10/06/2008

Noite em claro

Já não se importa se ganha pouco, se mora mal, se deturpam tudo o que diz. Só suspira.
O ar que entra pela janela é frio, mas não muito. Decide sair. Quem tem medo de assaltos? Já teve há até uns meses, mas todos os dias dezenas de pessoas são agredidas por marginais, às vezes por nada, os jornais são provas disso. Mas não conhece um só que tenha sido vítima de algo pior, então a possibilidade de ser... Ah, ao inferno! Se tiver que morrer assassinado e não sair, alguém entra na casa pretextando roubar o computador. Sai sem o celular mesmo. Nem sabe se ainda tem carga, faz quase uma semana que não chama nem liga. Mais um suspiro e sai.
Fazia tempo que não saía depois das vinte e duas horas. Mais tempo do que pode se lembrar. Só se lembra das luzes de natal, que via na infância. Hoje só por televisão, que também está há dias sem funcionar. Não está quebrada, só não quer ligar mesmo. Quer ficar realmente só e a solidão do apartamento estava se tornando uma companhia incômoda.
Engraçado ver tanta gente sorrindo e namorando! Pelo que ouvia, todos deveriam estar encolhidos e mantendo, no mínimo, um metro de distância da criatura mais próxima. Mas essa alegria vai desaparecendo, ele imerge em sua solidão voluntária e continua andando. Sem rumo, sem horário, sem compromissos, só segue.
Faz tempo que não namora. Também faz tempo que não tem interesse em namoro. Na verdade faz tempo que não se interessa por cousa alguma.
Já cogitou o suicídio. Mas a razão, mesmo sua razão atéia, o chamou para um canto e colocou tudo em pratos limpos. Ainda que morresse dormindo e fosse para o vazio inexistencial, seu sofrimento não acabaria. Mesmo inconsciente o corpo transmitiria de alguma forma a agonia da morte prematura e, sendo a última cousa a sentir, caso não haja mesmo uma vida pós-túmulo, essa agonia seria eterna, pois nada mais haveria além dela. Não, a agonia que sente já é horrível o bastante. Quer ter a chance de acabar com ela, o que por agora não consegue.
Aha! Beleza! Começou a chover! E daí? Só está com documentos e um cartão de crédito e débito, é tudo plástico, não vai estragar.
A chuva ensopa aos poucos sua roupa de tiozão. Calças pretas (de alfaiate) com riscas-de-giz, camisa pólo branca com um bolso, sapatos de amarrar e meias no mesmo tom de preto. Deixa de se importar quando a cueca também ensopa e os cabelos conspiram com o temporal. Segue. É tudo matéria morta mesmo, não vai gripar. Se o corpo gripar, então consegue o tempo de que precisa para meditar sobre sua vida. Nem sente o banho de lama que um ônibus lhe dá. Até porque o aguaceiro limpa tudo depressa.
Se olhasse ao redor, não saberia dizer onde está, mas com certeza nem se importaria. Não há marginais agindo sob o temporal, não há gente apressada atropelando sob o temporal, não há ninguém além dele andando no meio da rua, feito um maluco, sob o temporal. As luzes dos postes são suas únicas testemunhas. Testemunhas arrogantes, diga-se de passagem.
Há uma ameaça de demissão. Duas décadas dedicadas àquela empresa e um menininho, um fedelho ainda cheirando a cocô, vem acusá-lo de atrapalhar a companhia. Pois amanhã se demite. Chega meia hora mais cedo, vai ao departamento de recursos humanos e volta para casa. Os relatórios acumulados? O directorzinho "emebeático" não se acha o suprassumo da humanidade? Então que se vire. Aquele salário já não paga há anos as agruras que lhe custa. Quando vai ao banco, em vez de extrato, o caixa electrônico lhe dá um atestado de pobreza. Não foi por falta de lutar, esse remorso ele não leva ao túmulo. Tudo o que estava ao seu alcance, tudo o que poderia ter feito para subir na vida, ele fez. Exceto usar os outros como escada. Talvez tenha sido isso.
As pessoas não gostam de gente boa e honesta, chegou a esta conclusão faz alguns meses. Todos reclamam de todos, da corrupção, da má educação, do jeitinho maldito, da desconsideração dos outros para com o próximo e tudo mais. Mas o que acontece quando aparece um homem honesto? É trouxa. Sai daqui, perdedor! Homem bom só serve para levar chifres e pagar contas. Todos querem que o mundo tenha gente honesta, mas a uma distância mínima de cem metros. Honestidade incomoda, faz os podres aparecerem.
Há alguém ouvindo "Solitaire" por Karen Carpenter. Então ele pára para ouvir. Sua vida é mais ou menos isso, só que não quer jogar sujo. Sente-se em um filme noir branco-e-preto. Mas nenhuma estrela de cinema vai aparecer na chuva para abraçá-lo. Na verdade, nem precisaria ser famosa, nem mesmo popular. Nem sabe do que precisa, mas sabe que tem a ver com aquela música.
Vê uma movimentação logo à frente e por ela é visto. Nem tinha notado o fim da chuva, talvez por ainda estar ensopado feito macarronada da nonna. Uma moça se aproxima e oferece uma toalha. Não vê seu rosto, mas naquela momento é a mulher mais linda do mundo, simplesmente porque se importou consigo. O grupo o acolhe e lhe dá uma sopa. É só o que têm, mas ele nem tinha fome, come por gratidão. Vê gente miserável sendo servida sob o viaduto, provavelmente aquela é a única refeição de muitos deles, naquele dia findouro. Nem sabe como, mas aquela moça vai puxando conversa e ele acaba falando tudo, até o que não sabia que tinha a falar. Também não sabendo como, acaba se enturmando e ajudando. Afinal não é um desabrigado. Pode se manter no apartamento por uns três meses até conseguir outro emprego, pois o actual está definitivamente descartado de sua vida. Ouve um "Obrigado, meu filho" de uma boca banguela, não sabe dizer se é idosa ou idoso, sabe que foi o primeiro agradecimento que recebeu em anos. Novamente alguém toca Carpenters, com "Sing". Aprendeu inglês suficiente para saber do que a música trata e canta junto.
Mas que diabos! Saiu na esperança de desaparecer e deixar de existir, agora está feliz da vida! Pô, Deus! Ele nem acredita em Vós e vais se metendo assim na vida dele? O que quereis? Que ele seja feliz? Estais agora fazendo que confie em gente religiosa? Justo quem mais o decepcionou? Para quê? Ele tem muito medo de se decepcionar de novo! As pessoas foram muito cruéis com ele! O usaram como apoio e o descartaram assim que se reergueram!
Porque Meu filho trouxe até Mim a cruz que lhe pedi, ainda que sob provações torpes que não coloquei em seus ombros, Eu lhe dou a Minha Paz. E um emprego novo, pois também de pão vive o homem.
Ah, o raiar do Sol. Desde os dezoito anos que não via o Sol nascer! O Sol nasceu.

7 comentários:

Lorena disse...

Ah, que lindo! Como é bom andar por aí e topar com textos como os seus! Eles são motivadores, são belos, são boa literatura como pouco se vê! Obrigada pelos textos tão bons de se ler. E também obrigada pelas citações de Carpenters, que é uma das minhas bandas favoritas. ^^ Não sou da época deles, quando a Karen morreu eu nem sonhava em nascer. mas boa música é transcedental e mensagens como a de Solitaiere ou Sing são eternas, pra qualquer época, pra qualquer idade...

Abraços!

Cladifa disse...

uma pessoa depois de ler o teu texto fica cheia de paz e esperança para continuar para a frente...

parabéns!!!

(tambem tenho um blog com textos meus e de uma amiga

http://emo-written.blogs.sapo.pt/

visita, e diz o que achas...)

beijinhos e abraços

Nanael Soubaim disse...

Chuchu beleza, amiguinhas. Fico feliz de ter sido útil.

Adriane disse...

Lindo, Nanael. Difícil dizer qualquer outra coisa deste texto....
Para suspeirar, refeltir e amar.

Nanael Soubaim disse...

Patota, estou esperando o meu novo computador chegar, pois o computossauro já pediu arrego e não confio em máquinas alheias. Em breve teremos textos novos.

Bel disse...

Fiquei emocionada...
Lindo mesmo!
E não dá pra saber se é real ou fictício, mas tanto faz. Isso realmente não importa.

Anônimo disse...

Boa escrita, confesso. Um toque clássico, talvez, mas ainda um pouco descentrado...

Esse poditivismo ilusório enjoa. Não leve a mal, mas, para isso, lê-se Paulo Coelho - que já não é grande coisa.