19/12/2009

Música Francesa - A Nova Geração


Finalmente, já em cores, a nova geração de cantores desde (mais ou menos) os anos 1980.
Muita cousa mudou, o mundo ficou mais frio, materialista de um lado e fanático do outro, mas quase todos querendo viver (em ambos os casos) mais sensações do que o corpo humano pode suportar. Mesmo assim a música francesa manteve as nuances celebráveis de sua estirpe. Sítios como Quebec Pop e
Audiogram são redutos destes novos e de velhos talentos que o Brasil não conheceu.

Desilereless. O hit "
Voyage Voyage" estourou e durou até início nos anos 1990. O grande mérito foi agregar ritimo a uma letra mais lenta, sem perder a qualidade musical. A figura androgina ajuda a vender e se tornou um dos símbolos da tolerância social.

Marc Lavoine. Oitentista por excelência, "
Même si" e "Chère Ami" são carregadas da melancolia contraditória de uma época que misturava o optimismo de que já estávamos no fundo do poço, e que portanto não havia como piorar (como estávamos enganados!) e o pessimismo da paranóia da guerra fria, que ameaçava dizimar a vida na Terra a qualquer momento. São ambas músicas muito bem acabadas, com toques de new age, que merecem ser ouvidas à noite, com amigos ou uma pessoa especial.




Isabelle Boulay. Pois é, vêm de Quebec as grandes contribuições modernas à música de língua francesa. Esta belíssima ruiva brejeira de voz madura e levemente adocicada começou a cantar no restaurante da família, para logo ganhar sua independência e brindar o mundo com suas canções e versões, inclusive cantou "Tico-tico No Fubá" em francês, com arranjos próprios que fizeram desta canção uma ode ao chorinho. A conheci por "Jamais assez loin" e "Où est ma vie", a primeira uma declaração de amor digna da velha guarda, a segunda uma música leve que convida a pensar na vida e vivê-la sem neuras. A nova canção "
Chanson pour les mois d'hiver" faz juz ao gigantismo de seu talento. Sua pista entregou muitas outras pérolas, das quais destaco as seguintes:

Carla Bruni. Pois é, para quem não sabe, além de modelo, actriz, socialite e primeira-dama da França, ela é cantora. Excelente cantora, diga-se de passagem. "Ma Jeunesse" é uma canção baseada no piano, com toques de infância prestes a maturar, uma execução que adoça as saudades mais doídas. Se alguém tinha vontade de vê-la tropeçando e não sabia de seu tino musical, agora vai querer que tropece em uma recepção ao papa e caia de cara no seu colo, com câmeras ao vivo, porque esta recebeu doses generosas de muitos talentos, a música é um deles.


Amylie. Mesmo quem torce o nariz para o estilo indie, tem grandes chances de gostar desta moça, simplesmente porque ela não exagera. "Espace" é uma demonstração de música para se ouvir durante uma viagem, despretensiosa e com variação harmoniosa de andamentos. Como a capa de seu último álbum, sua regra parece ser não complicar o que não precisa, o que se reflete nas músicas.


Sylvie Paquette. Tem ligações fortes com a velha e a jovem guarda. "Doucement" é uma música sutil, delicada, que parece ser cantada em corda bamba, com seu ritimo lento e a predominância do violão e do sintetizador ao fundo, acompanhado por coral em dado momento, dando uma atmosphera onírica e sensibilizante. Sua voz é sedosa e morna, chegando a ser sensual sem fazer qualquer esforço. Não ouçam "Soleil d'Espagne" se não tiverem condições de visitar terras espanholas, porque esta canção vai lhes despertar o desejo de conhecê-las.


Océane. Seu nome é Maryse Lebeau, conhecida por Océane. Faz um trabalho similar ao do nosso Palavra Cantada, mas em tom mais materno, suas músicas são quase sempre curtas, próprias para o seu público. "Ma mamie à Moi" é uma canção que pode ser usada com sucesso para ninar, de execução simples e sem qualquer sofisticação tecnológica. "La Garderie" é mais animadinha e claramente dirigida para os pequeninos. É uma mulher bonita que, porém, usa sua beleza para encantar as crianças, não para seduzir seus pais com roupas de matadoras.


Magnolia. É uma flor de cantora, sem trocadilhos. Uma de suas obras que mais me agradaram é "Mexico City", cantada com arranjos de (principalmente) guitarra e rabeca acompanhadas de uma batida forte e melódica de bateria bem executada. É daquelas músicas que parecem ter sido gravadas há décadas, pois evoca saudades e lembranças ripongas. Sua voz não é extraordinária, mas é trabalhada com esmero e varia de tom com maestria.


Laurence Jaubert. Estilo meio caipira, na melhor acepção da palavra, canta com o coração mais do que com as pregas vocais. Estas, aliás, muito bem dotadas. É, portanto, outra adepta das cordas, como em "Je Pars a L'Autre Bout Du Monde", que canta como es estivesse na varanda da fazenda, lembrando dos parentes que se aventuraram à cidade. "Anne et Arthur" é cantada devagar, com um vigor moderado e melódico. Longe de fugir à essência da música francesa, lhe acrescenta o brilho rural que só quem é do interior conhece. Eu conheço e recomendo.


Chango Family. Quem gostava de Os Mutantes em sua melhor forma, vai gostar deles. Cantam como quem não recebeu sua injeção diária de gardenal, mas com muito charme e irreverência como em "Paramatman", que tem um toque hispânico moderado, dentro dos limites do bom gosto. Como os egos dos componentes ainda não são maiores do que os mesmos, presumo que ainda terão bastante tempo cantando juntos nos mesmos palcos, nos mesmos shows, sem que um tente enforcar o outro com a fiação do equipamento.


Lara. Uma
cantora surpreendente, para dizer o mínimo. Consegue misturar charleston, jazz, tango, blues e ritimos modernos (entre outros) com um talento que pensei ter morrido com os Beatles. "Mon Petit Coeur Assassin" é um exemplo desta habilidade musical. Suas execuções são de um cinismo adorável, "Café Saravejo" é um exemplo magistral, que me faz duvidar da sanidade do público de hoje, que bebe urina de bestas cheios de rótulos e chiliques pseudointelectuais, e não enche de dinheiro as burras de artistas como ela. É mesmo uma época triste, Aznavour foi profético. Não se assustem, ao ver o novo álbum, com a carinha de psicopata, na vida real ela sabe sorrir com sinceridade, sem ver a cabeça de alguém rolando.

Gaële. Se a trupe da Chango Family não recebeu, nesta
moça os psicotrópicos já não fazem mais efeito. Muito bonita, com um jeitinho de Audrey Hepburn rebelde, ela está mais para Rita Pavone do que para Gigliola Cinqueti. "Cockpit" dá impressão te total desconexão, mas depois da metade da música se percebe tudo foi muito bem trabalhado e colocado, é para se dançar aleatoriamente e exorcisar seus males. O controle vocal para tanta maluquice dá prova de seu talento. "L'ideal Tango" parece um deboche, mas não é, precisa de alguma abertura mental para aceitar bem seu estilo, feito isto, a audição é só alegria. Se não entender, não leve à sério, só isso.

Decerto que há muito mais gente talentosa, e também há homens talentosos. Mas faço desta trilogia (principalmente esta parte) uma homenagem às mulheres, que souberam manter o romantismo apesar de tudo o que tem acontecido, com isto alimentado a demanda por músicas de alta estirpe, apesar de tudo o que tem acontecido. Em especial à amiga Meg, que estuda francês e saberá, muito melhor do que eu, apreciar as obras aqui expostas.
Redez-vous à la musique.

3 comentários:

New disse...

Oiêeee!
conheço e ouço sempre que posso, a maioria. Sem comentários.
Como sempre, o post está impecável.
Beijos.

New disse...

Queria aqui desejar a você um Natal cheio de paz, harmonia, amor e muita fartura junto dos seus entes queridos e que 2010 venha repleto de alegria, realizações e de muito sucesso e que estejamos juntos ainda mais.
Boas festas!

Beijos no coração.

Patrícia Balan disse...

Ah... Eu gosto da Emilie Simon. Tem a mesma voz desde cinco anos de idade, mas eu gosto...