09/03/2008

Onirautas V: As cores ocultas.


Muito tempo depois, retomo as postagens e a Onirisséia.

Há um ditado que diz "Até um macaco aprende a desenhar, a composição de uma obra de arte precisa mais que aprendizado". É o que diferencia o artista do mero ilustrador. O ilustrador copia e adapta imagens que já conhece, o artista as concebe. O ilustrador simplesmente entrega o que foi encomendado, o artista lega um tesouro à posteridade. Não vou desmerecer o trabalho árduo dos ilustradores meramente técnicos, sem eles as obras-primas ficariam confinadas aos museus e acervos de milionários, eles fazem cópias praticamente perfeitas e permitem que qualquer pessoa possa ter um Bosch na sala de estar ou no quarto.

O artista, porém, concebe a obra porque já a conhece previamente. Ele já "sonhou" com ela. Muitas vezes o que vai para a tela, ou para a pedra, está imerso na correnteza de desejos e frustrações do artista, não sendo assim o fiel do que ele queria materializar. Por isso alguns artistas de verdade têm chiliques de vez em quando, porque o mundo material jamais consegue prover os recursos necessários para a perfeita execução do trabalho. Não se enganem com aquele amarelo maravilhoso e aquele azul de tirar o fôlego. Nem chegam perto do original.

Dizem os espíritas que, além dos sete matizes que o olho orgânico consegue enxergar, existem mais vinte e cinco. Podem imaginar o que seria enxergar mais vinte e cinco matizes? É como se um cego, de uma hora para a outra, passasse a enxergar aquilo que só conhecia pelos relatos alheios.

Aqui temos, mais uma vez, a importância de se dar valor aos sonhos. Quem o faz recebe idéias muito menos comuns (posto que nada há de original sob o sol) do que os demais. Um sonho, principalmente consciente, nos revela todo o potencial que vai desde nossos instintos mais baixos, até a mais elevada de nossas virtudes. É assim que a aparentes bagunças de Picasso e Miró conseguem encantar, causar espanto, e até arrancar lágrimas dos observadores. São obras que vão muito além do que as palavras (ainda ineficientes, basta ver as guerras) não conseguem, a objectividade mecanicista ignora completamente e conseguem tocar as pessoas lá no âmago, dentro do mais profundo rincão do espírito. Esses dois foram artistas de verdade.

Quem vê as obras de Dali, pode pensar que ele só trabalhava sob efeito de alucinógenos. Não é de todo mentira, a pintura era o seu ópio e Gala, sua alucinação mais cara. Não vou entrar nos méritos de seus métodos, isso é para a imprensa ou a polícia, não me importa agora. Importa ver o que aquele homem era capaz de fazer quando sonhava acordado. Era simplesmente a imagem mais próxima possível de sua psiquê, como também a da maioria das pessoas do mundo. Ele deixava o sonho correr solto. Ilustrava, quando precisava de dinheiro, mas sua fama e fiabilidade artísticas eram firmadas pelos sonhos que ele eternizou na tela. Em vários quadros explicitava seu medo de ser vazio, o medo de perder a esposa, bem como sua religiosidade muito particular. Ele conseguiria isso se fosse meramente acadêmico, passasse horas e horas em um auditório refrigerado, discutindo as mazelas do mundo e a péssima idéia de o homem ter sido criado? Acredito que não. Guernica de Picasso mostrou isso tudo de uma só vez, sem longos e enfadonhos discursos de caráter meramente retórico.

Beleza! Então é só eu tomar um sonífero na veia que fico rico, tio Nanael? Alto lá, eu não disse isso. Há características inatas a serem levadas em conta. Essas pessoas tinham abertura para artes plásticas, não simplesmente uma portinha entreaberta, mas um terreno completamente sem muros, nos quais sonhos e emoções andavam livremente.É aí que entra a figura do ilustrador, que um bom pintor precisa ser. Ele sabe organizar ainda que sob aspecto caótico, todas as nuances que se apresentam durante o sonho e a inspiração em vigília. É o que diz aquela propaganda de pneu, potência sem controle, não é nada. Mas também não adianta ter uma banda de rodagem de fibra de carbono com silicone e usar um motorzinho de enceradeira! Controle sem potência não serve de nada. É aí que o ilustrador precisa deixar eclodir a porção, por pequena que seja, do artista que todos têm. Não que vá chegar a um George Petty, mas a qualidade dos trabalhos crescerá bastante.

Uma característica do verdadeiro artista, é dar graça e encanto aos factos cotidianos, como a obra de William Bouguereau que ilustra este texto. Notem que ele deu vida ao quadro, colocando elementos sutís que uma visão meramente mecânica deixaria passar. A criança fecha os olhos para a visão não ofuscar os outros sentidos, a moça tem um sorriso sereno e terno. Não é algo que um computador conseguiria produzir, só reproduzir. Computadores não sonham.

Quem se habitua a se deixar sonhar, consegue expressar muito melhor e com mais clareza o que sente. Algo muito importante para pessoas com travas de infância, como eu. Se essas pessoas não tivessem essa abertura, teriam perecido muito cedo, pois a força criativa acabaria por sufocá-las, em vez de sustentá-las. É como um medicamento, uma ministração equivocada pode matar em vez de curar. Sonhar não é supérfulo, ainda que em vigília. Há quem confunda sonho com ilusão, geralmente fazendo o mesmo com a fé. Falta-lhes estudar a fundo o que estão dizendo. Ilusão é a impressão de haver algo que não existe de verdade. O que faz um sonho é mostrar do modo mais acessível possível, aquilo que a pessoa não consegue ver conscientemente. Já a fé, ao contrário da contemplação passiva que muitos pensam que ela é, se trata da confiança de atingir o almejado. Até o mais egoísta e arrogante executivo tem fé no que faz, ou não vislumbraria resultados que justificassem seu trabalho.

Aqui vale novamente lembrar que procurem questionar os eventos, quando estiverem sonhando. É a diferença de sonho (ou fé) cego e sonho consciente. O cego tateia e não faz a mínima idéia do que existe ao seu redor, o consciente usa todos os sentidos para explorar o ambiente onírico, com isso sabe o que sonhou e porque sonhou. Resultando em uma obra mais elaborada, quase sempre contando com elementos simbólicos que intrigam quem vê e enriquecem o trabalho. Basta ver a Monalisa, que até hoje gera polêmina, e todos os dias aparece alguém dizendo que decifrou seu segredo definitivamente. Sim, Da Vinci dormia pouco e salpicadamente, mas ele delirava legal, bicho! Meu, o cara sacou o helicópdero, mó viagem! Gênios não precisam dormir para sonhar.

Um pequeno adendo. Fico a imaginar se Audrey Beathan, a famosa Mica Mancada, não se permitisse ter suas onirisséias. Sempre insisto para que ela escreva uma auto biographia, é certeza de que seria topo de vendas por muito tempo. O que ela pinta? Pinta o sete e borda o oito. É uma pessoa que não pode ser deste mundo, ela não foi parida, a mãe sonhou com ela e a materializou.

Muitos artistas de grande talento são sinestetas. Eu não acredito quando dizem que se trata de um fenômeno meramente neurológico, pois ver losangos de seda vermelha enquanto se está ao volante causaria muitos acidentes, se os olhos e o tato fossem os mesmos usados para eventos reais, e o cérebro é muito facilmente enganado por ilusões. Na sinestesia não há ilusões, as sensações existem mesmo. Há mais cousas nesse baú do que o manto colorido que o cobre. Acredito que só nos sonhos os sinestetas conseguem usufruir de todo o potencial de adição de sentidos de que dispõe. A visão que citei não substitui o que os olhos enxergam, é uma visão à parte, como que um terceiro olho aberto, uma segunda pele tateando, uma terceira narina independente, et cétera. Aliás, se algum sinesteta estiver lendo isto, favor comentar e dizer o que lhe parece. A vida deles, apesar de dificultada pelo excesso de informações, é bem mais rica. Não há quadro nem tinta que consiga reproduzir o que eles percebem, mais ou menos como acontece no quadro "Campo de Girassóis" de Van Gogh. Encontraram milhares de tons de amarelo naquelas flores pintadas, tudo tão bem distribuído e organizado, que não pode ter sido acidental. Van Gogh tentou a todo custo reproduzir os matizes que viu quando seu corpo dormia, obviamente em vão. Se ele era sinesteta, não se pode ter certeza, o termo é muito recente e os estudos (que não tentam "curar" a sinestesia com drogas) mais ainda.
Sonho, acompanhado da ação, não é bobagem. Não deixem substituir os teus por drogas ilegais ou de laboratórios famosos. O preço que a vida vai cobrar depois é muito mais alto do que imaginas. Agora sugiro que dê uma busca pela rede, que procure os Norman Rockwell da vida e aprecie com calma as obras, vale à pena. Depois os sonhos saberão recompensar.

6 comentários:

New disse...

Olá!
Obrigada pelo carinho. Ser mulher tem hora que é um chute, mas enfim... rsrsrs...
Escrevei algo sobre sinestesia no blog. Aliás, eu sou sinesteta. Se quiser dê uma olhadela.

http://esturdio.blogspot.com/2007/11/sinestesia.html

Beijos.

New disse...

Olá!
como vai de segundona?
Tem um mimo prá vc em meu blog. Se quiser vá lá e tome posse dele.
Beijos.

New disse...

Olá!
como vai de segundona?
Tem um mimo prá vc em meu blog. Se quiser vá lá e tome posse dele.
Beijos.

New disse...

Olá!
como vai de segundona?
Tem um mimo prá vc em meu blog. Se quiser vá lá e tome posse dele.
Beijos.

New disse...

Olá!
como vai de segundona?
Tem um mimo prá vc em meu blog. Se quiser vá lá e tome posse dele.
Beijos.

evipensieri disse...

Nossa que pintura bonita !!!

Você sabe de quem é ?

Gostei muito do seu blog.

Bjs.
Elvira