17/09/2010

Crianças quimiocontroladas

O ramo de medicamentos controlados é lucrativo, muito lucrativo. Tão lucrativo que os fabricantes podem dar descontos e pagar comissões à vontade. Deve-se desconfiar daquele médico que terminou a residência em um Ford Ka modelo ovinho, e em pouco tempo está andando de Lincoln. Aliás, ainda fabrica baitas carrões.
Laboratórios financiam convenções, palestras e o escambáu à quatro. Isto não sai de graça. Essa gente não financia ninguém por caridade, por respeito ao juramento de Hipócrates, nem por causa dos lindos olhos castanhos daquele jovem tão dedicado. Eles querem retorno, e o retorno será sob a forma de prescrições nem sempre necessárias de drogas, muitas vezes drogas pesadas das quais seus fabricantes detêm as patentes. Drogas viciam.
Tendo a chancela da comunidade científica e o pleno aval dos conselhos, muitos não hesitam em prescrever uma tarja preta para qualquer probleminha, inclusive para controlar crianças que apenas se sentem incomodas com o que "ninguém vê".
Petizes muito activos ou agressivos ficam aparentemente mais calmos tomando medicamentos prescritos pelo médico, mas é uma ilusão perigosa. A torrente hormonal que dava o empurrão fica sob controle, mas a índole rebelde continua lá, esperando para agir. Se não for quebrando o espelho do aparador, será humilhando verbalmente alguém que não poderá se defender. Com o tempo essa válvula de escape se torna uma diversão, qualquer cousa pode apertar o gatilho. Nem adianta falar com aquele médico depois, nenhuma alteração hormonal será detectada e o safado lavará as mãos. Ele sabe (ah, sim, sabe) que o medicamento é um auxiliar no tratamento, jamais deveria ser utilizado como único recurso; muitas vezes sequer deveria ser prescrito. É como amputar uma perna dolorida e trocá-la por uma muleta, o indivíduo se vicia nela e não consegue mais viver sem. Muitos passam a usar a muleta para atrair a piedade alheia e depois atacar a vítima.
Para a família é muito cômodo. Enche-se o moleque de porcaria cientificamente aceita e finge-se que o problema foi resolvido. Acontece que droga é droga, não importa a origem. Aquilo que deixa a família relapsa tranqüila durante algum tempo, um dia chega ao limite e tudo o que estava sendo represado a custas de moléculas sintéticas explode. Um dia o "remédio" não fará mais efeito, então o charlatão diplomado receitará outra droga mais potente, geralmente mais cara e com mais efeitos colaterais; sempre há efeitos colaterais.
Um dia os efeitos colaterais geram problemas maiores do que os camuflados. De criança agressiva o sujeito se torna um adulto depressivo, ou com tendências psicóticas, ou ambos. Fora problemas com a concentração, dores no tubo digestivo, gases e outros que são camuflados com mais drogas, que causarão mais problemas, mas darão mais lucros. Drogas contra câncer, muitas vezes mais letais do que a metástase, estão entre as preferidas.
Esses médicos não querem saber do paciente, querem é eliminar os sintomas e assim ganhar mais pontos em seus currículos, mesmo que o paciente morra. Mais currículo, mais status, mais presentes e mais ganhos, não só financeiros. Dizem que os juízes pensam que são deuses, mas há médicos que têm certeza.
Problemas comportamentais devem ser tratados por quem entende do assunto. Quem conhece o neurônio não conhece necessariamente a personalidade. Meus neurônios funcionam do mesmo jeito que os de Barack Obama, mas meus métodos são muito mais enérgicos do que os dele, eu ajo de modo completamente diferente, pois sou alguém diferente e minha personalidade é totalmente diferente. As psicoterapias, sejam de psiquiatras ou psicólogos, são muito atacadas e detratadas porque limitam muito, e às vezes eliminam, a necessidade de medicamentos. Acontece que uma psicoterapia exige que a família participe, tome sua cota de responsabilidade nos progressos da criança, o que não interessa à maioria das pessoas. A maioria quer que tudo esteja pronto, bonitinho e no jeito para apresentar á sociedade e mostrar o quanto sabe educar sua prole. Querem receber a mercadoria pronta, nem pensar em se envolver.
Mas o que há de tão incômodo em participar de uma terapia? O incômodo é que, tratando dos problemas da criança, os dos pais (irmãos, tios, avós, bichos, a samambaia da varanda...) também aparecem. Não raro a família acaba descobrindo que o membro tido como problemático é o menor dos problemas, que o estava usando como bode expiatório, e que estavam todos viciados no problema da criança. Apontando o dedo para o cisco no olho do outro, não enxergam o galho que há nos seus. Quase ninguém quer admitir que falhou em algo. Todos querem ser perfeitos, quando nem bons nós conseguimos ser.
Não é raro uma família usar os problemas do outro para esquecer os seus. Quando ele usa drogas pesadas e elas fazem o efeito esperado, os efeitos colaterais tomam o lugar do problema, e a família passa de vítima do mau membro para comunidade caridosa, que acolhe o doente incurável. Se for criança, tanto melhor, dura mais tempo e a maioria dos parentes morre com a "consciência tranqüila". Depois o sujeito que se dane.
Um psicólogo competente (sem ser extraordinário) tem condições de dizer se o tratamento exigirá ou não medicação. Passando o caso para um psiquiatra competente (também sem precisar ser extraordinário) que poderá dizer qual medicação usar, por quanto tempo e em que doses, para intermediar o tratamento. Em uma terapia o paciente é o importante, não o sintoma. Não raro, mesmo psicoterapeutas ateus recomendam alguma actividade religiosa. Eles não acreditam em Deus, mas sabem dos efeitos que a meditação proporciona, simplesmente aceitam os bons efeitos que ainda não podem ser explicados (para eles, claro) e seguem com o tratamento integral.
Os únicos médicos (sem especialização psiquiátrica) que entendem de personalidade são os médicos de família, que quase não existem mais. Diplomados em medicina que invadem o campo da psicoterapia, atropelando o juramento feito, freqüentemente incitam a uma inquisição contra tudo o que não foi comprovado por quem não tem o mínimo interesse em fazê-lo. Falei disto
neste texto aqui. Em oposição aos ateus que o são por convicção, são ateus por pura conveniência, ou fanáticos dogmáticos que enchem as burras de uma igreja e acham que isto os livra de qualquer pecado. Explico aqui a diferença entre dogma e religião.
Se a Anvisa (
ei-la) deixasse, os laboratórios fabricariam jujubas com os princípios sintéticos, para incentivar o consumo.
Pais, não sei se lhes contaram, mas crianças não são um mar de fofuras, não são cheirosinhas, não são comportadinhas; e graças à Deus que não o são. Querem fofuras? Encham a casa com bichos de pelúcia. Querem cheirinho? Abram uma franquia de perfumes. Querem comportamento? Encham a casa com bonecas. Crianças às vezes ficam fofas, às vezes se mantém cheirosas, às vezes cansam e se comportam um pouco. Criança é compromisso perpétuo. Assim como os seus pais ainda hoje apontam os dedos para seus narizes, seus filhos precisarão de vocês até o dia em que o geriatra disser "Sinto muito". Criança é responsabilidade, nada menos do que responsabilidade. Se não querem dores de cabeça, previnam-se, não procriem. Sim, Jesus ajuda a cuidar, mas só ajuda, a responsabilidade é todinha de vocês. Criança não é brinquedo que se troca por outro quando dá problemas. Quem não estiver disposto a corrigir uma criança e até aprender com ela, que permaneça na condição de tio.
Crianças precisam de limites, desde cedo, de modo firme e sem hesitações. Crianças precisam de carinho, desde cedo, do melhor modo que as circunstâncias permitirem e sem queixas. Crianças precisam de convivência, desde cedo, de modo natural e sem demonstrações de constrangimento. Eu sei que a maioria dos pais de hoje não teve metade disso. Muitas cousas boas de antigamente foram enfiadas no mesmo saco que as ruins,
como aprender a lidar com uma família. Não que devam aprender a ser super pais, isto é para quem tem vocação e a maioria de vocês já fez a besteira, procriou sem o devido preparo. Então não façam outra besteira. Quando um maníaco monetarista tentar encher seus rebentos com drogas industrializadas, peguem-nos e saiam correndo sem olhar para trás, porque se ficarem o sem-vergonha vai fazê-los sentir culpa, caso não queiram caceitar. Busquem sempre uma segunda opinião e não caiam na tentação da solução fácil. Se o fácil tivesse valor, a bíblia (e a torat, o corão, os vedas, as promessas de políticos) poderia ser interpretada na forma literal e o mundo realmente teria sido feito em seis dias... Teria saído uma lambreca ainda maior.
Como vive reclamando minha amiga Irene Lacerda Ramos (
aqui), as crianças estão sendo enchidas com drogas ainda em tenra idade, ao primeiro sinal de problemas que derem. Estas crianças, em breve, não saberão viver sem as drogas que tomam hoje, e que um dia podem ser banidas. É comum. Todos os dias os milagres pharmoquímicos apresentam um efeito colateral não previsto (ou omitido) durante os anos de testes. Se os efeitos forem maiores do que os alegados benefícios, os países que têm uma vigilância sanitária os banem, ou no mínimo fazem restrições que acabam por inviabilizar seu comércio, que tudo o que interessa àquela gente. E então, como o viciado vai se virar? O traficante sempre tem uma resposta fácil.
Crianças, GRAÇAS À DEUS, dão problemas. Crianças fazem os adultos crescerem, ainda que na marra. Crianças não são e não devem ser robozinhos, aos quais se dá corda para alegrar as visitas, elas são pessoas sem noção, que vivem nos apontando nossos próprios defeitos. Não tolham esta capacidade, não se privem deste aprendizado, vocês não são mais livres e desimpedidos, vocês são pais e mães. Colocaram no mundo? Agora não tem jeito. Aproveitem, porque quando derem problemas vocês vão precisar e muito das boas lembranças.

13/09/2010

Iniciação à arte Pin-up

Texto em homenagem ao Fio, que no domingo entra na terceira década de expiação neste orbe espinhoso. As pin ups postadas são para ele.

Significa, literalmente, "pendurar". Ou seja, um abrasileiramento de pin-up girl poderia ser "garota pendurada", ou "penduradinha"... Prefiro pin up mesmo.

Ninguém em sã consciência se atreve a apontar um inventor do gênero, mas é certo que em fins do século XIX, com a urbanização decorrente da revolução industrial, ele saiu da insipiência. Vocês sabem, muita gente morando muito perto, presta-se mais atenção às garotas e seu jeito de andar, imagina-se o que se passa sob aquelas toneladas de tecido, que tipo de estruturas geram aqueles movimentos tão diferentes dos masculinos. Então nasce o conceito de "next door girl", a garota da porta ao lado. As vizinhas passam a povoar os sonhos dos rapazes e a glamourização da beleza singela das moças do povo tem início. Francamente, conheço uma multidão de garotas que dão de dez a zero (com direito a gols contra) em quase todas as celebridades canastrãs que vocês vêem. Passou a ser quase um esporte, flagrar as moças em situações constrangedoras, como o momento em que levantavam a barra da saia para ajeitar as meias, ou quando levavam um tombo e ficavam em uma posição reveladora, et cétera. O facto de elas ficarem constrangidas dava mais valor à cena, por denotar naturalidade e sinceridade no ocorrido. Uma pin up girl é convidativa, jamais oferecida, um tesouro ao qual se deve fazer juz.

Eclodida a Segunda Guerra Mundial, e para dar mais ânimo às tropas, a arte teve seu maior pontapé. Não se faziam vistas grossas, ilustrações de garotas em trajes convidativos e posições confortáveis ou engraçadas eram muito bem aceitas entre as tropas. Posso dizer que dos anos 1930 a 1960 temos a melhor safra de pin ups da história, apadrinhada por gênios como Gil Elvgren, George Petty, All Buell, Charles Dana Gibson, Pearl Frush, Zoe Mozert, Alberto Vargas, Vaugan Alden Bass, Ernest Chiriaka, Joyce Ballantyne, Duane Bryers, Billy de Vorss e muitos outros. Toda a tropa de elite da arte pode ser encontrada em um sítio alemão, que considero um dos melhores do gênero. Precisa dizer que está em alemão? Não, né.

Vargas é considerado pela maioria o maior expoente do estilo, chegando a participar da Playboy (quando era a Playboy) por décadas. Elvgren foi muito criticado por ter se ocupado muito com anúncios publicitários, mas era um gênio, capaz de fazer em uma hora um quadro digno de exposição. Gibson foi um dos pioneiros, quando jovem poderia bem ter feito o papel de Super Homem. George Petty, genial e longevo, extraia o melhor da beleza da modelo, preferindo sempre retratar atletas e moças do interior, mais espontâneas.

Tem surgido uma onda chamada de vintage, algo como a idade do vinho, em uma tradução livre, para designar as cousas antigas (e de qualidade) que têm voltado à voga. As pin ups também estão de volta, mas muitos se deixam contaminar facilmente pela banalização eropatológica que os anos 1990 nos legaram. Uma legítima pin up só escandaliza os sexualmente recalcados, pois sabe se comportar dentro da pouca (ou falta de) roupa, jamais faz cara de prostituta com tpm que parece dizer "Enfia logo senão chamo outro". A pin up é a garota da porta ao lado, é sexy, atraente, até desinibida, mas é moça de família e sabe se portar.

Claro que haviam as estrelas. Quando Hedi Lamarr começou a ser pintada por Vargas, houve uma grande procura de actrizes pelos serviços, pois era um tipo de erotismo que se podia levar para casa sem grandes restrições, era uma publicidade muito eficiente, Marilyn Monroe foi outra que fez tanto sucesso no óleo sobre tela quanto na luz sobre tela, também pelas mãos do peruano radicado nos Estados Unidos Alberto Vargas. Os gênios da arte geralmente se tornavam amigos de seus modelos.

Haviam as pinapeiras também. Joyce Ballantyne, Pearl Frush e Zöe Mozert são as mais famosas. Elas tinham a grande vantagem de, muitas vezes, terem sido solicitadas tanto como pintoras quanto como modelos, acabavam ganhando duas vezes. É de Mozert a famosa ilustração da menininha tendo o biquíni puxado pelo cãozinho, da Coppertone. Algumas vezes elas chegavam a ser mais ousadas que os colegas de cromossomo "Y", mas sendo mulheres sabiam evitar a vulgaridade.

Hoje há pessoas (inclusive no Brasil) vivendo de vender essas imagens, e os descendentes desses gênios vivendo de receber direitos autorais. O mercado é de gente mais refinada que a média, o que infelizmente é muito fácil ser. O número de publicações é imenso, contando história, técnicas, curiosidades, exibindo portfólio, obras completas e até fãs clubes.

Mas nós também tivemos nosso pinapeiro master. Alceu Pena, estilista e colaborador da revista O Cruzeiro, foi um dos poucos, senão o único a aproveitar a farta oferta de beldades que desde sempre povoam nosso país. Suas meninas eram chamadas de Garôtas do Alceu (com circunflexo, como se escrevia na época), e representavam tudo o que as garôtas da época queriam ser. Diversas fontes, infelizmente muito dispersas na internet, têm informações a respeito do mestre Pena. Vale à pena procurar o Pena nos links colocados.

Para ser um pinapeiro (neologia minha) é preciso ter talento. Tem que saber desenhar, gostar de desenhar e ter boas técnicas de desenho. Como já disse, a onda vintage parece que vai ficar e formar uma lagoa na ilha, então é interessante os artistas pingarem umas gotas de glicerina na água da aquarela e treinar, pois o retorno é mais lento, mas muito mais garantido do que as baixarias que as horas levam sem dó.


Este texto é de minha autoria, publiquei originalmente no blog Talicoisa, onde o homenageado também colaborava e nem deu tchuns.
Aqui uma sugestão de nosso leitor:
"Ricardo Filipo disse...
Olá Nanel!Se desejar mais detalhes sobre o Alceu Penna, a Inez Oliveira que escreveu o texto “AS GARÔTAS DE ALCEU” (que vc chama de "fontes infelizmente muito dispersas na Internet") é prima dele.Vamos divulgar mais o trabalho deste grande criador, o pioneiro do design e da moderna publicidade no Brasil, antes tão famoso e importante e hoje tão esquecido.Vale ver mais em http://www.mitologica.com.br/
Abração!"

10/09/2010

Não acredito...


Poderia dizer...

Não acredito em engenharia genética. Não que os genes não existam, não que tenham influência (têm muita) na vida de uma criatura. Vejam bem, nestes oito anos de saúde pública o que mais vi foi médico sendo (no mínimo) notificado por intermediação de receituário, que é proibido. Não são raros os casos em que o indivíduo que fez o juramento de Hipócrates se torna um hipócrita juramentado e simplesmente vende o paciente para o laboratório que pagar a maior comissão, infelizmente algo quase impossível de ser provado. Tendo isto, vou às anteriores. Fazendo promessas a torto e a direito, os fulanos alardearam que estavam desvendando os segredos da vida, devassando o genoma humano. Patente atrás de patente, sendo que nenhuma (até onde sei) é aberta, se apossaram do conhecimento que já estava lá quando eles chegaram. Juravam que todo este trabalho tornaria a vida melhor, que fabricariam felicidade em laboratórios. Tantos anos depois, as pessoas estão é mais tristes, mais deprimidas, mais gordas, mais dependentes de sensações físicas para não darem cabo de si mesmas. Doenças já erradicadas estão tendo sua fase vintage em uma população que, não bastasse a precariedade nutricional, não tem mais nenhuma resistência às vovós infecciosas. Indústrias do belzebu fabricam sementes que se suicidam, tornando o productor perenemente dependente de novas compras, talvez até nações inteiras. Para o que não presta, a tal genética conseguiu proezas, para justificar o dinheiro que o povo investiu, necas de pitipiriba.

As reais benesses da genética, na realidade, foram conseguidas na produção de animais e plantas, apenas refinando o modo antigo de se fazer a seleção das matrizes. A vantagem de se escolher tudo pelo microscópio é se aumentar a precisão e reduzir os prazos, o que barateia o processo, mas se não há esses problemas, e em comunidades isoladas não há, dá para se fazer a seleção à moda antiga. Sim, clonaram ovelhas... descartáveis. Experiência que caiu no esquecimento do público. Sim, há experimentos de vacinas e transplantes... em ratos. Isto se faz há mais de um século, na base da tentativa e erro, desde o tempo em que um médico valia o diploma que tinha.

Lembram do coreano que dizia ter clonado um cão, e estava praticamente fazendo uma linha de montagem? Não. A maioria não se lembra, mas é fácil encontrar, basta digitar "micos da ciência" ou "charlatanismo da genética", filtrar bastante e ele estará lá. Pois é, quem se lembra também se lembra que ele forjou tudo. Quem não garante que o resto também não foi forjado e o calaram para que as investigações não se alastrassem? É muito dinheiro em jogo, são trilhões de dólares, muito mais dinheiro do que tua esposa, tuas filhas e tua sogra juntas podem gastar se voltarem a ser bebês e começarem do berçário. Se de uma hora para a outra descobrirem que não é nem metade do que alardeiam, muitas corporações quebram.

Lembram das lições do antigo segundo grau (já que os "estudantes" de hoje não precisam nem estudar para passar) dos genes dominantes e recessivos? Como tudo o que escrevi acima, para isto a vida prática, a vida real, a vida plausível e vivenciável me deu muitas provas contrárias. Conheço negros que tiveram filhos muito brancos, sem albinismo nem adultério. Sei de negros que se casaram com orientais e tiveram todos os filhos com a cara da mãe. De gente muito branca que trabalhou a vida inteira na roça, sob o sol ardente, e morreu muito tarde, de velhice mesmo. Ninguém me explica, simplesmente dão de ombros e tentam esquecer. No máximo dizem que os genes apresentam tendências, somente tendências... Lembram do "Os astros predispõe, mas não impõe"? Pois é.

Depois que comecei a lidar com a parte suja da "ciência", nenhuma notícia ruim que vier dessa gente me surpreende. Quem paga tem as pesquisas que quiser, com os resultados que quiser, os laudos que quiser e ainda compra espaço na mídia para divulgar como "A verdade dobre isto ou aquilo".

Tive problemas na mais tenra infância, muitos problemas. Médico nenhum resolvia de verdade. Sabem o que me ajudou? Simpatias e benzeduras. Coincidência? Não, a situação era específica demais. Sugestão? Nem pensar, eu era um bebê, não havia como me "convencer" de cousa alguma. Se deram explicações "plausíveis e racionais"? Não, nenhuma.

Minha experiência na saúde pública me provou que homeopatia funciona sim, mas hoje há poucos homeopatas de verdade, a maioria só entra no ramo pelo dinheiro e esquece o que se ensinava de pai para filho, como a ética.

Poderia dizer...

O homem jamais pisou na lua. Tudo foi uma farsa bem intencionada para dar satisfações ao povo americano, depois do tapa que os soviéticos deram em suas caras rosadas. Eu não duvido que um foguete tenha decolado, que tenha saído da atmosphera, ma daí a ser tripulado vai uma grande distância. A União Soviética era uma ditadura, podia fazer o que bem entendesse com o cidadão que não se poderia reclamar. Os Estados Unidos são uma democracia, existem limites para as atrocidades que o Estado pode impor mesmo aos militares.

Não foi uma vez, foram várias em que especialistas disseram que as missões Apolo poderiam ter sido feitas por máquinas, a um custo muito inferior e sem riscos à vida. Quem garante que não o foram? Existem teorias da conspiração canhestras, que são alimentadas pelos próprios governos para desacreditar as denúncias legítimas. Tantas viagens tripuladas não seriam suficientes para que hoje o turismo espacial fosse uma rotina, ainda que só para os ricos? Eu acredito que sim. Se realmente tivessem levado aqueles fulanos para a lua, todos eles em todas as missões, os avanços conseguidos já teriam nos permitido eliminar a dependência do petróleo. Não, as petrolíferas não precisariam temer, o óleo mineral tem muito mais utilidades a preços bem mais atraentes do que a combustão interna.

Alguém pode dizer que os soviéticos jogariam farofa no ventilador se fosse mentira. Caros, o desmantelamento da União Soviética mostrou que grande parte do arsenal nuclear era falso, eram mísseis vazios feitos para impressionar nos desfiles. A CIA sabia disso e com certeza esfregou esta fragilidade na cara deles, para se prevenir. Não nego os avanços das missões espaciais, de modo algum, a órbita é perfeitamente atingível sem grandes riscos. Daí a viajar um segundo-luz é brincar com a minha inteligência. Com tanta espionagem que ainda hoje existe, facilmente o Brasil também já teria conseguido tecnologia para mandar alguém para a lua... Tenho uma lista enorme de quem poderia ir e por lá ficar.

Além do mais, o povo ficou feliz. A indústria faturou e gerou muitos empregos bem remunerados, foi bom para todo mundo. Foi uma era de prosperidade e optimismo difícil de se encontrar na história. A Casa Branca tem todos os motivos do mundo para manter a ilusão. Um dia, quem sabe, consigamos colocar nossos pezões no satélite. Talvez eu mesmo testemunhe o facto histórico.

Eu poderia dizer e afirmar tudo o que escrevi acima. Na verdade eu sei porque a genética e os programas espaciais enfrentam tantos problemas, e nada tem a ver com os coitados dos cientistas, que são os mais cobrados e mal pagos nessa história toda.

Os tratamentos genéticos ainda não deram as respostas desejadas porque realmente não houve tempo. Eles descobriram qual idioma ele fala, agora estão tentando aprender o idioma, sem mestre. E pasmem, muitas "palavras" deste idioma ganham significados completamente diferentes entre si com uma vírgula fora do lugar.

As viagens espaciais não são rotina até para pés rapados por questões políticas. A mesma tecnologia utilizada para ir à lua poderia nos levar às profundezas abissais dos oceanos, se a mentalidade podre, arcaica, limitada e paralítica dos políticos não atrapalhasse. Em ambos (e muitos outros) casos, falta mais vontade política do que qualquer outra cousa.

Eu falei que não acredito e dei razões, depois que acredito e também dei razões. Acreditem na segunda fase, e na parte testemunhal da primeira. Apesar dos pústulas que as indústrias corromperam, a maciça maioria dos cientistas é de gente dedicada e sincera no labor de suas missões no mundo. É tudo questão política. Políticos não sabem porcaria nenhuma de cousa alguma, mas têm um orgulho transbordante e não admitem que um "reles cidadão" com pós doutorado em partículas reversas trabalhem e vivam melhor do que eles.

Eu já disse em algum texto, não lembro qual, e repito que já fui ateu. Mais ateu do que o plástico ordinário deste teclado. Conheço ambos os lados. Os mesmos argumentos que um cidadão simples usa para duvidar das conquistas científicas, os ateus radicais usam (com outra roupagem) para atacar tudo o que lhes foge à compreensão. Eu não acreditava porque não me convencia, fui convencido por mim mesmo após provas suficientes e consistentes me terem sido apresentadas. Como na genética, provas desse tipo são quase sempre pessoais e instransferíveis, por isto só convenceram a mim, outros seriam convencidos por outros meios, todos diferentes entre si. Eu não acreditava, mas respeitava. Do mesmo modo como hoje respeito a não crença, porque sei muito bem como é ter um fanático, que mal sabe interpretar uma frase simples, repetir ad infinitum a mesma ladainha de recompensas, com as quais eu não contava e castigos que eu não temia. Minhas psicólogas sabem o quão dura é minha cabeça e o quão resistente eu sou àquilo que não me interessa, sou virtualmente imune à hipnose, sou o tipo que os publicitários odeiam porque uno o raciocínio tremendamente crítico (e cri-cri) ao conhecimento de causa, especialmente quando o assunto é indústria. propagandas podem me encantar, mas nenhuma me convence a comprar algo se eu não estiver precisando daquilo. Não, meus amigos, ninguém colocou na minha cabeça que "superstições existem", todos tentaram e ninguém conseguiu. Eu sei o que é uma superstição. O que os radicais (teístas e ateus) entendem como "Deus" é uma superstição, como para tudo mais o que a "ciência formal" detrata sem se importar com quem ofende. Aos dois grupos eu digo e reitero quantas vezes se fizerem necesárias: Deus não existe, Deus é; a própria existência é sua criação. E entre o capricho de um louco que quer caminhar no ar, e preservar a integridade de um planeta que precisa da gravitação em vigor, Ele prefere te deixar estatelar no chão.

Crêr cegamente ou descrer raivozamente é um problema psicológico (porque psicoterapia eu também comprovei que funciona, as drogas que me passaram só me fizeram mal) e pode ser resolvido facilmente, se as partes quiserem. Para mim, que tive um pouquinho, só um pouquinho de humildade para admitir que não detenho a verdade em minhas mãos, funcionou que foi uma beleza, não me suicidei, o que para alguns pode não ser óbvio.

Ainda faremos viagens espaciais como quem vai de São Paulo à Santos, ainda seremos curados de moléstias hoje gravíssimas com uma simples consulta médica, ainda pagaremos a um pesquisador mais do que a um vereador. Tenho fé em Deus e nas pessoas de boa vontade que sim.

Peço então a ambos os lados, encarecidamente, que cessem de tentar me converter às suas convicções, parem de aporrinhar a minha paciência taurina. Ela é grande, mas é finita.

03/09/2010

fazer o quê?


Em sua cobertura faraônica, no edifício de sua propriedade, este cercado de imóveis que adquiriu após a mudança de vida, o ex-traficante conversa com o juiz que o tinha condenado. Durante a maior parte dos anos de cárcere, queria matá-lo lentamente, talvez abrindo-lhe feridas e o jogando no meio de formigas carnívoras. Mas depois que o próprio juiz o chamou para uma conversa em particular, os interesses sobrepujaram o ódio e tudo mudou de figura. À beira da piscina, os dois conversam...

- E pelo que vejo o seu patrimônio com dinheiro limpo é bem maior do que antes.

- Nem me fale! Como eu perdi tempo! Ganho em um ano mais do que eu acumulei durante todos os anos de tráfico.

- Fora que não tem mais certos gastos.

- É verdade. O que eu gastava com advogado era uma loucura. Aliás, aquele sacana que sempre me mandava mais clientes...

- Perdeu o registro de advogado. Até para um advogado de porta de cadeia existem limites, e o seu ex advogado passou por cima de todos.

- O desgraçado me iludia pra eu atacar com mais raiva e me foder mais.

- E precisar mais dele, para pagar mais honorários, enfim... Mas ele terá muito tempo para pensar nisto.

- Está na mesma cela?

- A mesma que você ocupava.

- Vendo aquela vista linda?

- Não. Tem muito mais gente querendo fazer churrasco dele, o muro foi elevado. Ele só vê tijolo.

Tomam uma taça de vinho branco doce, para aliviar o calor, este que se despede aos poucos. O juiz, macaco velho, sabe que o ex-detento não se converteu para a ordem dos anjos celestiais, então pede que seja sincero, sem compromissos nem risco de represálias...

- Sinceramente?

- Pode falar. Quem está aqui agora é um amigo, não o magistrado.

- Falou. Eu não saí um centímetro da lei, juro... Nem preciso.

- Como assim?

- Doutor, antes eu ganhava dinheiro fácil do modo mais perigoso. Me envolvi com o tráfico internacional, matei pelo simples prazer de apostar pra que lado o infeliz cairia, lavei dinheiro de metade dos políticos do país e de muitos do exterior. Só não trafiquei órgãos porque o risco de o cliente morrer antes do transplante e não pagar, é maior do que vale. Se tiver mesmo outra vida, eu tô lascado.

Bebe outro gole, enquanto pensa e mede as palavras...

- Só que eu não fiquei bonzinho. Eu era traficante, hoje sou banqueiro. Posso te garantir que as diferenças são bem poucas, a maioria meramente ornamental. Banco, principalmente no Brasil, vive da desgraça alheia, que nem eu na minha antiga vida. Eu não obrigava ninguém a começar a usar drogas, mas fazia tudo quanto é artimanha pra convencer os filhinhos de papai que só seriam machos se encarassem a barra. É a publicidade do submundo, funciona. Para sair, se eu soubesse que estava tentando sair, ameaçava a família inteira de morte pra obrigar o cara a continuar se drogando, ou só comprando, tanto fazia pra mim.

- E hoje?

- Hoje eu não obrigo ninguém a assinar um contracto. Mas já viu a nova campanha do meu banco?

- Sim, é maravilhosa, diga-se de passagem. O publicitário está de parabéns.

- Obrigado, o publicitário sou eu mesmo. Usei minha experiência e a agência traduziu para o mercado financeiro. Eu convenço o cidadão honesto e ansioso por resolver seus problemas, de que o meu banco é a solução. Notou que as pessoas entram (na propaganda) meio curvadas em minhas agências e saem altivas, radiantes? Até a iluminação sobre elas muda. É psicologia, doutor. Eu uso de psicologia para convencer o cliente a colocar uma corda no pescoço com as próprias mãos.

Existem muitos termos que são próprios de cada ramo, e no mercado financeiro não é diferente. São termos e gírias esquisitas que só nós entendemos, mas que existem há décadas e são fluentemente faladas pelo grupo. O que fazemos é entupir os contractos com esses termos e suas abreviações, porque alguns são quilométricos, e damos para o cliente ler à vontade.

- E ele não entendendo, cai.

- Cai. Feito um pato. O cidadão não é economista, assim como não é engenheiro, não é médico, enfim. O cidadão médio é um idiota, que em vez de ler e ouvir o que vai lhe fazer diferença, perde tempo com bobagens apelativas que matam um neurônio atrás do outro. O povo é uma massa imbecil que raciocina com o baixo ventre, a presa lenta e suculenta que nem percebe que está sendo vampirizada. Quando alguém chega a ganhar uma ação contra nós, pagamos com o maior prazer. Primeiro porque o decorrer dos trâmites legais dá tempo para eu ganhar mais do que a indenização pedida, e com o dinheiro do reclamante; segundo porque isto não arranha sequer o verniz da nossa imagem, os outros clientes continuam caindo feito patinhos.

- Mas há advogados que conhecem muito bem o ramo.

- São poucos. No Brasil são poucos. Mesmo os que conhecem não conseguem muita agilidade nos processos, os nossos advogados batem na tecla eficaz de que o cliente levou o contracto e teve o tempo que quis para lê-lo. Até levamos outros clientes, quase sempre amigos nossos, com conhecimento de causa para demonstrar que uma pessoa comum consegue entender os termos, se estiver disposta a pesquisar um pouco.

- Mas ninguém pesquisa.

- Não, quase ninguém. O brasileiro é acomodado, trabalha com as mãos e não usa a cabeça, ou não teríamos mais bares do que escolas e bibliotecas no país. Muitas vezes o próprio cliente desiste da ação, se convencendo de que a culpa foi dele e não nossa. O que eu faço como banqueiro é parecido com o que fazia como traficante. Só que antes a polícia tinha o dedo no gatilho pra estourar a minha cabeça, hoje a polícia me protege. Antes eu tinha que mandar meus filhos pro exterior, pra não terem o mesmo fim que eu dava ao filho dos outros, hoje eles viajam pra estudar, passear, aproveitar a vida. Eu andava com um carro blindado, que não chamasse atenção, e duas escoltas armadas até os dentes, hoje eu ando em um carro ainda blindado, mas vistoso e só com o motorista me acompanhando.

- Mas não me consta que os clientes do seu banco costumem ir à falência.

- Eu disse que as diferenças são bem poucas, não inexistentes. Por que vou querer que o cara perca a casa e vá pra debaixo da ponte? O que ganho com isso?

- A casa.

- Pensamento primário. Eu endivido o sujeito pelo resto da vida. A não ser que ganhe na loteria, ele nunca consegue pagar os juros e as centenas de serviços embutidas. Leva tempo, mas o que ele me paga é quase sempre mais do que vale o que foi dado como garantia. Nós só cobramos pra desestimular o calote, pra fazer o cara aceitar uma renegociação. A gente percebe quando ele está cambaleando, não sou burro como os outros bancos, que matam a galinha dos ovos de ouro. Quero o cliente cativo, me rendendo dividendos, mas dormindo direito. Se a família dele passar fome, eu não ganho.

- E a inadimplência?

- A gente chora de barriga cheia, doutor. Está para nascer povo mais honesto e prestativo do que o brasileiro. O povo paga, nem que tenha que ficar sem uma das refeições do dia. Choramos para atingir os brios do povo honesto e trabalhador, que não quer ser comparado aos poucos caloteiros, que nós conseguimos acionar facilmente.

O juiz, já em vias de se aposentar, se pergunta o quanto já pagou sem perceber. Um centavo de cada cliente, explica o banqueiro, gera uma fortuna por dia, fora o resultado das aplicações com esse dinheiro...

- Não se engane, doutor, eu continuo não valendo nada, só que agora não represento mais perigo à sociedade. Por efeito colateral, eu gero dezenas de milhares de empregos directos e outros tantos indirectos. Por mim tudo bem, estou ganhando, é o que me importa. Mas voltar para aquela vida irresponsável e desnecessariamente perigosa de traficante, não, de jeito nenhum.

- E os seus antigos comparsas?

- São mais burros do que eu supunha, na época. Preferem uma vida de "emoção", de "adrenalina", de "poder"... Rá, ra, ra, ra, ra, ra, ra... Quer mais emoção e adrenalina do que esportes radicais? Amanhã te levo pro autódromo, tenho uns carros de corrida e o doutor vai ver o que é adrenalina de verdade. Quer mais poder do que ter montes de políticos no bolso? Eles são imaturos, são adolescentes de caras enrugadas, não entendem quando é hora de parar de fazer masturbação política e passar para as núpcias com o poder.

- Quer dizer, dá pra ser sacana dentro da lei.

- Ô se dá! É até mais fácil. Antes as pessoas me viam com vontade de me matar, hoje me vêem como fonte de inspiração. Porque, justiça se faça, eu ralei. Sacaneei, mas ralei para ser sócio majoritário deste banco. Eu mereço estar onde estou.

O juiz concorda, fazer o quê?

27/08/2010

Eu sou o cabo

Oi, meu nome é Wandderklaydyçon, eu sou cabo eleitoral.

Não estou aqui para pedir o seu voto, eu não sou candidato, só trabalho... quer dizer, só faço bico em campanha eleitoral.

Você com certeza não me conhece, e se me conhecesse gostaria de jamais ter me conhecido, mas eu te conheço muito bem. Você enfrenta trânsito todos os dias; buzinas estridentes, machões navalhando no trânsito, as Donas Marias não enxergando detrás do estepe do Cross Fox na baliza, motoristas de ônibus apostando corrida e te obrigando a acelerar pra não virar pastel de lata, aquele agente de trânsito que deixa a totosinha andar na contramão e te multa por meio centímetro em cima da faixa. Eu sei, eu te vejo. E pra piorar, quando você chega ao trabalho vê seu carro todo empetecado de adesivos escrotos que não sabe de onde saíram. Bem, agora sabe, fui eu. Você ficou tão estressado no sinal que não viu a gente chegando. É que temos de voltar de mãos vazias, e nem sempre o fiscal vacila pra gente jogar tudo no lixo e ir pra casa. Ah, uma coisinha, a cola dos adesivos não sai... Vai ter que raspar e repintar o carro. Mas não fica zangado não, tio, a gente só tá garantindo o dinheiro da Mobylette.

Eu também sei onde você mora, claro. Mas não se preocupe, não vou dizer pra ninguém que é na Rua das Oliveiras, n° 1337, Jardim Saara VII, apartamento 22. Ética? Sai fora! É que ninguém paga pra ter endereço de pé rapado, então cê tá de boa. Como sei seu endereço? Já viu a sua caixa de correio? Não? Então vai lá que eu espero... Foi? É, pela cara de cão raivoso e a boca espumando, você foi. Então, é por isso que as correspondências sérias não chegam, sou eu quem entope a sua caixa com tranqueira eleitoral, quando o fiscal não está vendo, pra ir pra casa, dormir e voltar no fim do dia, pra pegar a grana. Nada pessoal, são só eleições.

Sabe aquele infeliz com uma vuvuzela, fazendo algazarra em cima de um carro de som, que vuvuzelou justo o seu ouvido? Não fui eu, não desta vez. Mas o miserável que colocou um microphone na boca da vuvuzela, esse fui eu. Não precisa agradecer, a drogaria já me agradeceu e deu minha comissão pela venda de analgésico. Fazer o quê? É a concorrência. A gente tem que aparecer mais do que os cabos do outro candidato, é por isso que cantamos gingles estúrdios sem pagar um centavo ao compositor da música original... Se bem que ele não sabe, se soubesse o que fizemos com o trabalho dele, eu não estaria aqui te enchendo o saco.

Certo, agora você deve estar se perguntando quais as propostas do nosso candidato. Ok. Então... eu não sei. Na verdade eu não dou a mínima, nem sou louco de votar nele. E se fosse você, também não votaria, nem nele nem em noventa por cento dos candidatos. Só estou nessa pelo dinheiro mesmo, senão o Zoreia vende a Mobylette pra outro.

Mas eu gosto mesmo é de balançar aquelas bandeironas enormes. Tá certo, atrapalha o povo ver os ônibus chegando, às vezes só identificam quando o motorista fecha a porta e vai embora. Tá certo, atrapalha os pedestres verem os carros, quando vêem já estão na ambulância do SAMU (página do SAMU). Tá certo, isso tá errado, mas a gente tem que trabalhar... Quer dizer... Tem que aparecer. E se tem coisa que eu sei fazer é dar bandeira, miquento que nem eu, tá pra nascer. Tá certo, uma vez a bandeira tampou a cara de um sujeito que arrebentou o nariz no poste e eu tive que sair correndo... Heim? Era você? Putz! Ainda bem isso aqui é internet. Mas já sarou, né? Um dia sara. Ó, pra ficar tudo em paz, hoje eu enchi a sua caixa de correios com camisetas e cedês de campanha, vai ter pano de chão e espelhinho pra muitos anos.

Não, nem todo cabo eleitoral é escroto que nem eu. Tem piores, tem mais amenos e tem os que (credincruiz, pé de pato mangalô três vezes!) trabalham direito. É por causa desses sacanas que a gente é cobrado, tio.

Mas eu até que gosto desse serviço! Consigo fingir que trabalho direitinho, já viajei o estado inteiro com isso. Pode ir ver no meu orkut que tá cheio de photo que eu tirei. Não é só ralação não, tem festa também, tem dia pra ficar vagal.

E ainda sou jovem, tio. É normal eu ser sem juízo, não dá pra exigir muito mais que isso da gente. Você é que não pode ser sem juízo na hora de votar.

Na boa, tio. Se você não fosse tão relapso na hora de votar, eu podia estar estudando pro vestibular, em vez de ralar pra comprar a Mobylette. Não é pra fazer anarquia não, eu só estava te enchendo mesmo. Preciso dela pra fazer entrega, pra ajudar na despesa de casa. É que eleição é só a cada dois anos, como se fosse pouco, e a chance que tenho pra ganhar um dinheiro honesto é essa... Quer dizer... Ah, da minha parte é dinheiro honesto, do candidato eu não sei, não vi e se visse não contava do mesmo jeito.

Mas, ó, não vota no meu candidato não, que ele é um sacana. Ele vai aumentar o empurrismo nas escolas, a gente que já passa sem saber nada, vai terminar o ano mais burro do que entrou, se ele ganhar. tenho colega na sétima série que não sabe que o Brasil já teve imperador. Acho que nem sabe o que é um imperador. A ficha dele só tá limpa porque sujou a dos outros, mó laranjal, tio. O que ele não conta é que triplicou a verba de gabinete pra empregar os amigos.

Vota direito, tio, eu quero estudar pra ser alguém na vida. Já chega o meu pai que aceita emprego de quinta porque não consegue outra coisa. Eu quero estudar pra não depender de bolsa do governo, que nem o mala do meu vizinho, que engravidou a moça confiando nas cestas e nos vales que eles dão. Dão... Dão o cacete, tio, eles tiram do seu bolso. Ela não tem dezoito anos e já tá esperando o segundo.

Agora dá licença, tio, que se o Nanael descobre que eu tô fuçando blog dele, aí é que eu nunca vou pra faculdade mesmo. É que se eu colocar isto no meu, o hômi desconfia. Fui!

Ah, vê se vota com a cabeça, mané.

25/08/2010

Antes que a maçã murche

Uma fruta tem seu ciclo útil para o consumo. Ninguém espera que um broto de maçã alimente alguém além dos parasitas da macieira, mas uma vez eliminados aqueles, o broto é o parasita da árvore. Mas é um parasita necessário e desejável. Ele não oferece nada pelo que consome porque não tem condições de oferecer, ainda não está pronto.
Ainda como broto, a maçã começa a se diferenciar de um saquinho de células vegetais e começa a se parecer nebulosamente com a fruta. Começa a chamar atenção, imagina-se a torta se se fará com ela, mas ainda é cedo demais, não se pode comer um broto só porque é parecido com a fruta adulta, vai se desperdiçar uma potencial fonte de nutrientes e sementes, além de entupir o intestino.

Cada ciclo tem sua utilidade. Apressar o crescimento é comer um broto amargo com aparência de fruta. Enquanto for broto a maçã só deve receber nutrientes e proteção da macieira, não há muito mais o que fazer a respeito além de esperar.

Com o tempo o formato da fruta estará quase completo, embora ainda muito verde e apto a produzir cola, os planos de uma torta ficam mais claros e o apetite aumenta. Uma boa maçã, suculenta e de bom tamanho, é suficiente sozinha para cobrir uma torta pequena, para duas ou três pessoas. Adicionando canela então, pode-se convidar mais um.

Ainda verde, a fruta já tem um tamanho razoável e até poderia ser comida, mas a ansiedade estragaria o que ela tem de melhor a oferecer, como o suco mais doce, a polpa mais tenra, o rendimento maior e a torta mais saborosa. Para quem souber esperar, a recompensa vem farta.

Um fruticultor experiente e atento sabe o momento exacto de se colher a maçã. Ela estará com seu vermelho mais vivo, brilho mais intenso e o talo já estará secando, mostrando que já pode sair da árvore que a gerou e alimentou. Já será hora.

Neste momento, então, a fruta pode alimentar uma pessoa por um dia inteiro; ou quatro se for feita a torta. Dá mais trabalho? Sim, dá muito mais trabalho, mas na natureza o trabalho é proporcional à recompensa. Uma boa farinha, um fio de mel, uma pitadinha de sal, água, esforço físico, tudo vertido em uma forma untada, para então se colocar em cima as fatias finas e sem sementes da maçã, logo polvilhada com canela em pó. A maçã em seu auge emprestará sabor e umidade à torta, auxiliada pelo forno quente e uniforme, que fará o vapor sair da massa e a frutose tomar seu lugar. O resultado será um alimento satisfatório para quatro pessoas civilizadas, porque para um ogro só a indigestão basta.

Se esperar muito, a maçã perderá aos poucos, e cada vez mais rápido, o seu viço. Sempre será tempo de colhê-la, sempre se poderá tirar proveito dela, antes que murche ou apodreça. O problema de se esperar demais é que o proveito decai junto com a fruta. Proveito tardio nunca é como na época certa, também verdade que proveito precoce demais faz arrepender. Para quem sabe dar valor, ver uma maçã apodrecendo na árvore é de um dó sem descrição, capaz de doer o peito mesmo de quem não cometeu o erro de segurar a fruta no pé. E para quê se segurou a maçã no pé? O tempo não espera por nossas necessidades. Se a queriam preservar para mais tarde, usassem de refrigeração, fizessem uma maçã-do-amor, um doce, uma torta bem embalada, o que fosse. Do que a maçã poderia ter dado em sua maturidade, não poderá dar nem sombra depois de murcha. Mesmo a sombra precisa de consistência para contrapor à luz. Dependendo do tempo desperdiçado, nem as sementes servem mais, porque elas também apodrecem. Nem antes da hora, nem tarde demais.

Assim como o ciclo da maçã o da vida também cobra pelo desperdício. Segurar uma criança pretextando preservá-la das agruras do mundo só vai torná-la incapaz de suportá-las na vida adulta. A vida sabe pelo que cada um deve passar, algumas decepções e frustrações são necessárias para o amadurecimento salutar e no tempo certo. Não se deve impor uma vida artificialmente feliz para a criança, porque um dia o mundo vai cobrar pelas lições não aprendidas e os tutores não estarão por perto para socorrer o adulto incapaz.

Da mesma forma, segurar uma criança, evitar que ela desfrute de sua juventude a pretexto de "educá-la" é impor uma carga extrema de frustração, que vai resultar em um adulto amargo, frustrado e de mal com a vida, que dificilmente conseguirá tolerar a diversão alheia e não verá utilidade na convivência fora do trabalho. Porta aberta para o fanatismo.

Só a vida de cada um sabe o que cada um suporta e pelo que deve passar. Podar demais as asas de um jovem é tão ruim quanto não podar de jeito nenhum. Em ambos os casos o adulto não saberá voar fora das condições climáticas que já não existirão, um por falta de penas e o outro por excesso de penas velhas. Pior é o caso em que as asas são feridas pela poda excessiva, como cortar todas as folhas e matar o galho da macieira.

Sempre haverão larvas, insetos, taturanas de toda sorte, pássaros e doenças. Não se preserva a fruta das doenças senão fortalecendo a árvore. E não se pode preservar todas as frutas de tudo. A maioria terá algum defeito e não deixará de ser nutritiva por isso. Em momentos raros e extraordinários a natureza consegue oferecer uma maçã perfeita, que por isto mesmo deverá ser aproveitada com o máximo de cuidado e delonga, de preferência por mais comensais.

Não pensem que a frustração de não ter usufruído por imposição é menor do que pela negligência. Não é. É diferente, mas a proliferação de saudades pelo que poderia ter sido é a mesma, a tristeza das memórias fictícias pelo que se quis ter vivido dó tanto quanto, a depressão gerada pode matar o adulto em vida do mesmo jeito.

Sempre é tempo de tentar, quando se pode, viver o que se deseja. Mas assim como a maçã, não dá mais para ter a alegria construtiva que alicerça o caráter para a dureza da vida adulta, o que se consegue é atenuar, paliar a situação. A vida em branco (ou cinza) não faz distinção entre o que desperdiçou seu tempo e o que teve seu tempo roubado, a cobrança é feita sem dó e os juros são de envergonhar qualquer banqueiro picareta.

Conseguir um diploma tardio pode atenuar a frustração, até consolar a maioria, mas uma carreira promissora censurada por rigores deficientes ou excessivos sempre martelará a cabeça.

Um casamento tardio pode acalentar o coração do adulto, mas não pode ser comparado às possibilidades, alegrias e aprendizados que uma união longeva proporciona; ver sua descendência ainda é o sonho de muita gente e sua privação pode ser venenosa.

Ter seu canto quando as rugas já tomam o rosto até alivia, já que a idade avançada exige cuidados e tranqüilidades, mas não ter podido fazer amigos e estreitar laços com uma vizinhança na juventude dó para quem passou por isto.

Nem tudo é questão de vontade. A idade muda os interesses e as necessidades, muitas vezes legando o papel de expectador àquele que não conseguiu ser jovem quando deveria ter sido. Ver os outros com seus amigos, ver os outros com seus amores, ver os outros com suas histórias (e estórias) de viagem, suas conquistas e seus tombos; sempre ver, sentir vontade. A vida adulta não permite a margem de erros que a juventude oferece, assim o aprendizado se torna muito mais penoso, caro e nem sempre completo. Ter que viver sem margem de tolerância estressa.

Ser jovem é uma necessidade. Viver de acordo com o que cada idade oferece é uma necessidade prioritária. Tolher a juventude do outro deveria ser considerado crime hediondo. Não adianta oferecer a juventude dos seus sonhos em troca, cada um tem a sua e ela é intransferível. Deixar cair e se machucar para ir acudir quando a criança chamar é o que deve ser feito, nem segurá-la para não cair, sem empurrar para apressar a queda. Cada um cai na sua hora de cair, como a maçã não se desprende da árvore antes da hora exacta.

O bom senso deve nortear sempre a vida de uma pessoa, mesmo a dos jovens, mas não viver não é, em lugar nenhum, em nenhum idioma de época nenhuma, sinônimo de bom senso.

Uma boa torta precisa de uma boa maçã. Nenhuma maçã é realmente boa se não for colhida na época certa. Nenhum adulto é saudável se não tiver vivido cada idade na época certa. Poder ser jovem quando se deve ser jovem mereceria um parágrafo exclusivo na constituição.

20/08/2010

Filtro da verdade: Carta do candidato

Caro eleitor, cara eleitriz, venho por meio inteiro desta pedir o seu voto.
Você me conhece, claro. Eu já te acompanhei até a Vigilância Sanitária, onde ameacei funcionários de último escalão e ajudei a liberar aqueles medicamentos aprendidos por falta de registro, aquelas receitas cheias de rasuras, aquele alvará sanitário que esperava por um responsável técnico. Afinal, quem eles pensam que são? O eleitor e a eleitriz não estão obrigando ninguém a comprar, compra quem quer. E essa conversa de responsável técnico, não se preocupem que também já livrei suas caras, com o dinheiro economizado vocês podem comprar mais para terem desconto e venderem mais barato. Porque não é veneno, é remédio, e remédio faz bem. Podem vender à vontade sem essa frescura de receita especial. Se eleito, garanto que colocarei esses vagabundos para prenderem bandido, não o trabalho de gente do povo, do meu eleitorado. Cuidarei para que todas as resoluções da Anvisa que incomodam os meus eleitores, as minhas eleitrizes, sejam anuladas imediatamente, para que vocês possam ganhar a vida honestamente sem medo de serem multados ou mesmo presos, enquanto eu garanto o meu por debaixo do pano.

Mas para continuar a zelar pelos seus interesses particulares, caro eleitor, cara eleitriz, preciso do seu voto, seu, da sua família e dos seus amigos. Assim poderei continuar a dar empregos comissionados para gente analphabeta, que disfarçará sua incompetência inventando burocracia inútil, facilitando a vida do meu eleitorado, que não quer ser importunado por fiscais que não nos deixam trabalhar em paz. Afinal, não é por ser lei que tem que ser feito, a gente sempre dá um jeito. E se continuarem a nos incomodar, envio um projecto de lei extinguindo as autarquias que incomodam o meu eleitorado, assegurando a votação com o prestígio, as mãos lavadas e os rabos presos com os quais sempre contei, graças aos nobres colegas que eleitores e eleitrizes como vocês mantém no poder.

Multa? Quem multa? A gente quebra. Macho que é macho não espera sinalzinho ficar verdinho, que verde é coisinha de viadinho ecologista. Eu quebrei várias vezes e volto a quebrar, pode se divertir à vontade, com o meu adesivo no seu carro ninguém vai te parar nem anotar a sua placa. Leve a família para passear na carroceria da caminhonete, respirando o vento, sem cintinho de fresco pra incomodar e amassar a roupa. Alguém já mandou uma passadeira à sua casa, para desamarrotar o que o cinto amassou? Não né! Se querem viver em um país de gente civilizada educadinha que vão morar no exterior, que o Brasil é da gente. Porque nós somos iguais, caro eleitor, cara eleitriz. Vocês votam em mim e eu faço o que vocês fariam no meu lugar. Me elejam deputado federal e eu cuido pra deixar tudo como está, mas agora em nível nacional e não só em nossa cidade.

Viajarei, caro eleitor, cara eleitriz, para todas as partes do mundo às custas do erário público, aparecendo em revistas de fofoca, aproveitando os bondes das missões diplomáticas. Representarei o nosso país no exterior, mostrando quem realmente somos, nossa real educação, levando músicos populares e proibidões para divulgar a verdadeira cultura do meu eleitorado, que raciocina com os intestinos em vez do cérebro. Aparecerei ao lado de líderes internacionais para que você, eleitor e eleitriz, possam esfregar as photographias nas caras dos despeitados e repetir "É o meu deputado". Afinal, nós somos iguais, vocês não gostariam de me ver desperdiçando uma bocada, certo? Aproveitarei todas, com o seu voto, com a sua confiança, assegurando que a tradição de nosso povo seja preservada.

Darei festas e mais festas com as verbas de gabinete, que afinal será dinheiro meu e poderei fazer o que eu quiser com ele. Festas em postos de combustível, incomodando a vizinhança e fazendo algazarra, com seguranças armados para que você possa se divertir sem que fiscais cortem o seu barato. Afinal eles trabalham cedo porque são trouxas, gente esperta como a gente enrola e faz o que dá, eles que se virem para trabalhar, arranjar outro emprego e nos sustentar depois.

Então, caro eleitor, cara eleitriz, fique feliz de estar na pindaíba em que você mesmo se meteu, votando em bandidos de colarinho branco como eu. Porque quando aparece alguém honesto, querendo fazer algo sério, você não quer fazer a sua parte, como eu não faço a minha, sempre esperando que o governo resolva tudo com pó de pir-lim-pim-pim. Mas o pó que rola, seu filho sabe e usa, é outro. Querem honestidade? Vão morar na Alemanha, mas duvido que vocês se adaptem à cultura arraigada do amor pelo trabalho árduo e honesto que eles têm, afinal vocês não o meu eleitorado.

Caro eleitor, cara eleitriz, não faça fricote, eu sou o candidato que o Brasil merece. Se arranjem comigo e dêem graças à Deus. Porque nós, caro eleitor, cara eleitriz, somos exactamente iguais, ou vocês nunca me deveriam favores e nunca votariam em mim.