Dezembro é reconhecidamente o mês em que os sentimentos de fraternidade mais afloram, e isso não é plágio de propaganda de tevê, as instituições filantrópicas atestam. Infelizmente elas também atestam que toda essa nobreza de espírito desaparece nos primeiros acordes do carnaval; as despensas esvaziam, os armários de remédios ficam às moscas e os assistidos caem com o choque de, sem mais nem menos, verem aquela fartura de doações e visitas desaparecerem como que por encanto.
Não estou fazendo campanha contra a diversão alheia, longe de mim, embora não participe da folia. Estou dizendo que a fraternidade não precisa estar presa a uma época, assim como a alegria não precisa estar presa às vésperas da quaresma. Não há lei que regule isso.
Notemos que as pessoas parecem ansiar por coisas que poderiam fazer no cotidiano, como dançar um pouco, depositar cinco reais na caixinha da igreja (chega daquelas notinhas de um real já cheias de remendos, pelo amor de qualquer coisa!), abrir mão de um happy hour para ir ver os filhos ainda acordados, dar um presente singelo sem a permissão da sociedade por não ser a época "adequada", abrir mão de um jogo para visitar uma creche. Tudo isso pode ser feito ao longo do ano, dando satisfação permanente, fazendo o capital girar permanentemente, diluindo o desejo de se entregar aos excessos, como se fosse a última oportunidade de abraçar alguém e cantar com ele.
Na época do carnaval a mendicância (constactação pessoal) cresce, as pessoas andam tão imersas em seus impulsos biológicos que se esquecem até do que estão fazendo daquele momento. Falta dinheiro para pagar os impostos à vista, mas surge do nada para encher a casa de garrafas de cerveja; Viaja-se longe para usufruir, com muito mais riscos, daquilo que muitas cidades oferecem em suas praças e lagos, praticamente de graça... Para não dizer de graaaaça, os petizes vão querer comer, mas com certeza será mais barato do que nos "points" badalados. Aliás, levar uma criança para um lugar onde ela vai se perder, se ferir ou coisa pior, é mesmo querer desocupar um cômodo em casa.
Os recursos aplicados na diversão e os aplicados na solidariedade fazem a economia girar do mesmo jeito, só que neste é com menos holofotes e menos criminalidade. Não estou vinculando as duas coisas, mas elas têm o mau hábito de se encontrarem em vias públicas. Pode-se organizar um baile no próprio bairro, que sairá ao gosto de quem vai, o que aproximaria em vez de afastar famílias. Não precisa esperar pelo natal para festejar com a sua gente, nem precisa encerrar por lá a convivência. Essa mesma convivência estimula olhar para além do umbigo, fazendo notar que as pessoas ajudadas em Dezembro não desapareceram com a virada do ano, elas ainda estão lá, um pouco menos famintas por enquanto, mas estão lá. Estão esperando alguém dizer que há vagas, mas enquanto isso não acontece, qualquer biscate já ajuda, muitos concordam em trabalhar por um prato de comida, se é o que pode oferecer pela capina ou por vigiar o carro. Estômago cheio inibe idéias arriscadas, como praticar um assalto, pois a fome (biológica ou não) é o primeiro vagão da criminalidade, que gosta de trens longos.
Sobra panettone na virada do ano, sobram brinquedos na virada do ano, sobra todo tipo de coisas que acabam sendo vendidas com descontos e vantagens. Não precisa abrir mão do chester e do champanhe, basta guardar um pouco, deixar a extravagância para o próximo natal (que será mais próspero, acredite e trabalhe nisso) e depositar em uma poupança ou porquinho o que foi economizado. Não só as finanças domésticas, mas também aquela carinha com uma janelinha no sorriso vai agradecer. Não só pelo novo presente, mas por não ter sido esquecida, por ter sido chamada pelo nome (ninguém se chama "psiu, coisinha") e por poder contar a mais alguém como foram o seu natal e o seu reveillón. Não quero ser piegas, mas estou compelido a sê-lo. Aquela carinha sapeca vai crescer e vai se lembrar do teu rosto, se te encontrar na rua. Elas sempre se lembram, nós é que damos pouca importância ao que fazemos por elas, acreditando que também vão se esquecer. O real dado àquela criança será restituido de uma forma ou de outra, e poderá ser a diferença entre a gargalhada de escárnio e o socorro que vai lhe prestar. Quem disse que dinheiro não conta? Se aplicado no autruismo, conta deveras.
Não fosse o bastante, é no povo que os políticos se espelham. Quanto mais egoístas somos, mas eles se sentem no direito de ser. Quanto mais equilibrados e autruístas formos, mais eles se verão na obrigação de ser, sob o risco de perder eleitorado. Não dependem deles as mudanças pelas quais esperamos, dependem de nós. É o povo e ninguém mais o guardião da liberdade e da democracia, que começam em casa, no cotidiano, em actos simples como não deixar a egrégora natalina perecer na virada do ano.
25/11/2006
04/11/2006
Palavra de Nanael

Os dois em suas respectivas roças. Não eram matutos, tampouco tinham real necessidade de se mudar para o campo, mas escolheram viver lá.
No começo tudo foi dificuldade. Ela plantando rosas para vender e legumes para se sustentar, havia também um pequeno pomar que já estava lá antes de sua chegada. Ele plantando tubérculos e pimenta, criando algumas galinhas e também tinha um pomarzinho pré-existente.
Nada jamais foi, perdoem o trocadilho, um mar de rosas para nenhum dos dois, mas com o passar dos meses eles começaram a pegar o jeito para a coisa. Ambos prosperavam lenta e solidamente, no compasso da natureza, aumentando e diversificando a produção. Logo descobriram que cascas, pétalas e caules finos poderiam servir para fazer papel reciclado, passaram então a vender o que antes era refugo, aumentando a renda. Mas aqui acabam as semelhanças.
Ele, que sempre repetia para si mesmo que era homem humilde e rústico, só queria sobreviver.
Ela, que queria formar um patrimônio para poder criar filhos com dignidade, não era menos humilde, mas não confundia humildade com subserviência e cabeça baixa, queria progredir.
Nos dois primeiros anos os dois seguiam suas vidas em igualdade de condições, mas ele tomou uma curva e se distanciou da vizinha. Todos os anos ambos pegavam sacas de sementes e plantavam, no decorrer do trabalho as sacas esvaziavam e a carga ficava menor, assim como no decorrer dos anos o trabalho parecia menos extenuante. Mas ele só queria sobreviver, viu que já tinha mais do que o necessário para tanto e, no meio do plantio, abandonou as sementes. À sua frente, metade do campo ainda esperava pelo plantio. Vieram as chuvas e a terra fofa e fértil, revolvida durante a aragem, foi carregada pela água, indo parar no roseiral bem cuidado. Passou-se um ano e as dificuldades começaram a aumentar, como se eximindo de qualquer responsabilidade, procurou "amigos" para se distrair, nisso consumindo seus recursos.
No primeiro lustro a diferença era gritante, escandalosa até. Ele em uma tapera cheia de goteiras, com uma roça de fazer chorar de pena, as galinhas espalhadas a procurar por conta própria o que comer, no que comiam insetos contaminados com agrotóxicos e morriam, uma a uma, até a última. O último ovo acabou e ele agora só tinha os tubérculos e a pimenta para comer. Para quê mais? Afinal era homem macho, sem frescuras, comeria até fezes se fosse preciso. Pois começou a comer as das saudosas galinhas, já que tinha acabado com as frutas do pomar. Os amigos? Que amigos?
Ela já tinha a casa montada, com electrodomésticos, móveis de boa qualidade, um bom enxoval e uma propriedade de dar inveja aos contos-de-fadas mais floreados. Planejava comprar um carrinho, para poder visitar os amigos e parentes na cidade. Já tinha seu pé de meia, agora poderia pensar em casar-se e ter seus filhos, não mais do que três. Dois, de preferência.
Ele abandonou a roça e voltou para a cidade. Com certeza conseguiria um bom emprego, sempre conseguiu, por que não conseguiria agora? Porque o mundo não pára. De tanto se vangloriar de sua rusticidade, apegou-se a ela e não aprendeu mais nada. O que ele sabia fazer não servia mais. Ninguém queria pagar o equivalente a seis meses de aluguel em uma boa casa para ele, gente muito mais qualificada ganhava para três ou quatro meses, seis meses ganhavam os mais productivos e dispostos a aprender. O máximo que aceitavam lhe pagar era dois meses de aluguel em uma casa pequena e sem amenidades. Teve que aceitar.
Ela voltava da cidade feliz. Feliz por ter revisto entes amados e por ter de novo o aconchego do lar. Já não se imaginava sem aquela chácara. Não descuidava da beleza, afinal ninguém era obrigado a dar de cara com uma mulamba cheia de feridas, de pele rajada e cabelos de ariar panela. Cruz e credo! Ia à roça de luvas, botas, mangas longas e chapéu. Decerto que incomodava, mas o que fazer quando se é branquela daquele jeito, se mesmo os negros se protegem? Mas a armadura era só de manhã, para o serviço pesado que lhe esculpira as formas de pin-up. Após o almoço, com tudo arrumado, vestia seu vestido longuete meio-rodado, de meias mangas, seu chapéu de seda e passeava por entre seu trabalho, meditando e refletindo, coisas que a natureza fomenta em profusão. E pensar que até os doze anos tinha horror ao trabalho mais pesado. Pois agora o amava.
Primeira crise na empresa. Os menos necessários foram os primeiros a receber as contas, entre os quais ele. O dinheiro dava para três meses de teto e comida. Uma rara prudência o fez mudar-se para o barracão dos fundos e ganhou mais dois meses de prazo. Como estavam no meio do ano, o proprietário prometeu deixá-lo até janeiro; seis meses de teto. Mas teria que bater pernas como nunca. Um bico ali, outro acolá e ele ganhou alguns trocados, mas nem de longe poderia se comparar à vida que abandonou. Nem lhe passava pela cabeça que o pomar estava novamente repleto de frutas, que os tubérculos mais resistentes prosperaram e que a pimenteira deu cria, formando um pequeno pimental na entrada da chácara. Mas só os pássaros usufruíam de tudo aquilo. Passava-lhe, porém, pela cabeça, que sua vizinha sempre ajudava quando pedia. Agora se lembra dela. Saiu ofendendo-a, como se limpeza e boa aparência fossem crime, como se o progresso dela fosse a causa de sua derrocada. Como nada conseguira de relevante, decidiu ver como estava a sua roça. Não se preocupava com seus pertences no barracão, não havia o que roubar. Se brincasse, o ladrão até deixaria uma esmola sobre a mesa da saleta.
A cena comoveria, se alguém a visse. Mato, mato e mais mato. Tudo foi tomado pelo mato. Em um momento de ira ele arranca pelas raízes as invasoras, com uma fúria animalesca, como se focalizasse nas ervas daninhas a sua própria estupidez. Apesar de tudo é um homem forte, arrancaria qualquer mandioca com uma só mão. Amontoou tudo aquilo no ponto em que havia parado de plantar e ateou fogo, sempre em prantos. Pois chorou escandalosamente quando viu o que o mato cobria. As plantas estavam imensas! Os amendoins pareciam grandes cercas-vivas, as mandiocas passariam por mamoeiros, para um desavisado, as batateiras estavam lindas de morrer, o pimental que se formou estava mais amarelo e vermelho do que verde, de tão carregado, sem falar na fartura quase pecaminosa do pomar. Chorou como uma criança, sempre repetindo "O que foi que eu fiz da minha vida?" prostrado sob as folhas da mandioca. A casinha estava muito mal tratada, mas estava de pé. As vigas ainda estavam intactas, mas não havia uma só telha inteira. Pelos seus cálculos, o que tinha ali dava para viver um ano inteiro. Decidiu voltar. O trabalho que já tinha feito iria sustentá-lo até a próxima colheita. Pegou suas coisas na cidade, um pouco de dinheiro que tinha, comprou telhas de papel tratado e tornou seu rancho novamente habitável. Consertou e repovoou o galinheiro. Com o que sobrou, mais a fartura da chácara, viveria um e meio, dois anos sem o aperto que conheceu.
Mas antes de retomar seu caminho, precisava se desculpar com a vizinha. Ficou besta ao ver aquilo. As roseiras e os legumes renderam bem. Uma senhora veio atendê-lo, alertando que era funcionária e não mãe da moça. Mais uma vez chora pelo que poderia estar usufruindo hoje, se não tivesse saído do caminho seguro que tinha traçado. Lá no fundo, em uma cadeira de balanço, ela o vê...
- Tu voltaste!
Uma hora basta para acalmar o homem. Ela sabe o que uma pessoa faz quando bêbada. E já que está lá, apresenta-lhe o marido e volta a negociar productos por escambo. O casal trata de encorajá-lo, dizendo "Ainda bem que tu acordaste a tempo, e nem fizeste a besteira de vender tua chácara. Claro que o tempo perdido não se recupera, mas o teu plantio já é teu e ninguém pode tirar de ti".
Mais um lustro e ele consegue o suficiente para criar filhos com dignidade. Casa-se e tem o filho. Decerto que sua vizinha, que começou no mesmo nível e com uma actividade mais tímida e menos rentável, está muito à sua frente. Mas isso já não é motivo para chorar, é uma lição que pretende repetir exaustivamente para seu filho, para que não cometa os mesmos erros. Até porque não tem graça nenhuma cometer os erros dos outros, cada um que cometa os seus.
14/10/2006
A moça da Baviera
Andava tranqüila pelos campos. Gostava do sol tênue da Europa no rosto, embora a pele não ajudasse. Era muito clara.
Queria uma vida tranqüila e sem pretensões. Se perguntavam onde queria viver, não titubeava, soltava em uma só palavra: bayer. Pessoa de olhar calmo e sereno, não causava espanto em sua resposta.
Jovem e sem medo do trabalho, vivia feliz na terra dos teutões. Gostava de trabalhar, achava que não tinha nada melhor a fazer. Nos momentos de folga ia às feiras e festas, profícuas no berço dos celtas.
Ah, que tempos felizes! Nem mesmo as crises financeiras, a estupidez que lançara o país à recessão abalava sua moral. Se ouvia alguém orando aos céus, pedindo a solução para os problemas que afligiam seu povo, logo intrometia: arbeiten, arbeiten und arbeiten. Um prato por dia, dizia sempre, continuava valendo um dia de sobrevida e poderia ser retirado de qualquer quintal. Se alguém se dispusesse a fazer alguns tijolos em troca de algumas refeições, a economia estaria imediatamente recuperada, sem os melindres dos burocratas.
Ah, que tempos felizes. Lhe arrancava lágrimas ver uma criança tomando uma sopa, após um dia ou dois sem ter direito o que comer. Fosse judia, cigana, cristã, pagã, muçulmana, não importava. Bateu à sua porta, não sai sem suas necessidades satisfeitas. Por tudo isso era popular. Tinha o respeito da comunidade.
Mas no orbe terrestre, a felicidade é efêmera. Por tudo o que disse, tinha também a reprovação dos insanos, daqueles que insistiam em tomar um alvo para descarregar as argruras pelas quais passava apátria do trabalho. Para esses, trabalhar não bastava, era preciso trabalhar contra seus desafetos, ainda que nada lhes tivessem feito.
Ah, que tempos felizes! Essa gente medonha não tinha voz. Ainda que fazendo papagaios com o dinheiro corroído pela inflação, continuava-se a viver. Todos continuavam lutando, se recusando a dar a vitória de bandeja à morte.
Mas no orbe terrestre, a felicidade é efêmera. Veio uma voz em socorro dos insanos, falando a mesma língua, veio de fora, de outro reino. Veio dar uma direção perigosa a uma situação que, mesmo reversível, era tensa. A voz pôs veneno no rio Elba, envenenou a cerveja e todos ficaram surdos. ninguém ouvia senão àquela voz malígna. Então a roda girou ao contrário. Reergueu-se a matéria, mas o espírito ficava cada vez mais doente, delirante. Dormia-se em cama de faquir, acreditando que fosse de plumas, sem sentir o sangue escorrendo, do qual se alimentava a voz malígna.
Oh, que tempos tristes! Precisou abandonar as longas saias bordadas, as mangas bufantes, seu lindo vestido azul... e sua família.
A roda estava girando ao contrário e atropelava aqueles que, só querendo tocar suas vidas, continuavam a andar com o relógio. Era preciso tirar toda essa gente da frente e levar a campos mais seguros.
Foi assim que a moça popular e atraente se tornou subversiva. Pois subverter era, então, fazer o que era certo. Tal qual seus pais lhe ensinavam em sua infância, de educação severa, mas muito amorosa. Quando aprendera as prendas domésticas, o trabalho árduo, a dignidade pelos costumes austeros de seu povo.
A moça de cabelos negros, que rechaçava a fama, era então famosa. A moça prendada, de modos educados, agora corria, saltava e até matava, para não morrer. A moça de vestidos elegantes e pudorosos, via-se obrigada a correr de pernas à mostra, para não ser alcançada, usar as calças que odiava, as botas das quais nem queria saber, até então.
Tornou-se heroína. As vidas que salvou, a esperança que fomentou, a confortável vida na roda maldita que recusou. Seria rica, se quisesse; esposa de altos oficiais, se quisesse; teria empregados, se quisesse; seria heroína da pátria, se quisesse. Mas era heroína dos perseguidos, da pátria corrompida era traidora, maldita, prostituta dos judeus e da raça impura, a que dormia com negros e ciganos e pagava com a vergonha ariana.
Mas que falácia! Não queria ser heroína, nem mártir, nem coisa alguma mais do que era quando a cruz enlouqueceu e retroagiu. Queria a vida que tinha, seu marido, sua família, seu trabalho e seus planos para a velhice. Deixava para chorar quando estava só. No resto do tempo precisava dar esperanças aos que ajudava.
Sua cabeça estava a prêmio. Nenhuma surpresa. Nenhuma ruga de preocupação. Já estava preocupada demais, sua vida se tornara perigosa demais. Era apenas mais um detalhe feio e demoníaco da roda corrompida, que combatia sem nem saber o preço que estava pagando. Tinha a certeza de que se parasse para calcular, choraria em desespero e correria enlouquecida e sem rumo. Apenas trabalhava.
Mas o calo que mais dói sempre tem preferência. A encontraram. Sem escolha, mandou seus tutelados para um lado e correu para o outro, chamando atenção. Sem pensar, apenas atrasando ao máximo os perseguidores. Não sabe se seus tutelados se salvaram, sabe que foi pega. Desnecessário dizer dos abusos que sofreu, da violência maior que cometeram. Mas as ordens eram de levá-la para execução à Berlim, quando capturada. Ninguém mais sabia da captura, então relataram que reagiu, os desarmou e por isso foi estrangulada.
Houve festa pela morte da traidora, a prostituta da sub raça. Mas a roda corrompida cobrou seu preço, e já não havia a heroína a levantar a moral do povo.
Foi-se o corpo, só o corpo.
Queria uma vida tranqüila e sem pretensões. Se perguntavam onde queria viver, não titubeava, soltava em uma só palavra: bayer. Pessoa de olhar calmo e sereno, não causava espanto em sua resposta.
Jovem e sem medo do trabalho, vivia feliz na terra dos teutões. Gostava de trabalhar, achava que não tinha nada melhor a fazer. Nos momentos de folga ia às feiras e festas, profícuas no berço dos celtas.
Ah, que tempos felizes! Nem mesmo as crises financeiras, a estupidez que lançara o país à recessão abalava sua moral. Se ouvia alguém orando aos céus, pedindo a solução para os problemas que afligiam seu povo, logo intrometia: arbeiten, arbeiten und arbeiten. Um prato por dia, dizia sempre, continuava valendo um dia de sobrevida e poderia ser retirado de qualquer quintal. Se alguém se dispusesse a fazer alguns tijolos em troca de algumas refeições, a economia estaria imediatamente recuperada, sem os melindres dos burocratas.
Ah, que tempos felizes. Lhe arrancava lágrimas ver uma criança tomando uma sopa, após um dia ou dois sem ter direito o que comer. Fosse judia, cigana, cristã, pagã, muçulmana, não importava. Bateu à sua porta, não sai sem suas necessidades satisfeitas. Por tudo isso era popular. Tinha o respeito da comunidade.
Mas no orbe terrestre, a felicidade é efêmera. Por tudo o que disse, tinha também a reprovação dos insanos, daqueles que insistiam em tomar um alvo para descarregar as argruras pelas quais passava apátria do trabalho. Para esses, trabalhar não bastava, era preciso trabalhar contra seus desafetos, ainda que nada lhes tivessem feito.
Ah, que tempos felizes! Essa gente medonha não tinha voz. Ainda que fazendo papagaios com o dinheiro corroído pela inflação, continuava-se a viver. Todos continuavam lutando, se recusando a dar a vitória de bandeja à morte.
Mas no orbe terrestre, a felicidade é efêmera. Veio uma voz em socorro dos insanos, falando a mesma língua, veio de fora, de outro reino. Veio dar uma direção perigosa a uma situação que, mesmo reversível, era tensa. A voz pôs veneno no rio Elba, envenenou a cerveja e todos ficaram surdos. ninguém ouvia senão àquela voz malígna. Então a roda girou ao contrário. Reergueu-se a matéria, mas o espírito ficava cada vez mais doente, delirante. Dormia-se em cama de faquir, acreditando que fosse de plumas, sem sentir o sangue escorrendo, do qual se alimentava a voz malígna.
Oh, que tempos tristes! Precisou abandonar as longas saias bordadas, as mangas bufantes, seu lindo vestido azul... e sua família.
A roda estava girando ao contrário e atropelava aqueles que, só querendo tocar suas vidas, continuavam a andar com o relógio. Era preciso tirar toda essa gente da frente e levar a campos mais seguros.
Foi assim que a moça popular e atraente se tornou subversiva. Pois subverter era, então, fazer o que era certo. Tal qual seus pais lhe ensinavam em sua infância, de educação severa, mas muito amorosa. Quando aprendera as prendas domésticas, o trabalho árduo, a dignidade pelos costumes austeros de seu povo.
A moça de cabelos negros, que rechaçava a fama, era então famosa. A moça prendada, de modos educados, agora corria, saltava e até matava, para não morrer. A moça de vestidos elegantes e pudorosos, via-se obrigada a correr de pernas à mostra, para não ser alcançada, usar as calças que odiava, as botas das quais nem queria saber, até então.
Tornou-se heroína. As vidas que salvou, a esperança que fomentou, a confortável vida na roda maldita que recusou. Seria rica, se quisesse; esposa de altos oficiais, se quisesse; teria empregados, se quisesse; seria heroína da pátria, se quisesse. Mas era heroína dos perseguidos, da pátria corrompida era traidora, maldita, prostituta dos judeus e da raça impura, a que dormia com negros e ciganos e pagava com a vergonha ariana.
Mas que falácia! Não queria ser heroína, nem mártir, nem coisa alguma mais do que era quando a cruz enlouqueceu e retroagiu. Queria a vida que tinha, seu marido, sua família, seu trabalho e seus planos para a velhice. Deixava para chorar quando estava só. No resto do tempo precisava dar esperanças aos que ajudava.
Sua cabeça estava a prêmio. Nenhuma surpresa. Nenhuma ruga de preocupação. Já estava preocupada demais, sua vida se tornara perigosa demais. Era apenas mais um detalhe feio e demoníaco da roda corrompida, que combatia sem nem saber o preço que estava pagando. Tinha a certeza de que se parasse para calcular, choraria em desespero e correria enlouquecida e sem rumo. Apenas trabalhava.
Mas o calo que mais dói sempre tem preferência. A encontraram. Sem escolha, mandou seus tutelados para um lado e correu para o outro, chamando atenção. Sem pensar, apenas atrasando ao máximo os perseguidores. Não sabe se seus tutelados se salvaram, sabe que foi pega. Desnecessário dizer dos abusos que sofreu, da violência maior que cometeram. Mas as ordens eram de levá-la para execução à Berlim, quando capturada. Ninguém mais sabia da captura, então relataram que reagiu, os desarmou e por isso foi estrangulada.
Houve festa pela morte da traidora, a prostituta da sub raça. Mas a roda corrompida cobrou seu preço, e já não havia a heroína a levantar a moral do povo.
Foi-se o corpo, só o corpo.
19/09/2006
Ganha Pouco?
É indiscutível que se ganha pouco no Brasil. Com excessão de poucas profissões, todas remuneram mal e demandam muita dedicação. Resultado: um povo que se acostumou a acreditar que trabalhando não se progride, que só especulando se tem uma chance de fazer o pé-de-meia, ou ainda entrando para a política e lá se perpetuando não importa por que meios. Em parte explica a desconfiança do brasileiro com pessoas ricas, embora quase todos aspirem a nababesca vida que reprovam.
Apesar disso, o brasileiro trabalha mais do que acredita, se esforça mais do que se dá conta é mais honesto do que dá a entender.
Entretanto, temos uns maus exemplos que me fazem pensar se certas pessoas realmente merecem ganhar mais do que um salário mínimo, (hoje, dezenove de Setembro de 2006, valendo R$350,00) ou só ganha isso porque a lei não permite pagar menos.
Hoje, saindo do trabalho, me deparei com uma trilha de panfletos, todos de uma mesma rede de supermercados, a enfeiar a calçada. Meu trabalho fica em uma esquina, no outro extremo ainda vi muitos panfletos jogados.
Eu trabalhei por anos com panfletagem. O modo como aqueles estavam dispostos me levam a crer que o garoto (quase sempre é um garoto) foi tirando as peças do pacote e deixando cair ao chão, uma a uma, andando relativamente rápido.
Concordo plenamente que menos de quinhentos reais não são um ganho decente, mas algumas pessoas fazem questão de causar prejuízos ao empregador. Concordo, pois senti na pele, que andar com um pacote de panfletos e/ou jornais nos braços e/ou a tira-colo, por horas a fio, sob um sol de rachar, acaba com o bom humor de qualquer um. Concordo também que é perigoso fazer comparações, mas neste caso não vejo saída, farei.
No longo período em que eu panfletava, ganhava muito menos do que essa garotada, pois o trabalho não era visto como emprego, mas um bico. As condições eram mais precárias e o dia demorava a passar, parecia que iria dar dezenove horas, mas não daria dezoito. Pois além de totalmente informal, o trabalho também era sazonal. Era muito difícil! Eu remendava os sapatos para que agüentassem até eu receber os honorários. Mas nunca joguei um panfleto sequer no chão, entregava todos, em mãos ou nas caixas de correios. Parava para almoçar, descansava e voltava ao batente. Eu ganhava uma miséria, mas merecia cada centavo que ganhava e mais o que valia meu serviço, pois as pessoas davam retorno, ligavam para anunciar. Sei, alguns vão me chamar de otário e outros adjetivos menos carinhosos. Ouvi isso. Mas dando prejuízo ao patrão eu não ganharia nada, absolutamente nada, e ainda perderia a oportunidade de fazer a próxima distribuição. A miséria que eu ganhava era a única coisa que eu ganhava, se a perdesse estaria frito. Sejam quais forem os motivos, sempre foi muito difícil arranjar um trabalho, como tudo em minha vida sempre foi muito mais difícil do que a média. Mas se escolhesse a desonestidade, ainda que não tivesse uma consciência a me cobrar pelos meus actos, estaria pior. Pelo menos os amigos sabiam que podiam me indicar para um temporário, sem medo de arranhar sua imagem. Aqui cesso as comparações.
Pensemos melhor. Pessoas aprendem com exemplos e não com retóricas. Se tu se comportas assim com teus subordinados, por que eles seriam éticos para contigo? E tu, operário, se és desonesto para com o teu ganha-pão, com que moral vais reivindicar vencimentos melhores? Se a empresa falir, quem vai pagar teu salário? O sindicato? Não. A função dele é melhorar teu padrão de vida, não sustentar tua família, isso é responsabilidade de teu emprego. Quanto melhor se comporta um trabalhador, mais argumentos o sindicato tem, e mais o patrão sente os dias parados. Não se trata de baixar a cabeça para o feitor chicotear ao seu bel prazer, mas simplesmente fazer por merecer não o que se ganha, mas o que se quer ganhar. Noto que esses garotos estão sempre com tênis caros, celulares de última geração e de operadoras caras, sempre a falar de uma "festa" que cobra caro para admitir foliões. Mas na segunda-feita estão a reclamar do emprego, do salário, calçando seus tênis caros e falando ao celular que acabou de sair da loja, mal tendo quitado o anterior. Perdoem esta mente antiquada, mas não consigo ver nexo nesse comportamento.
Vamos combinar uma coisa? Faça teu chefe ter medo de perder tua mão de obra. Quem trabalha bem não só é mais valorizado, como também mais valoriza o que ganha, pois sabe que merece. E tu, se conseguiste chegar até aqui sem soltar impropérios e levantar discursos pseudo-marxistas, também merece.
Uma última consideração: É o trabalho que sustenta a especulação, não o contrário.
Apesar disso, o brasileiro trabalha mais do que acredita, se esforça mais do que se dá conta é mais honesto do que dá a entender.
Entretanto, temos uns maus exemplos que me fazem pensar se certas pessoas realmente merecem ganhar mais do que um salário mínimo, (hoje, dezenove de Setembro de 2006, valendo R$350,00) ou só ganha isso porque a lei não permite pagar menos.
Hoje, saindo do trabalho, me deparei com uma trilha de panfletos, todos de uma mesma rede de supermercados, a enfeiar a calçada. Meu trabalho fica em uma esquina, no outro extremo ainda vi muitos panfletos jogados.
Eu trabalhei por anos com panfletagem. O modo como aqueles estavam dispostos me levam a crer que o garoto (quase sempre é um garoto) foi tirando as peças do pacote e deixando cair ao chão, uma a uma, andando relativamente rápido.
Concordo plenamente que menos de quinhentos reais não são um ganho decente, mas algumas pessoas fazem questão de causar prejuízos ao empregador. Concordo, pois senti na pele, que andar com um pacote de panfletos e/ou jornais nos braços e/ou a tira-colo, por horas a fio, sob um sol de rachar, acaba com o bom humor de qualquer um. Concordo também que é perigoso fazer comparações, mas neste caso não vejo saída, farei.
No longo período em que eu panfletava, ganhava muito menos do que essa garotada, pois o trabalho não era visto como emprego, mas um bico. As condições eram mais precárias e o dia demorava a passar, parecia que iria dar dezenove horas, mas não daria dezoito. Pois além de totalmente informal, o trabalho também era sazonal. Era muito difícil! Eu remendava os sapatos para que agüentassem até eu receber os honorários. Mas nunca joguei um panfleto sequer no chão, entregava todos, em mãos ou nas caixas de correios. Parava para almoçar, descansava e voltava ao batente. Eu ganhava uma miséria, mas merecia cada centavo que ganhava e mais o que valia meu serviço, pois as pessoas davam retorno, ligavam para anunciar. Sei, alguns vão me chamar de otário e outros adjetivos menos carinhosos. Ouvi isso. Mas dando prejuízo ao patrão eu não ganharia nada, absolutamente nada, e ainda perderia a oportunidade de fazer a próxima distribuição. A miséria que eu ganhava era a única coisa que eu ganhava, se a perdesse estaria frito. Sejam quais forem os motivos, sempre foi muito difícil arranjar um trabalho, como tudo em minha vida sempre foi muito mais difícil do que a média. Mas se escolhesse a desonestidade, ainda que não tivesse uma consciência a me cobrar pelos meus actos, estaria pior. Pelo menos os amigos sabiam que podiam me indicar para um temporário, sem medo de arranhar sua imagem. Aqui cesso as comparações.
Pensemos melhor. Pessoas aprendem com exemplos e não com retóricas. Se tu se comportas assim com teus subordinados, por que eles seriam éticos para contigo? E tu, operário, se és desonesto para com o teu ganha-pão, com que moral vais reivindicar vencimentos melhores? Se a empresa falir, quem vai pagar teu salário? O sindicato? Não. A função dele é melhorar teu padrão de vida, não sustentar tua família, isso é responsabilidade de teu emprego. Quanto melhor se comporta um trabalhador, mais argumentos o sindicato tem, e mais o patrão sente os dias parados. Não se trata de baixar a cabeça para o feitor chicotear ao seu bel prazer, mas simplesmente fazer por merecer não o que se ganha, mas o que se quer ganhar. Noto que esses garotos estão sempre com tênis caros, celulares de última geração e de operadoras caras, sempre a falar de uma "festa" que cobra caro para admitir foliões. Mas na segunda-feita estão a reclamar do emprego, do salário, calçando seus tênis caros e falando ao celular que acabou de sair da loja, mal tendo quitado o anterior. Perdoem esta mente antiquada, mas não consigo ver nexo nesse comportamento.
Vamos combinar uma coisa? Faça teu chefe ter medo de perder tua mão de obra. Quem trabalha bem não só é mais valorizado, como também mais valoriza o que ganha, pois sabe que merece. E tu, se conseguiste chegar até aqui sem soltar impropérios e levantar discursos pseudo-marxistas, também merece.
Uma última consideração: É o trabalho que sustenta a especulação, não o contrário.
03/09/2006
Bom atendimento.
Neste domingo em que está nublando e fazendo sol, como se fosse pique-esconde, fomos às compras do mês. Temos ido sempre ao mesmo super mercado, que não é o mais barato, por uma razão simples: ATENDIMENTO.
A maioria dos estabelecimentos comerciais está cortando custos, na esperança de seduzir o cliente de qualquer jeito, acreditando piamente que cortando uns centavos (às vezes uns poucos reais em um ítem caro) e pondo um artista da moda na propaganda, vai compensar um atendimento apático, não raro antipático, e o mau-humor dos funcionários. Meus caros, acreditem, NÃO COMPENSA. Há muitas lojas que tratam o cidadão como se estivessem fazendo um favor em atendê-lo, como que dizendo "Pobre não merece mordomia". Esses estabelecimentos vêem o consumidor simplesmente como uma nota ambulante de cem reais. Mas tão triste quanto maltratar o cliente é o cliente aceitar ser maltratado. Há gente que aceita, ou as referidas empresas já teriam fechado as portas há tempos, e já teriam ido tarde.
O estabelecimento que freqüentamos fica no Setor Coimbra, e o resto não direi porque seria divulgação comercial, e não é a proposta desta página internáutica, mas o goianiense sabe de quem estou falando e saberá enxergar minhas razões; Quando chegamos e olhamos para um funcionário, ele devolve o olhar com um sorriso e até com um cumprimento; Noutros lugares o funcionário resmunga e vira a cara. Quando pedimos uma informação, logo aparece alguém para oferecê-la, por vezes chamando até o gerente para desvanescer a dúvida; Noutros lugares já vi gente fingindo que não trabalha lá, mesmo estando com o uniforme da firma; Quando não gostamos do comportamento de um funcionário, a gerência é acionada e tudo se resolve rapidamente, sem prejuízo nem mesmo para o funcionário, que entende o recado; Noutros lugares já soube de o gerente rir na cara do consumidor. Quando nos tornamos assíduos, há funcionários que nos cumprimentam pelo primeiro nome e puxam conversa; Noutros lugares simplesmente resmungam e voltam a reclamar do emprego, certos de que dificilmente serão efetivados.
Decerto que o bom estabelecimento não é o único no mundo, mas é um dos raros que jamais deixou o trato com o freguês se deteriorar em nome de "políticas modernas e enxutas de administração" ou qualquer modismo corporativo que valha. No começo era uma mercearia, quando o Coimbra ainda era um grande vazio com poucas casinhas à margem de ruas poeirentas, e Campinas ainda não se dera conta de ter sido engolida pela cidade que ajudou a nascer. Hoje é um estabelecimento de grande porte, com uma estrutura moderna, carrinhos eléctricos para pessoas com dificuldades de locomoção e um público fiel, que não se importa em pagar a pequena diferença para ser bem tratado, porque essa pequena diferença é usada na contractação de gente capaz de fazer essa diferença. A parte social está inclusa no preço. A importância desse detalhe é imensa, pois o pouco que gastamos a mais no caixa, será revertido em menos insegurança no cotidiano, porque se alguém da família está trabalhando, as chances de um parente ser tentado a sair da linha são menores. É uma bola de neve.
Façamos uma força, minha gente, enfrentemos o escorpião que habita o bolso de cada um e paguemos pela qualidade humana. É mais barata do que a etiqueta de poliéster ordinário que muitos lugares usam como único argumento de venda, mas traz benefícios muito maiores, não só para quem compra, mas também para quem nunca pôs os pés naquela vendinha. Ser tratado como gente é uma experiência que muitos ainda não tiveram, seja qual for o motivo, mas depois que se experimenta não se aceita menos.
Neste domingo em que está nublando e fazendo sol, como se fosse pique-esconde, fomos às compras do mês. Temos ido sempre ao mesmo super mercado, que não é o mais barato, por uma razão simples: ATENDIMENTO.
A maioria dos estabelecimentos comerciais está cortando custos, na esperança de seduzir o cliente de qualquer jeito, acreditando piamente que cortando uns centavos (às vezes uns poucos reais em um ítem caro) e pondo um artista da moda na propaganda, vai compensar um atendimento apático, não raro antipático, e o mau-humor dos funcionários. Meus caros, acreditem, NÃO COMPENSA. Há muitas lojas que tratam o cidadão como se estivessem fazendo um favor em atendê-lo, como que dizendo "Pobre não merece mordomia". Esses estabelecimentos vêem o consumidor simplesmente como uma nota ambulante de cem reais. Mas tão triste quanto maltratar o cliente é o cliente aceitar ser maltratado. Há gente que aceita, ou as referidas empresas já teriam fechado as portas há tempos, e já teriam ido tarde.
O estabelecimento que freqüentamos fica no Setor Coimbra, e o resto não direi porque seria divulgação comercial, e não é a proposta desta página internáutica, mas o goianiense sabe de quem estou falando e saberá enxergar minhas razões; Quando chegamos e olhamos para um funcionário, ele devolve o olhar com um sorriso e até com um cumprimento; Noutros lugares o funcionário resmunga e vira a cara. Quando pedimos uma informação, logo aparece alguém para oferecê-la, por vezes chamando até o gerente para desvanescer a dúvida; Noutros lugares já vi gente fingindo que não trabalha lá, mesmo estando com o uniforme da firma; Quando não gostamos do comportamento de um funcionário, a gerência é acionada e tudo se resolve rapidamente, sem prejuízo nem mesmo para o funcionário, que entende o recado; Noutros lugares já soube de o gerente rir na cara do consumidor. Quando nos tornamos assíduos, há funcionários que nos cumprimentam pelo primeiro nome e puxam conversa; Noutros lugares simplesmente resmungam e voltam a reclamar do emprego, certos de que dificilmente serão efetivados.
Decerto que o bom estabelecimento não é o único no mundo, mas é um dos raros que jamais deixou o trato com o freguês se deteriorar em nome de "políticas modernas e enxutas de administração" ou qualquer modismo corporativo que valha. No começo era uma mercearia, quando o Coimbra ainda era um grande vazio com poucas casinhas à margem de ruas poeirentas, e Campinas ainda não se dera conta de ter sido engolida pela cidade que ajudou a nascer. Hoje é um estabelecimento de grande porte, com uma estrutura moderna, carrinhos eléctricos para pessoas com dificuldades de locomoção e um público fiel, que não se importa em pagar a pequena diferença para ser bem tratado, porque essa pequena diferença é usada na contractação de gente capaz de fazer essa diferença. A parte social está inclusa no preço. A importância desse detalhe é imensa, pois o pouco que gastamos a mais no caixa, será revertido em menos insegurança no cotidiano, porque se alguém da família está trabalhando, as chances de um parente ser tentado a sair da linha são menores. É uma bola de neve.
Façamos uma força, minha gente, enfrentemos o escorpião que habita o bolso de cada um e paguemos pela qualidade humana. É mais barata do que a etiqueta de poliéster ordinário que muitos lugares usam como único argumento de venda, mas traz benefícios muito maiores, não só para quem compra, mas também para quem nunca pôs os pés naquela vendinha. Ser tratado como gente é uma experiência que muitos ainda não tiveram, seja qual for o motivo, mas depois que se experimenta não se aceita menos.
02/09/2006
Horto Morto?
Para os que não conhecem minha cidade, Goiânia tem um horto. Com o passar dos anos o perímetro urbano foi crescendo e logo o engoliu, hoje ele está na região central, motivo pelo qual o zoológico está de malas prontas para se mudar assim que a nova sede (longe do trânsito) ficar pronta.
Um horto é um lugar para se descansar, repôr as energias e, principalmente, ter boas e sadias horas de lazer. Pena que a prefeitura desdenha essas necessidades. no afã de asfaltar até as copas das árvores, está negligenciando um dos espaços mais tradicionais de Goiânia. Fiquei uns meses sem ir e, hoje, ao retornar, fui tomado por uma tristeza sem dó. Tudo sujo, água empoçada em todos os lugares (olha o Aedes aí, gente!) e as escadarias se deteriorando. No cais dos pedalinhos a cena é desoladora, todo o madeiramento está podre e cheio de buracos, o que me faz dar graças pelos brinquedos serem de fibra-de-vidro, ou já estariam totalmente carcomidos pela corrosão, tamanho o abandono em que se encontram.
Mas a natureza do local parece estar resistindo, ainda que com dificuldades, ao populismo do prefeito. O Lago das Rosas, um dos cartões-postais da cidade, localizado na parte interna do horto, ainda abriga peixes, desde as formas mais larvais até os adultos, de onde presumo que o ciclo da vida ainda está intacto. Testemunhei aves pescadoras mergulhando e emergindo com seu alimento vivo no bico, engolindo-o assim que se estabilizavam na água. Em um canto, um filhote de tartaruga do tamanho de uma mão adulta, com o casco coberto de lodo, descansava placidamente com as narinas de fora da água. Mas não pude admirar por muito tempo, gente estranha, mal encarada e exalando energias hortís estavam se reunindo em um grupinho, no que fui avisado para deixar minha contemplação para outro dia. Se as famílias não freqüentam, outros tipos tomam conta. E que mãe deixaria seu pimpolho, por mais robusto e acostumado aos tombos que este seja, brincar em um lugar onde o tétano se esconde debaixo de tijolos quebrados e lixeiras semi-destruídas? Que casal de namorados conseguiria fazer juras de amor em meio ao "aroma" de urina e fezes que já são comuns em alguns pontos?
Deixo claro que não sou partidarista, tenho até mesmo uma certa ressalva quanto ao Pedro Wilson, prefeito anterior, mas desde que ele saiu não se vê mais uma equipe do Parques-e-Jardins fazendo a manutenção do horto. E aos que não conhecem (ou não se lembram da fase áurea por insufuciência de idade) digo o que é aquele lugar, quando bem cuidado. Nem falo em atenção especial que, aliás, ele merece, apenas manutenção básica e preventiva: O horto é cortado por pistas paralelas de asfalto, cuja beleza é aumentada pelo desnível, sendo as mais internas as mais baixas, além de escadinhas de tijolos em grande número. A paisagem é rica em espécies, principalmente bambuzais com plantas enormes. Há uma espécie de mirante de granito para o lago, várias construções que outrora eram bares bem freqüentados, quadras de esporte, enfim, um pequeno paraíso no centro nervoso da cidade. Daria uma bela receita como locação para comerciais, até mesmo filmes e novelas, pois a exuberância escondida sob o descaso público é incontestável. Daria tomadas de tirar o fôlego. Mas isso não tem importância, asfaltar o longinqüos bairros que brotam a cada dia, com a especulação imobiliária, é preferível a trazer essa gente da peripheria para os muitos imóveis vagos, muitas vezes abandonados que há nas regiões com infra-estrutura pronta. Para quê melhorar o que já se tem, se podemos fazer, ainda que mal-feito, tudo novo em regiões distantes, que demandarão mais transporte, mais e maiores ônibus, mais carros nas ruas, mais combustível, mais energia eléctrica, mais uma aspirina que já estou com a cabeça estourando...
Vi algumas pessoas, ao entrar, mas eram bem poucas e em poucas regiões. A maioria só atravessava, pois o horto é um atalho do Centro para o Setor Oeste, e quase no Setor Coimbra, poupando muita perna e estimulando a caminhada. Saliento que esse não é o único caso, mas é o mais patente.
Abraço, minha gente, que já terminei.
Para os que não conhecem minha cidade, Goiânia tem um horto. Com o passar dos anos o perímetro urbano foi crescendo e logo o engoliu, hoje ele está na região central, motivo pelo qual o zoológico está de malas prontas para se mudar assim que a nova sede (longe do trânsito) ficar pronta.
Um horto é um lugar para se descansar, repôr as energias e, principalmente, ter boas e sadias horas de lazer. Pena que a prefeitura desdenha essas necessidades. no afã de asfaltar até as copas das árvores, está negligenciando um dos espaços mais tradicionais de Goiânia. Fiquei uns meses sem ir e, hoje, ao retornar, fui tomado por uma tristeza sem dó. Tudo sujo, água empoçada em todos os lugares (olha o Aedes aí, gente!) e as escadarias se deteriorando. No cais dos pedalinhos a cena é desoladora, todo o madeiramento está podre e cheio de buracos, o que me faz dar graças pelos brinquedos serem de fibra-de-vidro, ou já estariam totalmente carcomidos pela corrosão, tamanho o abandono em que se encontram.
Mas a natureza do local parece estar resistindo, ainda que com dificuldades, ao populismo do prefeito. O Lago das Rosas, um dos cartões-postais da cidade, localizado na parte interna do horto, ainda abriga peixes, desde as formas mais larvais até os adultos, de onde presumo que o ciclo da vida ainda está intacto. Testemunhei aves pescadoras mergulhando e emergindo com seu alimento vivo no bico, engolindo-o assim que se estabilizavam na água. Em um canto, um filhote de tartaruga do tamanho de uma mão adulta, com o casco coberto de lodo, descansava placidamente com as narinas de fora da água. Mas não pude admirar por muito tempo, gente estranha, mal encarada e exalando energias hortís estavam se reunindo em um grupinho, no que fui avisado para deixar minha contemplação para outro dia. Se as famílias não freqüentam, outros tipos tomam conta. E que mãe deixaria seu pimpolho, por mais robusto e acostumado aos tombos que este seja, brincar em um lugar onde o tétano se esconde debaixo de tijolos quebrados e lixeiras semi-destruídas? Que casal de namorados conseguiria fazer juras de amor em meio ao "aroma" de urina e fezes que já são comuns em alguns pontos?
Deixo claro que não sou partidarista, tenho até mesmo uma certa ressalva quanto ao Pedro Wilson, prefeito anterior, mas desde que ele saiu não se vê mais uma equipe do Parques-e-Jardins fazendo a manutenção do horto. E aos que não conhecem (ou não se lembram da fase áurea por insufuciência de idade) digo o que é aquele lugar, quando bem cuidado. Nem falo em atenção especial que, aliás, ele merece, apenas manutenção básica e preventiva: O horto é cortado por pistas paralelas de asfalto, cuja beleza é aumentada pelo desnível, sendo as mais internas as mais baixas, além de escadinhas de tijolos em grande número. A paisagem é rica em espécies, principalmente bambuzais com plantas enormes. Há uma espécie de mirante de granito para o lago, várias construções que outrora eram bares bem freqüentados, quadras de esporte, enfim, um pequeno paraíso no centro nervoso da cidade. Daria uma bela receita como locação para comerciais, até mesmo filmes e novelas, pois a exuberância escondida sob o descaso público é incontestável. Daria tomadas de tirar o fôlego. Mas isso não tem importância, asfaltar o longinqüos bairros que brotam a cada dia, com a especulação imobiliária, é preferível a trazer essa gente da peripheria para os muitos imóveis vagos, muitas vezes abandonados que há nas regiões com infra-estrutura pronta. Para quê melhorar o que já se tem, se podemos fazer, ainda que mal-feito, tudo novo em regiões distantes, que demandarão mais transporte, mais e maiores ônibus, mais carros nas ruas, mais combustível, mais energia eléctrica, mais uma aspirina que já estou com a cabeça estourando...
Vi algumas pessoas, ao entrar, mas eram bem poucas e em poucas regiões. A maioria só atravessava, pois o horto é um atalho do Centro para o Setor Oeste, e quase no Setor Coimbra, poupando muita perna e estimulando a caminhada. Saliento que esse não é o único caso, mas é o mais patente.
Abraço, minha gente, que já terminei.
28/08/2006
Palavra de Nanael
Pois bem...
Abaixo, antes que em esqueça, o material que recuperei do blog antigo... ou quase, ainda falta uma coisinha que posto assim que conseguir.
Pois bem...
Abaixo, antes que em esqueça, o material que recuperei do blog antigo... ou quase, ainda falta uma coisinha que posto assim que conseguir.
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