesmente cínicos. Fazer o mesmo que eles e ainda se dizerem defensores dos interesses do ploretariado é hipocrisia da grossa.
Não são apenas opiniões que rejeitam, piadinhas ou charges, mesmo as mais inocentes e despretensiosas, se tangenciarem seus "líderes", podem render episódios que a massa só acredita existir em países onde há radicalismo religioso. O amigo
Benett que o diga, muitas vezes é atacado por satirizar com extrema competência o presidente em que ele diz abertamente ter votado, mais por falta de opção do que por esperança, diga-se de passagem. Não são sátiras gratuitas, ele só satiriza o ridículo e, convenhamos, faz parecerem engraçadas pessoas que têm seguranças porque não sairiam ilesas de um passeio de peito aberto no meio do povo, é um favor que deveriam aceitar de bom grado.
Na esteira desses revoltadinhos que não querem largar o osso que agarraram, tal como faziam os "pelegos do imperialismo americano que explora nações proletárias", vêm os revoltadinhos que querem o osso de volta. Há um projecto de lei no congresso que transforma o blogueiro em um criminoso presumido. Querem nos responsabilizar pelas asneiras e potenciais calúnias que comentaristas anônimos, ou que dão dados falsos, escreverem nas caixas de comentários. É uma lei do demo mesmo, pois vem justo de radicais a grande maioria das asneiras e ataques muitas vezes gratuitos, que infernizam as caixas de comentário. Mesmo o genial
Laerte, que tem uma coletânea riquíssima de arte em forma de charge, entusiasta da liberdade de expressão e criador da Muriel, teve que passar a moderar para conter a invasão dos radicais recalcados, que estavam se digladiando com os radicais pós-recalcados, em nome da moral e dos bons costumes segundo suas interpretações próprias e dubias.
Eles não fazem questão de saber, ou mesmo ignoram o facto de que a grande maioria dos blogueiros não vive de seu blog. Quase todos só querem dividir algo que acham bom de ser dividido. Blogueiros como eu, que divulgam idéias e abusam das parábolas para tanto, são uma minoria, menor ainda é o número de blogueiros que têm uma renda razoável de suas páginas e podem se dedicar por horas diárias sem medo de negligenciar as despesas da casa.
Imaginem uma garota que é fã da Lady Ga-ga. A fictícia garota enche uma postagem com elogios, dados da agenda da cantora, imagens e vídeos relacionados, nada falando de cantoras nacionais, afinal seria um blog temático. Um dia ela precisa se dedicar às provas e negligencia compulsoriamente o blog, no que um idiota qualquer aproveita para chamar a turma e encher a caixa de comentários com ofensas, ameaças e assédios de toda sorte. Quem tem blog há mais de um ano sabe do que estou falando. A vestibulanda pode pagar multas pesadas pelo que outros, que podem ser filhos dos candidatos a censores, publicaram. A lei não a obrigaria simplesmente a apagar o que foi escrito, a puniria pelo erro de outro. É como multar um repórter pelo que o entrevistado disser. Moderar é um recurso, obrigar o blogueiro a usá-lo não vai sequer reduzir os ataques estúpidos a que ele está sujeito. Se um leitor disser "Cara, eu odeio essa merda que eles chamam de cinema brasileiro" eu não poderei simplesmente apagar o comentário, como nunca apaguei nenhum por contrariar minhas idéias. Podem procurar que vão encontrar alguns que só não pularam no meu pescoço porque não puderam. Por ordem judicial eu apagaria, mas faria um texto extra me desculpando ao mal educado e explicando os motivos em detalhes.
Ainda me pergunto os critérios a serem usados, se para essas pessoas o simples não simpatizar com suas idéias de jerico já é um crime. Eu tenho tendências autoritárias que não são poucas, mas as controlo com rédeas curtas, eu não sou mais adolescente para achar que quem não é da minha turma é meu inimigo.
Para colocar a pretensa lei em prática, deverá haver uma equipe dedicada a procurar infrações e ouvir queixas. Não será apenas mais uma despesa para o erário público, será gente que colocará a opinião alheia sob o jugo dos padrões éticos e morais particulares de alguém. E ofensas reais vindas de radicados no exterior? Vão bloquear o acesso ao provedor do blog no Brasil? Vão obrigar o judiciário de Detroit a punir a livre expressão de um brasileiro legalmente lá estabelecido? Não. Com quem eles não podem, simplesmente xingam, citam seu autor intelectualóide preferido (ou um versículo mal interpretado) e saem com o rabinho preso entre as pernas.
Asseguro que isto seria só o primeiro passo para voltarmos às agruras do Ato Institucional Número Cinco. Pessoas emocionalmente imaturas, que não toleram ser contrariadas, agem pela insaciabilidade da vingança. Não demoraria para os jornais voltarem a publicar poesias e receitas no lugar de notícias que contrariarem seus interesses. Sinais de televisão demorariam vários segundos para serem transmitidos, para viabilizar o trabalho sujo da censura de opinião. Testemunhas? Ai delas.

Tenham certeza de que eu seria transformado em criminoso e teria que me exilar, sem exageros. Eu e muitos amigos com senso crítico activo.
E vejam só, no decorrer do texto me veio uma idéia de burlar legalmente esse absurdo, corrigindo a ortographia me veio a idéia. Simplesmente trocaria o nome por "Palavras da Mica, uma brasileira enlouquecendo Rochester" e mandaria os textos para minha amiga publicar, lá dos Estados Unidos.
Tenho um ocorrido recente para relatar. O blog Planeta Fusca, do amigo Gilhon, saiu do ar na quarta-feira, por um ataque cibernético. Por que? Porque ele não dá a mínima para quem não gosta do que ele publica, que é basicamente assuntos sobre o Fusca e encontro de antigomobilistas e entusiastas. Felizmente está de volta ao ar e recomendo uma visita. Se esses radicais de lanchonete conseguirem seus intentos, algum amigo deles certamente vai conseguir tirá-lo do ar em catáter definitivo, por meio de favores. Como em toda ditadura, que é o que querem que o Brasil volte a ser.
Não gostei da aproximação do presidente às ditaduras, não gostei do modo como tratou uma Secretária de Estado, não gosto do modo como nos mantém atrasados em relação aos outros países na mobilidade eléctrica, não gosto das pessoas que ele colocou no lugar de profissionais competentes em autarquias outrora ilibadas, como os Correios. E presidente brasileiro deveria voar de Embraer. Ou será que Obama concordaria em andar de Rolls Royce?
Tenham, porém, certeza de que as máscaras já estão caindo e nem o povo mais chucro vai dar crédito eterno aos sanguessugas que se juntaram aos ratos. No que depender de canais livres como este, vocês podem expressar seus à vontade descontentamentos desde que não hajam ofensas, no máximo ignoro, nunca revido e aceito sugestões de temas. Porque é com exercícios assim que a democracia fortalece sua musculatura.
Francamente estou em dúvidas quanto ao meu voto para as próximas eleições, mas o não-voto está decidido. Ao contrário do que apregoam, o Brasil não mudou tanto assim, muito menos para a melhor, não para quem deveria mudar.

09/07/2010

A exemplo do pai


Já sem a fortuna, sem os aliados, sem seguranças, ele entra na sala preparada. Dois guardas presentes garantem que ele não o mate. Não que suas condições físicas ainda o permitam, mas ele já teve um ataque de fúria insana que lhe rendeu a má fama, embora esta o tenha tornado um ídolo do grupo machista que freqüentava. Hoje, porém, a menor alteração de pressão arterial pode terminar em óbito.

O rapaz entra em seu uniforme laranja. Vergonha. Se ainda tivessem algum, não saberiam o que dizer aos amigos. Um metro e meio de prancha do tampo da mesa os separa. Pensa no tempo em que simplesmente sacaria uma pistola, descarregaria o pente e tudo ficaria por isso mesmo. Mas não tem mais armas e já não pode ficar impune, um imenso castigo para quem varou meio século fazendo e desfazendo o que bem quis.

O olha nos olhos pela primeira vez. Durante os trinta anos precedentes simplesmente o assistia de longe, somente dando dinheiro e maus conselhos, para que perpetuasse o poder da família. Vendo que não tem como matar o próprio filho, e mesmo que pudesse seria pego em flagrante delito, solta o único pensamento que lhe vem à mente...

- Por que?

- Porque sim.

- O que você tem contra nós?

- Nada. Foram só negócios, mas deram errado, fazer o quê?

- Você acabou com a fortuna da família, deixou a sua mãe no hospital e só me diz isso?

- Não paga sapo, pôrra!

A situação é extremamente incômoda. Pela primeira vez não pode satisfazer seu desejo de vingança, não naquele momento e nem como quer. A perda do prestígio fez processos desaparecidos ressurgirem do nada, está sob investigação e ninguém quer se comprometer com quem não pode dar garantias. Os guardas inclusive evitam que diga tudo o que quer, seria uma confissão que a Polícia Federal reza para obter. Respira, mede as palavras e segue...

- Eu te ensinei a respeitar a sua família. Te mostrei que deveria preservar a sua casa custasse o que custasse. Te ensinei a ser duro nos negócios, eu sei, afinal todo mundo sabe que gente boazinha passa fome neste mundo.

- Ninguém gosta mesmo de gente boa, só serve pra ser explorada... Dá pra conversar, mas é só.

- É, é verdade. Não que devamos ser monstros...

- Longe disso.

- Mas quem não for esperto é engolido pelos outros.

Uma breve conversa em que eles concordam com praticamente tudo ameniza o clima, mas continua tenso e o médico da penitenciária está de plantão para uma possível ressuscitação...

- Certo. Mas o que você fez passou dos limites. Quem disse que você poderia falsificar minha assinatura para jogar tudo o que tínhamos na especulação financeira, ainda mais em um paraíso fiscal?

- Você. Desde moleque eu te via fazendo isso com os outros, rindo e contando vantagem.

- Mas isso eu fazia com os outros, não com a minha família!

- Ué! Seu irmão não era "família"?

Emudece. Agora se lembra que lesou o irmão mais velho, talvez o único honesto da família e o deixou definhar até morrer em um leito imundo de um hospital público. Não gostava de receber conselhos dele, assim como o filho agora não aceita os seus...

- Era um otário, queria dividir a fortuna em parte iguais até pros bastardos do meu pai. Onde já se viu? Tinha até negros no meio deles. Os interesses maiores da nossa família estavam em perigo pela demência utópica de um visionário.

- Defendeu os interesses da família.

- Sim, claro.

- Família que se resumia a você. Fiz o que você fez. Na verdade fiz até menos, vocês ainda têm uma casa e um supermercado pra viver, o meu tio morreu no Hugo.

- Mas eu sou o seu pai - diz visivelmente enfurecido.

- Negócios, negócios, família à parte. Você me ensinou isso desde cedo.

- Você não pensou nas conseqüências?

- Pensei. Mas o risco compensava e por muito tempo deu certo, mas melou.

- E agora, o que você vai fazer?

- Passar dez anos na cadeia... Dãããããã!

Os guardas se seguram para não caírem na risada. Nunca imaginaram que aquele ogro arrogante e misógino fosse cair em desgraça, menos ainda que presenciariam as cenas que se desenrolam. Alguém cuidou para que as imagens sejam gravadas e transmitidas, para posterior publicação na internet, sem conhecimento formal, mas com plena cooperação informal desde o faxineiro até o juiz, que não quis saber para não se comprometer.

O silêncio dura alguns minutos, o suficiente para os ânimos esfriarem e ele espairecer. Mais lhe dói ter jogado na cara o ônus de tudo o que o filho aprendeu e usou contra a família. Dói reconhecer que é tudo verdade. Não se importaria se fizesse o mesmo com os outros, mas com ele é um absurdo...

- A sua mãe está doente por isso.

- Ela acostuma. E ainda dá pra pagar uma empregada, vai continuar sem fazer nada em casa.

- Você não se importa nem com ela?

- E quem se importa? Nem você, que batia nela toda semana e contava pras suas quengas, falando "Mulher minha eu trato é assim, na tábua". Você não gosta dela, eu não me importo, então ninguém gosta, ela pode morrer que ninguém vai sentir falta.

O antebraço começa a doer. Respira pausadamente até a dor passar. Tem que reconhecer que ensinou tudo aquilo, que só se casou para ficar mais rico. Pretendia transformá-lo em um monstro como ele mesmo, mas ficou pior, ganhou nuances de cinismo que beiram a psicopatia...

- Vai fazer o quê, quando sair daqui? Porque na minha csa você não entra mais.

- Entro, nem que seja pra assaltar.

- Ladrão eu nunca fui!!!

- Foi sim. Ajudava a desviar verba de salário dos funcinários públicos, nos anos setenta, deixando atrasar até seis meses pra depois pagar só um. Se isso não é ser ladrão, então levar coisas da minha casa pra vender é menos ainda. Deixa de ser safado, foi você que me ensinou tudo o que eu fiz e agora tá bancando o inocente!

- Não fala assim comigo!

- Falo. Aliás, saiba que eu nunca matei ninguém, só dei prejuízos materiais.

Se inicia uma discussão entre rivais, que com pai e filho em nada se parecem mais. Toda a retórica ululante e verborrágica é inócua com o rapaz, que aprendeu e superou o mestre. Certo, ficou exactamente como ele queria, só não esperava ser vítima de sua criação...

- O que vai fazer, quando sair daqui?

- Qualquer coisa. Sei trabalhar, posso enriquecer rapidinho de novo. Não tô preocupado.

- Bom ouvir isso. E enquanto está aqui...

- Tô estudando. Já me filiei a um partido político pela internet, saio daqui com diploma e recomeço minha vida.

Ensinou a burlar as regras que não fossem convenientes, a família se tornou uma regra incoveniente e lhe parece que ele aplicará isto na política. Terá um grande futuro no ramo. Se prepara para sair, mas ao lembrar que terá que ir dirigindo e que não será um Mercedes-Benz, toda a raiva volta à tona de uma só vez e o enfarto é fulminante. O médico faz todo o possível, não quer de jeito nenhum que ele morra sem ser condenado pelos crimes que cometeu, mas fica frustrado...

- O desgraçado morreu... Ah, como eu queria acreditar em Deus e ter certeza de que foi pro inferno!

- Morreu mesmo?

- Morreu, filho.

- Uhú! Herdei um supermercado! Posso administrar daqui mesmo!

O corpo é enterrado no mesmo dia, por falta de quem fosse velar, só carregou o caixão quem é pago para isso. Nenhum jornal noticiou e o vídeo foi ao ar. Doze anos depois o rapaz é eleito deputado federal pelo Partido da Moral Ilibada.

02/07/2010

Muito além de Rammstein

Poucas culturas são tão ricas e tão desconhecidas no Brasil quanto a alemã. Decerto que cultura por cá nunca foi prioridade, mas já levo este factor em consideração. Quem conhece este blog desde o começo sabe o quanto prezo o carácter alemão e se lembra do texto (este) que fiz a respeito da pátria germânica, me desmanchando sem disfarces.
Quando se fala em música alemã, brasileiro logo pensa nas bandas folclóricas da oktoberfest ou em Rammstein (
aqui o blog deles). Quando pensa. À parte a compentência inconteste dos roqueiros, não é justo lhes cair sobre os ombros todo o imenso peso de uma cultura que surgiu na Índia e fez surgir os celtas. Pensando nisto, e em atenuar o texto anterior que deixou muita gente de cabelo em pé (impressionáveis) apresento mais um artigo musical. Apresento cinco representantes da música alemã contemporânea que agradarão aos leitores costumeiros.
Ich+Ich (leia-se: ich und ich) - Projecto pop de
Annette Humpe e Adel Tawil, agrada muito quem aprecia o rock dos anos 1980, especialmente quem imagina seus clipes feitos com a tecnologia do século XXI. Destaco as músicas Dämonen e Stark, a primeira com uma métrica excelente, cuja letra consegue ser longa sem ser cansativa, ainda mais com a fala rápida e quebrada dos alemães, a segunda é um tanto romântica e surrealista. Quem prestar atenção nas letras e na melodia, consegue memorizar em pouco tempo, mesmo não falando alemão. A página deles (aqui) é completa, até com fórum e lojinha. Tem cartão internacional e as contas estão em dia? Bom que estejam, ou não entre em "shop".
Rosenstolz - Dupla formada por
AnNa R. and Peter Plate que mescla muito bem o pop e o rock com o erudito, como em Amo Vitam. Esta cantada em latim e alemão, o que não é para qualquer um fazer bem feito. Angst é daquelas músicas que podem facilmente ser a música da vida de alguém, com uma fórmula simples e consagrada que faz ter vontade de abraçar alguém. Simplesmente lindo. A casinha deles na internet, aqui, é de um bom gosto raro.
Juli - Quinteto que pode ser visto como a versão teutônica de Kid Abelha e Os Abóboras Selvagens um pouco mais malvada, capitaneada pela jovem Eva Briegel (
aqui). Am Besten Sein é para se cantar com fôlego e sem preguiça. Também tem toques oitentistas, mais para o limiar com os anos 1990. Característica presente em Warum, que mostra arranjos mais pesados, até certo ponto angustiante, nada que realmente incomode. Característica básica, eles cantam com alegria, aquela de quem escolheu a música para ganhar a vida e não para ter sucesso, este resultado do trabalho e da competência dos garotos. A home page aqui, com atalhos para perfis em redes sociais e tudo mais.
Laith Al-Deen- Quer dançar? Então o som é ele mesmo,
um cantor já amadurecido e ainda com o frescor da juventude na face. Augen segue a receita básica que agrada a garotada eclética, mas com o tempero clássico que os teutões colocam em tudo o que fazem. Não inventam, simplesmente fazem bem feito e não decepcionam nem a mim, que raramente gosto do estilo. Dein Lied se aproxima mais dos anos 1980, é mais para ser ouvida do que dançada, mas ainda assim é dançável, mas face a face. Uma palavra para resumir? Maduro, nada mais. O que pode ser sentido em Mit Mir, com arranjos vocais discretos, breves e muito bem aplicados. É como diz o ditado, "Não inventa, se inspire no oitenta".
Annett Louisan - A princesinha rebelde (home page aqui). Baixinha (para o padrão alemão), estilo camaleônico, jeito delicado e carinha de Lolita. Ela corta e pinta a madeixas sem dó. Tem uma voz muito juvenil e aveludada que envolve e dá vontade de adoptá-la, mas já é balzaquiana da antiga escola. Das Spiel é como uma valsinha pop meiga e singela,como o vídeo clipe, que se pode ouvir a qualquer momento com companhias de qualquer idade, desde que com bom gosto musical. Drück Die 1 é uma musiquinha grudenta e agradável, com humor à flor da pele
É dela a versão em alemão de Thinker Bell, que executa com maestria e jeito de menina inocente...absolutamente falso. O olhar mostra o quanto é esperta, mas ela convence como criançona, provavelmente é uma. Comparações? Rita Pavone. Toda a melodia inata deste idioma fantástico fica evidente na voz dela. Ataca de sessentista em Sexy Loverboy, que corrói totalmente a aura de inocência de Thinker Bell. Preciso dizer que é das minhas preferidas? Não, ficou claro e inequívoco (downloads do próprio site dela aqui).
É muito assunto para pouco espaço, mas para quem se dispuser a seguir as muitas pistas (links) que deixei aqui, fica fácil encontrar mais. Agora volte ao início e vá dançar.

25/06/2010

Para o pós-túmulo

Peço aos amigos, quando já não houver minha presença nesta casca, que não chorem mais do que o necessário. Desabafem, evitem que haja uma complicação por represamento de sentimentos fortes. Só isso.
Não guardem lembranças materiais, a não ser que realmente precisem delas. Precisando, são suas, mas certamente os poucos e frívolos bens que me tocam não lhes serão de grande utilidade.
Guardem de mim o melhor que dei a vocês. Não foram as palavras que a audição lhes fez esquecer, tampouco os abraços, que estes infelizmente não pude dar muitos. Guardem as lições de que servi, pois estas sim lhes serão de valia.
Peço ainda aos amigos que não se preocupem com o destino de um corpo vazio que já não serei eu, o destino pouco importa a quem não utiliza. Mas se decidirem prestar homenagens, uma última despedida, o que for, não sejam lúgubres.

Se forem sepultar, não ergam um mausoléu de cimento e mármore, oneroso e útil somente á apreciação de visitantes. Ergam uma praça. Não quero uma lápide fria e tétrica, mas alguns bancos que servirão para aproximar as pessoas e dar descanso aos exauridos, ou mesmo um momento de contemplação a olhos já cansados pela labuta insana que nos consome.

Plantem um jardim, plantem árvores frutíferas, arbustos e ervas aromáticas. Não se lembrem de mim com tristeza pela ausência. Sei que esta foi muitas vezes uma vilã que involuntariamente ajudei, peço que me desculpem, não pude estar ao seu lado para ceder um lenço e um ombro. Nossos planos nem sempre coincidem com os da vida, no meu caso os planos feitos foram todos ao lixo.

Não quero prantos senão entre risos, de saudades pelas bobagens que disse em um momento de insanidade, para alegrar alguém. Chorem quando a dor bater, mas deixem a ela e aos prantos no dia do baque. Luto não é bom, meus amigos. Necessário por alguns instantes, mas patológico se dura muito. As saudades virão, talvez alguém olhe a data na folhinha e estique a cabeça para fora da porta, para ver se já estou chegando, mas nesta condição não estarei, com o perdão do gerúndio. Saudades, porém, podem ser convertidas em algo bom e o tempo tem as ferramentas para tanto, deixem que ele as utilize.

Dessas bobagens, também me desculpem as que disse sem sentir. Vocês sabem, minha dicção sempre foi sofrível, minha capacidade de comunicação verbal tão pífia quanto minha beleza física. Nem sempre consegui me fazer compreender, com o tempo desisti e me ative à escrita, esta pelo menos não gagueja. As idéias embaralham com facilidade, vocês sabem, me conhecem um pouco.

Não escolham muito, qualquer lugar serve para um corpo inerte. Peço apenas que sobre ele venha uma muda de árvore, não uma decorativa, mas uma espécie grande e frondosa, sob a qual todos encontrem abrigo e sobre a qual as crianças de todas as idades encontrem entretenimento, refúgio, quem sabe até um local para meditação. Que seja grande como o abraço que gostaria de ter ofertado, para que ao menos assim o possa dar. Vocês terão filhos e gostaria que eles também pudessem usufruir.

Podendo, que haja brinquedos na praça, para que as crianças e os namorados levem de vocês qualquer tristeza remanescente, para que a renovação das gestantes lhes conforte, para que a janelinha de um sorriso pueril lhes troque a lágrima por um par de lábio esticados. Não se lembrem de mim com tristeza, com ressentimento nem com apego. Só se lembrem, pois às vezes alguém tem vontade torcer meu pescoço curto, puxar minhas orelhas até virarem asas, faz parte da vida.

Não poupem cores, nem tons, nem brilhos, nem luzes. Minha sobriedade já não estará presente, enfeitem à vontade e deixem que as pessoas admirem. Se forem se lembrar de mim, que não seja a do meu vestuário monótono, mas do quanto acolhi suas extravagâncias e respeitei seus gostos estranhos. Não compartilhei deles, estou longe de ter sido um amigo perfeito, ausente seria uma definição cabível. Desculpem. Pintem o quanto quiserem.

Peço, amigos, que as músicas não sejam tolhidas. Deixem o alento das cadências e das boas vozes atenuarem a egrégora de um sepultamento. Toquem de minhas músicas, mas não se furtem o direito de escolher as mais alegres. O mundo que terei carregado sobre os ombros já constitui pesar mais do que suficiente, morto já não o carregarei. Estarei então leve, sem nem mesmo a gravitação a limitar meus gestos.

Eu lhes pareci triste em vida, talvez o tenha sido, não faz mais diferença. Faz diferença compreender que sempre fui introspecto, concentrado em meu mundo particular que infelizmente não tive tempo de compartilhar, talvez um canto ou outro para um ou outro amigo, mas via de regra não consegui abrí-lo como não consegui chorar, rir ou gritar como vocês pediam que o fizesse. A alegria de meu riso mudo e curto, esmaecida aos olhos alheios, era colorida pelo interesse que vocês me dispensavam. Compreendam, as portas que não foram abertas, eu não sei como abrir. Talvez algumas não saiba que existem.

Rancores não fizeram parte do meu repertório, então não os trago para o além túmulo, fiquem sossegados. Talvez a frustração da qual não consegui me esquivar, mas não terá sido ela o algoz. Terei ido quando a carcaça que me veste já não puder mais me reter, quando for a hora de me ausentar e deixar a gravidade deste orbe denso e pouco afeito às delicadezas, que minhas mãos rudes aprenderam a manusear e trabalhar com o afã de quem terá amado as flores, para o quê lidou com a terra e a sujeira da vida. É do esterco seco que brotam as mais belas flores.

A vida não é boa, meus amigos, nem ruim, simplesmente é a vida. Bons ou ruins somos nós e de nós parte toda a alegria e toda a tristeza das quais nos regozijamos ou reclamamos. Então não deixem de incentivar o riso sincero e os protestos de bom grado que certamente os estranhos prestarão, vendo flores, frutos, arbustos e sentindo a temperatura amena da qual sempre terei gostado, raramente usufruido. Lembrem-se de que não será um cemitério, mas uma praça pública.

Não fui tão bom quanto gostaria, não terei (talvez) sido então o exemplo pleno de lisura para ninguém. Mas também mau não tenho sido. Terei ido com a consciêcia plena e quieta, ciente de que o meu alcance foi usado para o que deverei ter feito, que em momento algum me entreguei pela metade àquilo que me dispus a fazer, que terei sido chato quando necessário; gostaria de ser bonzinho o tempo todo, mas minha índole dura e a necessidade não o permitem.

Minhas rugas não enganam, mas também não me preocupam. Ainda há tempo, não sei quanto, certamente o bastante para evitar arrependimentos por não ter feito algo. Não se intimidem neste intervalo, meus ombros ainda estão quentes e meu abraço ainda é forte. A única doença que me ameaça sou eu mesmo, com a melancolia que, ironicamente, me ajuda a manter uma saúde mínima do que ainda visto. Ainda posso ouvir seus lamentos e compartilhar de suas alegrias, ainda posso dar e ouvir conselhos, afinal sou um homem adulto, já maduro e ciente do bem que alguns minutos falando pode fazer por vocês.

Me olhem nos olhos e soltem o que tiverem que soltar, não faz bem prender um veneno.



19/06/2010

O chefe virá de fora


Uma das particularidades do meu emprego é o contacto freqüente e quase directo com faculdades da área de pharmácia. Que desgraça, meus amigos!

A incompetência já comum em qualquer profissão é realçada pelo lema "Pago, logo passo". A incapacidade de interpretação de textos é um insulto, não bastassem os "imterpretasão" que já vi escritos por formandos, muitos só conseguem ler literalmente. Se isto já é um problema em qualquer área, imagine em uma Vigilância Sanitária, onde a lida com leis é parte da rotina. Interpretar leis ao pé da letra é como comprar um guarda-chuva de aço, quando se ouve que "vai chover canivete".

Cálculos? Só os renais.

Mas a onda de incapacitação profissional vai muito além dos cursos de pharmácia... Aliás, se virem isto lerão "p-rarmácia" ou "pra Márcia". E é essa gente que vai interpretar receituário médico ou mesmo dosar formulações com princípios activos, coadjuvantes e veículos, se o médico tiver cometido um erro (grandes chances se vir de uma Unicoiser da vida) ele não saberá corrigir ou ligar para confirmar a dosagem. Donos de drogarias já estão se aproveitando desta incapacidade para pagar pouco e garantir que o (i)responsável técnico vai empurrar qualquer cousa para o cliente, até camisinha para monge budista. Lembrando: o responsável técnico de uma drogaria ou pharmácia cai facilmente nas leis contra o tráfico de entorpecentes. Eles não pesam os riscos da profissão.

Certos de que o diploma virá, uma parcela assustadoramente grande dos estudantes está negligenciando o aprendizado, o aperfeiçoamento e a diversificação acadêmica, tripé que garantiu a revolução científica do início do século passado e está fomentando as inovações tecnológicas deste início de século. A negligência se vê nos autos de infração que saem em profusão e diáriamente, alguns simplesmente porque o engomadinho não vê necessidade de uma lixeira com pedal para o banheiro de uso público, na empresa.

Agora a justificativa do título. Estamos no limiar do insuportável para a falta de mão-de-obra competente. Milhares de vagas, só em Goiás, estão sendo preenchidas por gente de fora, até por imigrantes. Não é só questão de diploma, isto, como disse acima, qualquer um que faça uni-duni-tê no vestibular de uma faculdade particular consegue. A questão é a completa falta de conteúdo de nossos formandos. Há países que deixam a educação em segundo plano, mas negligenciar como o Brasil, só o Brasil. A praga da aula por videoconferência deveria ter facilitado a vida de quem quer estudar em instituições renomadas, mas só fez reduzir ainda mais os custos das medíocres. Até eu tenho computador com webcam (que nunca usei, confesso), então até eu poderia dar aulas para qualquer um em qualquer parte do mundo. Até as provas são unificadas e impressas em graphicas, o que facilita tanto a fraude que não há como não pensar que não ocorra a todo instante. Há faculdades antigas que gastam com divulgação, só pra alertarem os candidatos que elas não têm nada a ver com outras quase homônimas.

Sim, temos faculdades sérias, as que existiam antes de o Ministério da Educação abrir as pernas para qualquer especulador que queira ganhar dinheiro fácil e rápido. Escrevi no blog Talicoisa (aqui) um texto satírico a respeito, que arrancou risos, mas as cousas pioraram muito de lá para cá. Toda aquela fanfarra de punição e fechamento de cursos ainda não surtiu os efeitos que deveria surtir, e com todo mundo de olho na copa (enquanto o Senado refaz tudo o que foi obrigado a desfazer no início do ano) o caso vai sendo esquecido. Ter um diplominha de licenciatura de uma Universidade Federal (mesmo sucateada) ou uma PUC vale mais do que muitos doutorados, simplesmente porque tem mais conteúdo e mais alicerce. O problema é que muitos cursos da primeira são totalmente diurnos e as vagas são escassas. Gratuita, mas quem trabalha dificilmente pode usufruir.

A indústria nacional está travada não só pela burocracia estúpida que cresce na gestão de indicados políticos, mas também pela falta de mão de obra. Os sindicatos caem de pau se alguém começar a importar engenheiros da Alemanha, mas infelizmente é o que precisaremos fazer muito em breve. Porque mesmo que a situação se reverta agora, vão seis anos no mínimo para fazer efeito. O transporte público de Goiânia é vítima de algo assim, já ouvi aberrações de técnicos, mas provavelmente os donos das empresas mandaram que soltassem as asneiras.

Ainda raciocinando como se o Brasil estivesse sob reserva de mercado, poucos estão vendo corporações estrangeiras comprarem empresas nacionais, colocando gente sua nos cargos de comando e reduzindo a mão-de-obra local à condição subalterna. Mesmo as que têm política de valorização dos nativos (como multinacionais brasileiras) estão precisando fazê-lo, porque o brasileiro sabe de cór o esquema tático da seleção dos Estados Unidos, mas não faz idéia do poder de fogo que suas empresas ainda têm. Eu conheço e digo, eles fazem nossos leões miarem fino e baixinho. Seus profissionais mais estúpidos não fariam feio entre os nossos, até os puxa-sacos deles precisam ter muito mais conteúdo do que o nossos para garantir seus empregos.

É notória em Goiás uma série de histórias de japoneses que vieram, compraram terras que ninguém queria e rapidamente estavam tendo lucros. Por que? Porque no país de onde vieram eles aprenderam. Quem fez lá o equivalente ao nosso ensino fundamental, tem muito mais com o que se virar do que a maioria dessas faculdades caça-níqueis oferece. Eles aprenderam mesmo a tirar da terra o que ela pode oferecer, e dar à terra condições para isso, não apenas tirar e abandonar quando não conseguir mais. De onde suponho que a perpetuação da piadinha sobre a genitália dos japoneses é só despeito, tenho uma colega descendente e casada com um, ela desmente na hora e revira os olhinhos. Aliás, não só os japoneses, o pessoal da Região Sul está fazendo a festa e enriquecendo muito com a nossa incompetência. Goiás, hoje, produz uva quase o ano inteiro e com muita qualidade, graças à patota que fala com as mãos e os cotovelos. Tutti buona gente.

O índice de desperdício na maioria das nossas manufaturas é estarrecedor, e poucas aproveitam ou vendem suas sobras para fundição. Fora que a qualidade da usinagem (quando a máquina corta e modela o metal bruto) é feita na base do "mais ou menos tá bom". Quando metalúrgicos bávaros começarem a aparecer, empresas fecharem e chefes de produção irem para o torno, todo mundo vai piar, reclamar das potências imperialistas estrangeiras. Mas ninguém vai se dar conta que a culpa será nossa, exclusivamente nossa. Um bom executivo de segundo escalão que passar as férias no Brasil, ainda em férias se torna facilmente dono de uma empresa, sem tirar um centavo do bolso, só planejando empréstimos com racionalidade e pagando com o lucro que o antigo dono jogava fora, o que pode (quase certo que será) significar a demissão de todo um corpo de directoria.

Diploma já não é mais atestado de cultura, pelo contrário, dependendo de onde tiver saído se torna prejorativo. Tem gente formada, asseguro, que pensa que metro quadrdo é para ambientes quadrados, que o Maracanã se mede em metros redondos. então o Edifício Copan (aqui) seria em metros tortos? Metros cobrinhas? Metros em curva? Não sei. Sei que a insignificância da formação de nossos profissionais legará ao brasileiro a fama de burro de carga divertido, porque é só o que a maioria de nós está apta a fazer em escala global. Sim, para quem não sabe nós vivemos em um planeta, existem países neste planeta e muitos deles já começaram a exportar profissionais de primeira linha para cá, muitos destes profissionais já perceberam que não damos conta do recado e estão trazendo auxiliares de seus países; alguns deles já são chefes de seus antigos contractantes. Depois não me venham com xenophobia, isto é desculpa de incompetente.

Existe sim pressão, existem interesses, existem conspirações, os sanduíches de lanchonetes de fora têm sim gosto de papelão amanteigado. Mas diz o ditado que cachorro não entra por porta fechada, e a nossa porta profissional está arrancada do portal.

No andar da carruagem, em breve o Brasil continuará sendo país de brasileiros, mas sob comando aberto e directo de imigrandes e seus descendentes. Sabem de uma coisa? Bem feito para nós. Quem mandou votar e não dar a descarga direito?