27/03/2014

Memórias de um agente




    Eu já não era mais um jovem, mas ainda estava longe da velhice. Corria o ano de 1951, quando já tínhamos eliminado a última semente escrota do nazismo, embora soubéssemos  que algum dia, mais idiotas se apegariam às suas cinzas para compensar seus vazios. Well, isso já não era problema meu, minha parte estava feita. A minha e a de cada membro da legião.

   Identidades novas estavam sendo providenciadas, vidas novas estavam sendo forjadas, os fios da teia social da qual passaríamos a pertencer, estavam sendo cuidadosamente atados pelos agentes competentes; aliás, pareciam ser os únicos que eu podia chamar assim, os outros estavam tão neuróticos que mal conseguiam raciocinar.

   New York sempre foi uma cidade agressiva, mas não era difícil aprender a lidar com essa agressividade. Apesar de tudo, e das vezes em que ficamos cara a cara com a dona Morte, fomos felizes naquele pardieiro. Era esse o problema, nós fomos muito felizes, apesar de tudo. Não precisávamos de motivos para sermos, éramos e ponto final! Apesar de dominadora e tudo mais, New York foi uma mãe carinhosa, em meio aos rigores a que nos submeteu, rigores que nos tornaram fortes o suficiente para sairmos vivos de nossas missões.

   Mas tinha acabado. Se continuássemos por lá, as coisas voltariam a se complicar e os civis inocentes, por mais sacanas que fossem, acabariam pagando por um pato que não comeram. Washington já dera o sinal verde, o departamento de medicina legal já tinha providenciado os cadáveres de indigentes, e as carpideiras profissionais da CIA estavam prontas para dar autenticidade ao falso velório. Pelo menos aqueles pobres diabos teriam um enterro digno, em vez de serem enterrados como adubo.

   Tudo estava pronto, sairíamos com a roupa do corpo, absolutamente nada que já tivéssemos conseguido poderia nos acompanhar. Nada mesmo! Nem nossos bichos, nem meu suado Mercury Sport Sedan ainda cheirando a novo, nem nossos amores, tampouco as famílias. Praticamente só Patrícia pôde se despedir do seu, bônus de agente que se enamorava com agentes. Mas foi uma despedida triste, muito triste! Ele sabia que ela permaneceria viva, mas nunca mais saberia de seu paradeiro. Na verdade nem nós sabíamos para onde iríamos. Só eu sabia que iríamos para o Brasil, mas nossos destinos precisos seriam definidos na hora, por sorteio.

   Minha especialidade era muito valiosa e seria utilizada para o fim. Lavagem e contra-lavagem cerebral. Não, eu não apaguei as memórias de ninguém, só utilizei minhas técnicas para que todos tivessem na ponta da língua, e até por sensações induzidas, seus novos históricos de vida. Cada um deveria merecer o Oscar por cada dia de sua nova vida.

   Ah, como fomos felizes naquele lugar! Embora a necessidade de o inimigo ter certeza de que estávamos mortos e carbonizados fosse imperiosa, nem o Doctor Icebox ficou indiferente. O diabo é que o agente Carl, hoje Renato, reclamou de não poder receber a grana da aposta. Dr. Phineas Peebles estava lá, na nossa frente, lacrimejando, para o assombro geral da CIA, mas nem o gosto de ver os cem dólares da aposta nosso companheiro poderia ter. A agente Berta, hoje Eddie, tentou consolá-lo, mas só conseguiu rir da cara dele até a hora de tudo começar.

   Era inverno, tudo conspirava para dar certo. E deu! Mais até do que esperávamos. Um agente inimigo tinha entrado no nosso antigo lar, não sabemos para quê, mas sabíamos que não era para nos pedir desculpas por quase ter nos matado uma dúzia de vezes. Então ninguém ficou triste em antecipar em alguns minutos a explosão, o prédio já estava com vários vazamentos de gás mesmo. Foi com prazer que causamos o curto-circuito.

   Vida de agente secreto é triste. James Bond chega a ser uma ofensa às nossas cicatrizes. De longe, com potentes binóculos, vimos tudo o que conseguimos, e que eu, pelo menos, tínhamos acumulado para uma velhice tranqüila, estava ardendo em chamas, para logo ser sepultado nos escombros da alvenaria fragilizada. Patrícia chorou! Como chorou! O apartamento amplo e arejado tinha sido destinado ao casamento com o agente Phillips. Ele faleceu um ano depois, de câncer decorrente de exposição excessiva aos testes nucleares. Foi, assim, quem menos sofreu.

   Sim, agente secreto tem sentimentos. Muitas vezes nós precisamos ser sacanas, temos que ferrar irreversivelmente um cretino que não dá a mínima para a vida de um compatriota nosso, às vezes nem às dos próprios. Não pensem que isso acontece porque gostamos, acontece porque vocês se sentem confortáveis em sua alienação e não tomam conta da parte que ljhes toca da administração mundial. Eu queria ser arquiteto, mas tive que me tornar assassino do governo; eu e meus colegas éramos os menos ruins, acreditem, havia verdadeiros psicopatas na lista de candidatos.

   Foi um ano de treinamento intensivo, com técnicas absolutamente reprováveis, mas absolutamente necessárias de lavagem e autolavagem cerebral, com os melindres de se evitar suas conseqüências danosas. Se funcionou? Sim, funcionou muito bem, bem até demais. Felizmente o nosso sacrifício acabou demonstrando que o cérebro humano tem uma capacidade de aprendizado e estocagem muito maior do que se imaginava, tanto que as pesquisas duram até hoje, e vocês se beneficiaram delas, ainda que não saibam. Infelizmente a memória dupla nos tornou saudosistas inveterados, com todo o potencial de ampliação do sofrimento que vocês nem imaginam. Se dez anos de memória já lhes traz saudades, imaginem lembrar com nitidez do que me aconteceu em quinze de Dezembro de 1948, quando minha primeira filha nasceu!

   Sim, eu tinha filhos. Três na verdade. Duas meninas brancas e um negro, adoptivo. Barbara deu de ombros para os comentários e insistiu na adoção. Foram poucos anos, infelizmente. Minha vontade de matar o cretino do Major Lawrence quase superou meu amor à pátria... Ele se casou com minha "viúva"... Safado! Eu era o único casado, fui o que mais perdeu com isso. E ELE SABIA DE TUDO, FAZIA PARTE DA OPERAÇÃO! SAFAAAAAADOOOOOOO!

   Outra técnica condenável, que nos causou dores terríveis por vários anos, foi um teste genético que deu mais veracidade à farsa. Produziu uma apoptose controlada, nos fez regredir alguns anos, biologicamente, estabilizando nossos corpos até meados dos anos 1980, quando voltamos a envelhecer quase normalmente. Quase porque o agente Tracy, que não sei mais por onde anda, desenvolveu uma bizarra menstruação masculina. Em vez de esperma, passou a produzir óvulos... Por isso a técnica foi definitivamente abandonada. Dizem que foi totalmente transformado, que seus cromossomos Y abriram as perninhas e, bem, tem muita lorota no meio da espionagem, não dá para acreditar em tudo.

   Nem todos os presidentes americanos tiveram acesso a esta informação. Eu só posso contar agora, porque o perigo foi definitivamente debelado, após seis tristes décadas. Também porque ninguém vai acreditar! Vocês acreditariam se eu dissesse que o Capitão América existiu de verdade? Não, né! Pois existiu e eu lutei ao lado dele! A maioria dos filmes realmente bons, foi inspirada em memórias de agentes que, ao contrários de nós, não podiam se lembrar com clareza de suas missões, então sofreram lavagens mais profundas. Star Trek, Star Wars, Matrix, Indiana Jones, A Vida é Bela, enfim, muitos dos clássicos do cinema e da televisão de hoje saíram de adaptações de memórias ocultas de agentes secretos.

   Não, o seu mundo não é uma mentira, só é muito mais colorido e rico do que vocês pensam. Muito mais do que suas mídias medíocres os fazem acreditar. Muitas outras operações virão à tona, não totalmente, por enquanto, mas virão, seja na forma de filmes, de livros, ou o que for. Já é seguro tirar alguns esqueletos do armário; e a América tem muitos!

   Hoje estou voltando para lá. Não para New York, as boas lembranças me fariam cometer suicídio. Vou para Michigan, ajudar a reconstruir Detroit. Uma terceira identidade já foi providenciada e, lamento, desta vez vocês não poderão saber quem eu serei, não pelos próximos trinta anos, pelo menos. Os outros ficarão, estão bem arranjados por aqui, eu é que não me adaptei direito, apesar de todos os meus esforços.

   Good bye, Brazil.

24/03/2014

A árvore e o abismo


   Era uma árvore sem grandes atrativos estéticos. Suas folhas mal se desenvolviam completamente, seus galhos eram tortos, as flores escassas e seus frutos, tão medíocres que só os insetos e pássaros se interessavam por eles. Em qualquer outro lugar, teria sido derrubada há muito tempo, para das lugar a uma muda que desse uma árvore de porte, talvez uma frondosa e produtiva macieira. Mas lá ela estava longe da lâmina de qualquer machado.

   Estava em um lugar tão inóspito e perigoso que, que ironia, estava segura. O vento com freqüência a castigava com rajadas que derrubariam um homem forte para a morte certa. A chuva, quando caía, era uma verdadeira tempestade. No inverno a neve a deixava praticamente morta, resistia porque as profundezas aonde suas raízes tinham ido, estavam suficientemente distantes para manter a água líquida. No restante do ano o sol inclemente atacava com fervor a sua casca grossa e contundente.

   Ninguém sabia ao certo que árvore seria aquela, tampouco já tinha provado de seus frutinhos deformados, só que deviam ser nutritivos, pois não sobrava um. A localização era o empecilho para os aventureiros de plantão. A árvore parecia estar sempre prestes a despencar do abismo sobre o qual estava inclinada. As pedras ao ser redor não inspiravam confiança, o caminho até lá era muito estreito e escorregadio, especialmente com as intempéries a ameaçar os pretendentes.

   Como ninguém sabia que árvore era e que frutos produzia, também ninguém sabia como ainda estava lá. A situação era muito assustadora, vários animais terrestres já tinham despencado e se despedaçado durante a queda, sabe-se lá se todos morreram antes de sentirem sua carne rasgada e ossos sendo triturados pelo despenhadeiro. uma morte horrível demais para uma época tão remota e desprovida de recursos permitir alguém se arriscar.

   A própria árvore não sabia direito porquê estava lá até então. Suas fibras eram rasgadas com freqüência, mal tendo sido repostas e reforçadas, após o último castigo climático. Seu dilema era mais profundo do que simplesmente estar inclinada àquele abismo, isso não a assustava. A assustava não ter noção de quanto tempo isso ainda duraria. Suas raízes, instintivamente, por conta dos rigores, tinham se aprofundado tanto, que já tomavam praticamente toda a montanha com suas fibras tenazes, absorvendo os poucos nutrientes que cada canto lhe permitia.

   A árvore não sabia mais se ainda era uma árvore de verdade, tamanha dificuldade para sobreviver e tamanha demora em morrer. Suas raízes estavam tão profundas e disseminadas, que às vezes acreditava ser uma pedra com photossíntese, uma parte da montanha que dava frutos feios e descascava de vez em quando. Não estava claro, na verdade, se ela era parte da montanha ou a montanha já tinha se tornado parte dela, pois as mesmas raízes já tinham evitado um milhar ou mais de deslizamentos que a teriam desfigurado. Terremotos que já derrubaram outros apêndices de outras montanhas, vários deles, não conseguiram sequer mover uma de suas rochas grandes. estavam todas entrelaçadas pela rede viva das raízes, que buscando água e nutrientes, empacotou a montanha inteira.

   Não sabia há quanto tempo estava lá, a montanha não fornecia um calendário, sabia que já tinha visto muitas árvores nascerem, crescerem bonitas e morrerem naturalmente. Deveria ser muito, mas muito velha. Velha e triste. Nenhum inseto, nenhuma ave ficava lá, nenhum ninho jamais foi feito em seus galhos robustos. nem poderia, o vento mandaria os ovos para sabe-se lá quantos quilômetros de queda. Tantos raios já tiraram espessas lascas de sua casca tosca, que não sabia mais se algum ponto do tronco ainda era original.

   Não bastasse a solidão, ainda lhe doíam os castigos climáticos. Não era por não se queixar que estaria confortável, pelo contrário, a dor da existência lhe tolhia até a capacidade de gritar. Não sabia como ainda estava viva, não sabia nem mesmo como raios uma semente foi mandada pra tão alto e como brotou em terreno tão inóspito. Sabia que se tivesse olhos, não haveria prantos suficientes para aliviar seu sofrimento naquele apêndice que, por ironia, era ela mesma que mantinha firme na montanha... Se é que ainda podia se considerar algo à parte daquele acidente geográfico.

   Após tanto tempo, talvez já devesse estar anestesiada, tão embrutecida quanto sua aparência, mas não estava. Por mais que precisasse recompor suas fibras rompidas, elas nunca perdiam a sensibilidade. Por mais que as folhas voltassem a brotar, mesmo tortas, elas sempre eram delicadas. Por mais que as flores miudinhas voltassem a exibir sua beleza incompreendida, sempre eram delicadas. por mais frutos estranhos e deformados que desse, sempre lhe doíam as bicadas das aves que se alimentavam deles.

   Às vezes tinha vontade de se jogar e se despedaçar naquele despenhadeiro, para acabar com seu sofrimento. Os pensamentos suicidas, em verdade, eram recorrentes. mas era só uma árvore, não podia nem mesmo escolher para que lado crescer. Nos pensamentos mais tresloucados, que cogitavam a hipótese de poder se mover de alguma forma, lhe vinha o raciocínio de que não poderia cair, porque já estava no chão. Suas raízes eram tão profundas, que já quase chegavam à base da montanha. A montanha que, em última instância, era apenas um recheio rochoso de seu corpo fibroso, tão vasta era a rede de suas raízes.

   Estava presa à vida. Seu sucesso biológico inaparente, que ironia, lhe tolhia do único desejo que realmente tinha, que era o de dar cabo daquele sofrimento. Tanto não podia escolher para onde crescer, que cresceu para dentro e para baixo. Formou uma base que seria a redenção de qualquer árvore, em situações normais, mas a sua situação estava longe de ser normal, muito menos desejável. Mas assim como não escolheu onde brotar e para onde crescer, também não lhe cabia decidir a hora de ser extinta. Em uma análise mais profunda, a árvore sempre acabava concluindo que ela mesma era o abismo.

21/03/2014

O líder carismático

   Esta é uma carta aberta à posteridade. Exibo nela a engenharia da situação em que o mundo está imerso, para que vocês compreendam o que está acontecendo nesta época. Não tenho qualquer viés ideológico, me livrei disso ainda jovem, então me reservo o direito e dever de não citar nomes, pois a situação é generalizada e todo o planeta está metido nisso. Este texto é resultado da observação pessoal, após a análise das linhas de força que compõe a conjuntura política do contemporâneo. Tudo o que quero com ele, é que vocês, seja que época for a sua, não caiam nas armadilhas das cartilhas prontas de grupos organizados, sejam eles de lado forem. Eles sabem seduzir melhor do que uma meretriz.

   O carisma é a chave mais utilizada para abrir caminho, eles sabem como usá-lo. É uma estratégia muito comum entre pessoas muito vaidosas, especialmente as que têm tendências messiânicas. Estes são os piores, porque realmente acreditam que têm o direito e o dever de tomar todo o poder em suas mãos e liderar a massa, nem passa por suas cabeças que um dia vão morrer e que as pessoas podem estar demasiadamente acostumadas, e acomodadas, à sua liderança.

   A característica básica dessa gente, é o sorriso terno ao se dirigir ao seu público. O indivíduo se vê como pai ou mãe de todas aquelas pessoas, inclusive com os direitos inerentes, para tanto as regras formais passam a ter valores subjetivo, só valendo se, quando e enquanto estiverem de acordo com suas intenções. Devo frisar que para ele, as suas intenções são sempre as mais nobres e as mais adequadas à situação. Qualquer estudo científico em contrário é atropelado.

   O contrário também acontece, quando sua face chega a se desfigurar ao tratar de desafetos, de situações de contrariedade, ou ainda quando se sente traído. A livre expressão torna-se rapidamente um incômodo e seus praticantes são facilmente enquadrados como ingratos e traidores, não dele, mas da nação e suas mais profundas aspirações.

   Com o tempo, geralmente pouco tempo diga-se de passagem, ele deixa de se considerar o melhor gestor do mundo, para se considerar tutor de seus liderados. Aqui existe um perigo real, porque como tutor, sua flexível visão de interpretação das leis passa a ter nuances surreais, que levariam qualquer um à camisa de força. O problema é que o indivíduo em questão tem poder suficiente para se livrar disso.

   Alguns casos extremos fazem o então líder se considerar tutor não só do povo, mas de absolutamente tudo o que disser respeito ao país, se for o caso; isso pode acontecer e acontece em organizações menores, como empresas, agremiações, clubes, et cetera. Neste nível, ele passa a agir como se tudo lhe pertencesse, como se tudo o que existe no país fosse apenas emprestado aos seus cidadãos, ainda que eles tenham pagado caro pelo que conseguiram.

   Problema maior, porém, é que seus seguidores normalmente acreditam em sua liderança, em suas intenções, suas motivações e suas argumentações, por mais psicodélicas que estas se mostrem. Em geral esses seguidores se dividem em extremos. Um, a maioria, é composto pelos que se consideram e geralmente são muito ignorantes, mas apenas no sentido acadêmico, por isso se encantam com facilidade ao ouvirem os discursos de seu líder, quase sempre prolixo, longo, altamente retórico, repleto de citações e variando do tom mais piedoso ao mais exaltado. O clientelismo ganha nomes novos, sempre com intenções de exaltar a bondade de quem finalmente olhou por alguém que sempre foi preterido pelos outros líderes. Evocar o preconceito de classes mais abastadas é de uso diário, para lembrar que só o líder é amigo do povo, só ele e mais ninguém.

   O outro grupo, também numeroso, se considera altamente intelectualizado e detentor da verdade sobre a realidade mundial. Normalmente se considera o único grupo lúcido do mundo, e muito mais culto do que realmente é. Tem na ponta da língua uma série de passagens e frases de philosophos com os quais simpatizam, normalmente dando às suas conclusões uma interpretação dogmática, pouco o nada diferente de vertentes religiosas fundamentalistas. Assim como elas, se apegam muitas vezes ao pé da letra a todos os termos doutrinários de seus pensadores, rechaçando às vezes rispidamente qualquer acusação de contradição. Só confiam nas fontes oficiais de seus líderes, ainda que sejam governos falando de si mesmos, rejeitando informações de qualquer outra fonte, principalmente se julgam que tenha alguma simpatia com seus inimigos.

   Ridicularizar essas outras fontes, e principalmente quem lhes dá algum crédito, é de praxe para esses líderes. Usam e abusam de dados oficiais para desmentir qualquer notícia que lhes contrarie, sem poupar expedientes desde que eles lhes dêem os resultados que desejam, à melhor maneira do Príncipe de Maquiavel. Citam erros do passado, para tentar desacreditar uma notícia e fazê-la parecer falsa, ou mesmo acusar seus autores de conspiradores, mesmo que denúncias idênticas já tenham sido feitas a governos anteriores. Dizer a verdade para dar veracidade a uma mentira é tática recorrente.

   Não surtindo efeito a pilhéria com que alvejam seus opositores que, repito, para eles são INIMIGOS DECLARADOS e não simples portadores de outros pontos de vista, partem para a ofensiva. Em ambiente de redes sociais, comuns no meio de comunicação mais popular desta época, formam verdadeiras brigadas para tumultuar discussões alheias e dirigir ofensas e até ameaças directas, de modo que a conversa pública seja inviabilizada. Festejar publicamente o estupro de uma repórter do lado que considerem inimigo, ainda que se digam defensores dos direitos da mulher, não fere seus escrúpulos.

   Se lhes parece que estou falando apenas dos militantes de esquerda, alerto que os de direita não deixam por menos, ou ainda os que se dizem de centro. Mesmo entre os que se identificam ideologicamente, existem divergências graves, que só são ignoradas durante alguma ação coletiva. O líder sabe dessa desunião, sabe e se aproveita dela, se apresentando e vendendo como amalgama para os tijolos soltos, que se deixam placidamente assentar aos caprichos manipulativos desse líder. Como tijolos, formam paredes de proteção ao redor desse líder.

   A manipulação da opinião pública, aliás, é um dos subterfúgios mais comuns. A tática de estabelecer uma guerra de informações, laudos, estatísticas, pesquisas e notícias é das mais comuns. A população fica confusa e praticamente só os radicais, pró e contra, ficam seguros do que lhes é dito, aceitando ou rejeitando imediatamente, quase sempre sem contestar. Nesse tipo de regime, a classe média é sempre inimiga, seja o regime de direita, de esquerda ou o que for. O grupo que ascende é sempre alvo dos ataques, mas sabendo do canal econômico e tributário que ele é, o líder quase nunca leva à cabo o ódio que incita. É claro que poucos de seus partidários admitem que odeiam, evocam um dos muitos discursos retóricos para dar outros nomes ao que fazem, mas uma análise psicoilógica mais consistente detecta facilmente o rancor.

   Mantendo o grupo global em constante desentendimento, e até em animosidade mútua, o líder se sente à vontade para usufruir como bem entende do erário. Aqui temos o caso extremo desse tipo de líder, porque neste momento os riscos de ele se considerar O ESTADO são grandes, e geralmente se concretizam. Quem falar mal dele passa a ser visto como detrator da nação, pelos seus partidários, apontar suas falhas passa a ser considerado uma ofensa ao próprio povo, que então se torna um escudo humano ideológico para ele. A nação se torna o seu corpo e todos os que estão nela as suas células. Embora o caráter não esteja em pauta, normalmente ninguém com a índole e a psique em boas condições se rende a tamanhos caprichos. Embora o caráter não possa ser justificado para isso, o líder enlouquece, passa a acreditar piamente no que prega e se considera o salvador de sua nação.

   A situação interna quase sempre se agrava e deteriora, para o quê as posições precisam ser consolidadas, a lealdade ao líder sempre reiterada, o inimigo eleito sempre mais atacado e novos inimigos sempre cultivados. A censura é a arma mais poderosa dele, ainda que receba outros nomes, mesmo que a prática seja idêntica a de ditaduras que porventura tenha combatido, se é que realmente combateu. A guerra de informações, a luta de palavra contra palavra, a negação veemente de contactações feitas in loco, ainda mais em países de grandes dimensões, a instauração de uma guerra fria civil, entre outros artifícios, mantém o líder no poder por mais tempo. A intenção quase sempre é de perpetuação e herança, como em uma monarquia, mas sempre negando qualquer similaridade com a realeza, sempre usando de discursos prolixos e retóricos para isso. A militância é sempre chamada para tanto, muitas vezes ofendendo a inteligência e a integridade de caráter e moral de quem discordar das suas argumentações.

   Os investimentos em propagandas passam a ser vultuosos, muitas vezes elas são inseridas em comunicados oficiais, para não parecerem tão evidentes, mas estão lá. Pintar prédios públicos com cores ou citações do líder, é uma das opções preferidas. Qualquer manifestação em contrário é imediatamente rechaçada pelos simpatizantes, que sempre têm, novamente, uma militância disposta a tudo para não permitir que mazelas de governos anteriores voltem a contecer, mesmo que já estejam acontecendo com outros nomes e sob outros discursos.

   Em caso de protestos em contrário, a força sempre será usada. Não raro, infiltrações de simpatizantes como tática de contra-insurgência são providenciadas. Como forma de deslegitimar e difamar uma manifestação, ainda que tenha começado de forma pacífica, e justificar o uso da força policial de repressão. Sim, decerto que a vida de um manifestante vale mais do que um carro, mas eles usam isso para justificar praticamente qualquer acto de violência e, sempre, em qualquer circunstância, a pele do simpatizante do líder vale mais do que a do opositor. E a ala radical da oposição sempre oferece combustível para a argumentação pró líder, sem perceberem ambos os manifestantes, que entraram no xadrez da situação como reles peões, cujas vidas não valem absolutamente nada, após terem cumprido com seus propósitos.

   A imprensa, novamente, é sempre um alvo preferencial, tanto dos discursos quanto da violência física. A censura indeclarada em seus modos mais violentos é aplicada sem escrúpulos, e as vítimas são invariavelmente colocadas no papel de vilões mal intencionados. Aqui os simpatizantes do líder repetem discursos que até então abominavam, e atacam com fervor qualquer um que aponte sua contradição. Fazer de palanque os túmulos passa a ser aceitável, mesmo que a prática tenha sido condenada em governos anteriores.

   Paralelo a isso, os problemas cotidianos da vida coletiva são deixados soltos, para que se agravem de modo tal, que o cidadão não tenha mais como participar de ações opositoras, pois está ocupado demais tentando voltar vivo para casa, ou sobreviver à peregrinação por socorro, como em uma busca por leitos públicos de hospitais, por exemplo. Uma mãe dificilmente deixará de socorrer o filho enfermo para se meter em uma multidão que a qualquer momento pode ser alvo, tanto de manifestantes infiltrados quanto da tropa de choque; ambos a serviço da mesma pessoa, mesmo que não saibam... E se souberem, negam até a morte.

   Uma situação desse tipo não dura para sempre, mas causa estragos gigantescos e infelizmente deixa sementes que brotam e crescem rapidamente, às custas de sugar e sufocar outras plantas, na primeira condição favorável que surgir. Nossa invigilância e nosso orgulho, como a certeza de que sabemos o que é melhor e o que é pior para os outros, nossas convicções arraigadas, sempre fornecem essa condição.

07/03/2014

Um caso de amor entre duas décadas



    
Jeanne in 1982 from Wikimedia
   
   Foi uma década longa, muito longa, como este texto. Como já disse antes, uma década costuma durar, na realidade, uns quatro ou cinco anos, no máximo, porque os anteriores são resquícios da anterior e os seguintes o anúncio da próxima. Não os atrevidos e bipolares anos oitenta.

   Começaram de facto por volta de 1982, lá pelos idos de Maio, e terminaram por volta de 1993 ou 1994. Sim, caríssimos, os anos oitenta por excelência, canibalizaram os noventa, que só começariam próximos à sua segunda metade, espremendo o século XXI até por volta de meados de 2002. Os mais atentos perceberão que houve uma mudança brusca nesta época, com extremas direita e esquerda se digladiando e hostilizando quem estava no meio, gente que quer viajar nas asas do avião e hostiliza quem entra na fuselagem. Claro, há exceções, gente que se diz de extrema alguma coisa e acaba se revelando mais civilizada do que a maioria dos que se dizem de centro, mas são como quem troca as marchas sem precisar de embrenhagem, tão raras que não entram nas estatísticas.

1982 Panasonic
   Voltando ao catatau, a morte dos anos setenta se deu quando perdemos em poucos anos, uma penca de ícones do século XX. Começou em 1977, com a perda de Elvis, depois em 1980 com a de Lennon, e foi cruél em dobro em 1982, quando perdemos Grace de Mônaco e Karen Carpenter; fora as perdas nacionais, como Elis Regina e Clara Nunes. Foram, na verdade, uns cinco anos de não-década, um limbo em que o mundo mergulhou no pessimismo, para depois se tornar bipolar como nunca na história.

   Dos setenta, os oitenta herdaram alguns gostos excêntricos por coisas repaginadas dos anos trinta e quarenta, moda jovem na época, como réplicas de carros então antigos com mecânica Volkswagen a ar, que rapidamente inspiraram photographias irreverentes com as roupas da vovó. O que era para ser brincadeira, virou moda. O Filme Grease ainda era exibido em alguns cinemas e começava a ser exibido na televisão, e a garotada oitentista viu que seus pais eram tão loucos quanto eles, talvez até mais, se divertiam e caçavam encrenca com e por muito menos recursos do que eles.

   Pode-se dizer que foi a fronteira que marcou o caso de amor impossível entre os anos oitenta e os cinqüenta. Arredores dos quarenta e sessenta pegaram carona. Os filmes que trataram dessa época proliferaram, sendo o mais famoso o De Volta Para o Futuro, que colocou um De Lorean, feito em aço inoxidável escovado, como uma máquina do tempo que volta aos anos dourados com um jovem, que conhece seus pais antes de eles atarem namoro e, bem, eu não vou contar o filme. Quem não viu, asseguro que vale à pena. A ambientação é excelente, o figurino beira o impecável e o racismo que já estava ganhando a pecha de estupidez, foi escancarado em uma das melhores cenas. Aliás, cena épica, que sozinha valeria o filme todo.

   Outro filme, que não voltou no tempo, mas trouxe elementos cinqüentistas fortes, foi Curtindo a Vida Adoidado, que trouxe de volta um tipo de travessura juvenil que os jovens já não praticavam mais; então a
Princess Diana Life Magazine 1984
onda era ser contracultura e depredar para dizer que não gosta do sistema, mas depois morria à míngua porque o orelhão estava quebrado e não tinha celular na época para pedir socorro. Bem, a Motorola lançou o primeiro celular comercial no último terço da década, mas era um luxo de fôlego curto, só durava vinte minutos antes da recarga. Ok, voltando ao foco, a indumentária meio sessentista era muito comportada e bem ajustada para a época dos pós-punks, mas seus manequins eram rebeldes como eles nem imaginavam ser, corroendo o sistema por dentro, em vez de tacar pedra por fora; ainda que um dos três personagens principais tenha se rebelado na marra. Como nos anos cinqüenta e sessenta, o filme aborda de forma muito divertida e lúdica os conflitos de família, os efeitos de um pai opressor na personalidade de um filho e o momento em que ele decide enfrentar o papis. Esse filme deveria ser obrigatório nas escolas, juro mesmo!

   Outro filme que tratou com fidelidade os anos cinqüenta é Dirt Dance, que ilustra com perfeição a típica e superprotetora família americana média da época, inclusive um pai que tentava com todas as suas fibras ser durão e malvado, mas pulou da cama com sua maleta de médico para acudir o malandro que assediava sua filha inocente; tudo na cabeça dele, é claro. Músicas, danças, o baile, o comportamento, as roupas, tudo foi feito com uma seriedade que inspirou os filmes temáticos seguintes, inclusive o icônico e já clássico A Vida em Preto e Branco. Ambos provavelmente feitos por quem viveu a época.

   Os três filmes se tornaram clássicos cultuados pelos nerds e simples fãs do cinema, e encorajaram a mistureba oitentista. Os rabos-de-cavalo, que estavam em desuso em favor de um visual “natural”, como se o ser humano tivesse um mínimo de naturalidade, voltaram a enfeitar as cabeças das moças, e de alguns moços, não raro guarnecidos por mangas bufantes no caso delas. Em paralelo, a volta de cores vibrantes estacionou na maquiagem, ou seja, do colo para cima as mulheres se tornaram reproduções da juventude de suas mães ou avós. Era uma mistura de retrô e contemporâneo que teve seus exageros, mas foi muito legal!

Computer Triunph-Adler 2000 from1986 by Triunph-Adler
    
   Os artistas não se fizeram de rogados e começaram a misturar saias rodadas com blusões de couro, camisetas estampadas com calças folgadas bem quarentistas, em alguns casos chegando a exageros que marcaram a década, como os ternos no melhor estilo “o defunto era mais gordo”. O chapéu, que tinha entrado em decadência também, tornou-se um adorno jovem, se sobrepondo a paletós abertos sobre camisas berrantes e calças hiper largas, sempre de cós alto, e tênis no melhor estilo “chamada para o circo”. Oras, eram jovens, eles não tinham que ser formais e comedidos fora do local de trabalho, que nem sempre era comedido e formal.

   E por falar nas estampas, as preferidas eram as reproduções de quadrinhos e personagens dos anos quarenta ao sessenta, com preferência pelos dos anos cinqüenta. Ficou comum o cidadão ler a camisa do outro, para passar o tempo dentro do metrô. Moda, diga-se de passagem, que voltou e fixou residência.

   As estampas geométricas assimétricas em cores fortes, as linhas progressistas multicoloridas, os neons e as estampas de bolinhas, voltaram como cenários de programas de televisão, aos poucos migrando para as roupas, a maquiagem, óculos e, meu Deus, até às guloseimas. Foi quando refrigerantes com cores radioativas começaram a cair no gosto do público, felizmente despencando rapidamente dele, mas os artigos de higiene pessoal os mantiveram.

Licensing party 1988 by Wikimedia
   Com uma tecnologia que não existia trinta anos antes, além da rápida popularização do computador doméstico e o advento da copiadora coloria, a pop art ganhou um impulso sem precedentes, sempre remetendo aos coloridos anos cinqüenta. Capas de caderno, disco e revista ganharam uma riqueza artística que nós infelizmente esquecemos e perdemos no tempo. Foi quando os fanzines proliferaram como nunca, com copiadoras aos montes oferecendo bons serviços a preços convidativos, lançando assim muitos de nossos talentos quadrinhistas, como Laerte Coutinho; hoje uma dama muito elegante.

   Mas as mazelas dos anos cinqüenta também estavam emergindo. Vendo as mulheres poderosas e intimidadoras que a década projetava, como os anos cinqüenta fizeram com maestria, muitos homens começavam a apregoar a volta da mulher ao lar, como se algum dia ela o tivesse abandonado; machão abandonando a família por um rabo de saia, ah, isso sempre foi abundante. Alguns chegavam a justificar a violência para esse fim, indo ao extremo de afirmar que apanhar era o verdadeiro direito da mulher... Nojo.
Cena de Quero Ser Grande de 1988

   O racismo também eclodiu novamente, com ele os grupos anti racistas, alguns até racistas reversos, por mais bizarro que pareça. Enquanto o cidadão comum se coloria e queria ver gente coloria por perto, os doentes mentais chegaram a dizer que Deus fez o homem branco e todo o resto era obra do capeta. Ei, eu estava lá, eu vi isso acontecer! Vi, ouvi e quase vomitei. Não sei se está nos seus livros oficiais de história, mas está no livro da minha.

   A xenophobia também reapareceu. A despeito do que os cientistas de verdade diziam, grupos passaram a culpar os estrangeiros pela perda de empregos que eles não queriam aceitar; ou seja, queriam que as vagas estivessem lá, mas não admitiam que fossem preenchidas, muito menos por imigrantes de países pobres. E quem não é imigrante, neste planeta, se todos viemos da África?

1990s Image from Lifestyle
   Bem, tudo isso, nos anos oitenta, soava ridículo. Há quem condene o racismo camuflado do Brasil, mas não conheço um que queira que ele seja exposto e praticado, como ocorre lá fora. Como nos anos cinqüenta, só cafajestes tratavam suas esposas daquela forma, é mito que todos os maridos fossem amos e senhores de seu lar, a maioria aceitava os pitacos da consorte, porque ninguém é de ferro. Os ataques aos estrangeiros eram vistos como barbárie, as pessoas estavam cientes de que elas mesmas podiam se ver obrigadas a emigrar, e não gostariam de ser maltratadas nos países de destino.

   De alguma forma, os erros cinqüentistas serviram de instrumento contra a reincidência. Isso há três décadas, hoje é aceitável escolher um inimigo, ignorar tudo o que a ciência disser de bom a respeito dele e ignorar a lição do bom samaritano, mesmo que o alvo não represente ameaça real.

A bipolaridade dos anos oitenta era uma cópia repaginada da depressão dos anos cinqüenta. Como assim? Eu explico, dois pontos:


  •                       Os anos cinqüenta tinham a guerra ainda fresquinha na memória, muita gente ainda chorava lutos de então. As armas nucleares já eram uma realidade e as pessoas se esforçavam para acreditar que não se voltariam contra elas. Os oitenta, por seu lado, viviam o auge da corrida armamentista. O filme The Day After mostrou sem romances as conseqüências de uma provável guerra nuclear, e os cientistas pioraram as coisas, dizendo que a realidade seria muito pior do que a mostrada no filme. Vivíamos com medo que um dos lunáticos das superpotências apertasse o botão, e acreditem, isso esteve prestes a acontecer VÁRIAS VEZES;
  •                         Paralelo a isso, foi a década mais eufórica da história, dotada de um grau de esperança sem precedentes. Tudo estava ficando muito bom e muito barato muito depressa, as pessoas dormiram nos anos quarenta com a casa só mobiliada, e acordaram nos cinqüenta com ela repleta de aparelhos eléctricos e brinquedos que se moviam sozinhos, foi um deslumbre. Os anos oitenta podem ser considerados os últimos dotados de esperança própria, as pessoas estavam novamente eufóricas, desta vez com mesclas de desespero. Também houve um avanço tecnológico sem precedentes, com aparelhos portáteis minúsculos e potentes, câmeras de alta qualidade que podiam ser levadas na mão, além de as pessoas terem esquecido da crise do petróleo que, oi, já está voltando. As próximas reservas relevantes só ficam prontas daqui a dois bilhões de anos;
  •                         Não se iludam, o sexo rolava solto nos anos cinqüenta, só não era mostrado de forma explícita. O sonho de casar virgem de véu e grinalda nem sempre era realizado, e nem sempre era realmente desejado, às vezes nem pelo noivo. Algumas conversas sinceras e reservadas com parentes extirparam esse mito de meus arquivos. Os oitenta esculhambaram de vez, com todo mundo com medo de morrer virgem, como nos cinqüenta, e novamente estavam lá as vendedoras de virgindade, pregando o que nem sempre praticavam. Sim, houve um “retorno de valores” entre aspas mesmo, porque debaixo das saias longas do segundo terço da década, as coisas continuavam acontecendo, e não foi pelos valores, foi pelo medo da aids, que não deixou de avançar por isso, já que o marido não aceitava usar camisinha e infectava a anta que aceitava os caprichos dele. Sim, leitori, uma coisa é ler o que a imprensa fala, outra completamente diferente é ver in loco, o que ela arquivou para não estragar a manchete, e não perder patrocínio;
  •                         As divas negras atravessaram incólumes a década de ouro, arrastando multidões para seus shows viscerais, suas vozes diamantinas e suas interpretações pra lá de cordiais. Era uma coisa de louco, ouvir Ella Fitzgerald cantar suas desilusões e sonhos abortados, o público pagava para sair do teatro chorando, e pagava com gosto. Nos anos oitenta foi o ressurgimento delas, as novas divas, o que começou com Annie Lennox e sua rebelde resignação sonora, seguida anos depois por pérolas como a meteórica Emy Winehouse, que amou demais e morreu por essa obsessão, e a glamourosa Adele, a alma que canta. Novamente as pessoas pagam e acham barato pagar para sair chorando do espetáculo;


   As coisas nunca foram douradas como pareciam, havia pedaços descascados que pintaram de amarelo ouro e deixavam menos visível. Da mesma forma, os anos oitenta não foram paradisíacos, porque o consumo de drogas que a ansiedade motorizou, explodiu. Tampouco foram a porcaria que seus detratores apregoam. Bem ou mal, elas injetaram um optimismo de tal forma duradouro nas pessoas, que pode ter sido a única coisa que evitou um suicídio global. Porque, como nos anos setenta, estamos enfrentando uma era de egoísmo e depressão sem precedentes na história, as pessoas passaram a buscar sexo compulsivamente, se servindo umas das outras em um vampirismo mútuo. A coisa ficou tão feia, que já tem imbecil defendendo em rede, o estupro de mulheres que não se enquadrem nos seus padrões, e a volta da escravidão negra. O saudosismo não nasce do nada, em momento algum e de nenhum lugar, ele tem seus motivos e sua utilidade, como a manutenção da sanidade mental coletiva.
1992 Image from Style My Pretty Living

   A estética cinqüentista, que muita gente chama de opressiva e foi repaginada nos anos oitenta, era um culto ao corpo perfeito, com musculatura tonificada e proporções elegantes. É claro que sempre tem idiotas para estragar uma boa intenção, o apelo da geração saúde teve duas sombras, a anorexia e a vigorexia, só que na época eram tratadas como doenças, hoje são apregoadas e incentivadas por formadores de opinião. Para contra-atacar esse radicalismo, veio outro, a população mundial está deixando de morrer de fome para morrer por doenças decorrentes da obesidade mórbida, e novamente tem imbecil formador de opinião defendendo essa forma lenta de suicídio, como um direito individual sobre o corpo; mas vai ver se respeitam o outro extremo, ou mesmo os moderados, vai! O tal ataque preventivo tornou-se meio de comunicação, e quem não participa é chamado de "bundão". Ah, tem um visigodo batendo à porta, atenda, antes que ele a derrube.

1994 Claudia Schiffer Vogue by Le fashion Blog
   Os anos oitenta foram a década em que a cultura retrô e vintage se consolidou e começou a crescer. Divas clássicas voltaram a ser consumidas e algumas delas ainda estavam vivas, como Audrey Hepburn e Elizabeth Taylor. Filmes clássicos, já sem espaço na maioria dos cinemas, se beneficiaram da popularização do videocassete e fizeram a alegria dos adultos, que eram crianças ou jovens quando eles foram lançados. A adesão das crianças não foi imediata, mas logo seus corações rebeldes amoleceram e os clássicos ganharam novos fãs. A internet começava a se transformar em um meio de comunicação de massas, nos Estados Unidos pelo menos, e a troca de arquivos pessoais ganhou um impulso inédito, ajudando a preservar informações de época.

  Em resumo, para isto não virar uma enciclopédia Barsa, os anos oitenta pegaram uma década que estava caindo no esquecimento, cuidou de reanimá-la e se apaixonou perdidamente por ela, tornando-se sua descendente por direito. As pessoas de então fizeram dos anos cinqüenta e oitenta o que eles foram, é essa a grande e abissal diferença. Com essa riqueza toda para se juntar à que uma década normalmente produz, os anos oitenta tiveram várias fases próprias e distintas das décadas vizinhas, tanto que invadiu a seguinte, por falta de espaço. E a de noventa, nós já sabemos, trouxeram uma depressão sem precedentes, com fanatismo dogmopático e muitas igrejas festejando o fim do mundo, que se daria na virada do século, porque só eles seriam aceitos no céu, todo o resto da humanidade amargaria a morte eterna... Que época horrorosa é esta!

01/03/2014

Revistas mais interessantes

Todas as imagens vêm daqui: http://www.woodenslides.com/

Ana Luiza chega em casa com as mãos cheias de catálogos de compras por correspondência, que estavam lotando sua caixa de correspondência, que tem o formato de uma Kombi 1974 em escala 1:2. Nem sempre compra algo, embora já tenha se tornado cliente de todos eles, a intenção nem era essa, quando começou a recebê-los. Tem até alguns importados, já comprou bonecos de personagens antes que os filmes chegassem ao Brasil.

Ana Luiza já foi uma devoradora de revistas de fofoca, ela assume seu erro. No começo, pelo menos, havia as desculpas de notícias relevantes sobre os artistas, de haver coisas bonitas para se ver e recortar, elas valiam o que custavam. Mas saber pela enésima vez do terceiro amor da noite passada da canastrona
cheia de botox, encheu o saquinho. Tanto os talentos começaram a escassear, como a qualidade das matérias caiu vertiginosamente, tem a impressão de que um mesmo (se é que é) jornalista usa vários cognomes em várias publicações, sem nem ter o cuidado de alterar algumas palavras, nem em corrigir erros que, no seu tempo de estudante, reteriam qualquer um na terceira série.

Nem novelas acompanha mais, ficaram muito ruins. Em vez de propagar o respeito às diferenças, prestam um desserviço à idéia original do movimento politicamente correcto. É tudo muito ruim! Transformar o Palácio das Esmeraldas em boate e sugerir que se atravessa em poucas horas, a cavalo, a distância de Pirinópolis até Goiânia, que ela duvida que seja realmente a cidade mostrada naquela patuscada, a fez desistir de vez. Mas então já tinha desistido das revistinhas medonhas que tratam do assunto, e tratam como se fosse sério e imprescindível à subsistência humana.

Foi há cerca de dois anos que começou a trocar as publicações pelos catálogos. Começou a perceber que as modelos eram muito mais parecidas consigo, com suas pequenas barriguinhas, seus culotes, suas carinhas de mulher bonita que passou naquele ônibus. As proporções humanas e quase cotidianas não lhes tolhe a beleza, pelo contrário, dá à Anna Luiza a sensação de que pode ficar linda assim sem ter que vender o fígado. E a expressividade? Elas têm que ajudar a vender o que estão usando, então precisam de toda a elasticidade de seus rostos bonitos, não podem simplesmente se encher de botox e ficarem com cara de defunto feliz. As mulheres ali, mesmo com retoques, são de verdade.


As tabelas com várias medidas para ajustes de roupas e jóias, ainda que não vá comprar nada, a fazem ter noção de que está incluída na sociedade estética, ao lado de gordinhas e magricelas, nanicas e espigões, ruivas de cabelo lambido e negras de black power, garotinhas atrevidas e senhoras recatadas; sente-se tão normal e ajustada, lendo e admirando aqueles catálogos! Fica tão feliz em ver modelos parecidas consigo ao lado de uma Ana Hickmann da vida!

Não sabe mais qual a última moda da novela imbecil que faz pessoas boas parecerem completas imbecis, nem da outra que faz todos parecerem canalhas que sabem esconder sua canalhice. Sabe qual a última moda da moda, feita para gente comum usar. Prefere vestir as roupas estranhas que o ABBA usava em seus shows, mesmo curtíssimas como eram, a uma calça apertada com cós abaixo do rego e um fio dental à mostra. Não deixa o marido usar a cueca de fora, vai usar a calcinha de fora? Só se for por cima da calça, para se fantasiar de heroína de quadrinhos, o que não é o seu caso. Aliás, desta vez vai fazer uma baita encomenda a vários deles, gostou dos novos catálogos retrô e vintage.

Teve problemas com as amigas, superficiais é claro. Hoje tem pouco o que conversar com elas, além dos dramas domésticos do cotidiano. Já passou por uma artista lançada por um reality show e foi repreendida por não ter pedido um autógrapho. Quando apontaram quem era, ela jurou de pés juntos que jamais tinha visto mais gorda, nem sabia que existia. Contou-lhes, quando foi taxada de alienada, que deixou de ler as revistas de fofoca e passou a ler catálogos, então foi taxada de louca. Quando seu marido a chamou assim, precisou reimplantar um dente, então passou a se encontrar muito menos com elas. Hoje, na verdade, tem duas ou  três com quem conversa de vez em quando, e com as quais pode falar sobre o que viu naquele catálogo francês que acabou de chegar; carrega ele agora entre os doze outros que leva à mesa de centro da sala.


Ela arruma as frutas que trouxe do verdurão, faz um bom suco de laranja com limão, guardando as fibras para fazer um bolo, volta à sala, tira os saltos altos, pega um catálogo e começa a ler. Ah, lá está a tabelinha de medidas. Pode escolher uma blusa tamanho 38 e uma mini saia tamanho 42, que ficará com comprimento de saia curta em seu corpo. está tudo lá, na tabelinha, inclusive com instruções para conferir suas próprias medidas. Não vai emagrecer só para ficar com o corpo da modelo que virou protagonista de novela. Vai regularmente ao médico, sua saúde está perfeita, não precisa perder um grama sequer.

Chega a ser um pouco bucólico, seria bastante se não fosse um ambiente contemporâneo e não morasse perto do centro da cidade. Se deita no sofá, como fazia quando menina, e observa aquelas pantalonas estampadas. Compara dois ou três catálogos ao mesmo tempo, vê a arrumação que fizeram no cenário e a compara ao seu aparador. Vê um aspirador de pó que cabe em um bolso de calça, uma maleta com kit de costura completo, inclusive uma mini máquina manual, lupas com lanternas que ajudarão muito a ler letrinhas miúdas para seus clientes; se diverte muito!

A ausência de dietas malucas de celebridades ocas é um alívio. Tem sim é muitos livrinhos de receitas, acessórios de cozinha, e mais. Dá uma olhada naquela capa de botijão, já viu muitas meninas e até senhoras usando aquilo nas ruas. Só que no botijão ficou bonito. Não quer saber onde a actriz principal da novela que enaltece a cafetinagem passou as férias, cercadas de paparazzi a ponto de que, de modo algum poderiam ser realmente férias. Quer passar as suas com o maridão e os dois pestinhas que colocou no mundo e ama até a morte, de preferência sem se encontrar com ela.

Chegam os filhos, da escola. O garoto ainda estranha aqueles catálogos, mas gosta muito de ver as páginas de lingeries, não fica com aquele receio de alguém chegar e vê-lo com uma revistinha de onanismo e sabe que aquelas mulheres são de verdade. A irmã também estranha, mas também gosta de se sentir uma garota normal sem ter que secar a barriga, inflar bunda e peitos, ficar musculosa, inchar os lábios e pintar os cabelos de laranja-sinal-de-trânsito. Pega um catálogo inglês, um dos retrôs, e fica babando pelo terninho de shorts estilo anos setenta. Olha mais e se vira para a mãe, com carinha de menina pidona, argumenta que está crescendo, que suas saias já estão minis demais para o seu tamanho, que quase tudo o que tem está com mais de dois anos de uso, que até a Eddie Van Feu vai aderir ao retrô e vintage... Ela sabia que iria fazer compras grandes desta vez, foi bem mesmo ter se preparado.


Logo o marido chega do quartel e também encontra coisas interessantes para seu uso, e moças interessantes nas páginas de lingeries e moda praia. É, homem ganha idade, mudar são outros quinhentos, mas Ana Luiza compreende a necessidade de ser meninão de vez em quando, a profissão dele é fogo, literalmente. Os quatro se reúnem para verem o que e quando vão comprar, ou mesmo só para se distraírem com cosias bonitas para acalmar um pouco seus cérebros cansados.

Ao contrário das antigas, aquelas revistas ficam fácil por mais de um mês na sala, seus assuntos demoram a envelhecer .Fazem as encomendas, já tomadas as precauções de saber de quem compram e conferindo no website de cada um os detalhes.