17/10/2009

Vila Trabalho

Vila Trabalho é uma cidade serena, mas não uma cidade pacata. Em suas ruas sempre há gente, sempre há movimento. Quem trabalhou até á tarde serviu quem trabalhará até de madrugada, que agora os serve. O trabalho faz parte da vida do trabalhense. Desde criança vê seus pais chegando exaustos do serviço, mas nunca mau-humorados. Chegam aliviados de poderem descansar, não reclamam de terem se cansado. Uma vez em casa, aproveitam a família, os amigos, as tosqueiras do dia a dia que seus rebentos proporcionam.

É comum haver crianças nos locais de trabalho dos pais. É comum que aprendam com eles uma profissão. É regra já terem seu próprio dinheiro aos dez anos, por pouco que seja. Nenhum conselho tutelar pune quem ensina uma profissão a uma criança, puniria quem a deixasse à esmo na rua, mas um trabalhense não faz isto.

As crianças trabalhenses estudam e o estudo é considerado um trabalho. Quem trabalha com crianças, então, recebe adicional. Professores, enfermeiros, psicólogos, babás e assistentes sociais são uma elite. Porque seu trabalho não tem fim, mesmo quando chegam em casa, no fim do expediente, há amigos e vizinhos que aguçam sua índole laborativa.

A expectativa de vida do trabalhense é elevada. Raramente um se aposenta de acordo com a lei, eles preferem trabalhar até onde derem conta. Quando o corpo já não coopera como deveria, a vida útil e productiva lhes deixa de herança uma mente lúcida, que permite o trabalho intelectual. Aos setenta anos ainda fazem planos para o futuro. Não só planos, como estudos e cálculos para viabilizá-los. Todo trabalhense quer deixar à posteridade o que tem de melhor, o bom exemplo. Gente com mais de cem anos ainda trabalhando não é notícia, a não ser para a imprensa de fora. Músculos, ossos e sistema nervoso sabem agradecer por uma vida de trabalho árduo e regrado.

Quando as abelhas trabalhenses vão se divertir, é hora das corujas trabalharem.
Trabalhenses gostam de dançar e cantar. Bailes informais e de gala fazem parte do cotidiano, são verdadeiros pés-de-valsa. Com o apuro que o senso de prioridade lhes lega, sabem identificar uma boa música e um bom intérprete. Nem tudo o que é sucesso aqui fora tem êxito por lá, e vice-versa. Bares e restaurantes nunca estão lotados, mas sempre com boa ocupação. Todos se tratam pelos nomes, cordialmente. O gari que varreu e recolheu folhas, por falta de lixo nas ruas, durante o dia, é o cavalheiro que conduz sua convidada à noite. O trabalho é valorizado, ser útil é bem visto.

Ser mãe é uma missão respeitada e bem remunerada. Quer alguém mais útil à sociedade que uma boa mãe? São autoridades. As meninas aprendem desde cedo os ossos da maternidade, mesmo que não venham ter filhos o conhecimento terá serventia, mas também a não depender dos outros para se manterem. O treinamento começa com a menina ajudando a cuidar de crianças de colo, ainda que seja apenas segurando a mamadeira ou uma fralda, enquanto a mãe ajeita o rebento. Paralelamente isto evita os ciúmes que os recém-chegados consumam suscitar, pois quem ajuda a cuidar também é cuidado e recebe atenção. Embora mais intensivo para elas, os meninos também têm que ajudar, pois mulheres não engravidam por brotamento.

Na Vila Trabalho há poucos chaveiros, pois há pouco mercado para eles. O que fazem é trocar fechaduras danificadas por mau uso, pelo tempo, substituir chaves perdidas. Fechaduras com segredos e toda a parafernália a que nos acostumamos, lá não existem. Onde o trabalho tem o status que por cá damos à malandragem, criminalidade é notícia vinda de fora.

Foram séculos de trabalho para ser o que é hoje. Conspirou a favor o facto de nunca ter despertado interesse de turistas nem de políticos, de estar em lugar de difícil acesso e ter poucos recursos naturais. Vila Trabalho se fez por si mesma, nem sempre teve papel-moeda suficiente, então as transações se davam com base na confiança, que foi cuidadosamente cultivada pelos seus cidadãos.

Não tente procurar Vila Trabalho em reportagens, no máximo vais encontrá-la em trechos da literatura oficial. Pois não desperta interesse político. Seus vereadores têm pouco o que fazer, além de ajudar o prefeito a administrar, pois um povo civilizado e comprometido com a coletividade não precisa de muitas leis, na verdade mais de três quartos delas foram abolidas com o passar dos anos, pois se tornaram supérfulas e obsoletas.

Poucos viajantes não para Vila Trabalho, bem menor ainda é o turismo, pois a única estrada que lhe dá acesso não passa por lá, vai pra lá. Só vai quem realmente quer ir. Mas a cidade não tem as atrações que a maioria julga imprescindível para um bom turismo, e a cidade não as quer.

Os dois únicos jornais diários não têm ligação com os grandes jornais, as três emissoras com freqüência trabalham em conjunto. Dão poucas informações a respeito do lugar e só quando são solicitadas. Mas há trabalhenses estudando e trabalhando pelo mundo e eles servem de correspondentes. É uma situação confortável, é uma cidade invisível que sabe tudo e da qual quase nada se sabe, senão por photographias de satélite e relatos de viajantes, que poucos se importam em ouvir. Nem a criminalidade reinante no país se interessa, pois não há mercado para uso recreativo de entorpecentes.

Recreação em Vila Trabalho é farta, mas não tem anúncios escandalosos, apelativos, nem são excludentes, são para a família toda. Porque foi na família que Vila Trabalho encontrou o gérmen de seu sucesso. E o sucesso de Vila Trabalho está intimamente ligado à discrição do trabalhense. Discrição não dá ibope. Na verdade, eles não diferenciam trabalho de diversão. Só tratam de ter suas pausas regulares ao longo do dia, para não serem traídos por seu amor ao labor.

Como regra de um bom trabalhense, lá se dá o melhor de si o tempo todo, é ponto de honra. Logo a mente do cidadão está alerta e bem calibrada. É natural encontrar um doutor de alguma área em qualquer lugar, crianças falando vários idiomas com naturalidade nacional, às vezes rodinhas discutindo cada um em um idioma, para ajustar melhor os neurônios. A internet foi uma bênção, pois agora eles podem trabalhar para empresas distantes sem sair de sua amada cidade. Mais uma vez eles sabem do mundo que não sabe deles. Levam a sério o que fazem, mas não a vida que levam. Por isto mesmo poucos programas de televisão vindos de fora têm índices significativos de audiência. Por isto mesmo Vila Trabalho permanece em seu lugar, crescendo sem inchar, sem chamar atenção.

Trabalhense que se preze sabe aproveitar a vida sem depredá-la, para tanto, nada melhor que se sentir útil. Trabalhense útil é trabalhense feliz.

10/10/2009

Fazendo um hedonista

Um dia tudo isto será seu. Você vai ter milhares de empregados, será dono de doze empresas presentes em sessenta países.

Será uma vida de viagens e estresse, mas valerá à pena. Você vai conhecer gente interessante, aprender idiomas naturalmente, se relacionar com líderes e ganhar prestígio.Veja aqueles trabalhadores lá em baixo. Pois é lá que devem ficar. Dêe-lhes um agrado de vez em quando para que não causem problemas. O sindicato será uma pedra no sapato, sempre foi assim. Nós querendo que esses asnos bípedes trabalhem de graça, eles querendo que recebam sem trabalhar. Sabe o que fazer? Suborno. Sempre haverá um traidor ambicioso querendo o lugar do chefe, ele será fácil de identificar. Geralmente é um morto de fome que suou para ter uma vida menos medíocre que os outros, mas acha que merece mais. Mas na primeira crise não hesite, mande uma centena deles embora que logo esquecem dos ganhos e tentam negociar garantis de emprego, é então que você os tem nas mãos sem eles perceberem.Vou te mostrar como comprar políticos. Vai aprender a identificar os que simpatizam com a sua causa própria. De cara você vai ganhar doze deputados e seis senadores que já tenho no bolso. Foram eles que atrasaram algumas leia ambientais e nos deram tempo para desmatar completamente a área para a construção deste hotel.

Uma dica é atrapalhar o desenvolvimento do país. Está cada vez mais difícil e não vai dar para fazer isso por muito mais tempo, mas será o suficiente para você acumular mais alguns bilhões e mandar para o exterior, longe das conquistas sociais que estão acontecendo por aqui, desde o FHC. Temos suporte político para tanto e a mídia muito bem paga para nos acobertar. Só não exagere, senão nem o presidente da república safa a sua cara. Faça tudo muito discretamente e bem feito, para ninguém descobrir antes que seja tarde, ou tenha expirado o crime.

Funcionário público é tudo corrupto, salvo uns poucos que eu consegui neutralizar e acusar de corrupção, para que não me atrapalhassem. Se for mulher então, fica mais fácil ainda, com sexo. Mas mantenha as mãos deles sempre cheias para que não dêem para trás. Quando eu digo "cheias", não é dinheiro de verdade, é uma esmolinha que fazem brilhar os olhos desses pés-rapados, mas não nos faz diferença. Eles ficam molinhos quando ganham um Civic automático, nem sabem o que é um Rolls Royce. A turma do meio ambiente e da vigilância sanitária são nossas maiores dores de cabeça, então merecem presentinhos melhores, desses que não cobrem uma festa na nossa mansão. Pobres patéticos.
Até há um ano tínhamos contacto com piratas somalis, mas os cretinos ficaram muito ambiciosos e tivemos que executar um grupo deles, para que os outros nos deixassem em paz e não nos delatassem. Lembre-se: Ninguém precisa saber como financiamos nossas propriedades, mas todos precisam babar por elas, os acionistas gostam de prosperidade e o Zé povinho simpatiza com gente rica. Bem, vamos agradá-los e enriquecer mais.

Por falar nisso, contractei uma equipe de reportagem para cobrir a sua viagem à Santiago de Compostela. Enquanto os seus amiguinhos vagabundos vão derreter seus poucos neurônios remanescentes em viagens da moda, você vai ganhar a fama de garoto precoce e responsável, preocupado com coisas mais elevadas e relevantes. Só que ninguém precisa saber quais são. Já combinei tudo com a agente daquela modelo que venceu o último reality show. Esnobe ela no primeiro encontro, depois pode puxar conversa.

Assim que a sua mãe voltar do shopping, vamos conhecer um grupo de colaboradores, são marqueteiros e publicitários que divulgam nossas ações sociais, para distrair as atenções enquanto dilapidamos os bestas que trabalham para nós. Ah, se soubessem o quanto lucramos com seus suores fedorentos!Só uma última recomendação. Você provavelmente será a última geração com esta facilidade toda, infelizmente o Brasil está para dizer adeus ao terceiro mundo. mas enquanto o Zé povinho continuar alienado e imbecilizado com futilidades de televisão, brigando por time de futebol ou qualquer outra irrelevância, nós teremos tempo para enriquecer mais sem recorrer a métodos trabalhosos. Além do mais, honestidade é para os fracos.

Chega a esposa cheia de sacolas, aparentemente sem ter se preocupado com os custos, é a benfeitora que dá boa fama à família. O pai vai buscar o Droop Head enquanto ela conversa com o garoto...

E então, ele disse tudo o que eu previ? Foi o que pensei. E como te ensinei, você vai fazer tudo ao contrário, certo? Certo. Você já tem a minha fortuna para se assegurar, no futuro, ganha honestamente, sem o corno do seu pai saber. Vou te ensinar como fiz isso, em Santiago de Compostela. Vamos embora.

03/10/2009

Proibido fazer xixi no poste

Não sei como é nas cidades de vocês, mas em Goiânia bastam algumas gotas para que o sistema público de energia tenha um revertério. Nem precisa haver trovoada, não precisa cair granizo, nem uma tempestade diluviana, basta a água da chuva encontrar um transformador de mau humor e pronto, todo mundo no escuro.
Sim, chuvas causam queda de energia no mundo todo, não é novidade. Mas aqui o caso é grave. Na onda das privatizações, durante os orgasmos neoliberais do Privatizando Henrique Guloso, nosso governador à época quis imitar. Privatizou a melhor parte da Celg, que já não era um primor em seus serviços e pimba! A baixa qualidade dos serviços despencou vertiginosamente.

O maior problema é que o consumo de energia em Goiás cresceu muito, ao que se comparados, os investimentos em infra-estrutura energética mais parecem saques do que depósitos. Já temos indústrias automobilísticas, uma delas de primeira grandeza. Fabricar carros demanda uma rede de outras empresas tal qual o cérebro precisa de um corpo saudável. E os investimentos não acompanharam cousíssima nenhuma.

Nossa rede é arcaica, subdimensionada e não conta com proteção eficiente contra descargas eléctricas. Pagar prejuízos já faz parte da folha de despesas permanentes da Celg. Aliás, quase tivemos um de monta além do material. Medicamentos termolábeis, que precisam ficar em uma faixa muito estreita de temperatura, guardados do frigobar. Caríssimos e, ainda que pudéssemos pagar por eles, o laboratório só vende para pessoas jurídicas. E este medicamento mentém uma pessoa viva. Vocês não imaginam a burocracia que é para se ter uma distribuidora de medicamentos, além de ser extremamente caro de se manter.

Certa feita, quando no curso de mecânica, um professor disse que se todos os tornos do laboratório tivessem uma repenteina reversão ao mesmo tempo, a cidade ficaria às escuras. Bem, não é só por causa da potência dos motores, nem só porque a força contra electro motriz consome o quintuplo da energia da força electro motriz; nossa rede foi pensada para a Goiânia que Pedro Ludovico Teixeira fundou e que hoje não teria mais que sessenta mil habitantes. Somos um milhão e duzentos mil.

Tudo o que se investiu desde então, foi pífio. Tão pífio, que a venda de geradores a combustão teve um crescimento expressivo. Há um ano, no supermercado que freqüento com trema, vi um ou dois geradores estacionários pequenos e caros, suficientes apenas para uma chuveirada ou para a iluminação de uma casa. Hoje, por aquele preço, ele oferece (de uma gama já vasta) um baita gerador que nem nos faria sentir a queda de energia. Ou seja, o negócio prosperou, há muitas lojas que passaram a vender geradores. As que já vendiam estão expandindo.

Do jeito que vão as cousas, em breve a população vai dar um pé nos fundilhos da distribuidora de energia eléctrica e gerar sua própria energia, a um custo ambiental bastante alto. Os geradores quase sempre são equipados com motores antigos, de baixa eficiência e que não estão sujeitos às normas de emissões, que no Brasil já estão jurássicas. Claro, um bom preparador pode resolver o problema, mas a população não sabe disso do mesmo modo que não sabe que se pode construir até três carros por ano, sem precisar de pessoa jurídica. A poluição vai crescer assim como o preço da gasolina, por conta da demanda.

A manutenção da rede, hoje terceirizada, é de assustar. A maioria deles se parece com Homer Simpsom, tanto na aparência quanto na sutileza dos métodos. Vocês podem imaginar o que é isto em sistemas eléctricos? Todo e qualquer conserto dura pouco, pois é feito com o melhor que se pode comprar com o pior que a empresa paga. Mas verba pra publicidade eles têm. E que publicidades optimistas!

Mas o correcto seria mesmo cada casa gerar sua própria energia, mas isto infelizmente ainda é muito caro, se não quisermos queimar combustível. painéis photovoltaicos são caríssimos, praticamente dobrariam os custos de uma construção residencial. Na Europa existe uma política de incentivos, existem fábricas para a demanda, mão de obra para instalação e manutenção. Por aqui eu não penso em ver isto pelos próximos vinte anos, não tenho vocação pra Polyanna.

Outro risco é o contingente de péssimos-motoristas-que-se-acham-azes-do-volante que temos. Postes não são de aço, são de concreto do mais vagabundo, diga-se de passagem. A armação de vergalhões ajuda a atenuar as conseqüências dos acidentes, mas qualquer Fiat Uno vira um Panzer, a mais de cem por hora. E a fiação é toda aérea, tão aérea quanto a cabeça do eleitor. Não se aproveita para implementação de trólebus, prefeitura e empresas de ônibus estão se lixando, é só por ser mais barata de fazer mesmo.

Já soube de um urubu que causou uma queda de energia, por ter fechado o circuito em um poste. Virou um torrão de carvão, mas sozinho fez um estrago enorme.

O grande problema de Goiânia, no entanto, não é só o fornecimento de energia eléctrica. Ela foi toda pensada para um vigésimo da população de hoje. Tudo o que há na cidade tem um ar de precariedade e de improviso que entristece, pois o que foi feito na época de sua fundação é tão bem feito, que dura até hoje. O que foi feito até os anos 1950/60, e a especulação imobiliária (que é a menina dos olhos da prefeitura) não derrubou, atende perfeitamente às necessidades de quem precisa. Mas é só.

Eu gostaria muito de ver o Eixo Anhangüera servido por trólebus articulados. A pista é exclusiva para ônibus e os postes que a ladeiam suportam perfeitamente a fiação necessária. Mas se nem a demanda actual é atendida, imaginem centenas de motores eléctricos com cem ou mais quilowatts de potência funcionando ao mesmo tempo. Teríamos que escolher entre os trólebus andarem, ou a cidade funcionar. Como está, infelizmente não se pode fazer.

Um dia eu falo a respeito de geradores em um texto dedicado, mas é facto que Goiânia está para se tornar o maior mercado proporcional do país.

Enquanto a população ri banguelamente com o asfalto novo (só asfalto, sem alicerce, sem meio-fio, nada) a situação se torna mais precária, pois o Estado já deixou claro que não tem como fazer os investimentos maciços de que o setor necessita, e a iniciativa privada ainda hoje não mostrou a que veio.. Aliás, mostrou, veio chupar o bagaço até secar, porque a cobrança das tarifas tem rapidez de primeiro mundo. Claro que não é culpa só delas, nem só do governo, nem só da alta potência dos trólebus. Boa barte da culpa é do eleitor. Eu, tu, ele, nós, vós, eles. É nossa.

26/09/2009

Nas próximas eleições

O eleitor terá na sua frente provas materiais contra seus candidatos. Serão filmes que as emissoras não terão apresentado, mas circulam na internet para quem quiser ver.
Serão documentos assinados pelos candidatos, com reconhecimento de firma, mas eles dirão que não foram os autores, que querem calar a voz do povo com calúnias, derramarão uma retórica vazia e cheia de erros de português, após o quê serão aclamados. Investigações mal-explicadamente arquivadas não serão lembradas, palavras que os próprios candidatos reiteraram várias vezes terão sido esquecidas em um passe de mágica, bastando eles aparecerem com suas famílias, então o "estupra, mas não mata" será página virada.
A extrema direita vai defender que o policial deve executar o suspeito em via pública, sem acusação formal, a extrema esquerda vai defender que o policial seja um mariquinha. Qualquer um que tenha um plano decente será rejeitado, pois não proporciona o espetáculo que o povo deseja.
Vão prometer que as escolas serão revitalizadas e que todos os alunos passarão de ano, mas ninguém vai garantir que eles aprenderão algo. Escolas em tempo integral são caras e não dão retorno em menos de dez anos. Bandas marciais são caras e não dão retorno antes das próximas eleições. Aulas de música e philosophia não são tão caras, mas dão resultados antes das próximas eleições que os candidatos tremem só de pensar.
Aparecerão palhaços apelando para o ridículo para conseguir votos, pseudocelebridades sem talento que tentarão garantir ao menos quatro anos de mamata, vítimas de crimes ou tragédias apelando para o bom coração do povo para ganhar votos. Os que realmente terão chances de ganhar apelarão para a barriga e para o instinto vingativo, mantendo o eleitor no estado medievalesco em que se encontra.
Os mesmos jornais que hoje denunciam o mau caratismo do congresso, abrirão suas páginas para qualquer um que pague pelo espaço, como se fosse um anúncio qualquer. O eleitor, privado da formação do senso crítico, não perceberá a manipulação nem sempre sutil das informações em prol desse ou daquele candidato. Não perceberá que um simples flagrante photográphico, que pode nada ter a ver com a realidade da figura, formará uma imagem distorcida em seu subconsciente, distorcida o bastante para fazê-lo titubear ao digitar os números na urna.
Todos farão parecer que está nos futuros eleitos a solução para as mazelas do país, e que o povo deve esperar sentado as ordens para agir como e quando for determinado. Assim que o dotô mandar, todo mundo vai ao mutirão que distrairá as atenções dos problemas que ele mesmo causou. Mas o povo gosta de circo, quando mais horrores, mais ele aplaude.
Ninguém notará que o Brasil é refém de três poderes que brigam entre si para ver quem pode (e ganha) mais, em vez de arcarem com os compromisso assumidos.
Ninguém notará que aquele machão que prega a pena de morte para qualquer crime de qualquer idade, é dono de empresas de segurança privada que faturam muito com a criminalidade. Colocar polícia e sociedade em conflito faz parte do jogo.
Ninguém notará que muitas idéias só não deram certo, porque nunca foram realmente postas em prática. Ninguém quer se inteirar de pormenores, até porque nem todos sabem o que significa "pormenores".
Poucos se importarão em saber quem terá financiado as campanhas, destes poucos, menos ainda se perguntarão o porquê de as terem financiado. O povo não tem discernimento para pensar de quem é o dinheiro que pagará a conta. É tudo do governo, assim como os sinais de trânsito e as repartições públicas, que podem ser depredados pois o povo nada tem a ver com eles. Ninguém pegou uma nota do bolso e entregou para a construção do posto de saúde, então o dinheiro usado foi do governo, não do povo.
Passagens das vidas pessoais dos candidatos com chances de vitória serão usados contra eles, ainda que não tenham peso algum na competência, ou que sejam cousas já enterradas. Mas é espetáculo, eles sabem que um circo de aberrações pode influenciar os resultados das urnas.
Por fim, o povo sairá do pleito exactamente o mesmo. E eu com a convicção cada vez maior do que é opinião: Opinião é a distorção da percepção da realidade subjugada pela conveniência.

19/09/2009

Aos marxistas de boutique

Eu sou a favor de uma reforma agrária, mas sob hipótese alguma compactuo com a desordem e com a venda de terras compradas com o dinheiro que eu entreguei, sob a forma de impostos onerosos.
Eu sou contrário ao hedonismo capitalista, mas qualquer inteligência mediana que se ponha a pensar perceberá que quebrando a empresa, os funcionários ficam desempregados; vide a Gurgel.
Eu sou a favor de um sistema público de assistência, educação e saúde. Mas sob hipótese alguma aceito que pessoas fisicamente hígias ganhem tudo de mãos beijadas, sem dar uma hora diária que seja em favor da coletividade; como acontece muito em Goiás, onde beneficiários fogem da qualificação profissional para não perderem a mamata.
Vocês pensam que em países comunistas é assim? Acham mesmo que lá se pode fazer baderna quando uma decisão do governo não agrada? Quem lhes disse que o cerceamento da iniciativa e da opinião levou prosperidade a alguma civilização?
A grande maioria de vocês ainda esperava na fila para reencarnar, e os que já estavam aqui ainda cheiravam a cocô e urina, por isso mesmo nunca viram reportagens e depoimentos de fugitivos de países comunistas. Se ditadura fosse algo bom, ninguém fugiria de uma. Eu que conheci os anos de chumbo posso dizer a vocês, que não abrem mão de suas mesadas e de seus MP4: Cresçam. Em vez de lerem só o que os partidários escreveram sobre Guevara, leiam também o que os opositores falaram dele. Busquem nos sites as matérias e os textos de época sobre os países da Cortina de Ferro.
O que estão fazendo com vocês, que aceitam placidamente essa lobotomia virtual, é doutrinação. Exactamente o mesmo que o Partido Nacional Socialista fazia na Alemanha entorpecida.
Eu sou socialista, mas não sou um idiota que cospe no prato em que come e anos mais tarde se corrompe, fazendo tudo o que condenada e dizendo "Esqueçam tudo o que eu escrevi". Tenho os pés no chão.
Querem mudar o mundo? De verdade? Muito bem, vamos lá...

  1. Antes de arrumar a sociedade, aprendam a arrumar seus próprios quartos. Suas mães não são suas empregadas;
  2. Antes de participarem de passeatas, que muitas vezes terminam em baderna, vejam o histórico dos participantes. Vocês podem estar exaltando e seguindo criminosos;
  3. Estão com pena dos pobres? Sair quebrando tudo nunca resolveu o problema da pobreza. Junte seu bando de amiguinhos, fiquem alguns dias sem comer porcarias plastificadas de lanchonetes multinacionais e dêem de comer aos famintos. Como eu faço, como qualquer um com os pés no chão faz. Quem tem fome precisa de comida e trabalho, não de discursos retóricos ululantes;
  4. Por falar em multinacionais, qual a marca de seus celulares? E de seus tênis? Camisetas? Vocês podem muito bem viver sem tudo isso;
  5. Se querem uma sociedade justa, sejam justos primeiro com suas famílias. Salvo raras exceções, a casa com computador e todo conforto de que vocês desfrutam hoje, foi conseguida com trabalho honesto. Seus pais não são bandidos, respeitem-nos;
  6. Se conseguem ver com tanta facilidade as mazelas de um lado, vejam também as do outro. Falar mal de Guantánamo e fechar os olhos para os fuzilamentos de inimigos de um partido único, é mais que hipocrisia, é falta de vergonha na cara;
  7. Não tentem impor sua ideologia, da mesma forma como vocês não gostam que imponham outras a vocês. Vocês não sabem nem o que é melhor para si mesmos, quanto mais para os outros. Vocês sequer conhecem os outros;
  8. Seus heróis são ou foram homens, não deuses, portanto podem sim ter falhado e com certeza falharam, como qualquer humano. Então baixem suas cristas que qualquer um com mais de quarenta anos conhece esse calcanhar de Aquiles;
  9. Ditaduras não respeitam o meio ambiente. Se vocês forem à China e esboçarem um protesto não autorizado contra a gigantesca usina hidreléctrica que estão construindo no Rio Amarelo, correm o risco de nunca mais voltarem;
  10. Gostam de protestar contra o governo democrático em que nasceram? Podem continuar protestando. Graças à luta e ao trabalho da minha geração, a sua pode se dar esse direito. Mas, por favor, depois de se divertirem nas ruas, vão estudar para aprender e não só para passar. Porque foi assim que transformamos o pouco que conseguimos transformar;
  11. Aliás, as pessoas contras as quais hoje vocês protestam fizeram exactamente o mesmo que vocês fazem hoje, a diferença é que na época havia uma ditadura. Pois é, todos os envolvidos em escândalos na última década eram exactamente iguais a vocês, sem tirar nem pôr. Como eles, vocês também podem ser corrompidos, então tenham humildade;
  12. Por falar nisso, já que leram Guevara e Marx, leiam também e com a mesma voracidade, a vida de Henry Ford. Vão perceber que ele era muito mais libertário e socialmente avançado que qualquer um deles. Ele empregava negros e mulheres em uma época em que isto era perigoso para a imagem de uma empresa;
  13. Recapitulando: Mudem a si mesmos, seus maus hábitos e a indolência crônica e aguda que tomou conta de sua geração. Depois poderemos falar de mudar o mundo, o que não se dará pixando, depredando e cabulando aulas.
De seu amigo Nanael Soubaim.

12/09/2009

Prefiro o alfaiate

 
  Eu iria tratar de um tema denso, penoso e periclitante, mas estou com uma ligeira depressão, muito cansado e a cabeça em frangalhos, então falarei de algo mais ameno até me recompor.

  Há um ou dois meses doei minhas camisas pólo. As últimas pret-a-porter que eu tinha. Mais precisamente, há anos que não compro roupa pronta, faz quase uma década que não visto jeans. Só uso roupas feitas (ou ajustadas) pelo meu alfaiate. Não custa mais que uma roupa de loja de boa qualidade, só não tem o apelo do status que uma etiqueta badalada oferece, mas isto é algo que não me interessa.

  Quando há algum problema de costura, vou falar directo com o dono da confecção, no caso, da alfaiataria. Quando alguém vê algum problema em uma roupa pronta, fatalmente terá que ouvir "Bem-vindo ao Serviço de Atendimento ao Consumidor, sua ligação é muito importante para nós, aguarde uns instantes enquanto te enfiamos nossa propaganda com uma musiquinha horrorosa, que em seguida alguém da empresa terceirizada vai atendê-lo". Lá vai a conta telephônica para a estratosphera até alguém te atender "Senhor, nós estaremos estando te passando um número de telephone, para que o senhor esteja estando ligando para o departamento de produção". Com o alfaiate eu resolvo o problema sem burocracia.

  Ganhei em maio uma camisa, que de cara ficou grande. Tenho ombros largos, mas sou baixo, acreditei que bastaria cortar os muitos centímetros excedentes. Pois quando ele cortou para um funcionário ajustar, me mostrou o quanto um lado era maior do que o outro. Fico espantado em saber que as pessoas se vestem muito mal, mesmo escolhendo um modelo correctamente. No manequim fica um luxo, quando sai á rua é um luto. As mais bem cortadas até que não são ruins no primeiro uso, mas assim que vai lavar, as pendengas aparecem. A maioria das confecções não molha o tecido, mas muitos tecidos encolhem após a primeira lavada, especialmente os com algodão. Não bastasse isto, a linha da costura geralmente é sintética. O tecido encolhe, a costura nem tanto, e a roupa que parecia ser de bom gosto se torna uma fantasia de circo; juntas enrugando, costura desfiando, botões entortando, tinta se soltando, o tecido ficando áspero, et cétera. Só então a pessoa lê a etiqueta e descobre que o que foi barato de comprar é caro de manter, pois exige condições específicas e difíceis de se obter para lavar. Pret-a-porter que valha a compra é cara, muito cara. Algumas são caras e não valem a linha de costura, mas roupa pronta boa raramente não é muito cara.

  Já viram lojas oferecendo ternos a preço de blusão vagabundo? Vou lhes contar o truque; eles são cortados às dezenas de uma só vez, com um só molde e costurados em velocidade super sônica. Já estou vendo o dia em que vão passar cola industrial em vez de linha, para acelerar a produção. Os problemas desses ternos: a parte inferior de trás é sempre fechada, não tem a fenda que te permite se sentar, se movimentar e subir uma escada sem ficar parecido com o Robocop; O forro, quando o tem, mais parece retalho de pano-de-prato, alguns usam descaradamente o não-tecido, que gela no inverno e assa no verão; Por ser molde único para milhares de peças, ele não vai te servir, se ficar bom no ombro vai parecer um vestido, se ficar bem no comprimento não vai entrar sem rasgar; Em poucos dias de uso os problemas vão aparecer, como botões caindo, costura se desfazendo, bolinhas se proliferando e o tecido ficando lustroso como se tivesse sido encerado e polido, entre outros. Fora a assimetria que a maioria apresenta, um horror. Sai mais barato fazer um traje de gala do que mandar consertar, é sério.

  Ternos e afins são tão complicados, que quem os faz é chamado de "oficial", quase sempre alguém de idade madura e com muita experiência. Com seiscentos reais se faz um terno para receber a rainha da Inglaterra; com mil reais para consertar, o terno de R$199,99 não fica tão bom. É um baratinho que sai custando os olhos da cara, pois precisa ser substituído com grande freqüência.

  O Zé, assim que separa um tecido com fibras naturais para cortar, leva para casa e deixa de molho, para encolher antes de começar o trabalho. Só que isto leva algum tempo, artigo muito caro para as indústrias. Mas para ele é só um cuidado, principalmente para clientes como eu. Sou assimétrico, meu lado direito é mais musculoso de nascença, sou largo e baixo. As medidas vendidas em lojas nem de longe servem em mim. Sempre fica a impressão de que o defunto era maior.

  Não me lembro mais como é vestir um jeans, mas lembro do tecido batendo nos calcanhares a cada passo que eu dava. A modelagem mais justa das roupas femininas atenua muito esse incômodo, mas não sou mulher e não tenho saudades daquela peça armada feito um sino de algodão, badalando enquanto eu andava. Quando passei a usar somente calças sociais, senti a diferença dramática. Elas não batem no corpo, tremulam. Posso usar o corte confortável que me agrada sem medo de aparentar flacidez. Quando passei a usar somente calças feitas sob medida, não quis mais voltar. Mesmo as mais simples são peças que posso usar em qualquer ocasião, pois foram feitas para mim, para minhas formas completamente fora de molde.
Minhas roupas têm tecido suficiente para o caso de eu engordar, embora nunca tenha precisado desse artifício. Roupas prontas, para aproveitar ao máximo a matéria-prima, são moldadas por computador, ocupando cada centímetro da fazenda e barateando os custos, mas também eliminando a possibilidade de uma gestante continuar usando suas roupas por algum tempo, assim que a barriga despontar será um novo guarda-roupas. Cresceu? Engordou? Engravidou? Sem chances, é roupa nova.

  No caso das crianças, a roupa pode ter sobre tecido bastante para permitir ajustes por uns bons anos, um alívio no orçamento da família. Além de atenuar os efeitos da cultura do descartável, tão nefasta para o ambiente e para a mente da criança.

  O acto de ir encomendar uma camisa tem mais benefícios do que o econômico. Vendo de onde, como, quando e por quanto vai sair a roupa, cria-se um vínculo e se dá mais valor ao bem adiquirido. Não é como uma camiseta que um cara que nunca vi colocou no cabide da loja, sem que eu tenha visto. Eu fui à alfaiataria, conversei com o alfaiate, escolhi o tecido, defini o que gostaria ou não, tirei as medidas e combinei o preço. Quando pronta a camisa, lá voltei, experimentei, vi se não precisava de algum retoque e, aprovada, paguei e levei comigo.
Parece trabalhoso, talvez seja um pouco trabalhoso, mas é um trabalho que compensa. Vale à pena ter um vínculo por algo mais do que "é legal" ou "tá na moda".

  Algumas das minhas peças têm muitos anos de uso diário, pesado. Estão inteiras. algumas com sinais do tempo e das circunstâncias, mas em perfeitas condições de uso. Não tenho roupas de festa, tudo o que compro é para a labuta árdua de um trabalhador honesto, que acima de tudo é honesto consigo mesmo.

03/09/2009

Estive em São Paulo

Foi o primeiro vôo com circunflexo desta vida. Por conta da conexão em Brasília, na volta, foram três decolagens e aterrissagens. Também foi a primeira vez que esta criatura, até então encarcerada, deixou as fronteiras de Goiás.
De cara digo que São Paulo não me assustou. Primeiro porque os noticiários já o tinham feito, dando a impressão de que eu iria entrar em um mundo de biorrobôs. Segundo porque eu respeitei a cidade, não demonstrei medo e não cheguei me achando o maioral, simplesmente demonstrei respeito. Me dirigi aos cidadãos de modo cortês e recebi cortesias de volta. Foram solícitos em meu amparo, precisos nas instruções e compreensivos com minha crueza.

Trata-se de uma senhora com quase meio milênio de vida, já bem resolvida e ciente de seus direitos e deveres. Ela sabe que o país inteiro paga caro se cometer um erro. Já não se encanta com aventureiros, com cantadas de cinqüenta centavos, promessas já não acendem seus olhos e não se impressiona com demonstrações de qualquer tipo, a não ser as de respeito.

Pagando cinco centavos a mais para rodar distâncias maiores, com pontos de parada mais próximos, em ônibus melhores e sobre um asfalto mais bem conservado, fui ao metrô. Após problemas com a telephonia móvel, uma nativa em sua doçura e meiguice me orientou para novos procedimentos.

Este senhora bela e opulenta me ofereceu a mão carinhosa a guiar meus passos tímidos em caminho seguro. Não tenho o que reclamar dela, nem de seus filhos naturais ou adoptivos. À parte os problemas que a mídia escancara, como se só eles existissem, presenciei cousas que em Goiânia nem penso em ver. Mesmo os locais mais movimentados estavam satisfatoriamente limpos, as filas para o ônibus não eram burladas mesmo com passantes as atravessando de vez em quando, os ônibus ainda têm cobradores para auxiliar os passageiros, como este estreante na paulisséia.

Não me foi possível vê-la em todo o seu esplendor, com todo o encanto de mulher madura e ocupada em manter seus dependentes. Não se enganem, ela é sóbria, discreta e compenetrada. O escândalo que salta aos olhos se deve ao facto de ser extremamente bela e encantadora, qualidades ampliadas por sua estatura muito avantajada. É bem verdade que ela pode ferir, com um movimento súbito, mas para isto serve o respeito que lhe dispensei, mantendo a devida distância até que ela me chamasse para a curta conversa que tivemos.

Que mulher mais fascinante! Difícil compreender as atitudes de filhos ingratos que a maltratam, e de outros que a difamam para o mundo inteiro. Aquele repórter do New York Times, se tivesse ido para São Paulo em vez do Rio de Janeiro, com certeza teria tido uma posição bem mais respeitosa para conosco. Pois apesar de ágil e apressada, é serena e comedida, estuda bem quem se lhe apresenta e sabe impor suas regras.

Um conselho que dou para quem quer conhecer esta dama, é ter amizade com seus filhos. É pelo rebento que se conquista a mãe. Há anos trato alguns deles com o máximo de polidez e amizade que posso dedicar, pois fui recebido por abraços calorosos, inclusive por uma filha que só veio passar uma temporada e voltar para Rochester, Estado de Nova Iorque, mas foi dela que recebi um abraço que estava tão carregado de amor como poucas vezes experimentei, nunca de alguém que ainda não tinha colocado os olhos na minha cara de bolacha. Como a senhora que me aceitou carinhosamente, ela também é mãe e sabe receber. Sabe fazer um caipira tímido e recém-saído de uma vida de ostracismos se sentir vivo sem precisar dizer uma só palavra, como toda Audrey que preze o próprio nome.

Esta visita marcou uma guinada e activou genes que estavam adormecidos, alguns até atrofiados, como o da liberdade. Precisarei de muitos exercícios para que estejam prontos ao exercício pleno de suas funções, mas a dama secular em seu beijo rápido e maternal já fez sua parte.

Quando eu ainda não sei, mas voltarei a visitar a matriarca do país. Já sinto saudades de seus abraços, de sua beleza refinada, de seus filhos e de tudo o que ela oferece a quem se apresenta com intenções honestas. Da próxima vez irei com tempo, com recursos e certamente acompanhado. Não sou egoísta de usufruir sozinho do carinho e dos conselhos de quem me protegeu das sombras que ainda pairam na gigalopole.

Goiânia é uma criança que deveria se espelhar nas virtudes de quem é capaz de sustentar, sozinha, cultura e contracultura próprias. O que a torna uma cidade-estado

Posso dizer com toda a convicção do mundo, que a visita à Senhora São Paulo marcou minha morte, para permitir o meu renascimento. I love you, Sampa.