19/07/2009

Heráldica

É basicamente a arte e ciência da identidade gráphica. Arte porque segue proporções, cores e desenhos complexos, muitas vezes raras pessoas conseguem desenhar o brasão de sua família sem ter um modelo à vista, tamanha a complexidade de alguns. Ciência porque não é para satisfazer o gosto pessoal, a função de um brsão é identificar e não diferenciar. Parece, mas não são a mesma cousa. Ser diferenciado é ser distinguido dos outros com relativa facilidade, ser identificado é saber quem é a pessoa; nem sempre ambos coincidem.
A heráldica nasceu da necessidade de os cavaleiros medievais serem identificados, durante a batalha, para que não fossem vítimas de fogo amigo, né presidente? O Lula deveria ter vestido uma fantasia de tucano, para evitar as trapalhadas dos companheiros de campanha. Da mesma forma, Fernando Henrique deveria ter se pintado de vermelho, quando era presidente.

Mas voltemos ao tópico do texto. Com o tempo, e a necessidade (não caprichos da moda) os brasões foram se sofisticando e se tornando mais complexos, sendo possível saber pela estampa em um anel ou uma bolsa, de onde o viajante vinha e, portanto, a quem se reportar a qualquer problema. Isto dava uma certa fiabilidade ao sujeito, como um carro de marca consagrada, que se der defeito nós sabemos a quem processar. Saber a procedência e ter certeza de que se tem a quem reclamar, permite que a pessoa tenha acesso a um amparo maior por parte de estranhos, pois estes saberão o que fazer se algo der errado. O brasão era o RG em uma época de recursos precários, quando as pessoas viviam próximas aos castelos para terem proteção do manda-chuva de cada região, pois o Estado como o conhecemos hoje era inexistente... Uhm... Não mudou tanto assim. Por isto, principalmente, que ser fidalgo, ter descendência nobre era quase garantia de receber ajuda aonde quem que ele fosse, não só pelo dinheiro e pelo poder da família.

Eu comecei a estudar heráldica há uns anos e parei, por falta de recursos e disponibilidade, nesta última semana encontrei dois sites supimpas, e em português, sobre o assunto. O da Heráldica Pelotense e o Atelier Heráldico. O brasão que ilustra o texto é do sítio Defesa. Gostaria de já ter disponibilidade para me aprofundar, mas não tenho, a vida à Deus pertence, não à mim. Se estão lendo isto pela internet, cliquem nos nomes, que são links; se estão lendo em uma folha impressa, esqueçam, não vai funcionar.

Não falarei das corrupções que o passar do tempo fez com esta fina arte, não sou apresentador de televisão, nem historiador masoquista. Nós sabemos o que aconteceu e no que resultou. Venda de títulos, concessões indevidas, enfim, peguem um livro de história medieval e dêem uma olhada. Será suficiente para a maioria de vocês.

Se há um milênio a preocupação era não ser decapitado pelo companheiro de combate, hoje a importância da heráldica é outra, é a da identidade individual. Em uma época em que as pessoas aceitam ser massificadas ou entram para grupos criminosos, buscando seu próprio ser, a arte-ciência dos brasões oferece uma identidade segura e perene, dando ao indivíduo a certeza de que ele é alguém. Uma certeza que não desvanece com o fim da novela, da moda ou com o esfriamento de uma notícia bombástica.

Fazer um estudo genealógico da família custa menos do que entupir o carro com sistemas de som pesados, que mal deixam espaço para girar o volante e trocar as marchas. Fazendo este estudo, se a família não tiver, já fornece ao heráldico informações suficientes para confeccionar um brasão que seja a identidade daquele sobrenome.

Ao contrário das marcas comerciais, o brasão não tem qualquer pretensão de agradar aos olhos, atingir um público alvo, nem mesmo fazer sucesso e ser imitado em mochilas e cadernos. Da mesma forma como o CPF nunca foi sucesso em estampas de camisetas, mas cumpre sua função melhor do que se poderia esperar.

Em vez de esperar a criança procurar amigos de horas alegres, ou um grupo para se vingar do cara que ficou feliz com a vitória do time adversário, é prudente mostrá-la que ela tem uma família, uma tradição, que tem (ou teve) avós, bisavós, tios, primos, que a família não surgiu do nada, assim como o universo também não surgiu do nada. Nada surge do nada. Pode parecer bobagem para um adulto, já com a cabeça apertada e as esperanças drenadas, mas para a criança faz uma diferença enorme. Saber quem se é e gostar do que se é peermite que ela esteja pronta para gostar do próximo. Essa história de tradição familiar é tremendamente importante. Não falo de apego à tradição, nenhum apego é bom, mas de respeito e cultivo das boas trasições, aquelas que fazem a diferença na formação do indivíduo. Um brasão é a síntese perfeita das tradições familiares. Goste-se ou não, foram elas que te trouxeram até aqui, se quer renová-las terá que conhecê-las bem mais do que os outros juntos, ou será apenas uma troca eventual de hábitos, que logo se esvaziarão e formará gente radicalmente apegada ao que fazia sentido, por torpe que fosse.

Se a tua família não tem uma boa tradição, mon ami, lamento. Tens um problema. Se no natal cada um vai para um lugar, se os aniversários são feitos para impressionar os outros e não para homenagear o aniversariante, se a passagem da infância para a adolescência e desta para a vida adulta ficam em brancas nuvens, tens um problema enoooooorme. Começar uma tradição ajuda a aglutinar os parentes, mas o início é muito mais difícil do que pegar uma tradição já estabelecida. Um piquenique uma vez ao ano, no primeiro domingo após (ou coincidente com) o aniversário de casamento dos pais é um bom começo. As pessoas saberão porque estão lá, não será um mero entretenimento.

O problema de estabelecer uma tradição é a dificuldade maior do homem: dar o bom exemplo. Quem inicia se torna automaticamente líder, goste ou não. Um líder é o espelho para os liderados, goste ou não. Se o líder falhar, todos falham, goste ou não. Por isto a maioria dos pais de hoje querem que a escola eduque seus filhos, é muito mais cômodo. E se algo der errado, é culpa do governo, que não deu educação às crianças.

Tradição é sinônimo de responsabilidade, de comprometimento, de conteúdo, três ítens que muito faltam à juventude que quer tudo agora e de graça. Mas a culpa não é só dos fedelhos malcriados, é também dos pais que malcriaram-nos. Mas se os próprios pais não sabem o que querem da vida, o que dizer dos descendentes?

Eu não sou conservador, na acepção da palavra, mas aceito dizerem que meus gostos e meu padrão estético são muito conservadores. Eu me apóio na tradição, não me apego à ela, é uma relação de respeito que venho resgatando há uns vinte anos. O que fez por mim? Para começar, está mantendo minha sanidade mental em uma fase crítica que já dura anos, também está me mantendo sociável à revelia da péssima impressão que tenho do convívio social.

Mesmo para quem não tem uma pataca furada no bolso, é fácil imaginar animais, formas, cores e padrões que traduzem com fidelidade a sua pessoa. É fácil desenhar este brasão no verso de uma nota fiscal e pintá-lo, desde que se seja sincero e não se queira estabelecer um padrão estético. Por precário que pareça, cada vez que olhar para aquele desenho singelo, ele te lembrará quem és, porque aquilo não é um número, não é um rótulo, não é um capricho efêmero da sazonalidade que a moda impõe, é a representação gráphica da tua mais íntima e verdadeira personalidade. Depois de feito o desenho, é interessante estudar o que e como se puder cada elemento dele, o que revelará facetas que a própria pessoa desconhece de si mesma, permitindo que controle melhor as más e fomente as boas tendências, de acordo com sua índole. Clicar nos links acima também ajuda muito a daber o que o teu desenho significa, ainda que muitos dos elementos deles não sejam da heráldica clássica, ele terá padrões que são universais e, portanto, possíveis de serem encontrados nos brasões tradicionais.
Comece de onde puder. Faça teu desenho, depois me conte.

3 comentários:

New disse...

Oiêee!
vim deixar um forte e imenso abraço. Afinal, amigos virtuais existem, sim. Eu os tenho e você é com certeza um deles.
Beijos

Umbelina disse...

Olá! Amei seu texto. Também gosto desse de heráldica (ede tradições...). Acho que a culpa não é dos fedelhos mesmo, é dos pais, pois são quem educam ou não.
Feliz Dia do Amigo.
Abraços

Nanael Soubaim disse...

A culpa não é [b]só deles[b/]. Tive tudo para ser um cafageste e escolhi arcar com as conseqüências de não ser. Fiz o texto de coração aberto, sem esperar que gostassem, mas estou fefliz que o tenham.