05/12/2009

Música Francesa - A Velha Guarda


Assim como já foi chique (quase obrigatório) falar fancês no Brasil, a música francesa moderna também fez muito sucesso em nosso território.

Era uma época de novelas bem feitas, bem escritas, bem dirigidas, bem interpretadas e com trilhas sonoras que dispensavam os milhões hoje gastos em propaganda. Era preciso ter qualidade para rivalizar com os francos, o público de então era muito exigente.

Dentre os ícones da época, destacavam-se alguns que estão na activa até hoje, e venderam elepês até falar "chega":

Charles Aznavour. É praticamente um sinônimo de música francesa. Há mais de uma década ele tenta se aposentar dos palcos, mas não consegue. Ele não toma sopa de letrinhas, toma sopa cifrada. A melancolia controlada de sua voz já remete ao álbum amarelado de família, às lembranças da moça que deixamos escapar e nunca mais apareceu, da juventude para a qual duas décadas não foram o bastante. Profissional competente e carismático, é tido como um Frank Sinatra da França, o que não deve ser dito a um francês, sob o risco de reações hostís, para eles Aznavour é muito melhor. Pondo ambos na mesma balança, só o estilo os diferencia, o fiél permeneceria erecto. Ainda hoje se chora ao som de "Hier Encore" e "Que C'est Triste Venise".

Edith Piaf. Exemplo clássico de que tamanho não é documento. Um toquinho de gente que se tornava uma giganta quando abria a boca. Como Charles, gostava de desabafar cantando, chorar em acordes sobre os amores que perdeu, as decepções e a maturidade que as surras da vida lhe impôs. Mas sempre enfatizando que não se arrependia do que fez, mas sim do que não fez, como em "Non, je ne regrette rien". O filme feito a seu respeito retrata com boa fidelidade a sua vida conturbada e abreviada, é indicado para quem quer um motivo para chorar em público sem dar vexame.

Jacques Breu. Muito antes de "Presença de Lolita" mostrar a versão actual, ele já emocionava com "Ne Me Quitte Pas". A plástica não era seu forte, mas o microphone revelava o Apolo que se escondia detrás daquele rosto tristonho. Sua dicção invejava mesmo os franceses, especialmente uando cantava "La Valse à Mille Temps". Infelizmente ele sumiu quase que completamente da memória e da s rádios brasileiras, mas o francês não é ingrato como nós e o mantém sob o holofote à que fez juz.

Patachou. Que eu saiba, ainda hoje está viva e participa de vez em quando da televisão. Também quase desvanecida no Brasil, ela conquistou o mundo pós-guerra com sua despretensão e sua competência. Seu jeito meigo e brejeiro se aliava à indumentária discreta. "Paris C'est une Blonde" revelava o que se escondia sob a imagem de boa moça, não que ela não fosse, mas não condizia com o rosto de noviça que tanta gente enganava.

Charles Trenet. Outro brejeiro, só que não escondia o que era, mas enganava. As feições de jurado de programa de auditório sumiam com "La Mer", que já embalou os namoros de muitos de seus pais, caros leitores, talvez dos avós, sei que eu usava suas músicas como entorpecente (mode entrega de idade "on") e atenuava meus dias.

Mireille Mathieu. Outra smurfete que coloca todos aos seus pés, quando abre a boca. Um amigo a conheceu pessoalmente e afirma que esta católica espevitada é uma pessoa agradável como suas canções. "La Dernière Valse" foi tema de muitos debutes, com sua voz maternal e os arranjos exemplares. "Une Histoire D'Amour" é o típico exemplo de música que nos toma de assalto. Os primeiros acordes são serenos, mas o tom cresce à medida que a música avança, como se a cantora não agüentasse mais se segurar e soltasse o choro. Com freqüência se chora, mas é choro bom, que desabafa e evita o primeiro infarto.

Soeur Sourine. Esta uma freira de verdade, mas que escandalizou muitos ortodoxos ao gravar um disco. Ficou famosa com "Dominique", que cantou como se cantasse para crianças em uma sala de aula. Marmanjos do mundo inteiro lamentavam sua vocação, pois não era de se jogar fora. A música ganhou muitas versões em muitos idiomas e hoje é tema da Oktoberfest.

Gilbert Becaud. Em patamares próximos ao de Aznavour, tem um estilo mais enérgico como em "E Maitenant", mas também descamba para a sutileza em "Au Revoir". Até os anos 1970 e início de 1980 fazia relativo sucesso no Brasil, mas até um peixinho dourado tem mais memória do que o brasileiro.

Juliette Gréco. "Sus Le Ciel de Paris" ajudou a vender muitos pacotes turísticos para a França. Seu estilo é o de uma balzaquiana ainda com o frescor, mas já sem as ilusões da juventude. Canta como quem já aprendeu as regras do jogo, mas não se conforma em ter menos do que merece. Um rosto daquele, decerto que merece bem mais, acompanhado pela voz poderia levar o cartão sem limites.

O que há em comum entre todos estes monstros sagrados da música, além do talento, é a gratidão que não permite lhes acontecer o que aconteceu com similares brasileiros: a gratidão do público. O francês ainda hoje é muito exigente com a qualidade musical, e ainda hoje dá deliberada preferência à produção local. Não basta mostrar partes pudentas, elas devem ter algum conteúdo para não serem tratadas como simples apelo pornográphico.

Acreditei sinceramente que poderia dividir o texto em duas partes, para tratar a respeito, mas já vi que três são o mínimo para a preservação da integridade do que quero passar.

Este idioma íntegro, revolucionário e ao mesmo tempo tradicional, que ainda hoje inspira romances e forma diplomatas, tem muito mais representantes na velha guarda do que os descritos, mas não caberiam em um livro, quanto mais no artigo de um humilde blog. Para os que já ficaram com água na boca, façam uma visita ao Malhanga Home Page, lá cliquem em Músia Francesa, et voilá, poderão conhecer em áudio e vídeo o que lhes falo.

O próximo texto será sobre a Jovem Guarda da música francesa, os artistas da actualidade ficarão para o texto final.

Até lá.

4 comentários:

New disse...

Bem, lembrado, amigo.
Sou fã de todos mas, Charles Aznavour é o que há. Adoro e tenho cds dele.
Já Edith Piaf é incomparável. Por um acaso assistiu o filme sobre a vida dela? Não foi sem razão que a artista ganhou o Oscar. É emocionante. Meus filhos assistiram e adoraram. Se não viu ainda posso procurar o link prá vc baixar no seu pc. A qualidade é de primeira e, de fato, imperdível.
Posso lhe ensinar a baixar, abrir etc. É 'facim', 'facim'. Gostaria que você assistisse. Vai adorar também. E ouvir a Edith cantando o hino francês é de arrepiar.

Beijos doces e parabéns pelo texto (mais uma vez).

Fred Guilhon disse...

Também gosto de todos citados, principalmente do Charles Aznavour que para mim é um ícone da música francesa.

Belo texto, bela foto.

Abraço

Nanael Soubaim disse...

Agradeço a contribuição. Tenho um sério problema de inconformismo com a deterioração do que é bom, a internet é o único meio (por enquanto) que tenho para tentar preservar aquilo de que gosto.

Umbelina disse...

Boa tarde!

Adoro música fraseca. Sua relação é dez.
Um abraço