19/07/2008

A mulher que amarei



Não quero uma mulher melancia. É cousa que, quando boa, se come a polpa e depois lança-se ao lixo, ou à compostagem que é o correcto. Além de ser mais incômodo do que mala, para carregar.


Não quero uma mulher mamão. Já tenho um intestino muito bom, só me serviria para ter diarréia, se estivesse madura, ou fazer compotas, caso estivesse verde. Mas estando verde, seria pedofilia; não, obrigado.


Não quero uma mulher filé. Não como carne vermelha. Ainda que comesse, só dura se congelada lá nos cafundós do freezer, o que a tornaria inútil, se fosse aproveitar teria que preparar e consumir rapidamente. Sendo bovina, há sempre o risco de conter hormônios em excesso, o que me exporia descenessáriamente ao risco de um câncer escorpiano.


Também não quero galináceas, piscianóides, plastificadas ou qualquer outra bobagem mercadológica feita para erigir falos. Para forçar à compra de porcarias que demandam pouco investimento e vendem rápido. Ideal para lavagem de dinheiro ou outra mutreta qualquer.


Quero uma mulher que vá ao banheiro ao menos uma vez por dia, soltar os barros. Talvez até que tenha um pouco de TPM, de vez em quando. Depois pode chorar sem motivos. Para quê? Será tão bom sentir seu corpo se apoiando em mim!


Uma mulher que não esconda que precisa de maquiagem, quando aquela espinha ainda nova aparece. Ser despojada não é sinônimo de ser desleixada.


Uma mulher que fique de mau humor, em vez de planejar um adultério, mas também que mande os pudores aos raios que os partam quando estiver com o fogo aceso. Que saiba ser respeitosa até de shortinho e bustiê.


Uma mulher que seja uma rainha na lida com as visitas, mas não se furte o direito de expôr a lavadeira quando alguém tentar dizer como devemos educar nossos filhos, que a decoração está fora de moda, que não se usa mais aquele modelo de calças... Sempre há um parente chato querendo ser mandado à casa do chapéu.


Uma mulher que tenha sabido aproveitar o frescor da adolescência, bem como saiba transformar em marco cada marca que a maturidade lhe der. Mulheres de verdade sabem que envelhecem, mas se cuidam em vez de tentar aparentar quinze anos, depois da menopausa.


Quero uma mulher de verdade, que seja bela como é, da base ao ápce. Que não coloque um quilograma de silicone em cada seio para chamar atenção, ou esconder a falta de conteúdo. A boca trai os vasos encerados.


Quero uma mulher que saiba sorrir sem constrangimentos, chorar sem vergonhas, andar leve como quem anda com os pés no chão. Que troque sozinha a lâmpada da sala, mas não se envergonhe em me chamar para matar uma barata.


Quero uma mulher que seja maravilhosamente comum no formato do rosto, linda em sua simplicidade cotidiana, não preciso que outros a achem linda também. Se tiver uma beleza acima da média, que esta se reflita nos olhos, pois eles não mentem. Que seja bela por completo, não por partes.


Não precisaria usar vestidos rodados, sei que são pouco práticos. Tampouco precisaria ter mil e quinhentas receitas de bolos e biscoitos de memória, eu cozinho bem.


Não precisa tocar piano, cantar ou ter algum talento hipertrofiado, não busco uma artista para agenciar. Mas se souber, serei o primeiro a fundar um fã clube.


Quero uma mulher honesta, de carne e osso, que chore por bobagens e solte arroto. Que diga que "hoje não, estou com dor de cabeça". Que aceite me acompanhar na caminhada longa e íngreme que todo homem honesto enfrenta. Que me dê colo quando eu cair exaurido, também que não esite em pedir o meu.


Uma mulher de verdade não é como garrafa de refrigerante, cujo conteúdo se encomenda a um químico qualquer e o casco se rotula nos dissabores da moda. Uma mulher de verdade não admite isso. Tem respeito por si mesma.


Uma mulher de verdade comete gafes, aprende com elas, come biscoitos de chocolate às escondidas e diz que na segunda-feira começa com a dieta.


Uma mulher de verdade suporta com coragem a enfermidade mais grave, mas se dá o direito de gritar estridente quando o esmalte descasca.


Uma mulher de verdade, quando o homem não presta, é a bruxa que se escondia sob a pele da elegante madrasta má. Mas quando ele merece, sabe ser a própria Grace Kelly. É tão encantadora e sofisticada quanto discreta e singela.


Uma mulher de verdade não se vende, mas se derrete quando o sujeito toma homência, pede para terem uma conversa e mostra as alianças que comprou com sacrifício.


Uma mulher de verdade pode ser a mais brava das amazonas, mas se transmuta na mais doce donzela quando ouve, sem motivos aparentes e sem aviso prévio, "Eu te amo".


Quero uma mulher de verdade, à quem possa perguntar sem medo: "Quer se casar comigo?".


Quero uma mulher de verdade, que não esconda a paixão de adolescente pelo Ronnie Von, pelos Menudos, que já tenha sonhado em ser a Patrícia Pilar para beijar o Tonny Ramos.


Poderia dizer que não quero uma mulher perfeita, mas estaria mentindo. A mulher que descrevi é perfeita. Aliás, mais-que-perfeita. O que quero com frutas rebolantes? Aquela que me arrastar para o altar fará comigo tudo o que os idiotas, com o devido respeito aos verdadeiros portadores de idiotismo, sonham fazer com os bifes sacolejantes que infestam programas de auditório.


Aquela que aceitar me tolerar e dividir comigo uma cama, salvo quando me mandar dormir no sofá, não precisará contrair lordose para chamar minha atenção, o lento desabotoar de uma blusa fará isso muito melhor e sem estragar a coluna. Ignorarei minhas constantes e violentas cefaléias para consolar esta mulher, quando a unha quebrar.


Ainda que não a mereça, esta mulher sabe dar valor ao homem que tem. E quando toma as rédeas da casa, o progresso é certo.


Um dia, quem sabe, talvez eu publique aqui um texto inspirado no meu casamento. Mas só depois que encontrar esta mulher. Toda mulher que se dê ao respeito é perfeita. Fruta eu compro na feira.

05/07/2008

Lafassigal


Um país muito pequeno, porém próspero.

A República Educativa de Lafassigal seguia com suas dificuldades e soluções, como acontece com qualquer nação. Suas demandas eram razoávelmente atendidas e seu povo vivia em relativa paz, mas uma paz frágil. Haviam setores politizados em Lafassigal, dentro destes haviam os partidarizados, os que constituíam a verdadeira ameaça.

Certo dia, um grupo de gente bem intencionada, mas meio ingênua, implementou tantas cousas a olhos vistos, gerando tamanho contentamento, que despertou ciúmes dos inimigos políticos. A ingenuitade tenaz dos camaradas organizados, não permitia antever que a baixeza alheia seria capaz de prejudicar uma comunidade inteira, apenas para ver seus desafetos caírem. Só que eles não sabiam que eram desafetos. Houveram discussões, sim, mas isso há em toda democracia.

Por D'us que era gente honesta e ordeira, incessantemente trabalhando comunitariamente e organizadamente, sem fins lucrativos. Ocorre que as eleições em Lafassigal se aproximavam, e um dos membros dessa boa gente se candidatou, para poder fazer mais sem se preocupar tanto em dar satisfações desnecessárias. Mas não há eleição com candidato único, e os inimigos se declararam. A gente honesta já tinha implementado toda uma condecorável organização, uma estrutura que já atendia à comunidade por inteiro e produzia frutos doces, para quem quisesse provar.

Vocês conhecem um pouco de política? Então sabem que as éticas são muito deturpadas por uma percentagem muito grande dos políticos. A politicagem aconteceu, denúncias falsas foram feitas, provas forjadas e tudo o que os próprios detratores apregoavam, antes do pleito, foi jogado às traças.

Eles, que se vangloriavam de participar de uma facção que lutou contra uma ditadura severa, hoje agem como aqueles ditadores. Na base da trapaça e se aproveitando da ingenuidade do povo de Lafassigal, fizeram tudo igual ao que juraram combater... e ganharam as eleições.

Incólumes trabalhadores de cada ordem, porém, nossos amigos continuaram a trabalhar naquilo a que se propuseram, sem demonstrar abalo. Ingênuos. A politicagem não tem lado, seja qual for o radicalismo. Estourou um escândalo, os cartões republicanos, criados para desburocratizar o cotidiano de Lafassigal, foram usados em proveito próprio, como um segundo e muito mais polpudo salário, pelos vencedores (?) do pleito. Eles bradavam contra a corrupção, hoje se corromperam, pois os métodos baixos são como uma droga, quem os pratica uma vez se sente tentado a praticar sempre. Longe de se sentirem abalados, os membros da situação forjaram outra maracutaia e, sem um poingo de verginha, jogaram no grupo honesto a culpa de tudo, inventando ainda outras acusações. Nada foi provado, absolutamente nenhum indício sério foi encontrado.

Tarde. os incrivelmente talantosos e criativos obreiros foram punidos, se não como os corrompidos queriam, com a perda de toda a estrutura erguida, que hoje está às moscas. O povo de Lafassigal ficou sem seus benfeitores?

NÃO!!! De jeito nenhum! Ocorre que o mundo é vasto e eles encontraram outro lugar para erguer outra estrutura, longe da sanha corrompida dos pseudo heróis, estes nada mais do que saudosistas de uma ditadura que os permitia ser irresponsáveis como queriam.

Imaginem o que querem, pois é na imaginação, tão combatida pelos materialistas, que os sonhos mais sinceros começam, e por ela eles se desenvolvem.

Tramem o meio de realizar, pois um planejamento bem tramado dá sustentação para qualquer ambição lícita, mesmo as mais delirantes e aparentemente surreais.

Continuem com a empreitada, pois os inimigos contam justo com tua desistência para te colocarem um pelego e, aos poucos, se tornarem seus senhores.

Organizem suas idéias. Sabendo o que fazer e quando fazer, os imprevistos terão um impacto muito menor, ainda que gente desonesta se aproveite de teus tropeços.

Nossos heróis não são ficção, o que relatei aconteceu, mas romanceei tudo para que não haja margem para represálias e, principalmente, para que sirva de lição também para as eleições que se aproximam, como para tudo mais na vida. Atentem aos que trapaceiam aqui, pois quem aqui o faz, lá faz igual.

10/06/2008

Noite em claro

Já não se importa se ganha pouco, se mora mal, se deturpam tudo o que diz. Só suspira.
O ar que entra pela janela é frio, mas não muito. Decide sair. Quem tem medo de assaltos? Já teve há até uns meses, mas todos os dias dezenas de pessoas são agredidas por marginais, às vezes por nada, os jornais são provas disso. Mas não conhece um só que tenha sido vítima de algo pior, então a possibilidade de ser... Ah, ao inferno! Se tiver que morrer assassinado e não sair, alguém entra na casa pretextando roubar o computador. Sai sem o celular mesmo. Nem sabe se ainda tem carga, faz quase uma semana que não chama nem liga. Mais um suspiro e sai.
Fazia tempo que não saía depois das vinte e duas horas. Mais tempo do que pode se lembrar. Só se lembra das luzes de natal, que via na infância. Hoje só por televisão, que também está há dias sem funcionar. Não está quebrada, só não quer ligar mesmo. Quer ficar realmente só e a solidão do apartamento estava se tornando uma companhia incômoda.
Engraçado ver tanta gente sorrindo e namorando! Pelo que ouvia, todos deveriam estar encolhidos e mantendo, no mínimo, um metro de distância da criatura mais próxima. Mas essa alegria vai desaparecendo, ele imerge em sua solidão voluntária e continua andando. Sem rumo, sem horário, sem compromissos, só segue.
Faz tempo que não namora. Também faz tempo que não tem interesse em namoro. Na verdade faz tempo que não se interessa por cousa alguma.
Já cogitou o suicídio. Mas a razão, mesmo sua razão atéia, o chamou para um canto e colocou tudo em pratos limpos. Ainda que morresse dormindo e fosse para o vazio inexistencial, seu sofrimento não acabaria. Mesmo inconsciente o corpo transmitiria de alguma forma a agonia da morte prematura e, sendo a última cousa a sentir, caso não haja mesmo uma vida pós-túmulo, essa agonia seria eterna, pois nada mais haveria além dela. Não, a agonia que sente já é horrível o bastante. Quer ter a chance de acabar com ela, o que por agora não consegue.
Aha! Beleza! Começou a chover! E daí? Só está com documentos e um cartão de crédito e débito, é tudo plástico, não vai estragar.
A chuva ensopa aos poucos sua roupa de tiozão. Calças pretas (de alfaiate) com riscas-de-giz, camisa pólo branca com um bolso, sapatos de amarrar e meias no mesmo tom de preto. Deixa de se importar quando a cueca também ensopa e os cabelos conspiram com o temporal. Segue. É tudo matéria morta mesmo, não vai gripar. Se o corpo gripar, então consegue o tempo de que precisa para meditar sobre sua vida. Nem sente o banho de lama que um ônibus lhe dá. Até porque o aguaceiro limpa tudo depressa.
Se olhasse ao redor, não saberia dizer onde está, mas com certeza nem se importaria. Não há marginais agindo sob o temporal, não há gente apressada atropelando sob o temporal, não há ninguém além dele andando no meio da rua, feito um maluco, sob o temporal. As luzes dos postes são suas únicas testemunhas. Testemunhas arrogantes, diga-se de passagem.
Há uma ameaça de demissão. Duas décadas dedicadas àquela empresa e um menininho, um fedelho ainda cheirando a cocô, vem acusá-lo de atrapalhar a companhia. Pois amanhã se demite. Chega meia hora mais cedo, vai ao departamento de recursos humanos e volta para casa. Os relatórios acumulados? O directorzinho "emebeático" não se acha o suprassumo da humanidade? Então que se vire. Aquele salário já não paga há anos as agruras que lhe custa. Quando vai ao banco, em vez de extrato, o caixa electrônico lhe dá um atestado de pobreza. Não foi por falta de lutar, esse remorso ele não leva ao túmulo. Tudo o que estava ao seu alcance, tudo o que poderia ter feito para subir na vida, ele fez. Exceto usar os outros como escada. Talvez tenha sido isso.
As pessoas não gostam de gente boa e honesta, chegou a esta conclusão faz alguns meses. Todos reclamam de todos, da corrupção, da má educação, do jeitinho maldito, da desconsideração dos outros para com o próximo e tudo mais. Mas o que acontece quando aparece um homem honesto? É trouxa. Sai daqui, perdedor! Homem bom só serve para levar chifres e pagar contas. Todos querem que o mundo tenha gente honesta, mas a uma distância mínima de cem metros. Honestidade incomoda, faz os podres aparecerem.
Há alguém ouvindo "Solitaire" por Karen Carpenter. Então ele pára para ouvir. Sua vida é mais ou menos isso, só que não quer jogar sujo. Sente-se em um filme noir branco-e-preto. Mas nenhuma estrela de cinema vai aparecer na chuva para abraçá-lo. Na verdade, nem precisaria ser famosa, nem mesmo popular. Nem sabe do que precisa, mas sabe que tem a ver com aquela música.
Vê uma movimentação logo à frente e por ela é visto. Nem tinha notado o fim da chuva, talvez por ainda estar ensopado feito macarronada da nonna. Uma moça se aproxima e oferece uma toalha. Não vê seu rosto, mas naquela momento é a mulher mais linda do mundo, simplesmente porque se importou consigo. O grupo o acolhe e lhe dá uma sopa. É só o que têm, mas ele nem tinha fome, come por gratidão. Vê gente miserável sendo servida sob o viaduto, provavelmente aquela é a única refeição de muitos deles, naquele dia findouro. Nem sabe como, mas aquela moça vai puxando conversa e ele acaba falando tudo, até o que não sabia que tinha a falar. Também não sabendo como, acaba se enturmando e ajudando. Afinal não é um desabrigado. Pode se manter no apartamento por uns três meses até conseguir outro emprego, pois o actual está definitivamente descartado de sua vida. Ouve um "Obrigado, meu filho" de uma boca banguela, não sabe dizer se é idosa ou idoso, sabe que foi o primeiro agradecimento que recebeu em anos. Novamente alguém toca Carpenters, com "Sing". Aprendeu inglês suficiente para saber do que a música trata e canta junto.
Mas que diabos! Saiu na esperança de desaparecer e deixar de existir, agora está feliz da vida! Pô, Deus! Ele nem acredita em Vós e vais se metendo assim na vida dele? O que quereis? Que ele seja feliz? Estais agora fazendo que confie em gente religiosa? Justo quem mais o decepcionou? Para quê? Ele tem muito medo de se decepcionar de novo! As pessoas foram muito cruéis com ele! O usaram como apoio e o descartaram assim que se reergueram!
Porque Meu filho trouxe até Mim a cruz que lhe pedi, ainda que sob provações torpes que não coloquei em seus ombros, Eu lhe dou a Minha Paz. E um emprego novo, pois também de pão vive o homem.
Ah, o raiar do Sol. Desde os dezoito anos que não via o Sol nascer! O Sol nasceu.

25/05/2008

O Herói fala


Antes de mais nada, quero que não entendam este desabafo como ameaça (não sou dado às bravatas) nem choramingo (prantos são para quem os merece) de minha parte. Falo pelas mãos do blogueiro que me emprestou sua consciência na dimensão de vocês.

Meus pais adoptivos são verdadeiros deuses. Eles, bem mais do que eu, merecem ser chamados de heróis. Sou um extraterrestre, mesmo assim souberam me fazer sentir um humano normal, me valer das dificuldades humanas para resolver meus problemas e os dos próximos, pelo que minhas faculdades alienígenas só são usadas quando realmente necessário. Aprendi a ser humilde. Poderia ter dominado o planeta de vocês sem dificuldade, o que uma educação equivocada ou negligente teria causado. Mas esses dois terráqueos conseguem ser mais fortes do que eu, basta que digam "sente-se e ouça" para me neutralizarem completamente, ao passo que nem os buracos negros resistem à minha força física. Eles sim, mereceriam uma série e uma revista só para eles, para que ensinassem as pessoas a educar seus rebentos. E é por esta educação exemplar, que beira a perfeição, que desabafarei agora, pois a mim ninguém atinge. Eles tornaram meu carácter mais invulnerável do que meu corpo, mas atingiram as duas pessoas que mais amo no universo, isso sim feriu meu coração. Sim, eu tenho e ele está ferido.

Eu nunca fui contra o progresso, as evoluções sociais e a passagem do tempo. Já tenho sete décadas de criação e minha maturidade me permitiria aceitar até o fim das minhas publicações. Pequenas alterações nos meus trajes, Louis ficou com um gênio ainda pior do que nas primeiras estórias e eu só me apaixonei ainda mais por ela. Um conselho aos mais moços, prefiram as bravas, como a Esther da publicação lá em baixo, são as melhores esposas e mães. Moscas mortas e submissas são um passaporte para o adultério.

Agora me digam, como com uma educação assim, eu poderia me corromper? Tendo me atirado uma série de vezes à morte certa, encarando a kriptonita e estrelas vermelhas, eu teria medo da dor? Aprendi a me virar como se fosse um humano comum, teria então medo de perder minhas faculdades especiais? Meus pais genéticos me salvaram sem pensar duas vezes e sem poderem se salvar, meus pais adoptivos me ensinaram a amar o trabalho honesto e tudo o que ele representa, eu jamais desonraria a doação que esses quatros santos me fizeram. Por isso não posso aceitar que um burocratazinho sem talento venha manchar a reputação que eu levei décadas para construir. Essa reputação deixou de ser minha quando o primeiro garoto, ainda nos anos 1930, começou a brincar de um herói que é uma pessoa normal durante a maior parte do tempo. Meu nome é Clark, o herói é um alter ego que protege minha vida privada, é isso que mais procuro ensinar: A pessoa é que faz o título. O resto é ilusão.

Se antes era honesto porque gostava, desde então sou também por obrigação, tenho satisfações a dar para quem se espelha em mim. E eu gosto disso, pois deixo de ser um simples entretenimento e passo a ter utilidade na dimensão de vocês. Isso vale mais do que todas as riquezas do universo.

Sim, na época da minha criação as crianças eram mais inocentes. Mas não se iludam, não eram estúpidas, percebiam o mundo ao seu redor, eram bastante espertas, em certos pontos até mais que as de hoje. É compreensível que linguagens e hábitos dos quadrinhos acompanhem a, perdoem o neologismo, espertificação precoce das crianças. Natural que tabus sejam abordados e que fique claro que ninguém é perfeito, não havendo motivos para que eu seja. Mas há um abismo entre ser imperfeito e ser medíocre. Estão mediocrificando a minha imagem.

Inventaram um marginal espacial que fizeram dar uma surra em "mim". Pela força ninguém me alcança. Pode parecer uma declaração arrogante, mas falsa modéstia não é o meu forte. Se o mal tivesse metade da força do bem, todos os filmes de terror que vocês já viram seriam brincadeiras de crianças. Se o mal triunfa em algum lugar, é porque os cidadãos de bem se omitem, quando agem a fraqueza dos maus se revela e os derrota. Todas as vezes em que a voz do cidadão honesto se levantou em massa, todas as hordas da corrupção se calaram, tremendo nas bases, pois elas sabem que serão massacradas se um dia enfrentarem vocês abertamente. O que esses idiotas estão fazendo é fomentar o louvor ao banditismo, a desesperança e a banalização das pessoas como coisas. Isso é hediondo! Estão destruindo sonhos, que são o que separa as pessoas da insanidade e a sociedade da barbárie. Uma pessoa sem esperanças não tem motivos nem ânimo para trabalhar por si mesma, é presa fácil para a influência dos vilões e seus mentores. Torna-se um bandido na primeira oportunidade, ainda que não tenha tendências sociopatas.

Em nome de uma falsa modernidade embruteceram o meu personagem, sendo que meus pais sempre me ensinaram (com sucesso) a ser polido com as pessoas, o que não significa que eu deva ser um bestalhão que coloca a cara como alvo de tortas. Pelo contrário, Dark Side conheceu meu aborrecimento e se arrependeu de tê-lo provocado. Não gostei do que fiz, mas farei de novo sempre que for necessário. Isso não é ser ultrapassado. Ser ultrapassado é usar um MP4 e se comportar como um huno em sociedade, dirigir um carro com piloto automático via satélite e jogar no bueiro as leis de trânsito como um medieval errante, chamar a atenção para os desmandos alheios e pilhar na especulação como se estivesse negociando escravos. Meus amigos, esse mundo que tentam vender a vocês só é moderno na aparência, é uma tinta brilhante, mas que se descasca ao menor toque. "Com licença", "Por gentileza", "Me desculpe" e "Disponha" não são cousas que devam ser esquecidas.

Há muitos hábitos bons da minha época de novato, que seriam de grande utilidade para o mundo da internet com vídeos. Eu já baixei um sem-número de músicas e episódios, sempre depositando os direitos de quem trabalhou por eles. Mas não querem que vocês façam isso. Aliás, querem, mas só com os gibis (gostei desse nome, melhor do que "comics") e cacarias que eles produzem. Com os outros eles mais querem que vocês tirem o escalpo, para poderem depois alegar "Todo mundo faz, então eu também posso". Não têm talento senão para arrancar seus suados dólares (ou reais, ou pesos, ou euros...) sem dar a mínima para a origem do dinheiro. Predação é um nome feio para os eufemismos politicamente correctos que inventam para seus actos, mas é o que fazem mesmo sabendo que o predado acaba. Acreditem, não me importo com a tanguinha roxa do último filme com o meu alter ego, embora prefira o velho calção vermelho. O que não quero é que, algum dia, um rapaz escreva uma carta dizendo que é meu fã e por isso decidiu ficar covarde e palermão "igual a mim". Se isso acontecer eu ficarei realmente furioso.
Eu sou um homem honesto, procuro ser gentil e prestativo, relevo as pequenas ofensas do dia a dia, cedo com prazer o táxi para a mulher com sacolas de compras. Não fumo, pois o cigarro dá prazer às custas do vício, e eu sou invulnerável. Nenhuma substância impressiona meu cérebro, apenas percebo o (no caso, mau) odor da fumaça por sinais eléctricos dos neurônios. Bebo porque uma bebida bem destilada tem um sabor refinado, mas não me causa prazer além do paladar. Gosto da vida tranqüila que levo. A maior parte do tempo eu nem lembro que existem ameaças, passam-se meses sem que eu precise sequer voar. Vivo como vocês. Portanto não é a um herói que estão ofendendo, é ao cidadão comum, que resiste à tentação do ganho ilícito e quer que o próximo também tenha uma subsistência digna. Ao contrário do meu amigo Batman, um herói de primeira linha que se disfarça de Bruce Wayne, eu sou Clark Kent e me disfarço de Super Homem para a maior parte dos salvamentos, pois às vezes posso fazê-los sem nem precisar sair das minhas roupas comuns. As aventuras que eu avalizava eram uma amostra pequena do meu cotidiano. Se estivéssemos na mesma dimensão, vocês passariam por mim sem se darem conta, a não ser pelo meu tamanho. O porte atlético é comum aos Kent e me pareço muito com eles. Tenho um bom carro, não é luxuoso nem vai a trezentos por hora, mas satisfaz às necessidades de minha família.
Estão vendo? Não sou um ser de outro mundo, só de outra dimensão. Pois adoptei a Terra como meu lar e aqui quero criar meus filhos, ensinando-os o que meus pais me ensinaram, mostrando que a vida como humano é muito mais divertida do que o pedestal dos heróis. Nisto os roteiristas de talento se baseavam para escrever minhas aventuras, nisto eu assentei toda a minha reputação. E são pessoas que fazem e deixam de fazer. Não existe mercado, nem moda, nem tendência, nem outra explicação canhestra para colocar a culpa do que acontece com o mundo. Só existem as pessoas, e as pessoas têm coração, são melhores e mais sensíveis do que fazem parecer, mas estão com medo de se revelarem.

Topo encerrar minha carreira nos gibis, se isso significar o fim do louvou ao que não presta. Se isso significar que vocês passarão a olhar para o seu semelhante como semelhante, não como "o outro", que é o que eu sempre procurei ensinar nas entrelinhas de minhas aventuras. Se vocês não compram, eles terão que mudar para não fecharem as portas. Podem brincar à vontade: Supermongo, Supersucker, Supermané, Super-ado; eu não me importo. É sabido que a sátira neste nível inverte a realidade, apenas para fazer rir. Eu rio.
Tirar qualidades dos heróis não ajuda senão aos que ganham com o ilícito, com o tráfico de armas, de drogas e com o escravagismo. Gostaria muito que isso voltasse a ser motivo para as páginas policiais e não as colunas sociais e revistas de artistas.

Gostaria muito de voltar a ouvir, sem o disfarce azul e vermelho, uma criança dizer "Para o alto e avante".

16/05/2008

Cousas do Brasil: Pumpkin City


Este meme não é irmão da Mymi, mas também vale à pena. Falarei de minha cidade natal, onde (de uma colônia espiritual muito confortável) me jogaram sem dó nem piedade: Rio Verde. A convite da amiga Andréa Motta.

Logo nas proximidades da cidade, a região já mostra sua veia cômica. A uns oitenta quilômetros da entrada, fica a cidade de Santo Antônio da Barra, mais conhecida como Pito Aceso (!), nome pelo qual todos os moradores da região a chamam. Alguns quilômetros à frente temos o povoado de Santa Cruz das Lajes, mais conhecido pelo nome popular: Levanta Saia (!). Por que? Dizem que ele surgiu ao redor de uma casa de tolerância... E o Pito Acesinho logo atrás.

Passei alguns anos sem visitar Rio Verde e, quando fui, vi uma extensão muito grande avançando para o norte. Minha Pumpkin City tinha crescido. E continua crescendo. No fim da década de 1980 os sulistas começaram a invadir a cidade. Ficou esquisito para os meus conterrâneos verem aqueles gaúchos quilométricos andando pelas ruas, abaixando as cabeças para não se enroscarem nos fios da rede eléctrica. Mas cordial (no melhor sentido) como é, o rioverdense não deixou de acolher bem aquela gente, que precedeu a onda de paulistas, cariocassssh, catarinenses e outros bichos esquisitos.

Uma advertência para quem, ao final deste texto, quiser visitar a cidade: Se não sabes brincar, não vá. Rioverdense é gozador por natureza. Se não apelar, o apelido pega; se apelar, vira nome. Adão Pinguinha, Paulo Doido, Paulo Funfun, Torradeira e Beiçuda são os mais carinhosos. Avisados? Então continuemos.

O cognome Pumpkin City, versão modernosa para Riverde das Abobra, foi dado na época em que o município era grande productor de abóboras das mais diversas espécies. Hoje só não planta pequi, porque só agora as mudas comercialmente viáveis para a agricultura estão sendo finalizadas nos laboratórios da Embrapa, mas é questão de tempo. Gado então, ainda mais com a gauchada instalada e bem à vontade, é o que não falta. A cidade está mais cheia de chifrudos do que na minha época de menino... Ehê! Não vá pensar besteira, sô! Estou falando dos bovinos da pecuária, os domésticos são outra história, não me meto em cornos alheios.

Após o choque de um desenvolvimento subito e acentuado, acompanhado da completa reformulação do perfil do cidadão local, o povo está se acostumando com a nova cidade, pois há bem pouco tempo Rio Verde ainda era provinciana, calçamento era para poucas ruas e os atoleiros proliferavam a cada chuvisco. Além do crescimento demográphico e da modernização meio forçada, os abobrenses ganharam uma cidade com um charme meio europeu. Casas dos anos 1920 até 1980 dividem espaço com edifícios arrojados. As áreas verdes dão, de uma vista aérea, a impressão de que o asfalto ainda não chegou. Jardins em frente às casas são quase uma instituição que delicia os olhos, o rioverdense colabora preferindo a grade ao muro. E mesmo com tanta árvore e tanto asfalto a poeira corre solta. É poeira vermelha, daquela que tinge a roupa e fica, se não houver uma lavagem rápida e bem feita. Trabalhar com roupa branca é uma missão ingrata, estará rubra antes do fim do dia, pois a cidade cresceu ao redor de fazendas, e o clima propício permite que se trabalhe o ano todo. Colheu cana, planta abóbora, depois milho, descansa (exceto a poeira), vai um feijãozinho básico, um pouco de soja, girassol e a prole do quimbim. Fora isso, é divertido. A humidade relativa do ar é boa e bem regular, os muitos aclives e declives proporcionam um bom condicionamento físico, mesmo andando pouco. O Calçadão da Nascimento é cheio de lojinhas charmosas e foi feito privilegiando o pedestre, deixando uma só pista para os carros. Sempre há uma festa agendada, sempre há um Fusquinha envenenado e customizado para ser sorteado em algum mês do ano, sempre há um rioverdense por nascer nove meses após cada festinha dessas. Fazer o quê? O povo não previne.

Minha família era conhecida como Queixada. Era gente brava, temida, até perigosa. Conta a minha avó que, certa feita, uma sirigaita começou a dar em cima dos homens da família. As mulheres se reuniram e deram um ultimato à dita cuja, que fez troça da ameaça. Quem tiver, ponha a trilha de "O Poderoso Chefão" que a cousa ficou feita. Despiram-na, seguraram-na e encheram-lhe a pequiquita de pimenta até o fundo. A infeliz correu desesperada e pelada pela cidade, aos gritos, desaparecendo depois de ter que retirar tudo em uma cirurgia, do útero até o clítoris. Já os Queixadas de pitos acesos, eu estranhava, quando criança, ver homens não tão velhos com tantos dentes faltando. Depois que meu avô também levou um pontapé e caiu na cidade, a história começou a mudar. Homem sábio, embora meio irresponsável, calmo e cheio de autoridade, conseguiu domar a índole genocida da família. Daquela época só ficou a fama de gozação, que deu origem a Cabeção, Farofa, Jacaré e outros apelidozinhos tão fofinhos. Mas é bom não folgar.

Conta também que, na época da Segunda Grande Guerra, houve uma epidemia de uma doença que matou quase todos os habitantes. Dos que não foram embora, só restou o meu avô Joaquim, o sêo Quimbinha, que enterrou o último. O moço ficou sozinho na cidade até o perigo passar e os outros voltarem. Pois esse mesmo moço, décadas mais tarde, aprontou uma com a família. Me pegou (pouco mais que um pacotinho ambulante) e me levou para passear, no decorrer dos doces, picolés e pipocas, ele percebeu que ficara meio tarde e, na volta, viu o desespero instalado. É, fiotes, o celular é uma praga, mas tem sua utilidade.

A rua onde minha avó ainda mora (Rua Goiânia, n° 171) já foi passagem de boiada. Hoje o desfile é de Caminhões modernos, carros Mercedes-Benz, BMW, Fusion, Ômega, picapes do tamanho de um trem; que convivem com Fuscas, Corcéis, Brasílias, Rurais, Jeeps e outros do gênero. Não há discriminação, até porque as estradinhas secundárias ainda têm muitos trechos precários e dá dó colocar um Vectra novinho para arrebentar a suspensão, melhor usar um que agüenta o tranco. Aliás, há um Corcel amarelo (1975, creio) que há até pouco tempo ainda era usado como táxi, agora é carro de passeio, o folgado.
Fora aquele "Cristo Redentor" meio cafona (não sou afeito a modismos e imitações descriteriosas) posto em frente à rodoviária, toda a cidade ficou mais bela. Supermercados modernos, mas não muito grandes, garantem uma diversidade de confeitos difícil de encontrar em Goiânia, pois o paladar do rioverdense ficou mais refinado que o do goianiense. A maior proximidade com São Paulo também ajuda, claro, são duzentos e quarenta quilômetros a menos de buracos e assaltantes para fazer o transporte. O melhor foi o nativo ter aceito bem e aderido, o que mostra que a mentalidade também evoluiu, pelo menos um pouco. Um porém, é que ele continua dirigindo como se estivesse no carro de boi. Imagine isso em uma carroça, forte, mas muito lenta; agora imagine isso em um carro que passa dos cento e vinte por hora sem que o motorista perceba. Atravessar ruas em Rio Verde pode ser uma aventura. Mas compensa, asseguro que compensa. Dá para encher vários cartões de photographia e não esgotar os motivos, especialmente o pôr do sol que, com toda aquela poeira e poucos edifícios no horizonte, é um espetáculo. E olha que nem falei do destemor das moças pelo frio, é preciso o termômetro maltrar muito para a minissaia voltar ao armário... e pouco para um pai bravo correr atrás do abusado. Apenas contemplem, por obséquio. Quem sabe uma gentileza e consigamos a amizade da família, que nos apresenta a mais beldades, quem sabe evolui, quem sabe em um ano ou dois os filhos nascem e o vovô coruja agradece pelos netinhos. Vamos com jeito, que melhor cousa do Brasil é o povo, mas também pode ser a pior para quem não souber se portar.
Pumpkin City recebe bem, mas vá de estômago vazio, na primeira amizade vão te enfiar comida até pelos ouvidos.

04/05/2008

Para Audrey Com Carinho


Aos cuidados de Joanna de Angelis.

Feliz aniversário, Audrey. Hoje faz setenta e nove anos que tivemos a alegria de tua companhia. Parece que foi ontem que Bruxelas guardou segredo do nascimento de um anjo. Quatro de Maio de Mil Novecentos e Vinte e Nove, logo no auge dos anos loucos nasceu um ícone de elegância e serenidade.

Muitos preferem lembrar de tua partida, mas eu não gosto de celebrar prantos, celebro a vida, pois foi a lição que nos deixaste. Ela van Heemstra talvez não soubesse do legado que deu à humanidade, quando trouxe para nós aquela bolinha de carne tão fofa e dengosa. Talvez para que não se assustasse com a responsabilidade de educar um espírito tão elevado e próximo da perfeição.

Se parecias com qualquer menina dos anos 1930, embora não fosses robusta como se gostava na época. Passarias desapercebida se fosses cega, mas teus olhos arregalados e curiosos intimidavam. Por eles deixavas aparecer a tua autoridade moral, e aquela meia-franja charmosa para a esquerda não deixava dúvidas, teu estilo era e continua sendo só teu. És imitável, pois a tecnologia de hoje transforma qualquer atração do circo de horrores em uma beldade, mas ninguém te iguala. Bastaria abrir a boca para, por mais instruções que recebesse, que a mortal revelasse a abissal distância que separa uma “celebridade” de uma pessoa célebre. Pois tu e tudo o que te diz respeito merece ser celebrado.

Decerto que tua educação foi rigorosa, talvez um pouco dura demais. Mas teus pais não poderiam ter corrido o risco de falhar da lapidação de um diamante do teu quilate. Hoje sabes o quanto o conservatório te fez bem, assim como o mundo agradece teus genitores pela educação que foi a tua maior herança. Teu berço, Audrey, é a união do melhor de dois mundos; todo o refinamento aristocrático de uma Europa que já não existe, combinado com o desprendimento e amor ao próximo que raríssimas pessoas têm, mas muito raramente se encontra entre os actuais ricos.

Ah, boneca, foi tão bom! Tão bom! Tanta cousa que queria te dizer, mas as circunstâncias não me permitiram fazê-lo pessoalmente.

Dividimos o mesmo orbe por duas décadas, mas não tive a chance de apertar tua mão e trocar correspondências. Às vezes é o que mais me entristece, Audrey. Muito pior do que perder uma presença da tua estirpe é, talvez, jamais ter tido a chance de beber da fonte que te deu tamanha sabedoria. Tenho que me contentar com os respingos que ainda restam.

Sonia Gaskell e Marie Rambert nem de longe imaginavam a responsabilidade que tinham em mãos, talvez quando viram “Holanda em Sete Lições”, mas teu brilho não se revelaria antes da hora. Elegância e paciência são sinônimos. Provavelmente tremeram nas bases quando “Sauce Tartare” entrou em cartaz, pois tua presença sempre foi maior do que a cena. Se tivessem falhado, teria sido a maior falha da história das artes.
Mas a produção já quase esquecida pelo grande público deu o seu recado. Audrey Kathleen Hepburn-Ruston já não era propriedade da Europa, mas patrimônio cultural do mundo.

Curioso foi assistir “A Princesa e o Plebeu” e pensar “ela está realmente interpretando?”, afinal a tua educação foi a de uma rainha e isso era absolutamente natural para ti. “Sabrina” teve outras intérpretes, mas nenhuma foi dona da personagem como tu. E quando soltaste a voz em “Bonequinha de Luxo” em 1961! “Moon River” nunca mais teve uma voz tão bem encaixada. “My Fair Lady” deixou, entretanto, patente o gigantismo que teu corpinho esbelto escondia. Tu foste uma caipira da melhor categoria. Eu ri das mancadas convincentes, na tentativa de transformar uma pedra bruta no brilhante que tu já eras.

A tua obra cinematográphica é imensa, Audrey. As alegrias que, mesmo a custa de lágrimas, deste ao mundo não tem preço, faz o ingresso mais caro do cinema mais esnobe ficar barato. Mas nem de longe a sétima arte se compara com o teu real legado, o bom exemplo.
Ainda não era moda nem politicamente correcto se preocupar com os famintos. Na época era cousa de gente visionária sem os pés no chão. Bem, com a educação que tiveste e a tua experiência materna (Sean vai me dar razão) não há como não ter os pés no chão. Tu não só se preocupaste como, em vez de dar festinhas grã-finas para arrecadar roupinhas rasgadas, arregaçaste as mangas e foste pessoalmente ver, à margem dos riscos que corria, a realidade de perto. Pés no solo árido, um chapéu para proteger tua pele européia do sol causticante, abraços em crianças das quais a maioria queria distância, brincadeiras com uma garotada que só conhecia a vida rude e embrutecedora, que ainda hoje impera em grande parte do mundo.

Audrey, isso ainda hoje é raro! Quase ninguém faz isso! As pessoas têm medo até de adolescentes que andam a pé, imagine uma criança faminta que não tem o que perder e não fala o teu idioma! Muito marmanjo foge de medo. Mas tu foste. Tu foste! Foste bela mesmo em um cenário degradado, foste elegante mesmo sob condições de curvar a coluna, foste digna em episódios reais que fazem qualquer um chorar de culpa e desespero. Eu te amo, Audrey. Nunca trocamos uma palavra, mas tenhas certeza de que sou teu súdito leal.

Hoje é difícil alguém se esmerar em fazer uma obra artística de qualidade, ter boa vontade de deixar para a posteridade um acervo que valha à pena preservar. Apenas isso já tornaria uma pessoa célebre de verdade. Mas o teu legado é muito maior do que o cinema, o teatro, a música e qualquer quimera bonitinha que inventem. O Mestre disse “Amai ao próximo como Eu vos amei” e tu obedeceste. Sem hesitar. Sabes quanta gente com a bíblia mofando debaixo do braço faz isso? Menos gente do que as pessoas que podem e vão à África, arriscar seus pescoços milionários para fazer algo que preste. Tu foste rica, na Terra, tinhas mais do que o necessário para sobreviver. Pois era pouco. Mereceste cada centavo que ganhaste, cada viagem de férias e tudo o que uma encarnação humana não é suficiente para oferecer. Ser bilionária, para ti seria pouco. Merecias ter tido tudo.

Não vou me iludir, acreditando que és perfeita. Mas sem dúvida estás bem próxima disso. Também tenho os pés muito firmes no chão e sei o quanto isso nos torna chatos, perfeccionistas e exigentes. Mas tu soubeste direcionar para o bom caminho o que torna insociável a maioria das pessoas.

Confesso que, recluso como sou, em 1993 não me dei conta da perda que tua ascensão nos causou. Mas na época eu era cético, um bobo triste que achava que poderia deduzir toda a existência com a matemática fria e primitiva de que dispomos. Bem, as cousas mudaram. Hoje sei que sou apenas responsável pelo meu destino, não posso controlar de facto seus rumos. Mas posso usar da humildade que as surras da vida me deram e reconhecer a tristeza de, entre 1972 e 1993, jamais ter tido a mínima chance de me sentar no banco de uma praça e dar de cara contigo. Vinte e um anos praticamente desperdiçados. Tu ririas da minha seriedade e da dificuldade que tenho em perceber uma brincadeira. Da mesma forma com a qual sorrias para crianças que só conheciam o ranger de dentes e o ruído do estômago vazio. Pois na época eu precisei disso.

Mesmo assim agradeço. Já não execro a humanidade. Há pessoas seguindo os teus áureos exemplos. Ainda poucas, mas são essas pessoas que realmente importam no mundo, as outras podem se afogar em suas mesquinharias hipócritas e que não me amolem. A onu não é mais a que representavas. Está nas mãos de uma ditadura. Ainda bem que não estás mais ao alcance dela, tuas ações seriam incômodas para essa gente. O clima de optimismo e esperança não voltou, como alguns esperavam, na verdade parece mais um conto-de-fadas do que um registro histórico.

Agradeço, Audrey, do núcleo deste coração castigado, por teres aceitado a missão de descer a este mundo ainda torpe. O que fizeste é indelével e impagável. Encobre com folga os teus erros, paga e dá troco pelas tuas faltas.

O que mais posso te dizer? Feliz aniversário, Audrey. Que tua estadia no plano confortável em que se encontras ainda seja longa, apesar de perdermos com isso. Que tua próxima encarnação possa refletir ao menos um pouco da imensa luz que emanas. Que teus descendentes continuem honrando a obra que deixaste. Que tua fundação só acabe para ser transformada em instituição global. Que tuas bolsas vendam como Mustang. E que eu tenha a sorte de ainda te encontrar quando também subir, embora vá ficar em um plano ligeiramente mais baixo.

Feliz aniversário, Sabrina.

28/03/2008

"Quem matou o carro elétrico?"


Acreditem, não foi um productor de petróleo temeroso pela falta de demanda. Há mais de uma década a indústria automobilística se tornou mais poderosa do que a de combustíveis, e o petróleo pode ser transformado em muitas cousas. O impacto de todos os carros do mundo passarem a usar baterias aumentaria a demanda por plásticos, pois baterias são pesadas e a redução de massas seria necessária. Teria que ser muito incompetente para quebrar por causa disso.

Tampouco foi a indústria de autopeças. O motor eléctrico quase não pede manutenção, é praticamente instalar e esquecer que ele existe, dispensa transmissão com escalonamentos de marchas na maioria dos carros. Mas suspensão, direção, freios, rodas, equipamentos de segurança e de conforto continuam existindo. Eles pedem manutenção, alinhamento, balanceamento, retífica, reparos, quem sabe um upgrade. Fora que os antigomobilistas jamais abandonariam seus bebedores de combustível, apesar de este se tornar muito caro, no contexto proposto.

Menos ainda uma conspiração internacional para conquistar o mundo, tudo o que um ditador não quer é um povo doente e insatisfeito. Quanto mais puro o ar e silenciosas as cidades, mais calma e saudável é a massa, portanto mais apta ao trabalho. Meio sinistra, esta parte.

"Quem matou o carro elétrico", como escandaliza a frase que infesta a internet, fomos nós. Por que? Porque não o compramos, simples assim. Se compramos, é produzido. Ponto final.

O motor eléctrico é uma maravilha. Silencioso, eficiente, quase indestructível, produz várias vezes mais torque do que o melhor motor a combustão com mesma potência. E ao contrário deste, que precisa girar rápido para gerar força, aquele gera até parado. Por isso muitas vezes dispensa marchas e reduções. Também é muito simples, praticamente é um eixo cheio de bobinas girando dentro de uma carcaça com mais bobinas, fácil de reparar, fácil de envenenar, só consome a potência mínima necessária ao funcionamento na velocidade em que estiver.

Agora, meus amigos e minhas amigas, vocês se perguntam o motivo de termos rejeitado algo tão maravilhoso. Alguma cousa há que eu não expliquei. E há.

As baterias de hoje são, praticamente, os mesmos trambolhos do fim do século XIX. Volumosas, pesadas, caras e armazenam pouca energia. Estão surgindo novas baterias, mas é só agora que elas estão surgindo e ainda são caras demais, mesmo assim ainda não são páreo para um tanque cheio de álcool e um câmbio de cinco marchas. O porém é que raramente andamos mais de oitenta quilômetros por dia, um carro eléctrico consegue facilmente exeder cem quilômetros de autonomia a cem quilômetros por hora ou mais. Devagar, na cidade, uma carga pode durar três dias ou bem mais. E a electricidade é muito barata, se comparada aos combustíveis.

"Então, tio, por que a gente não pegou essa bocada?" é o que me perguntam. Resposta: preconceito. No início do século XX os eléctricos eram grande maioria. Nessa época ainda se girava uma manivela para o carro pegar, o que literalmente quebrava braço de muito marmanjo desatento ao motor. Por isso as mulheres preferiam as baterias a usar gasolina/gás/querosene/et cétera. Também eram (e ainda são) extremamente silenciosos, em uma época em que nível de ruído e poluição não preocupavam senão poucos gatos pingados. Imaginem então, qual motorização uma mulher de posses preferiria. Vejam bem: Mulheres conseguiam dirigir com relativa tranqüilidade. Logo os machões reclamaram e iniciaram a difamação, dizendo que esses carros eram "suaves" demais para um homem de verdade, que macho tinha que fazer força, ouvir barulho e cheirar fumaça. Em um mundo tão conservador e patriarcal, isso caiu como uma bomba. É por isso que muitos idiotas retiram o silencioso do escapamento, para parecerem mais "machos". Só que a inspeção veicular já está começando, terão por força de lei que restaurar os escapamentos, ou seus veículos não sairão do pátio do Detran. Sem a demanda de motores potentes, os investimentos para novos acumuladores minguaram.

Alguém deve estar pensando que isso foi há muito tempo e já não tem valor. Pois se engana. O caso do EV-1, o mais notório de todos, foi quase a repetição. Donos de carros ruidosos e fumacentos usaram a velha mentalidade e espalharam que "carro eléctrico é para mariquinhas". A sociedade retrógrada da maior economia do mundo acatou de imediato. O EV-1 foi vendido na forma de leasing, ao fim do qual deveria ser devolvido à General Motors (isso pegou mal) e, sem a pressão popular em prol daquele carrinho bonito, elegante e arrojado, os "donos" tiveram que devolver. Foram todos destruídos em prensas. Estupidez? E como! Mas estupidez principalmente dos consumidores. Não existe indústria poderosa, organização poderosa, país poderoso, meninas super poderosas. Se nós não compramos deles, eles não têm verba para manter poder algum. Nós (eu, tu, ele, nós, vós, eles) é que damos e tiramos poderes de empresas e governos. Se tivesse havido uma comoção, o EV-1 talvez até tivesse sido descontinuado, mas estariam todos os exemplares ainda rodando, pois ninguém é besta de peitar quem lhes garante os lucros: nós. Ou seja, os electrocidas fomos nós mesmos.

Há, entretanto, uma nova chance aparecendo. Infelizmente ainda são muito caros, mas esportivos eléctricos de alto desempenho e boa autonomia já estão sendo vendidos em algumas partes do mundo desenvolvido. Tendo o triste evento ocorrido há tão pouco tempo, é bem provável que os novos modelos vinguem. Quem sabe a demanda, que é maior do que os fabricantes esperavam, possa baratear e possibilitar um carro familiar.

Mas, ei, há muitos engenheiros mecânicos de talento desempregados! Também há muita gente que não sabe onde gastar seu dinheiro, e que vive reclamando dos ônibus fumacentos e do barulho das metrópoles. Não quero dizer onde cada um deve gastar sua verba, mas se querem melhorar alguma cousa, dêem o exemplo e comecem. Freqüentemente há leilões de carros batidos, pelos quais ninguém dá mais que uma ninharia, mas que um profissional competente consegue facilmente colocar para rodar, em silêncio, sem fumaça e sem marchas. Manhã de inverno em São Joaquim? Blé! Liga a chave e acelera que ele anda, sem essa de aquecer o motor para poder dar partida. Infelizmente o banco já não me dá mais extrato, me dá atestado de pobreza, então não posso ajudar senão com alertas e idéias. Aquela caminhonete só roda na cidade, fazendo entregas? O motor está fazendo dez quilômetros por litro de lubrificante, após a sexta retífica? Tem algum para investir? Acopla um trifásico de vinte cavalos na transmissão, põe um sub-chassi com umas dez baterias e manda ver. O resultado vai surpreender, pois já há gente fazendo isso pelo mundo inteiro, inclusive no brasil.

Talvez eu esteja sendo um pouco subversivo, mas às vezes é necessário uma chacoalhada para as pessoas acordarem. Às vezes precisamos sentir falta de ar puro e silêncio, o que não falta geralmente não tem o valor reconhecido.

O que digo aqui vale não só para o tema do texto, mas para qualquer assunto. Se tu não compras, ninguém fabrica, ninguém se esforça em aperfeiçoar; seja carro, electrodoméstico, brinquedo, programa de televisão, o escambáu. Aliás, sugiro que evitem programas de tevê apelativos, que não acrescentem bulhufas. Eles alienam, gente alienada não reclama e compra o que lhes é empurrado. A retomada das pesquisas não se deu de boa vontade, a legislação contra emissões pesou na balança, agora as montadoras estão em uma corrida pela bateria eficiente, inclusive a General Motors. Alguém pressionou, e pressionou feio.
No fim das contas, ninguém perde com uma evolução. E geralmente são os ranhetas, antes contrários, os que mais gostam quando ela dá os devidos frutos.