03/05/2009

Fuscassauro

Tomarei o Fusca como exemplo, porque é o que conheço melhor.

Por volta de 1964, o nosso Fusca e o Fusca alemão eram praticamente idênticos. Poucas diferenças de caráter legal ou mesmo mercadológico os separavam. A partir de então, o Fusca lá de fora começou a evoluir rapidamente, e o nosso estacionou.


Em 1968, mais ou menos, o deles sofreu transformações profundas. Algumas delas (não todas) chegaram por aqui em fins de 1972. Suspensão mais estável e vidros maiores, por exemplo, ficaram de fora. Mas foi justamente no biênio 1972/1973 que o deles sofreu sua maior transformação, que podemos ver na ilustração acima; pára-brisas panorâmico, maior largura, porta-malas amplo, estabilidade impensável para o nosso, painel envolvente, enfim. O nosso Fusca, que já estava defasado, ficou pré histórico. Tivemos a vantagem do motor á álcool, que atingiu potências muito maiores do que o deles, mas isto se deveu mais ao empurrão governamental do que à vontade da marca em nos respeitar, isto ela nunca fez de verdade.


Quando o Itamar, falando francamente com os executivos, aventou a possibilidade de um Fusca moderno para motorizar as massas, o tonto aqui e muito mais gente sonhou com o 1303, ou no mínimo o 1302, pelo menos uma quinta marcha que já existe no mercado paralelo e da qual jamais soube ter dado problemas. Lhufas! O mesmo modelo 1964, maquiado e adequado à legislação de emissões da época. Eu gostei dos pneus maiores, próprios para a proposta do gordão, embora a maioria prefira pneus estradeiros mais baixos. O catalisador reduziu sensivelmente o nível de ruído... Que mais? Quinta marcha, mesmo que opcional? Não! Uma capinha plástica curva para um painel novo? Não! Rodas de alumínio opcionais? Não! O motor 1300 retrabalhado? Não! Freios decentes, em vez de os de motocicleta? Não! Nem mesmo a incorporação das setas dianteiras nos aros dos faróis, sequer uma capa aerodinâmica para o pára-choques dianteiro. Fomos enganados. falta completa de respeito para conosco e para com o genitor da marca, que nasceu dez anos antes dela.


A Chamonix fabrica réplicas de Porsche usando inclusive o motor 1600 a ar do Fusca, e exporta o dito. Não tem os bilhões de Euros que as multinacionais torravam até antes da última crise mundial, mas fez o serviço e adequou a maquineta de 1932 às legislações mais severas do mundo. Como? Ela quis fazer, simples assim. Não consultou uma empresa de marketing, institutos de pesquisas de opinião, não fez uma carta retórica de cem páginas para perguntar se poderiam fazer. Simplesmente contactaram um centro automotivo perto de Janiru mesmo, foram acertando a regulagem et, voilá, um motor de cem quilos gerando o mesmo que os de duzentos e poluindo ainda menos do que eles. Quem quer, faz.


Pois a situação, em menor escala, continua com todas as montadoras estabelecidas no país. À excessão, talvez, da Mercedes-Benz, mas que ainda nos deve algo.


Colocaram olhos de sapo e uma bocarra sob o pára-choque do Peugeot 206 e o chamaram de 207. Juro que fiquei boquiaberto com a cara de pau.


Alegam que os carros estão mais seguros, mais modernos, falham menos, dão menos manutenção, potoca e peteca. Tá. Tirem a electrônica e vejam se eles agüentam um ano de uso contínuo. Graças à electrônica é que estão dando menos problemas, graças à robótica na linha de montagem é que duram. Agora, faça um Opala com a mesma tecnologia. Fora a evidente facilidade em enfiar a mão e trocar qualquer peça sem descer e desmontar totalmente o motor, o que reduz dramaticamente a conta na oficina, se um dia precisar dela, a humilhação seria inevitável. Carros ditos modernos, quando quebram, podem ser jogados fora. sai mais barato comprar um novo do que retificar o motor antigo. Minha concepção de modernidade, lamento, é sinônimo de aperfeiçoamento e solução. vale para tudo, carros, calculadoras, televisores... tudo. Um Opala tem quatro metros e setenta de comprimento, mas é mais leve e robusto do que a maioria dos carros actuais de quatro e trinta. A electrônica e a robótica na linha de montagem estão servindo apenas para compensar a baixa qualidade estrutural. Não me venham com retóricas contrárias, a prática nas ruas me provou isto. Molhou? Joga fora.


Não pensem que é só com os carros. Estamos defasados em relação ao mundo e não é só culpa da gula burocrática e fiscal do governo. Temos muito mercado para productos de ponta e de primeira qualidade, ou não haveria tanto contrabando. Enquanto era fácil importar, apesar dos pesares, os artigos daqui acompanhavam os de lá, tinham que acompanhar se quisessem sobreviver. As restrições e a frouxidão estatal acabaram com a nossa festa. Hoje há um engessamento das linhas de montagem de tal modo, sob o eufemismo de racionalização, que uma simples pintura diferente obriga o comprador a abrir mão da garantia. A Kombi, por exemplo, que já teve saia e blusa, hoje só sai branca que nem pijama de hospital. Desculpem, mas burrice eu não confundo com modernidade, sem contar que a nossa Kombi deixou de ser moderna há bem uns trinta e cinco anos ou mais.


Não sei vocês, mas eu evito o quanto posso comprar qualquer coisa e cousa que não seja essencial, enquanto não se torne essencial. Não só por economia, mas para evitar dar minha contribuição para que continuem rindo de nossas caras. Carro? Só usado. Já tateei esses sacos de lata pelos quais a maioria baba, apertei com os dedos e vi chapas estruturais cedendo, sem contar que entrar e sair do banco traseiro é um tormento, por causa das soleiras muito altas; estas para compensar a fragilidade. Rigidez não é resistência, basta ver o vidro.


Não, meus queridos, da minha cara de batata não vão rir tão cedo. Tenho mais de duas décadas de praia com os automóveis, o que me levou a ter algum conhecimento técnico também nos outros ramos industriais. O que eu puder comprar usado no Brasil, comprarei usado. Usado não perde garantia, pois já a perdeu, e posso pintar e customizar como eu quero, como a fábrica não oferece não importa o quanto eu esteja disposto a pagar.

2 comentários:

Honestino Afonso Xavier disse...

Onde há escuridão, tristeza, desconfiança, desesperança, sacrificios em vão, discórdia,
convardia, revolta,....mentiras....

Onde HÁ Jesus,
há luz, amor, alegria, felicidade, confiança, esperança, respeito, amizade, união,
verdade....

Por isso cultive Jesus, e deixe seu coração repleto do Senhor e salvador..
pois só assim ele estará liberto, limpo, e agradável ao nosso Deus...

Nanael Soubaim disse...

Aleluiah...