![]() |
| Vem bater em mim, babaca! |
Na contramão da evolução biológica, espiritual, intelectual, moral et cétera e tal da humanidade, os humongos estão espalhando seu terror pelos noticiários com factos que eu pensava terem ficado nos anos quarenta, nos rincões mais afastados e desassistidos.
Estamos iniciando a primeira década do século XXI e ainda vemos gente(?) espancando seus cavalos, só porque os coitados trabalharam à exaustão o dia todo sem comer uma folha de grama sequer, e agora estão rendendo menos. E não, não são só os mais velhos e embrutecidos pela vida que fazem isso, moleques de vinte e poucos anos, que fizeram filhos sem pensar que eles têm custo de manutenção, descontam nos pobres animais as suas frustrações, obrigando-os a competir com os carros em horários impróprios para a tração animal.
Há em Santa Catarina uma ação da Polícia Rodoviária para educar os carroceiros, na tentativa de reduzir os maus tratos aos animais de tração pelos animais de coche. Via de regra, em especial em rincões como este, pensa-se que o animal é uma mercadoria como outra qualquer, que se descarta sem qualquer preocupação que não seja livrar-se do problema. Quando entra dinheiro de aposta então, que se lasque o animal, seja cão ou galo, a barbárie regride à idade antiga.
Aos que alegarem problemas sociais, econômicos e todo esse discurso que só funciona em palestras, logo aviso que sou de um lugar que, ainda durante minha infância, era pouco mais do que uma extensão das fazendas. Pois aquela gente que jamais ouvira falar dos Beatles, que não sabia quem era o presidente e nem sonhava que houvesse outros idiomas, tratava seus animais muito melhor; embora a rudeza da lida não fosse escondida. Não digo que não havia crueldade, havia, gente ruim há em todas as épocas. Naquela época, os donos de animais enfrentavam a rápida obsolência, os (até hoje) grandes caminhões FNM enfrentavam condições de estradas que se acreditava serem só para carro de boi... Levando facilmente quinze toneladas por atoleiros. O padrão de vida não caiu muito porque era comum se ter uma rocinha, e não havia muito o que se cobiçar... Bem, na verdade até já havia, o Aero Willys era um sonho de consumo comum, para alguém cujos pertences pouco iam além de mesa, cadeiras e cama rústicas, era muito mais do que um sonho proibido. Então não se pode culpar a tentação do mercado para justificar o mau comportamento dos carroceiros de hoje. Se até um lider neonazista se arrependeu e pediu ajuda a um activista negro, para eliminar as tatuagens, então qualquer um que se disponha a se colocar no lugar do outro consegue se colocar no lugar do cavalo.
Não falo apenas de agressões no couro do bicho, mas também de lesões graves que muitos donos infligem, e que muitas vezes levam o animal a óbito. E quando são presos, os animais ainda se revoltam, como se não tivessem feito mal algum. Porque para eles, a exemplo do que era com os senhores de escravos, o animal é só uma coisa que tem obrigação de dar retorno sem investimento nenhum. Piora as crianças serem incentivadas, ganhando de presente bichos que serão descartados rapidamente, como coelhos, chihchilas, e répteis. Elas estão aprendendo desde cedo que bicho é mercadoria, como um brinquedo que depois de perder a graça pode ser jogado fora.
Ainda cito um idiota que amarrou seu cão ao seu veículo e o arrastou pelas ruas. O animal foui salvo e adoptado por uma família de humanos, mas a perversidade daquele ser humongo o fez perder uma pata. Sim, o animal bípede foi multado, mas isto não apaga os danos físicos e psicológicos que o cão sofreu. Sim, caríssimos, as outras espécies têm sentimentos, portanto têm psicologia, até mesmo os répteis têm um pouco. O prejuízo que um animal maltratado sofre pode ser comparado ao de uma criança, mas o animal nunca poderá dizer o que sofreu e o quanto ainda está sofrendo. O bicho terá pesadelos pelo resto da vida, por mais bem tratado que seja pela nova família, e não conseguirá sequer se expressar direito a respeito. Graças a Deus já há psicólogos para animais, mas esta ciência ainda é nascente, especialmente no Brasil e há poucos profissionais no mercado.
Já há pessoas que adoptam bezerros recém nascidos, porque muita gente ainda sacrifica-os para que não bebam uma gota sequer do leite que querem vender. Não, não me refiro a grandes grupos corporativistas e cruéis que bla-bla e blo-blo, é gente(?) comum que mais faz isso. Por que? Bem, cada um tem seus motivos, mas acredito que nenhum justifica a crueldade. Crueldade não escolhe ideologia, condição financeira, religião nem preferências particulares, quem tem tendências a ser cruél e não se importa com os métodos para alcançar seus intentos, será cruél com gosto.
Da mesmíssima forma que eles sofrem com agressões, a maioria gratuita, também sofrem com os abusos sexuais. Zoofilia vicia o bicho, ele pode se desesperar para sentir a relação sempre. Conheço caso em que o cão de uma família passou a se oferecer às visitas, foi quando a esposa descobriu o que o marido fazia com o bicho. Em todos os casos, o ser humongo só está preocupado com sua própria satisfação e com nada mais. Houve em Goiânia, há muitos anos, o caso de um idiota que não se contentou em abusar da cadelinha da esposa, ele obrigava o casal de filhos a assistir à cena.
Sei o que meus leitores habituais estão pensando, pelo que disse logo acima, e lamento confirmar seus temores. Quem abusa de um animal, por agressão ou zoofilia, não está longe de fazê-lo com uma criança. Há pessoas que acreditam que animais sequer devesse ser vendidos em lojas, pelo menos não no tipo de loja a que estamos acostumados, para que percam a pecha de mercadoria.
Há em Nova Iorque um projecto para substituir as carruagens por carros eléctricos, no mesmo estilo dos carros da bélle époque, por causa de pressões de entidades que defendem os animais. Exageros à parte, não são poucos os catadores de material reciclável que trocaram os cavalos por monstrengos mecânicos, soldando pedaços de motocicletas a uma armação metálica de carga, fazendo triciclos bizarros, que que funcionam e andam mais rápido do que os cavalos, atrapalhando menos o trânsito e se lixando para o mau humor do dono. O triciclo sim, é um objecto, uma coisa, algo que pode apanhar à vontade sem medo de magoar ou traumatizar. É gente pobre que em vez de comprar um bicho e expô-lo às agruras do trânsito, juntou peças, foi ao mecânico e fez um veículo próprio para carga. Há empresas que fazem a transformação bem feita (aqui, aqui, aqui e aqui) mas ainda é caro para a maioria... E não existe financiamento apropriado para o caso. Pelo menos em Goiânia, esses veículos são bem tolerados pela população e autoridades, até porque o motor não se assusta com buzinas e o trânsito flui melhor, porque o peso e o volume que os cavalos puxam é igual, só que muito mais lentamente.






