13/11/2008

Drama; 1 de 3

Laura leva o filho para casa. O garoto se cansou muito, no meio do recreio já não agüentava dar um passo e os professores acharam por bem que não voltasse a pé. A lua cheia já começa a minguar em último quarto, neste fim de tarde, quando a boa Caravan entra na garagem. Para quê trocar de carro, se seu mecânico de confiança conseguiu enfiar uma injeção electrônica no GM151? Não vai gastar a poupança à toa.

Angus volta a se cansar, desta vez com mais intensidade, e desta vez desmaia. Acorda à noite, no hospital, com suspeitas de esclerose...

- Meu filho tem sete anos!

- É só uma especulação, mas o eletroencefalograma não deixa muita margem, e pegamos os sintomas em plena actividade.

O neurologista se esmera em explicar que não existe doença exclusivista, que ele mesmo já teve câncer de mama.

Uma semana depois, Angus tem um ataque, consegue gritar pela mãe, mas cai e se fere no meio-fio de granito. O diagnóstico é confirmado por dois outros médicos.

Laura é uma mulher forte, viu o pai ser levado, sem acusação formal, pela repressão e nunca mais o viu. Sustentou a mãe e a irmã caçula até se ver sozinha no mundo. Depois pela segunda vez, quando viu o marido esmagado entre um ônibus e um poste. O motorista fugiu e nunca foi encontrado. Suportou tudo para criar o filho, o fez aprender as lidas domésticas desde cedo, disciplina-o como acha que deve. Ela agüenta a notícia, explica ao menino da forma mais diplomática que pode e avisa que terá que estudar em casa, de agora em diante. Sorte? Não. Laura nunca lhe passou a mão na cabeça e se mostra uma professora rigorosa.

Vai um ano sem novos incidentes, com remédios relativamente caros. Angus monta um Maverick de papel, que pegou na internet. Modificou a pintura original para fazer um bólido. Diz que pegará uma carcaça no ferro-velho e montará um igual, quando crescer.

Angus acorda de um mês de coma. O dono da drogaria já está preso, por venda de medicamento falsificado, mas as seqüelas no sistema nervoso são irreversíveis. O garoto perdeu quase um terço da visão e aquele décimo oitavo Maverick foi o último que ele conseguiu montar sem ajuda. Precisará de uma bengala, de vez em quando. Laura se mostra firme. Impressiona a todos pela fortaleza e pela serenidade, mas por dentro se contorce de preocupação. Seu filho não terá uma adolescência normal. Receitam mais medicamentos. No caminho de volta, Angus vê um Maverick 302 exactamente igual ao último que fez. Chama a atenção da mãe para o que viu, consegue assim distraí-la de seu mundo denso. Ela sabe dispensar carinho, mas só o faz para quem julga que realmente precisa. Seu filho, no entanto, se comporta como um homem, ao menos aparentemente.

Segue mais um ano sem qualquer ocorrência. A única anomalia é Angus estar dois anos adiantado em relação à antiga turma, que se compadece...

- E a gente pensando que cê tava de boa, mano!

- "Boa" o cacete! Eu estudo o dia todo, faço exercícios o dia todo, levo bronca o dia todo. Fora que ela nunca mais me deixou comer bobagem.

Eles o confortam. Infância sem comer bobagem, para eles, não é infância. Findada a visita, Laura o põe para estudar tudo o que as horas de lazer inesperadas não permitiram. Quer mantê-lo o mais lúcido possível pelo maior tempo possível. Seu neurologista afirmou que todos os pacientes que lêem e estudam respondem melhor ao tratamento. No rádio toca "Era Bello Il Mio Ragazzo". Desliga-o na hora, já começava a marejar os olhos.

Aos poucos se torna comum ver o filho usando a bengala, aos poucos se torna comum ele não conseguir andar mais que devagar, logo o médico desconfia da gravidade dessa doença e pede exames novos, com tecnologias novas e se põe a estudar descobertas novas. Viu aquele menino nascer e a última cousa que quer é enterrá-lo. Laura aceita de bom grado a solidariedade dos próximos, mas rejeita até com rispidez as manifestações de piedade. O rádio de alguém, no Vaca Brava, toca "Lady Laura". Aperta mais a mão do filho, mas não muito, ele ficou sensível à dor.

A polícia interfere para que Laura não mate um dos médicos que deram o diagnóstico. Descobriram violações no tomógrapho que aumentam muito as chances de acusar doenças graves, estranharam ele ter trocado de carro tão depressa. Um fiscal da Vigilância Sanitária diz que é comum, como o caso, médicos receberem comissão pela receita de drogas controladas...

- Seu Sérgio, meu filho tomou medicamento para esclerose por dois anos! Será que tem jeito de reverter o quadro dele, se parar de tomar aquilo?

O pharmacêutico de formação pensa um pouco, lembra do trabalho de formatura e conclui, com o médico da família, que foi justo isto que degenerou a situação do rapazote e, lamentam, pode ser irreversível. Dias depois uma nova tomographia revela os danos graves. Mas ela não vai ficar parada, vendo a banda passar. Manda um e-mail para a irmã, hoje em Berlim, para que informe de qualquer novidade na área, e recebe uma reprimenda. A caçula a espinafra por ter escondido o caso, soube por jornais do escândalo do médico, mas nunca pensou que o sobrinho estivesse doente. Manda no dia seguinte artigos que são entregues ao único médico em quem Laura confia. A luta dá frutos e o quadro estabiliza.

Os estudos? Os amigos de Angus voltam a consolar o garoto...

- Putz quiparalho! Tua mãe é lôca, mano!

- Isso é coisa pra gente ver no vestiba!

Laura surge por trás, com o lanche e sugere que, em vez de resmungar, que aproveitem o adiantamento do amigo para se darem bem na escola. Eles acatam a idéia. Na manhã seguinte, Leandro dá uma notícia preocupante. Nem ele, nem nenhum dos colegas do mundo inteiro que consultou, sabe o que Angus tem. A medicação errada fez uma confusão de sintoma tão grande, que ninguém mais arrisca dizer que tratamento deve ser seguido. Além de áreas internas e importantes demais estarem envolvidas na lesão. Por enquanto, continuarão com a medicação e as actividades de praxe, mas alerta para que não subestime o menor sintoma, qualquer tremedeira, a mínima formigação, e mantenha Angus longe de lâminas e pontas.

Graças à mãe firme e disciplinadora, consegue chegar à puberdade sem maiores revezes, contando até com a presença da tia que nunca tinha visto na vida. A coleção de Mavericks de papel impressiona, não pela quantidade, mas pela personalização e pela qualidade da montagem, hoje com co-autoria da mãe. Aliás, se perguntam se um bom padrasto não seria de ajuda para ela cuidar do filho...

- Mas que idéia mais estapafúrdia!
- Por que? Se eu te levo comigo pra Alemanha, tu não fica solteira nem que queira! Já se olhou no espelho? Já viu o pitéu que tu és?
Não se acha. Nem se veste como uma mulher bonita, na verdade nem quer ser, quer manter os homens longe para se dedicar ao filho sem ser perturbada.
Continua...

25/10/2008

Nova balzaquiana

Beleza aos vinte é um presente, aos quarenta é mérito próprio.
Mulher madura, com uma vida inteira ainda pela frente. Reescalonarei Balzac, que na época admirava as mulheres que chegavam à maturidade com (pelo menos) um pouco do viço de sua juventude. Pois hoje ele elegeria a mulher de quarenta a cinqüenta anos.

Uma mulher assim é uma obra de arte biológica, uma ode à criação divina. Qualquer uma que chega aos quarenta anos sem ter se azedado, é uma vencedora, porque o machismo misógino ainda impõe a burrice de que se deve destruir o que se ama. Uma mulher que chega aos quarenta anos e é reconhecida de pronto por uma amiga de adolescência, é uma gloriosa, porque muitas se entregam cedo aos excessos que se convertem rapidamente em vícios, apagando os traços mais sutis de sua juventude, que ainda não deveria ter terminado.

Uma mulher que chega aos quarenta anos com a leveza que tem as de vinte e cinco, ah, esta é uma diva, uma deidade que deve ser venerada e respeitada, para quem o trânsito deve parar imediatamente, ainda que o sinal esteja verde.

Acreditem, há muitas assim. Não citarei Nicole Kidman, que é covardia. Desculpem, já citei, mas ela é um exemplo escancarado de uma multidão anônima que as câmeras ignoram. Tenho olhos já treinados e refinados, vejo muitas balzaquianas de quarenta pelas ruas, entretidas em suas leituras dentro dos ônibus, ignoradas por conta de seus trajes discretos e insuspeitos. Pois as observo com a devida reverência e discrição. São verdadeiras beldades que ainda têm o bônus da bagagem de vida, do conteúdo de suas palavras, da sabedoria para agir ou não agir, ainda assim conservando os traços e a fluidez da flor de suas eras. As quarentonas de hoje são brotos exalando perfumes primaveris.

As garotas de trinta agora são isto mesmo: garotas. Algumas ainda têm espinhas, seus rostos ainda são abaulados e seus olhos ainda são arredondados. Inconteste prova da evolução da espécie... pelo menos física. As de vinte acabaram de sair da adolescência para a emancipação recém-adquirida.

A mulher de quarenta exubera sua beleza, mas já não tem o desespero de cumprir sua quota de beijos em estranhos da noite. Arrasta o ar por onde passa, em seus passos firmes e elegantes, sem os requebrados forçados e trotados das adolescentes mais atrevidas. Sabe rir, sabe gargalhar, sabe quando e o quanto cabe um e outro.

Já viram o corpo de uma quarentona dos dias vigentes? A mulher que hoje tem de quarenta e cinqüenta anos teve que ralar na vida, não teve essas facilidades excessivas de "delivery", controle remoto para abrir o armário, fast-fat-food e toda uma quinquilharia que, na sua tenra juventude, simplesmente não existia. Elas iam da cozinha à sala para atender ao telephone, subiam escadas, giravam manivelas para descer o vidro do carro, iam ao restaurante para comer sem esquentar a barriga. A mulher de quarenta foi lapidada, sua beleza não é uma dádiva da idade nem um presente da indústria cosmética, que na época era só cosmética mesmo. Sua beleza é um mérito. É muito comum encontrar mães em muito melhor forma física do que suas filhas e, pasmem os homens desatentos que só enxergam partes, é muito comum ver mulheres maduras muito mais belas e bem conservadas que seus jovens rebentos. Os excessos de sua juventude são nada, se comparados à destruição suicida que a garotada venera e chama de "atitude"... Aham, tá. Vamos ver que atitude têm no primeiro acidente grave de trânsito.

Rendamos honras às musas que ora povoam, incógnitas, um mundo carente de inspiração. Beijemos suas mãos e as convidemos para uma noite, não apenas para uma cama, que elas são muito mais do que isto.

Há anos venho insistindo para o meu alfaiate começar a fazer roupas femininas, alego que vestidos são basicamente camisas esticadas, e saias são basicamente calças de uma perna só. pois nesta semana foi uma nova-balzaquiana, que com um modelito pronto para copiar, o convenceu a fazê-lo. Uma mulher de baixa estatura, mas bela, charmosa, elegante em seu estilo sessentista, que ainda tinha uma programação para resolver os negócios da família. Rugas? Sim, havia, eu disse que não deveria haver? A vantagem nesta bela senhora, é que as poucas e discretas rugas, em vez de estragar, emolduram seus traços e deixam ver perfeitamente a menina que ela já foi, e pelo visto ainda habita-lhe a alma.

17/10/2008

Tristeza assumida




Caminhava à luz da Lua Cheia, sem preocupações e sem ansiedades. Feliz. Um pouco triste, é certo, mas tristeza não é sinônimo de infelicidade.


Durante a infância foi uma criança alegre e despreocupada com a vida, afinal só teria sua formação cerebral (e portanto sua ligação com o corpo) completa pelos seis ou sete anos. brincava, corria, caia, se machucava, levantava e corria de novo. Foi uma criança normal. Se é que uma criança pode ser chamada de normal.


Com o passar dos anos foi tomando uma sobriedade intensa, muito maior do que os adultos achavam salutar para a sua idade. Se há algo que detesta até hoje, é compararem com qualquer outra pessoa, ainda que para a melhor.


Levaram a criança triste (como ficou conhecida na rua) para um psiquiatra com mais títulos e congressos do que células no corpo. De pronto diagnosticou esquizofrenia, sem nem ter tido muita conversa com a parte mais interessada. Passou medicamentos e aconselhou uma vigília rígida sobre seu comportamento.


As drogas acabaram dando, pois toda droga dá, efeitos colaterais. Até hoje tem os cabelos fragilizados por isso.


A vigilância foi um factor de irritação profunda, principalmente quando descobriu uma câmera escondida no banheiro. Em poucos meses viram suas imagens em um site de pedofilia. Os técnicos que instalaram a parafernália ganharam bem pelas imagens de sua mais privativa intimidade.


Um dia decidiu vestir a fantasia de adolescente. Seriam só seis anos. Seis anos e poderia sair de casa, sem dar satisfações, passar a agir à sua maneira e não ter que agüentar as cobranças para que exibisse alegria.


Ainda não era aquela cousa caricata dos adolescentes, mas já parecia á família, mais normal. Quanto sofrimento! Logo percebeu que ninguém notava a diferença entre um sorriso e uma exibição de dentes.


O passar dos anos foi penoso. Toda aquela gente superficial e vazia lhe dava náuseas. Todo aquele discursos pseudointelectual fazia um corte nos pulsos parecer razoável. Não se poderia esperar demais de gente com a sua idade, mas esperava muito mais do que isto de sua própria pessoa.


Conheceu cantores e grupos de antes de seu nascimento. Músicas tristes, melancólicas até, mas alguma muito animadas. Passou a saborear as obras ás escondidas, para não ter mais que dar satisfações a um psiquiatra com cara de tarado. Uma de suas preferidas passou a ser "Israel" nos vocais do Bee Gees. Aos poucos as músicas célticas, medievais, as antigas de Roberto e Erasmo, et cétera. Sentia-se bem. Ficava triste, sim, mas sentia-se muitíssimo bem. Conseguia se equilibrar e colocar as idéias em ordem.


Enquanto os "amigos" se casavam cedo, não raro à contragosto, se envolviam em barbáries jamais vistas por seus pais, se desencaminhavam completamente, sua tristeza lhe garantia a serenidade necessária aos seus propósitos. De campeonato de transa por noite a campanha pela obrigatoriedade da castidade, seus "amigos" se enveredaram por todo tipo de caminho, mas sempre em alas muito radicais, quase sempre irracionalmente radicais.


Decidiu estudar psicologia por conta própria, para saber se o que tinha era realmente nocivo. Acabou se envolvendo mais do que imaginava, logo passou a tomar "drogas" mais pesadas, como philosophia, arquetipismo, línguas mortas e outras.


Sua conclusão foi tão simples que se surpreendeu. A tristeza não é de todo ruim. em níveis baixos, como o seu, pode ser chamada de introspecção. Essa introspecção protegia sua sensibilidade aguçada de um mundo que lhe parecia ser muito grosseiro e agressivo, lhe permitiu viver até então sem se molestar, mantendo o respeito próprio.


Os estudos voluntários acabaram por ter um efeito colateral, pois toda "droga" tem. Não viu a passagem dos anos. Os seis anos se foram como se tivessem sido seis meses. Apesar da sobriedade intensa, da imensa antipatia para com quase tudo o que as pessoas louvam nesta época, era feliz. Na véspera de completar dezoito anos, foi à costureira buscar o vestido longuete azul marinho que encomendara, vestiu-o e chamou os pais para uma conversa séria. Não parecia uma jovem, parecia ser mãe da própria mãe. Primeiro avisou que, apesar de nem pensar em se converter, estava estudando a fundo e simpatizando muito com o judaísmo, então não os acompanharia mais às missas cheias de gente engomada que dão cheques de cinco reais à paróquia. Pelo menos não se sentia mais obrigada a fazê-lo, então que não contassem com sua presença. Agora avisa que não vestiria mais a máscara de jovem rebelde-sem-causa-mas-socialmente-aceita que vestia até agora. Nada tendo contra a juventude descompromissada, não fazia e nunca fez parte dela. Não queria ir á balada, não queria beber até cair para ver como é, não queria experimentar o que sabia que faria mal só para "saber" se gosta, enfim, sua cabecinha era muito diferente.


O ultimato amedrontou seus pais de sobremaneira, amanhã poderia ou não haver uma festa de dezoito anos, se a respeitassem do jeito que é. Caso contrário, já tinha para onde ir logo nas primeiras horas do primeiro dia de sua maturidade. Os fez lembrar das fortunas e dos prantos que nunca precisaram gastar por sua causa, dos filhos inesperados que não arranjou e dos cafagestes que nunca trouxera para dentro de casa.


Não foi preciso sair de casa, o recado foi bem dado. É uma moça feliz, muito feliz. Quem disse que precisa ser escancarada? Quase todos os sorrisos que vê exalam desespero, não que não hajam os sinceros, mas dentes brancos não são garantia de felicidade. E está feliz, muito feliz do jeito que é. A tristeza assumida e sob controle a faz parecer uma rainha.

04/10/2008

Aeromoça

A turbulência é grande, a nave estremece como se fosse se dissolver no ar. E é o que acontece. A aeromoça (como faz questão de ser chamada) consegue atar o último passageiro e as chapas do teto se desprendem, o vácuo a suga antes que se dê conta do que aconteceu.

Leva algum tempo para perceber o que está realmente acontecendo, está iniciando uma queda de quase três mil pés. A princípio chora, se desespera como se alguém fosse socorrê-la, como se o avião fosse dar meia-volta para tentar salvar sua vida. Mas ele se afasta a seiscentos quilômetros por hora, buscando altitudes menores, com o comando se esgoelando para pedir auxílio à torre. As comissárias de bordo não fazem questão de avisar da tragédia.

Cai em si. Ninguém vai salvar uma simples funcionária, para a qual existem milhares de candidatas para preencher a vaga que deixou. Ainda mais uma chata de caroço que insistia em ser chamada de aeromoça. Que merda! A gente não pode ser educada com os passageiros? Só porque não fazia careta quando me pediam uma caneta à bordo? Tá, eu nunca fui baladeira e companheira de manguaça, essas coisas. Isso deve pesar contra mim.

Vai pensando, meditando e praguejando enquanto a velocidade aumenta a 9,806 m/s². Sabe que estaria à salvo, na cabine da tripulação, se não tivesse se lembrado daquele bocó que levou uma revista pornô para o banheiro. Ele teria se lascado, acha que teria sido bem feito ao fedelho mal criado, mas seu senso de dever falou mais alto. Exactamente como lhe ensinara a sua mãe. Ah, droga! Agora ela chora desatadamente. Como ficará a sua mãe quando souber? Foi por causa dela que ingressou na carreira. Vanda era aeromoça, nos anos 1960, 1970 e 1980. Mas naquela época as cousas eram diferentes, se lembra bem de uma viagem que fez com ela e o pai à Lisboa, em 1978. Todas sorridentes, como enfermeiras que precisavam transmitir algo de bom aos pacientes. Aeromoça era algo glamouroso, conheceu várias pelo mundo, com uniformes que copiou e colocou em suas bonecas. Estão até hoje na estante, a mais nova tem o uniforme que usa agora. Droga! Droga! Droga! Droga! Droga! Droga!!!!!! Ela não queria ficar rica com isso, não queria viver imensos amores em cada país, nem mesmo escrever um livro quando se aposentasse. Só queria ser aeromoça. Conhecia a fundo as demandas da profissão, quando iniciou sua carreira, há menos de um ano. Mas que surpresa desagradável teve. Se sentiu uma arquiteta com doutorado, trabalhando com peões que não sabem fazer uma parede que não seja de tijolos furados.

Se pergunta o porquê de isto estar acontecendo. Sempre foi honesta até o talo, se dedicava aos passageiros como se realmente fosse uma enfermeira. Enfermagem, aliás, faz parte de sua formação, tal qual sua mãe, a melhor aeromoça que a antiga companhia aérea já teve. Sua mãe é seu ídolo, trabalhava com tpm, cólicas, joanetes, o que fosse. Ainda que com o semblante mais sóbrio, sempre tinha um sorriso para os olhos suplicantes de seus passageiros. Ser aeromoça demandava classe, elegância e boa educação. Seguiu todos os seus exemplos, tudo mesmo, à risca. Mas os tempos não são aqueles e a impessoalidade dominou quase tudo. Numa época em que a fedelhagem dos fóruns de internet rechaça quem demonstre cordialidade e camaradagem a todos os participantes, em que os carros rígidos e bem ajustados são chamados de resistentes, em que memórias sórdidas de uma prostituta (que se fez sem necessidade) são best-selers, em que ninguém mais sabe fazer piada sem palavrões e ofensas, em que uma brincadeira com um amigo pode render processos por alguma entidade neurótica, as suas qualificações não tinham mesmo o espaço de outrora.

Agora eu me pergunto, por quê? Por que eu me preparei tanto, se transar com o comandante é a única forma de subir naquela birosca, aquela garagem de paus-de-arara aéreos? Bem feito pra mim! Bem feito! Fiz tudo certo, deu nisto: vou me espatifar no chão daqui a pouco, vou virar ração em pasta pra cachorro. Eu sou burra, bur-ra... Mas não me arrependo de nada.

Começa a parar com as lamentações, pois o fim é inexorável. Se lembra do beijo que recebeu de uma criança autista, ao fim de uma viagem. Os pais da menina ficaram pasmos, completamente atônitos com aquilo, a psicóloga dela exigiu três testemunhas para acreditar. Acha que não fez nada de mais. Foi atenciosa, respeitou o mundinho daquela pequerrucha e conseguiu seu respeito. Volta a chorar, mas agora de alívio, pois esta lembrança honrosa traz outras, e outras, e mais outras. Não é ela a burra, são os chefes que não enxergavam e não remuneravam a contento a jóia que tinham em seu quadro.

Mas agora se lascaram! Ah, ah, ah, ah, ah, ah! Minha mãe vai poder comprar o condomínio inteiro com a indenização! Ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah, ah! Vai poder mandar todos aqueles xaropes pra fora e encher os apartamentos com nossos parentes. Irra! A Paula vai ter casa própria quando casar! Até que morrer não é tão ruim assim. Mas será que dói? E por que tá demorando tanto?

Aproveita a demora para, em um lampejo, pegar seu celular. Liga-o. A recepção está extraordinariamente boa. Pela primeira vez não amaldiçoa o inventor daquele aparelho. Liga para a mãe. Avisa que aconteceu um imprevisto e que não chegará em casa a tempo para o noivado da Paula. Se puder mandará mensagem (por um médium, quem sabe) e diz que ficará bem. Se despede da forma mais amorosa que consegue e desliga. Agora sim, chora copiosamente. Pela gente que deixará e, se o alfaiate Zé estiver certo, não verá por muitos anos. Se lembra de tudo o que fez de bom na vida, percebe que supera de longe suas traquinagens.

Começa a rezar para, não pedir, mas agradece pelo que pôde fazer de bom no pouco tempo de vida que teve, por não ter se rendido aos ataques dos colegas radicais de extremo rancor contra passageiros, por não ter deixado de fazer o que realmente queria e por ter sido uma aeromoça. A-e-ro-mo-ça. Foi para isso que se esmerou.

Olha para baixo, agora o chão está próximo. Que conveniente, bem o fundo do Instituto Médico Legal. Faz uma manobra para não ver e não sofrer ainda mais. Ajeita o broche na lapela, a echarpe azul e branca, coloca a boina contra o peito e acabou.
Nem doeu. Agora vai embora, que não precisa mais de nada daquilo.

23/08/2008

Onirautas VI; A roupa sumiu!

Bem-vindos a mais uma onirisséia. Oferecimento: Audrey Beathan; Seja feliz, pague mico você também.

Um tipo de sonho recorrente é a nudez, parcial ou total, voluntária ou não. A maioria gosta de ouvir e imaginar, mas quem conta raramente compartilha da opinião. Lembremos que Elvis e um elefante cor de rosa não cabem no porta-malas de um Fusca, lá mal cabem malas! A natureza não é estúpida de produzir um fenômeno só para repassar as cenas do dia, os neurônios não precisam desse desgaste para se organizar, bastam testes rápidos quando o sujeito adormece, gastam menos energia.

Nudez é exposição. Numa sociedade que exige que todos sejam extrovertidos, seguros, bem resolvidos e pemanentemente bem-humorados, asseguro que noventa por cento da população têm algum grau de timidez, os outros dez têm algum problema que ignora. Por isso mesmo as pessoas se incomodam quando sonham que estão nuas.


  • Primeiro porque a nudez acontece de surpresa, quando menos se espera: Pum! A roupa some. Se há deformidades no corpo, ou uma parte com proporções e/ou beleza acima da média, é aquela que será destacada. Aí o maior fanfarrão do mundo fica rubro.

  • Segundo porque nunca estamos sozinhos, nesta situação. Mas nunca mesmo. Assim que baixamos as calças para mandar o barroso, as paredes somem e uma multidão se aglomera para nos observar.

  • Terceiro porque acontece quando mais precisamos, no sonho, nos concentrar. Como em uma reunião, quando o chefe te diz "Que mordida é esta no teu mamilo, Márcia?". Então a mesa inteira some, a cadeira some e te obriga a ficar de pé e pelada. Terrível, não?

  • Quarto e último, porque nudez ainda é tabu. Imaginem uma carola sonhar que está ajudarndo na missa e, quando vê, está pelada e maquiada na frente de toda a comunidade. Ela vai querer morrer, vai meter a cabeça na parede e se penitenciar, quando acordar.

Claro que, quando acordamos, podemos até cair na risada, de alívio, pra depois tomar como piada e, quem sabe, rodar uma comédia fadada ao sucesso; se não for a carola, é claro. Mas na hora a areia mais fofa vira concreto e não temos onde nos esconder.

Isso tudo é insegurança. Como isto aqui não é horóscopo de jornal, que é o mesmo que consultar um oftalmologista por telephone, não farei interpretações genéricas para vender auto-estorvo. O que eu disse acima, se lido direito, pode ajudar cada um a identificar qual o seu problema e relatar ao profissional de saúde mental, que é a pessoa qualificada para elucidar cada caso.

Ajuda seguir as dicas da primeira onirisséia, como não ver tevê com menos de uma hora de antecedência ao sono, não beber refrigerante após o jantar, não comer qualcousa pesada á noite, não ouvir músicas(?) de baixo calão, et cétera. Mas, uma vez que a peladice está evidenciada, respire oniricamente três vezes e continue a fazer o que estava fazendo. Tenhas certeza de que se tu não deres importância, os outros também não darão. Mas isto só vale para os sonhos, se tu tiras a roupa em praça pública e me responsabiliza pelas conseqüências, vou aí e te dou um cascudo. Não fiquem pelados fora dos sonhos se o ambiente não for propício, a hipocrisia ainda predomina e quase ninguém sabe lidar com o próprio corpo, imaginem com o corpo alheio. Se lhes der na tete, unam-se, comprem um bairro, murem-no e deixem as aves soltas, perus e periquitas certamente vão gostar, mas só dentro dos muros deste bairro, como em sonhos.

16/08/2008

A morte merecida

Seis anos. Não foram seis horas ou seis dias, mas seis anos. Seis anos agüentando alimentação parenteral, sondas em lugares pudentos, fora as piadinhas levianas dos médicos, pensando que estava desacordado. Enfia droga, tira tecido, enfia sonda, tira sangue, enfia agulha, tira saliva... Isso doía. Tanto no corpo quanto nos brios. O tratamento era pior do que o dado às cobaias. Primeiro porque cobaia é criada para ser cobaia, segundo porque o Peta e o Green Peace estão em cima para coibir abusos, terceiro porque cobaias não pagam para serem humilhados. Aquele tratamento era caro! muito caro.
Trabalhou duro a vida inteira, sem murmurar, educou os filhos como lhe foi possível e agora é tratado como um objecto de laboratório. Já se cansou de ouvir "A pipa do vovô não sobe mais" cada vez que alguém examinava seu pênis. Como nenhum aparelho acusa reações significativas, salvo espasmos a cada choque eléctrico, simplesmente decretaram e tomaram como verdade absoluta que não sabe absolutamente nada do que se passa ao seu redor, apesar de já terem estudado casos que desmentiram a sentença.


Claro que não enxerga, ou daria sentido à expressão "Se olhar matasse", nem consegue se expressar, ou já teria mandado todo mundo enfiar nos próprios aqueles aparelhos volumosos que lhe enfiam regularmente no ânus. Sem dó, como se fosse uma cousa.


Aliás, já ouviu claramente médicos comentando que, embora não precisasse, o laboratório pagou uma boa comissão para incluir nos soros uma droga nova, caríssima, e que lhe estava dando azia. Sim, azia, há mais de dois anos que lhe enfiam aquilo no soro, sabendo que não é necessário e não tem a mínima chance de reverter o quadro.


Lhe dói imaginar como a esposa está arcando com tudo aquilo. Enquanto estava lúcido, soube que os filhos estavam raspando suas poupanças para custear um tratamento que, hoje sabe pelos próprios açougueiros, não trará seu controle de volta. Não teve tempo para demovê-los, na mesma noite a droga ultra-higth-tech-nanomolecular foi adicionada ao soro e a pituitária faliu, seguida pela metade do córtex. O repouso que um médico ayurvedista recomendou? Crendice! Ninguém jamais comprovou em testes artificiais de laboratório, então não funciona e que vá para a fogueira quem acreditar.


A esta hora seu neto, ou sua neta, deve estar aprendendo a ler. Chora por dentro porque não conseguiu acompanhar a gestação da filha mais velha, nem a formatura do caçula, nem festejou as bodas de prata. Bastaria ter passado longas férias em Blumenau, como lhe fora indicado primeiro, mas tinham que convencê-lo a ver um "médico sério". Um açougueiro, isto sim! Um balconistazinho de drogaria que não vende crac porque seria pêgo.


Três filhos criados, uma casa paga com muito sacrifício, e agora está reduzido a um organismo para treinamento de novos açougueiros. Pior, sua família está pagando para isso, acreditando que estão é tentando salvá-lo. Na verdade é um exemplar perfeito para os testes que lhes rendem fábulas, fora os honorários. Já testaram cinco drogas clandestinamente, todas arrebentaram com seu sistema imunológico, mas como está incapacitado e não podem interferir, não haverá processos nem perda de registros de medicina.


Mas uma certeza lhe consola, quando a morte vier, ahá! Quando ela vier, a festa acaba. Sofreu demais na vida, seu organismo já estava debilitado há muito tempo, não vai agüentar muito mais tempo, então as máscaras caem. A necropsia vai mostrar as falcatruas e sua família terá que ser ressarcida.
Um dia, não mais que derrepente, começa a abrir os olhos. Vê com uma clareza imensa. Uma mulher muito refinada se aproxima, imagina que seja a nova médica, apesar dos trajes de festa..
- Boa noite, Valter. É hora de te dar alta.
- Graças à Deus! Eu não agüentava mais, doutora!
- Nós sabemos. Levante-se.
Consegue se levantar com muita facilidade, mais do que quando deu entrada no hospital...
- E os outros médicos?
- Não são mais problema para você.
Valter olha em volta e vê seu corpo. Tem um início de confusão, pois está respirando, ouvindo, sente o calor e tudo mais. A dama o acolhe e explica a situação, que suas preces foram atendidas e que ele não precisava passar por aquilo. Mostra-lhe um fio que estremece e se solta de sua nuca. A aparelhagem começa a apitar infernalmente, no que uma equipe enorme invade a UTI e faz de tudo para evitar o que já aconteceu...
- Então eu morri? Mas e a Mirtes? E os meninos?
- Serão amparados. E terão de volta tudo o que investiram aqui.
- Então você é a morte? Mas te pintavam tão feia!
- rs, rs, rs... Se prefere ver assim, sou a tua morte. Cada um tem a que faz por merecer e nenhuma fortuna pode comprar outra diferente. Vê aqueles monstros? São as deles, e não tardam a reclamar sua paga.
Enquanto os doutores de colunas sociais e palestras em Harvard se desesperam, tentando não perder a galinha dos ovos de ouro que já perderam, Valter sai com sua condutora, seus pais o esperam.

09/08/2008

Não merecemos!


Quando o Itamar quis o Fusca retomar, uma multidão aguardava ansiosa pelo 1303, sua versão mais modernosa. Mais espaço, mais conforto, estabilidade e tudo mais. Preço também mais salgado, mas não importava, pois o Fusca já tinha passado da idade de ser carro de entrada, merecia ser modernizado.

Mas que decepção quando vimos a falta de respeito, em 1993, ele ser reapresentado daquele jeito. A mesma carroceria de 1967, retocada, mas no tempo parada. Alegaram que ficaria caro, mas pergunto se pobre tira carro da loja, a não ser como motorista. Basta ver as ruas abarrotadas de Fuscas com injeção electrônica, turbo, rodas de liga, bancos de couro e outros quetais, que renderiam à concessionária cinqüenta mil ou mais reais.

Hoje, a maioria não sabe, mas o Santana ainda é fabricado, tanto na versão quadradinha (bem baratinha) quanto na redondinha, com chassi alongado e melhor equipado. Onde? Desesperai-vos, taxistas, é na China que eles conduzem as visitas. Aliás, dois dos poucos carros chineses que não desmancham quando batem. Sei bem o quanto vocês gostavam do Santanão robusto e espaçoso, mas creio que importar seria muito oneroso.

Vocês me perguntarão o motivo de estes três modelos não recebermos. Bem, é que não merecemos. Nos acomodamos ao que querem nos dar, pelo preço que querem cobrar e compramos sem reclamar. Desde que as importações declinaram, as novidades também minguaram. Nos deram um Astra para substituir o Vectra, este muito superior em estabilidade e aerodinâmica; maquiaram o 206 e adicionaram 1; fabricam por cá o Mercedes Classe C, mas é só para exportar, quem quiser comprar tem que raspar a poupança e as taxas de importação pagar.

Estas são apenas algumas das atrocidades que cometem com a nossa permissão. Sabe-se lá a que situações os empregados de firmas terceirizadas são submetidos para reduzir os custos, mas nem sempre os preços.

Alguns vão gritar contra, dizer que tudo está mais moderno e avançado. Balela. Nos dão restos do banquete que dão no hemisphério norte, só mandam projecto cansado. Acham que melhor não merecemos.

Gosto de modelos antigos, confesso. Tenho simpatia de ver o Uno, Palio e Punto juntos em uma mesma revenda de carros novos. Para quem não sabe, o Punto substituiu o Palio, que substituiu o Uno, na itália. Talvez seja a única montadora que não me decepcionou efetivamente, até agora. Mas também poderia estar fazendo melhor.

Voltando ao 1303. Quando lançaram a Brasília (para mim é uma perua, ponto final), ficou claro que a população estava disposta a pagar mais por um Fusca melhorado, e o 1303 ainda estava findando a produção. Dificuldade técnica? nenhuma. Só política interna mesmo. Pois sabemos que um bom propagandista vende o que quiser, sabendo apresentar. Aliás, a Kombi, nesta época, quando foi remodelada, passou a dispor de uma suspensão que a fez ficar muito mais estável, foi inclusive aplicada na Variant II, mas o que queríamos ficou de fora.
A Chamonix conseguiu resolver o problema de emissões, nada que qualquer boa oficina não possa, ficou claro. Não com investimentos bilionários, só com competência e vontade. A mesma que faria a alegria dos taxistas. Imaginem o que eles não fariam com os recursos de uma multinacional.
Mas nós não merecemos. Desde carros até programas de televisão, passando por biscoitos e achocolatados, pioram a qualidade de tudo sem nos consultar e sem sequerer reduzir os preços. E nós aceitamos. Podem melhorar a qualidade da montagem, com isso o carro dura uns anos mais, mas se estragar, pode jogar fora. Nem tente abrir o capô, não vais conseguir nem checar as velas, tarefa antes banal até para leigos. Pifou? Joga fora, o conserto vai custar caro.
Poderíamos ter carros com a frente toda basculante, mas não merecemos. Afinal nem do que gostamos tomamos partido. Nem reclamamos quando tiraram o Opala Coupé de linha, e ele respondia pela maior partes das vendas do modelo. Então toda a linha Opala saiu de linha por "quedas acentuadas nas vendas".
O que eu faço quanto a isto? Boicoto. Mas é um boicote solítário de alguém que não costuma fazer compras vultuosas, então fica sem força. Ainda que reconheçam que eu tenho razão no que reclamo, e quem se deu ao trabalho de me ouvir reconheceu, eu faço tanta pressão quanto uma placa de isopôr no mar morto. Eu sei que eu mereço, mas como indivíduo. Quanto à coletividade, nós não merecemos! Não mesmo.
Agosto está quase virando e logo a Simone começa com "Então é nataaaaaaaal!..." Pensem no que cada um de vocês realmente merece, antes de gastar seu suado dinheirinho, ou a mesada que papai e mamãe dão com tanto carinho. Muito provavelmente, se for um carro, um modelo fora de linha vai agradar muito mais.