16/08/2008

A morte merecida

Seis anos. Não foram seis horas ou seis dias, mas seis anos. Seis anos agüentando alimentação parenteral, sondas em lugares pudentos, fora as piadinhas levianas dos médicos, pensando que estava desacordado. Enfia droga, tira tecido, enfia sonda, tira sangue, enfia agulha, tira saliva... Isso doía. Tanto no corpo quanto nos brios. O tratamento era pior do que o dado às cobaias. Primeiro porque cobaia é criada para ser cobaia, segundo porque o Peta e o Green Peace estão em cima para coibir abusos, terceiro porque cobaias não pagam para serem humilhados. Aquele tratamento era caro! muito caro.
Trabalhou duro a vida inteira, sem murmurar, educou os filhos como lhe foi possível e agora é tratado como um objecto de laboratório. Já se cansou de ouvir "A pipa do vovô não sobe mais" cada vez que alguém examinava seu pênis. Como nenhum aparelho acusa reações significativas, salvo espasmos a cada choque eléctrico, simplesmente decretaram e tomaram como verdade absoluta que não sabe absolutamente nada do que se passa ao seu redor, apesar de já terem estudado casos que desmentiram a sentença.


Claro que não enxerga, ou daria sentido à expressão "Se olhar matasse", nem consegue se expressar, ou já teria mandado todo mundo enfiar nos próprios aqueles aparelhos volumosos que lhe enfiam regularmente no ânus. Sem dó, como se fosse uma cousa.


Aliás, já ouviu claramente médicos comentando que, embora não precisasse, o laboratório pagou uma boa comissão para incluir nos soros uma droga nova, caríssima, e que lhe estava dando azia. Sim, azia, há mais de dois anos que lhe enfiam aquilo no soro, sabendo que não é necessário e não tem a mínima chance de reverter o quadro.


Lhe dói imaginar como a esposa está arcando com tudo aquilo. Enquanto estava lúcido, soube que os filhos estavam raspando suas poupanças para custear um tratamento que, hoje sabe pelos próprios açougueiros, não trará seu controle de volta. Não teve tempo para demovê-los, na mesma noite a droga ultra-higth-tech-nanomolecular foi adicionada ao soro e a pituitária faliu, seguida pela metade do córtex. O repouso que um médico ayurvedista recomendou? Crendice! Ninguém jamais comprovou em testes artificiais de laboratório, então não funciona e que vá para a fogueira quem acreditar.


A esta hora seu neto, ou sua neta, deve estar aprendendo a ler. Chora por dentro porque não conseguiu acompanhar a gestação da filha mais velha, nem a formatura do caçula, nem festejou as bodas de prata. Bastaria ter passado longas férias em Blumenau, como lhe fora indicado primeiro, mas tinham que convencê-lo a ver um "médico sério". Um açougueiro, isto sim! Um balconistazinho de drogaria que não vende crac porque seria pêgo.


Três filhos criados, uma casa paga com muito sacrifício, e agora está reduzido a um organismo para treinamento de novos açougueiros. Pior, sua família está pagando para isso, acreditando que estão é tentando salvá-lo. Na verdade é um exemplar perfeito para os testes que lhes rendem fábulas, fora os honorários. Já testaram cinco drogas clandestinamente, todas arrebentaram com seu sistema imunológico, mas como está incapacitado e não podem interferir, não haverá processos nem perda de registros de medicina.


Mas uma certeza lhe consola, quando a morte vier, ahá! Quando ela vier, a festa acaba. Sofreu demais na vida, seu organismo já estava debilitado há muito tempo, não vai agüentar muito mais tempo, então as máscaras caem. A necropsia vai mostrar as falcatruas e sua família terá que ser ressarcida.
Um dia, não mais que derrepente, começa a abrir os olhos. Vê com uma clareza imensa. Uma mulher muito refinada se aproxima, imagina que seja a nova médica, apesar dos trajes de festa..
- Boa noite, Valter. É hora de te dar alta.
- Graças à Deus! Eu não agüentava mais, doutora!
- Nós sabemos. Levante-se.
Consegue se levantar com muita facilidade, mais do que quando deu entrada no hospital...
- E os outros médicos?
- Não são mais problema para você.
Valter olha em volta e vê seu corpo. Tem um início de confusão, pois está respirando, ouvindo, sente o calor e tudo mais. A dama o acolhe e explica a situação, que suas preces foram atendidas e que ele não precisava passar por aquilo. Mostra-lhe um fio que estremece e se solta de sua nuca. A aparelhagem começa a apitar infernalmente, no que uma equipe enorme invade a UTI e faz de tudo para evitar o que já aconteceu...
- Então eu morri? Mas e a Mirtes? E os meninos?
- Serão amparados. E terão de volta tudo o que investiram aqui.
- Então você é a morte? Mas te pintavam tão feia!
- rs, rs, rs... Se prefere ver assim, sou a tua morte. Cada um tem a que faz por merecer e nenhuma fortuna pode comprar outra diferente. Vê aqueles monstros? São as deles, e não tardam a reclamar sua paga.
Enquanto os doutores de colunas sociais e palestras em Harvard se desesperam, tentando não perder a galinha dos ovos de ouro que já perderam, Valter sai com sua condutora, seus pais o esperam.

7 comentários:

Patricia Daltro disse...

Gostei do conto. Delicado e realista - olha eu aqui, com pretensões de critica literária rs - mas, gostei mesmo da história, e que todos tenhamos a morte merecida, tomara que a minha seja bem legal! rs

Nanael Soubaim disse...

Agradeciso, amiguinha. Pegue teu passado e multiplique por cinco, o presente por seis, some e divida por dois. É mais ou menos esta a conta para saber qual morte teremos.

Gabriel Leite disse...

Lindo, mas com uma lição de moral muito batida. Beleza, eu entendi a indireta: "vou parar de juntar tesouros na Terra" porque aqui a terra come. Lá... ainda não sei.

Abraços

Nanael Soubaim disse...

Não, não é esta a mensagem, Gabriel. Tente de novo.

Marys! disse...

gostei!
mas ainda tenho medo da morte.

;D

New disse...

Nota 1000 e uns tantos pelo post. Afinal, isto deveria estar num livro, certo?
Continuo na espera...

Beijocas.

Amei a fota da minha atriz predileta... só dela tenho inveja... ai, ai...

Nanael Soubaim disse...

Ok, adicionei ao livro. Já o estou gestando.