04/04/2007

ALEMANHA


Gosto da Alemanha. Nunca estive lá (nesta encarnação) mas gosto muito da Alemanha.

Poderia dizer que gosto e pronto, não meta o bedelho e vá catar coquinho. Mas não sou um menino mal educado, só levará um minutinho e já explicarei a vocês, prestem atenção.


Os alemães são um povo muito singular, que preza a boa mesa e a disciplina, as grandes festas comunitárias e o trabalho árduo. Mas engana-se quem cultiva o estereótipo do louro grande e barrigudo que só come joelho de porco e couve passada.

A variedade de doces e carnes da culinária alemã é estonteante, trata-se de uma dieta altamente calórica e saborosa. Encher lingüiça e salsicha, para eles, não é gastar tempo,é uma tradição. Os salsichões são uma instituição cultural desse multipovo, tanto quanto o canto alegre e descontraído dos músicos folclóricos. Eles levam muito à sério sua diversão, hora de trabalhar é hora de trabalhar, hora de se divertir é para esquecer o resto. Meio prático demais para a cultura latina, talvez, mas tem funcionado há séculos. Por cá, se costuma perguntar "E o relatório, aprovaram?" e ouvir "Não sei, vou ficar de cabeça quente até segunda-feira". Diga isso a um de nossos irmãos de sotaque engraçado e correrás o risco de ter um salsichão enfiado pela goela. É hora de festa, caramba, deixe o trabalho para os garçons!

Ah, um detalhe: Se prometer, cumpra. Se disseres "passo lá", te cobram dia, hora e teu menu preferido. Escolha as palavras, quando estiver falando com um alemão. Aliás, falar com eles em português é muito mais fácil. Eles aprendem o nosso idioma melhor do que nós o deles. Não por acaso, em muitas cidades do sul se ensinam às crianças primeiro o alemão, depois o português. Xenophobia? Racismo? Metidice à besta? Não. Definitivamente não. O alemão, em suas muitas variantes, é uma língua muito musical e poética, com uma sonoridade muito forte e até contagiante. Quem aprende alemão (um dia, quem sabe) consegue perceber melhor as nuances phonéticas da fala, por isso é muito mais fácil aprender alemão e depois o português, ou qualquer outro idioma, do que o contrário. E dialeto musicado é com os renanos que, segundo os demais alemães, não falam, cantam. Uma boa caricatura é um renano a falar e uma orquestra aparecer para fazer o acompanhamento.

Os alemães são cientes, como nenhum outro povo, de sua unidade. Mas passar de um Estado para o outro é como atravessar uma fronteira nacional, tamanha a diferença entre o dialeto local e o alemão-padrão. Para as crianças então, a dificuldade é imensa, nem parece que falam a mesma língua. Mas na hora de trabalhar, aha, não há diferença regional que se imponha. A boa e velha determinação teutônica toma conta de tudo e nada os faz parar até que tenham atingido seus objetivos. E depois vão à farra, é claro.

Ainda hoje se ouvem comentários maldosos e ignorantes, evocando o fantasma nazista para rotular a Alemanha. Eles estão plenamente cientes dos erros que cometeram. Talvez cientes demais. Eles pagaram caríssimo. Tiveram sua pátria (que para eles é quase uma extensão do corpo) dividida durante a guerra fria, viram impotentes, atrocidades sendo cometidas contra quem tentasse transpor o muro maldito. Famílias foram divididas por décadas. Eles têm sentimentos e sofreram muito com esse castigo. A Alemanha se envergonha do que fez. Ninguém precisa lembrá-la disso, os monumentos e os livros de história não deixam esquecer. Ah, os neonazistas por lá não são "filhos de gente boa", são marginais.

Aos poucos eles estão aprendendo a não levar a si mesmos tão à sério, graças em boa parte aos brasileiros que foram passar férias ou estudar... E ficaram. Já me cansei de ouvir histórias de brasileiros solteiros que foram só para passar férias, conheceram alguém e só voltam para passar férias. Pensam o quê? Com aquela pose toda eles parecem não oferecer risco, mas quando vê, já te levaram ao altar. Muito cuidado com esses alemães, principalmente com as alemãs. São todos muito educados, muito bem arrumadinhos, mas não têm piedade das mamãezinhas brasileiras. Se bem que, re, re, re, também temos essa "má fama".

Aliás, esse é um ponto importante. Poucos países recebem o brasileiro tão bem quanto a Alemanha. Infelizmente países que falam o português não nos recebem tão bem, há relatos de discriminação explícita, como se ainda fôssemos colônia. Entrar na Europa pela Alemanha é entrar de primeira classe, não só por evitar constrangimentos desnecessários, como pela comodidade de se estar em um país central, com uma infra-estrutura de se tirar o chapéu e um litoral respeitável. Descendo em Berlim ou Frankfurt, fica prático conhecer o continente inteiro. Mas vale a pena conhecer o anfitrião primeiro.

A indústria germânica é conhecida pela excelência de sua engenharia. Poderiam muito bem, com a tecnologia de que dispõe, vender quiquilharias descartáveis para o mundo inteiro. Mas há um sentimento de orgulho nacional que os impede de escravizar o próprio povo. Se vires um producto com a inscrição "made in germany", saiba que a longevidade, a confiabilidade e o salário justo estão embutidos no preço. Seja um brinquedo ou um automóvel, se é alemão, pode levar tranqüilamente, daqui a seis meses não terás que comprar outro.

Já falei nesta página sobre minha preferência pela qualidade, ainda que me custe mais. Também já citei os motivos que me levam a pagar mais caro por uma maçã feinha e discreta. Na realidade, eles cobram caro pelo que seria caríssimo, pois estão acostumados a fazer muito bem feito. Deus sabe o que eles seriam capazes de fazer se tivessem acesso aos nossos recursos. Faço uma idéia. Por isso mesmo sou a favor de uma reaproximação séria do Brasil com a Alemanha. Não essas viagenzinhas tímidas e acanhadas que nossos últimos presidentes têm feito à Berlim. Quem conhece a jornalista Córa Ronái e seu maravilhoso blog sabe o quanto aquela terra e aquela gente são encantadoras. É tudo muito organizado, mas eles carecem de expontâneidade, algo que nós temos de sobra. Ambos os povos são muito mais parecidos do que se imagina. Ambos trabalham mais do que pensam e acham que deveriam trabalhar mais. A despeito do esterótipo injusto, um brasileiro não recusa um bico extra para fazer seu pé de meia. Quem não se lembra do maledito risco de apagão? Foi a coisa ficar realmente séria e a adesão foi maciça e imediata. Basta o executivo falar com seriedade, respeitando nossas inteligências, que a adesão é instantânea. O presidente, aliás, deveria parar de correr atrás de quem promete uma gorjeta de imediato, mas quer nos ver pelas costas logo adiante. Os alemães já deram mostras de seriedade e igualdade de condições que outros nem cogitaram. Eles não aparecem com sorrisos prontos e prometendo pechinchas. Quando aparecem, eles querem negociar, trabalhar conosco. A primeira coisa que deveria ser feita é aproveitar a imensa comunidade germânica que há, desde o Rio Grande do Sul até o Espírito Santo, e promover não um intercâmbio cultural, não um turismo para eles verem como seus avós falavam e se vestiam, mas uma interação entre os dois povos. Havendo interação entre os povos (na qual o mercosul fracassou, me desculpem) as empresas logo se interessam, seguidas pelos governos e pronto. Não é algo com o qual se gastaria os tubos. Em vez de levar cinzeiros de pedra-sabão para vender em uma feira internacional, acentuando a imagem negativa que se tem de nós, que exibam informações sérias e em profusão, destacando os pontos de coincidência e os pontos onde um país complementa o outro.

Sei que corro o risco de ser taxado de racista, afinal ficou politicamente incorrecto dizer que uma alemã ou uma austríaca (como Hedy Lamarr) é bonita. Já sou olhado torto por não aderir à neurose vigente. Mas, quer saber? Vão catar coquinho e colar de volta ao coqueiro. Estreitar laços com os alemães é algo que deveria ter sido feito desde o fim da Segunda Guerra Mundial. Ambos teríamos nos ajudado mutuamente e muita dificuldade poderia ter sido evitada para os dois lados. O brasileiro descrê do trabalho honesto porque não o vê rendendo os devidos louros, mas vê gente ignorante e portadora de muitos vícios de caráter ganhando dinheiro sem mover uma palha. Os alemães são um bom exemplo, como nós somos um excelente exemplo de tenacidade e desenvolvimento espiritual, este que tanta falta faz à Europa como um todo.

Já falei muito. Mas creiam, não falei nem um ponto do texto que o tema merece. Porque se há duas nações para as quais, juntas, não haveriam limites, são Alemanha e Brasil, na ordem alphabética. Agora volta lá para cima e entre na festa.

4 comentários:

Daniela disse...

hehe.
bom texto.
vou mandar o link para meu tio alemão.

beijo

Lisi disse...

Tb gostei Nanael...
eu adoro coisas de outras culturas, linguas e países...

.:*Mandy*:. disse...

Adorei o texto, Nanael! Simplesmente impecável :)
Quanto à dificuldade de se aprender o idioma alemão, concordo em gênero, número e grau. Temos na família um amigo alemão que acha o Português uma das línguas mais fáceis de se aprender (pois não existe muito dessa coisa de uma palavra ter mais de um significado), mas morria de dor de cabeça na escola para entender a gramática alemã. Mesmo assim, já comecei um curso na Deutsche-Welle e, apesar do pouco tempo que tenho (e da dificuldade na pronúncia), é uma coisa muito prazerosa, e muito musical também, hehehehehehe ^_^
Beijos ;********************

Nanael Soubaim disse...

Agradeço muito, patota. É muito bom saber que alguém recebe e acolhe minhas idéias.