18/04/2009

Respeito

Começa com a tolerância. Tolerar que o outro tenha seu espaço (físico ou não), que pense diferente, que se vista diferente, que goste de cebola, que veja desenho animado depois dos quarenta anos et cétera.
Então vem o acolhimento. Além de aceitar o jeito do outro, aceitar o outro com os seus jeitos e trejeitos. Tolerar suas "estranhezas" aceitando também sua presença, porque é muito fácil tolerar os defeitos dos outros do outro lado do muro. É muito fácil aceitar o filho gay do vizinho, se ele continuar na casa do vizinho.
Respeito é noventa por cento ação, dez por cento palavras. Dizer que não quer incomodar, mas ligar o som no último volume não é respeito. Os outros não são obrigados a ouvir as tuas músicas. Nem na rua, nem em casa.
Respeito se aprende com exemplos. Dizer "Faça o que eu digo, não faça o que eu faço" é compreendido como "Se tu és mais forte, tu podes". Pois um dia a criança fica mais forte do que o pai e faz o que ele fez, talvez até pior.
Dizer que o sujeito é estranho não causa incômodo, tratá-lo como estranho causa. Dizer que é estranho, pode render piadas e até gerar simpatia; tratar como estranho, pode render zombarias e se ganha um inimigo de graça. De perto, ninguém é normal, alguém sempre será estranho em algum lugar.
Daí vem mais um ingrediente do respeito: Colocar-se no lugar do outro. Quanto maior for a prática, maior a capacidade e maior a compreensão. Esses moleques inúteis que vivem quebrando boates e batendo em gente pobre, são incapazes de se ver na pele do outro, são incapazes até de se verem sem um espelho. Não se respeitam.
Respeito é noventa por cento ação, dez por cento palavras. Respeito se ensina respeitando. Nenhuma criança que cresce sendo humilhada e preterida vai conseguir se respeitar, dificilmente conseguindo respeitar o próximo também. Há exceções, mas uma exceção não pode servir para medir a regra.
Respeito não é só obediência, muitas vezes é comandando que se demonstra o devido respeito. Por isso a maioria dos chefes é odiada, enquanto uma pequena parcela caminha entre os subalternos como se estivesse em casa. Empregado (e soldado) desrespeitado conhece em detalhes a rotina e as dependências de onde trabalha. Respeitar não é ser bonzinho, basta ser justo. Justiça e respeito são sinônimos.
Não é preciso tentar gostar, aderir ou agir contra a própria natureza. Sei o quanto é difícil um tiozão assumido (como eu) se comunicar com alguém que solta gírias a torto e a direito, como se a língua portuguesa se resumisse a elas. Visualmente me incomoda quase tudo o que está na moda. O que hei de fazer? Chicotear todo mundo até que reaprendam a ser como eu? E por que deveriam ser como eu? Em que isso melhoraria essas pessoas e a mim mesmo?
Sou um tanto pragmático e não gosto de desprender esforços para o que não dá resultados plausíveis. Fazer todos acreditarem que estou certo, não resolve o problema. E, francamente, ver uma amiga usando uma camisa que parece ter sido recortada de uma cortina de cozinha, não constitui um problema. Nem o facto de ela gostar da noite, ao passo que eu sou bicho do dia, acordo antes do sol. Por ser pragmático, gosto de resolver e não inventar problemas. Problemas aparecem sozinhos, sem nossa intervenção. Se quero resolvê-los, é preciso respeitar o problema, sem achar que sou o único em todo o universo com poderes extraordinários para solucionar tudo a contento. É achando que muita gente se perde.
Primeiro é preciso ver o que realmente é um problema e o que é simplesmente desagradável, o que nos é simplesmente desagradável pode ser contornado ou evitado. Em se detectando o problema, é preciso ver quem está por trás do problema, e respeitá-lo se quisermos obter cooperação. Cresci em quartéis e sei a diferença que faz uma abordagem; quem gosta do ofício de policial sabe abordar; quem gosta dos poderes de policial só faz asneiras, esquece quem paga o salário de quem e denigre uma corporação inteira. Gostar do ofício e gostar do poder têm uma fronteira muito tênue e nebulosa, fácil de ser ultrapassada, e isso vale para qualquer profissão.
Quanto maior o poder, maior o respeito que se deve demonstrar. Cargos públicos são exemplos claros de em que tipo de gente a população se espelha para agir como age, no dia a dia. Uma criança em tenra idade não sabe nem onde está o próprio nariz, é contra senso exigir-lhe respeito. Um adulto, pelo contrário, principalmente se for instruído, tem (de leve) consciência de si e do outro, sabe que alguém vai penar se parar o carro diante do rebaixamento da calçada. Se ele pratica respeito, vai se colocar no lugar do cadeirante e se tocar. Um adulto é um líder, queira ou não, e os exemplos do líder são sempre copiados.
Deus tem o exemplo perfeito de respeito. Mesmo sabendo do quanto somos estúpidos e infantis, respeita nosso livre arbítrio até que aprendamos com nossos próprios tombos e hematomas. E um dos aprendizados mais importantes, é o respeito para com o próximo e para conoso.
Não custa lembrar: Respeito é noventa por cento ação, dez por cento palavras.

4 comentários:

Umbelina disse...

Muito bom texto. Parabéns.

Umbelina disse...

Muito bom texto. Parabéns.

Nanael Soubaim disse...

Agradecimentos duplos, amiguinha.

irene disse...

Respeito é o maior sinal de evolução humana... do rompimento com a ignorância... de encontro com o divino que há em nós...

Abraços.